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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Sobre o debate “Teoria marxista da história” no 7º Colóquio Marx Engels: Quando a história se impõe

por Simone Ishibashi







O debate intitulado “Teoria marxista da história” ocorreu durante o último Colóquio Marx Engels, realizado na Unicamp em julho. O tema da mesa, amplo e um tanto abstrato, não permitia adivinhar que caminhos a discussão tomaria. Mas foi uma ocasião em que a realidade marcada pela crise capitalista internacional forçou a entrada em cena, sendo a crise o principal tema da mesa. O que para um evento em que reinam os althusserianos de todas as cores e matizes, pode ser encarado como um “sacrilégio”, a despeito da reivindicação da estratégia maoísta que alguns destes expoentes insistiram em fazer. Entretanto, para os que habitam o mundo dos vivos é um sopro de ar fresco ver algum fio de contato entre a teoria e os temas políticos, elemento fundamental da síntese historicamente expressada pelo marxismo, que é rompida sistematicamente e elevada ao status de princípio pela academia.

A abertura das discussões esteve a cargo de Eleutério Prado, professor da USP, a quem coube uma fala que mesclou questões interessantes com uma perspectiva marcada pelo ceticismo em relação à possibilidade de uma resposta progressista por parte da classe trabalhadora e da esquerda. Porém, dentre os aspectos mais relevantes contidos em sua exposição, figurou a observação da importância da ruptura na década de 1970 do padrão de Bretton Woods, que indexava o dólar ao ouro, como um mecanismo de exportação de crises utilizado pelo imperialismo norte-americano. Neste sentido, relacionou a sua crise atual com a saída buscada pela burguesia norte-americana naquele momento, assinalando que hoje os Estados Unidos não contam mais com as mesmas margens de manobras para instituir tais mecanismos. Ou pelo menos, não na mesma proporção, e sem ter que arcar com uma série de contradições crescentes junto às demais potências, sendo muito mais dificultosa uma saída que envolve quebrar seus competidores, tal como se estabeleceu com as intervenções na cotação do dólar durante a década de 1980 contra o Japão e a Alemanha. Entretanto, como já demarcamos acima, o elemento menos original de sua exposição residiu sem dúvida na postura cética em relação à possibilidade do surgimento de novos fenômenos da luta de classes, e acima de tudo à forma de organização dos setores que hoje mais sofrem as conseqüências da crise capitalista em partidos e organizações políticas capazes de forjar uma saída. Cabe questionar então: mediante tamanhas contradições postas, qual o papel da intelectualidade, da juventude e dos que hoje são os principais prejudicados pela crise capitalista? A questão permaneceu sem resposta, e nem sequer foi tomada como pertinente. Uma posição relativamente extravagante para alguém cuja exposição fora marcada pela preocupação acerca da validade de O Capital em nossos dias.

O próximo a tomar a palavra, seria a “atração internacional” da mesa, foi Fabio Frosini, da Universidade de Urbino, na Itália. Veio para falar da “teoria marxista da História”. Sua intervenção que durou quase uma hora inteira segue sendo uma verdadeira incógnita de sentido. De um intelectual italiano, proveniente de um dos bastiões da crise econômica, política e social que assola a Itália em nossos dias, tomando como referencial teórico Gramsci poderia fazer uma exposição de grande interesse. Não foi o que aconteceu. Em lugar disso o que tivemos foi uma intervenção que de maneira extremamente enfadonha, em que Fabio Frosini discorria sobre pensamentos vagos, dentre os quais figuravam as observações de que “para Gramsci a filosofia não se dissocia da práxis”, ou de que “a noção de história para Gramsci não é linear”. Como resultado, a “atração internacional” da mesa terminou deslocalizado em relação ao conjunto do debate.

A dinâmica das crises capitalistas

A última intervenção da noite foi feita pelo professor da USP, Jorge Grespan, que resgatou a discussão acerca de se haveria em O Capital uma noção clara acerca da inevitabilidade da crise capitalista, como via que possibilita a recomposição das vias necessárias para a reconstituição da extração de mais-valia e a realização de capital. E em outro plano se existiria ou não para Marx o que mais tarde o economista polonês Henryk Grossman definiu como “teoria do colapso”, ou seja, em linhas gerais a noção de que por suas próprias contradições o capitalismo tende a colapsar. Neste marco, o primeiro questionamento partiu de que, se assumimos que a crise capitalista seria uma necessidade, porquanto inevitável, por que então esta não se manifestaria a todo momento? Esta interrogante levou Jorge Grespan a expor as vias através das quais opera a dialética entre necessidade e possibilidade de irrupção das crises capitalistas para que a lei do valor pudesse voltar a operar. A crise capitalista existe sempre como potencial, que por vezes eclode, e por outras não. Em sendo assim, restaria o questionamento para se estabelecer quais as leis que determinariam sua explosão, como operam, e em que sentido pode evoluir.  E a dialética existente entre uma determinada crise particular, e como suas saídas afetam a saúde geral do capitalismo. Aqui o expositor fez uma delimitação com o conceito de “crise estrutural do capital”, muito em voga junto aos herdeiros de Mézsáros, observando que esta categoria pouco ajuda a delimitar os contornos concretos que cada crise assume, ademais de trazer implicitamente imbuída a noção de catástrofe iminente do capitalismo. Ou em outras palavras, a noção de que o capitalismo poderia enfrentar sua crise terminal, e sua conseqüente morte, de maneira relativamente automática. Remetendo-se então à clássica teoria das ondas longas de Kondratiev para colocar todos os limites que esta já provou ter, o expositor lançou a questão de se haveriam ciclos econômicos, segundo quais leis estes operariam, e como se daria a transformação de quantidade em qualidade responsável pela transformação de uma potencial crise em uma crise efetiva.

Aqui cabe uma elucubração. Ora, sabe-se que o debate existente acerca da teoria do colapso e a teoria da crise que Marx legou parcialmente no livro III de O Capital foi um dos grandes divisores de águas da II Internacional. Para descrever brevemente de um lado havia os setores revisionistas, personificados em Bernstein e Kautsky para os quais o advento da época imperialista levaria a uma época marcada pelo pacifismo entre as nações. De outro, os de sensibilidade mais catastrofista. Um expoente deste setor foi a própria Rosa Luxemburgo, para quem a expansão incontrolável do capitalismo pelo mundo entraria em colapso quando este atingisse sua plenitude de dominação sobre todo o globo, já que o capitalismo necessariamente dependeria de territórios não explorados que garantissem sua expansão. Coube à Lênin a mais dialética das posições sobre o tema. Combatendo os malefícios derivados das posições reformistas da social-democracia alemã (tal como a própria Rosa o fizera contundentemente, e ainda antes dele), Lênin atesta o caráter inerente das crises no capitalismo. Porém, vaticina que se não há um sujeito revolucionário que possa desferir através de sua ação consciente o golpe final, o capitalismo sempre se recompõe, ainda que com bases mais débeis. Esta definição se demonstrou correta ao longo de toda a segunda metade do século XX. Após a crise aberta em 1968 se dá uma saída coordenada que combinou o fim do acordo de Bretton Woods, uma financeirização exacerbada da economia, retirada de direitos da classe trabalhadora em diversos países do mundo, incluindo aí os EUA, e a posterior benesse trazida pela restauração capitalista do Leste europeu e a integração da China à OMC. Mas não envolveu destruição massiva de forças produtivas e de capitais, o que determina em grande parte o caráter histórico da presente crise, e sua natureza que deriva da não resolução efetiva das contradições da crise capitalista anterior.

Leon Trotsky foi quem, dando continuidade à definição de Lênin, melhor soube tratar da relação dialética entre as recuperações parciais, as crises, e o estado de “saúde” do capitalismo em um sentido estratégico. Sem negar o caráter cíclico das crises e recuperações capitalistas, porém sem recair em uma visão mística sobre sua operação, Trotsky demonstra também um domínio da dialética do desenvolvimento capitalista, que se a academia insiste em ignorar, é de extrema vitalidade para apreender o sentido das crises em geral, e da presente em particular. Em seu texto intitulado “A curva do desenvolvimento capitalista”, Trotsky retomando Marx assinala como “o capitalismo não se caracteriza apenas pela periódica recorrência de ciclos: se assim fosse, a história seria uma repetição complexa, e não um desenvolvimento dinâmico. Os ciclos comerciais e industriais são de diferente caráter em diferentes períodos. A principal diferença está determinada pelas inter-relações quantitativas entre o período de crise e o auge de cada ciclo considerado. Se o auge é restaurado com um excedente a destruição ou a austeridade do período precedente, então o desenvolvimento capitalista está em ascenso. Se a crise, que significa destruição, ou em todo caso contração das forças produtivas, ultrapassa em intensidade o auge correspondente então obtemos como resultado a contração da economia. Finalmente, se a crise e o auge se aproximam entre si em magnitude, obtemos um equilíbrio temporário. Este é o esquema fundamental. Épocas inteiras de desenvolvimento capitalista existem quando um certo número de ciclos estão caracterizados por auges agudamente delineados e crises débeis de curta duração. (...) E há os momentos em que durante certos períodos históricos a curva básica, ainda que passando como sempre através de oscilações cíclicas se inclina para baixo de conjunto, assinalando o declínio das forças produtivas”.

A partir desta observação, Trotsky analisará a conexão existente entre os fatores econômicos e políticos para definir a magnitude e saída buscada para as crises capitalistas. Cada vez mais as crises econômicas são impossíveis de serem entendidas e tratadas por fora da política. Esta é uma observação que de início parece ser deveras simples, simplória até. A crise capitalista atual, que já se transformou em uma crise social e política, ameaçando a “unidade” européia é a maior prova disso. Porém, com exceção da última fala realizada por Jorge Grespan, - em que este acerta por um lado ao assinalar a necessidade da recomposição dos sindicatos para fazer frente à crise capitalista, e erra de outro quando defende a “unidade da esquerda” por fora de um acerto de contas estratégico entre as forças que a compõem -, passou quilômetros luz das intervenções da mesa de debates em questão. Mas o alento é que cada vez se torna mais difícil para a intelectualidade marxista enclausurada na academia tratar da “História” sem ter que se remeter àquela que se desenvolve e acelera em meio a nossos dias.


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