Blabla

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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Como os nazistas poderiam ter sido parados? Lançamento da brochura "E agora?" de Léon Trotsky sobre a Alemanha dos '30 e a luta dos bolcheviques-leninistas da Oposição de Esquerda contra o ascenso de Hitler





por Wladek Flakin, membro da Organização Internacionalista Revolucionária-RIO, seção simpatizante da FT-QI na Alemanha; fim de Janeiro de 2013. Tradução: Marie Castañeda.

Esse folheto foi traduzido para o alemão por J. Frankel e foi publicado pela Oposição de Esquerda da KPD. Esta versão foi baseada na transcrição de Einde O'Callaghan para marxists.org do ano de 2008. Fizemos numerosas correções e atualizamos a ortografia, além de termos ampliado as notas de rodapé.




Wie hätten die Nazis gestoppt werden können?






// Prefácio para a nova edição de “O que segue? Questões sobre o destino do proletariado alemão” de Leon Trotsky //
Há 80 anos, em janeiro de 1933, Hitler era nomeado chanceler. Nas semanas e meses seguintes as organizações formadas por milhares de operários alemães foram destruídas pelos nazistas. Essa catástrofe aconteceu sem que um só tiro disparasse. Como isso poderia acontecer, que o proletariado alemão simplesmente fosse de encontro com as facas?
As alegações da burguesia alemã, cujos livros de história apontam que toda a população se encontrava entusiasmada com Hitler, não conseguem esconder que a elite apoiava a NSDAP financeiramente, enquanto milhões de trabalhadores se encontravam dispostos a lutar contra o Ascenso dos Nazistas.
Por que não aconteceu um enfrentamento decisivo? As maiores organizações de trabalhadores na Alemanha, a SPD e a KPD, rejeitaram qualquer tipo de trabalho conjunto contra o perigo fascista. O revolucionário russo Leon Trotsky, exilado na ilha turca de Prinkipo por sua luta contra a burocracia stalinista da União Soviética, ao contrário colocava em numerosos artigos e folhetos a necessidade de uma frente única dos trabalhadores contra o Fascismo[1]. Ele se referia à política de frente única que a internacional comunista desenvolveu antes de sua burocratização stalinista, como lição dos processos revolucionários após a I Guerra Mundial, principalmente da Revolução de Outubro na Rússia. 
No contexto da crise econômica de 1929, o capital alemão não conseguia mais conviver com a existência de organizações de trabalhadores fortes, até mesmo sindicatos reformistas não podiam mais ser tolerados, dada a crise na exploração. O setor da população jogado na miséria, principalmente pequeno-burgueses, procuravam por soluções radicais. A tarefa história do fascismo consistia em fazer com que esses grupos combativos se colocassem contra as movimentações operárias. Perante esse perigo, todas as organizações operárias teriam de permanecer unidas. Desde que a SPD concordou com a I Guerra Mundial no dia 4 de agosto de 1914 por meio de sua direção, ela se tornou uma agência da burguesia. Na República de Weimar ela geria uma frande parte do estado burguês cumprindo os desejos dos capitalistas e perante a crise ela apoiou o governo de Brüning com seus decretos de emergência que atacavam o proletariado. A direção da KPD estava por sua vez completamente subordinada à burocracia da União Soviética, ela seguia as ordens de Moscou, e naquela época se dizia que a socialdemocracia em realidade ela o “socialfascismo”. A crise econômica levou a uma radicalização de amplas camadas. Principalmente a pequena burguesia foi atraída pelos nazistas, enquanto os trabalhadores, mesmo que em menor medida, iam à KPD, levando em conta sua política stalinista. Trotsky argumentava que um Partido Revolucionário dos Trabalhadores poderia ganhar até mesmo a pequena burguesia, desde que mostrassem uma saída revolucionária clara para a crise. A direção da KPD, porém, se negava a construir uma frente única proletária e tornava impossível ganhar as massas de trabalhadores para uma perspectiva revolucionária e levar outras camadas consigo.


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Trotsky sugeria aos trabalhadores comunistas em poucas frases a seguinte política para lidar com seus companheiros socialdemocratas: “A política dos nossos partidos é irreconciliável; mas se os fascistas viessem essa noite, para destruir os cômodos da sua organização, eu viria com armas em punho para ajudar. Você promete ajudar da mesma forma, caso esse perigo ameace a minha organização?” [2]
Mas a questão da frente única não era para Trotsky somente uma questão defensiva. Era uma “defesa ativa com perspectiva de transição para ofensiva”.[3] A estrutura da frente única não se limitaria ao combate aos nazistas, trataria também de todos os possível problemas da classe operária. A frente única teria de ser acompanhada de construção de órgãos para a auto-organização dos trabalhadores, que prepararia o operariado internamente para uma ofensiva, que poderia ser empregada contra a patronal da burguesia. Ou como explicitava Trotsky: Façam uma verdadeira frente única das grandes organizações proletárias “e vocês terão o soviet berlinense dos deputados operários!“[4] A frente única deve se formar portanto pena necessidade de uma defensiva antifascista, e levar essa luta defensiva então a uma ofensiva revolucionária.
A tática de frente única sugerida por Trotsky não foi livremente inventada, como já mencionado,ela foi generalizada na terceira e na quarta Internacionais Comunistas. A frente única é então não só uma política de aliança, ela contém também uma luta política dos partidos socialistas contra suas próprias alianças, tratando de ganhar as bases para sua política de revolução socialista.
Muita confusão ainda acontece nesse assunto até hoje pelo slogan usado pela KPD “Frente vermelha” ou “Frente da base”, que foi uma aliança construída com a direção da SPD como “alternativa revolucionária”. Analisando a derrota brutal das tentativas de revolução de 1919 até 1923 pela SPD e também o Maio de Sangre de Berlin em 1929, o posicionamento da direção da SPD é entendido. Revoluções, porém, não são feitas por poucos comunistas que perceberam quão reacionária é a SPD. Revolução são feitas pelas massas proletárias e dessa muitos ainda tinham confiança da direção socialdemocrata. Política revolucionária teria o papel de esclarecer como sob a direção da SPD a ameaça de sua queda era constante. Essa mudança de consciência não poderia ser alcançada com a denúncia insistente pela KPD, que carrega também responsabilidade pela grande derrota, sobre o caráter reacionário da SPD. No lugar disso, a SPD teria de ser testada em ação política.
A frente única da KPD e SPD - sob condições levadas a cabo publicamente perante as massas - teria impelido a liderança da SPD à luta mediante a depreciação de sua imagem. Nesse sentido tentou frear a mobilização em cada passo decisivo, perdendo credibilidade abertamente, assim a KPD se forjava como consequente defensora dos interesses do proletariado, para assim ganhar as massas para a revolução socialista. Ao invés de travar essa luta com a SPD, a KPD mantinha o lema da “Frente Vermelha” assumindo que as massas romperiam por si só com a socialdemocracia e se aliassem ao Partido Comunista.
No reino alemão existiam também cidades pequenas, nas quais a Oposição de Esquerda da KPD (a organização trotskista, que trabalhava como organização externa da KPD) tinha condições, devido a seu tamanho relativo, de forjar uma verdadeira frente única de todas as organizações de trabalhadores locais. Em Bruchsal (Estado federal de Baden-Württemberg), em Klingenthal (Estado Federal de Sachsen) e também em Oranienburg (Estado Federal de Berlin) a SPD, KPD, LO e trabalhadores indepentes puderam desde diversas comissões minimizar o avanço dos nazistas com sucesso.[5] O exemplo porém parou nesses poucos casos. Até depois do dia 30 de janeiro de 1933 o posicionamento dos dois partidos conformados por trabalhadores, SPD e KPD, continuou sem se mobilizar nacionalmente para combater os nazistas. Que Assim como a banda austríaca “Die Schmetterlinge” (As borboletas) uma vez cantou, essa política se manteve “até que os socialdemocratas e os comunistas finalmente se viram unidos – no campo de concentração”[6]


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Wie hätten die Nazis gestoppt werden können?

Essa derrota sem que tivesse acontecido uma luta ainda é difícil de entender. A historiografia stalinista, cuja função era legitimar a política da KPD e dos Komitern sob a direção de Stalin e resgatar seu caráter isento de erros, provocava e ainda provoca muita confusão. Assim lemos nos textos stalinistas que a KPD, mesmo com sua “Tese socialfascista”, teria lutado pela frente única. Em alguns textos dos movimentos anti-fascistas atuais também encontramos que a organização de frente única chamada pela KPD “Ação anti-fascista” de fato era a frente única do movimento operário alemão.
Dado que as movimentações anti-fascistas hoje para muitos adolescentes, que querem travar luta contra os nazistas, são o primeiro ponto de referência, precisamos traçar a imagem histórica desses movimentos (mesmo sendo claro que o movimento anti-fascista é composto de diversas correntes e posicionamentos).
A esquerda anti-fascista internacional de Göttingen escreve: “A KPD queria formar uma frente única de todos os anti-fascistas de trabalhadores da KPD, SPD, trabalhados organizados cristãos, sindicalizados e não sindicalizados, oficiais, agricultores, artesões e intelectuais.”[7] Eles não tentam explicar porque o chamado da KPD se limitava aos que aceitavam lutar sob a sua direção, e porque a direção da SPD se recusava a uma luta conjunta desde o princípio.
O ativista anti-fascista e historiador Bern Langer descreve exatamente o contrário em um panfleto para os 80 anos da fundação da Ação Antifascista. Para a “política de frente única, como decidido nos 3º e 4º Congressos dos Komitern, estaria definida a procura de alianças com as bases de outros partidos de trabalhadores, sem fazer coalizões com os mesmos. A frente única portando não significava um trabalho coletivo de organizações, senão a dominação do movimento operário pelos comunistas [8]. Assim Langer confunde a política de frente única com a “Frente única de base” ou “Frente Vermelha”, pelas quais os partidos stalinistas desenvolviam alianças de si mesmo com seus maiores simpatizantes, para desviar a pressão de construir uma verdadeira frente única. Para isso, são escondidos vários exemplos, como quando nos anos 20, a KPD construía frentes únicas sob inclusão ofensiva da SPD, até mesmo com a sua direção.
Nos dois textos históricos da cena antifascista não existem explicações para a derrota do movimento operário alemão. Essa lacuna é uma possível explicação para o profundo pessimismo histórico que o movimento antifascista carrega. A classe operária melhor organizada daquela época não pode parar o fascismo, esse pessimismo pode ter sido a semente que deu espaço para movimentos “anti-alemães” com teorias de que o fascismo poderia ter sido consequência de características específicas dos alemães.
A ausência de lições tiradas pelo movimento antifascista é clara quando analisamos sua prática política atualmente. Contra a maior demonstração nazista na Europa, que se reunia ano a ano no mês de fevereiro e em Dresden, aconteciam durante todo o ano pequenos e isolados atos antifascistas, que se colocavam contra os nazistas e a burguesia. Mesmo não tendo levado esse nome, essa adaptação se encaixaria bem na “Teoria socialfascista” dos stalinistas.
A partir de 2010 foram organizados bloqueios, impulsionados por distintas forças do movimento antifascista. Esses atraiam diversas camadas (integrantes da SPD, Partido da Esquerda e sindicatos). Essas alianças conseguiam construir verdadeiros bloqueios, a esquerda radical porém não fez uso dessa oportunidade para colocar em crise seus aliados socialdemocratas e ganhar as suas bases. (Mesmo com a socialdemocracia deixando o terreno preparado para que os nazistas crescessem, com o Hartz IV, a Guerra no Afeganistão e o “Compromisso de Asilo”). Por isso, mesmo com importantes vitórias táticas, não podemos falar de um avanço estratégico, ou crescimento das forças revolucionárias na Alemanha.
O trotskismo trata com pouca clareza essa questão. Floriam Wilde, que compõe o Partido de Esquerda, vê positivamente todos os “grupos socialistas” na República de Weimar, ou seja a SAP, a KPO e até os trotskistas, sem diferenciar as correntes com as suas diferentes políticas Ed frente única e estratégias.[9] Marcel Bois, militante do grupo „Marx21” e do Partido de Esquerda explica a política de frente única como uma política puramente defensiva, desligada de uma estratégia para a revolução socialista.[10] Com essa perspectiva os dois negligenciam a explicação dada por Trotsky nos folhetos, onde explicava que os grupos centristas, que concebiam a política de frente única como um fim em si mesmo, não davam uma resposta revolucionária à crise capitalista e consequentemente não podiam desenvolver uma política para a vitória contra Hitler. Porque só a revolução socialista (não a “resposta positive” à crise, desenvolvida por Wilde, seja lá o que ela for) pode realmente liquidar o perigo fascista. Esta indefinição história combina com o posicionamento de “União das Esquerdas” dos dois historiadores, que querem empregá-lo no modelo de Partido de Esquerda reformista, sem defender uma clara estratégia revolucionária.
Para os maoistas da MLPD a análise é muito mais devastadora. Mesmo com seu posicionamento positivo em relação à Stalin e à KPD, eles assumem que a “Tese socialfascista” funcionou como um “erro trágico”. Porém, justificam o erro com o indicativo de que “naquela época ninguém poderia imaginar a real extensão do terror fascista.”[11] Eles não tratam, nem analisam a política de Trotsky, que não só denunciou o erro no momento certo (e não décadas depois) como também desenvolvia uma alternativa. A MLPD continua presa às calúnias imprudentes desenvolvidas pela burocracia stalinista contra Trotsky, usadas para justificar seu assassinato e o assassinatos de milhares comunistas, mesmo depois da abertura dos arquivos soviéticos, que não trazem nenhum indício. A sua consigna central atual contra o perigo fascista, “Pela proibição de todas as organizações fascistas!”, não significa um avanço. Porque em vez de propagandear uma frente única de trabalhadores, eles impulsionam uma “frente única” com o Estado Burguês, chamado para defender os trabalhadores. Dessa ilusão reformista na democracia burguesa, que era presente também na SPD do começo dos anos 30, Trotsky também trata no folheto.
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As lições tiradas da derrota do proletariado são ainda mais importantes atualmente. A crise do euro, que encontra seu elo débil e se apresenta de forma mais acentuada na Grécia, conflui em uma polarização política. Os fascistas organizados na “Aurora Dourada”, que há pouco tempo ainda era composta por poucos, receberam centenas de milhares de votos. O Syriza, pequeno partido reformista de esquerda, cresceu da noite para o dia como referência política para milhões.
A direção do SYRIZA porém luta por fazer parte do Estado Burguês e acredita poder resolver a crise por dentro do sistema capitalista e por meio de negociações com a União Europeia. Assim, espalha ilusões reformistas que só podem levar a derrota e desapontamento das massas. Justamente uma esquerda que se segura firmemente no sistema capitalista, deixa que os fascistas se diferenciem como supostos "opositores do sistema”.
A tarefa necessária na Grécia não consiste portanto em uma “Unidade das Esquerdas” em um partido reformista, como reivindicam alguns grupos que se intitulam revolucionários. O trabalho da esquerda tampouco pode se resumir a confrontos com militantes fascistas, dos quais somente a juventude autonomista participa.
Não, a tarefa principal consiste na luta por uma verdadeira frente única: as massas de trabalhadores tem de se envolver por si só em uma autodefesa anti-fascista. As estruturas necessárias para isso, podem e tem de (similar à situação da qual Trotsky trata no folheto) se desenvolver a organismos de auto organização e de luta contra os cortes de austeridade da burguesia grega e europeia. Para isso se faz necessário que se construa um Partido Revolucionário consequente, constituído pelo operariado e pela juventude grega, que lute por meio da frente única por uma ampla unidade da classe trabalhadora contra o perigo fascista e contra as direções reformistas dos Partidos Amplos, para a construção de uma perspectiva revolucionária, para um estado operário como passo em direção à ditadura do proletariado.
Da derrota sem luta sofrida pelo movimento operário melhor organizado no mundo em 1933, e desde a recusa dos Comintern stalinistas de tirar qualquer tipo de lição do processo, Trotsky e seus seguidores concluíram a necessidade da luta por uma nova Quarta Internacional. A reconstrução da Quarta Internacional se mostra necessária hoje, para derrotar o fascismo e dar uma resposta à crise internacional pelos trabalhadores e pela juventude.
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O presente texto „Was nun? Schicksalsfragen des deutschen Proletariats“ é parte dos escritos de Leon Trotsky sobre a situação na Alemanha antes e depois do Ascenso fascista. Trotsky escreveu estas cartas em janeiro de 1932 na ilha turca Prinkipo, na qual ele viveu exilado por conta de sua oposição ao regime de Stalin de 1929 a 1933.
O marxista britânico Perry Anderson escrevia sobre os escritos de Trotsky que tratavam da Alemanha, dizendo que “sua qualidade como análise concreta de uma situação política na história do materialismo” era única. Trotsky conseguia desenvolver sua análise mesmo estando afastado da luta diária do operariado alemão: “Ao caráter internacionalista de suas intervenções, que deu à classe operária alemã uma arma contra a ameaça de perigo mortal, Trotsky se manteve até o fim da sua vida”[12] É ainda mais espantoso que esses escritos só tenham sido publicados em alemão em 1971, em forma de livro. [13]
Ainda hoje os escritos de Trotsky são bastante desconhecidos na Alemanha. Com a publicação de escritos escolhidos no Arquivo-Trotsky queremos dar uma contribuição para que as conclusões políticas que Trotsky desenvolveu na luta contra o fascismo e por uma revolução socialista que atingem uma escala global, sejam conhecidas por um público amplo, dado que hoje, frente à maior crise capitalista à nível mundial desde os anos 80, são mais relevantes do que nunca na história.

Notas de rodapé
[1]. Até a metade de 1932 foram vendidos por volta de 67000 exemplares do folheto. Seus artigos eram majoritariamente publicados no Jornal Revolução Permanente, que era publicado pela Oposição de Esquerda da KPD, com 5000 exemplares por semana. Fonte: Anton Grylewicz: Die Entwicklung der deutschen Opposition. In: Annegret Schüle: Trotzkismus in Deutschland bis 1933. „Für die Arbeitereinheitsfront zur Abwehr des Faschismus“. Köln 1989.
[2]. Leo Trotzki: Die Wendung der Komintern und die Lage in Deutschland.
[3]. Leo Trotzki: Die Tragödie des deutschen Proletariats. In: Ebd.: Porträt des Nationalsozialismus. Essen 1999. S. 292.
[4]. Diese Broschüre, Kapitel 13.
[5]. Vgl.: Marcel Bois: Die „(Vereinigte) Linke Opposition“ 1930 – 1933. Unveröffentlichte Magisterarbeit an der Universität Hamburg. 2003. S. 96-102.
[6]. Die Schmetterlinge: Hitler Blues.
[8]. Bernd Langer: 80 Jahre Antifaschistische Aktion. Göttingen 2012. S. 7.
[9]. Veröffentlicht in der Broschüre Block fascism! S. 16-26. Auch auf Englisch in International Socialism Nr. 137.
[10]. Marcel Bois und Florian Wilde: Durch gute Arbeit überzeugen. In: Marx21. Nr. 3. Berlin 2007.
[12]. Perry Anderson: Über den westlichen Marxismus. Frankfurt am Main 1978. S. 141-42.
[13]. Leo Trotzki: Schriften über Deutschland. Herausgegeben von Helmut Dahmer. Frankfurt am Main 1971.





domingo, 17 de fevereiro de 2013

Quantos jovens mais?





Iaci Maria


Quantos mais? Quantos mais jovens perderemos para a miséria da vida, para a opressão? Quantas mais vidas, valiosas vidas, serão desperdiçadas, por falta de alternativa, por falta de perspectiva? Por só conseguir enxergar no horizonte uma saída: dar fim a tudo aquilo que angustia. Até quando viveremos sem questionar em um sistema onde dar fim a própria vida é considerado uma alternativa, por falta de alternativas! Até quando veremos jovens decidirem que é melhor não viver, do que viver nesse mundo?

Não conheci Marcio tanto quanto gostaria de ter conhecido, nossa aproximação se deu no final de 2012. Mas conheci um cara muito inteligente, que sabia muito de muitas coisas, e sempre tinha algo pra falar, sempre tinha uma opinião para dar, sobre o que quer que fosse. E sempre valia a pena parar para ouvir, nem que fosse para iniciar uma longa discussão! E sempre iniciava. "Mas chega de falar de política, vamos falar de coisa boa! Você viu a novela ontem?", ele dizia, antes de conseguir fazer uma análise política da novela, e isso ser o começo de uma nova discussão política.

Marcio foi mais um. Mais um jovem de esquerda, mais um jovem marxista. Que lutou, foi perseguido, seguiu lutando, seguiu sendo perseguido. Acreditou em outro futuro, acreditou, em algum momento ao menos, em um mundo sem violência, sem miséria, sem opressão, sem machismo, sem racismo, sem homofobia. E lutou por esse futuro em que acreditou. Mas em dado momento não pôde mais. E tombou. Mais um jovem que tomba em meio a batalha de viver a vida.

O companheiro defenderia uma tese sobre a criminalização dos movimentos sociais. "É a tese sobre a minha vida", ele sempre dizia. Seguiremos defendendo essa luta, seguiremos travando uma batalha não só contra a criminalização dos movimentos sociais, mas contra todas as mazelas sociais. Contra toda a opressão que ele tanto lutou, e por outro mundo, onde tirar a própria vida não será mais alternativa pra jovem nenhum!

"A vida é bela. Que as gerações futuras a limpem de todo o mal, de toda opressão, de toda violência e possam gozá-la plenamente." - Trotsky, 1940.

Companheiro Márcio, presente! Agora e sempre!

Em memória de um amigo distante...




Alessandro de Moura



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A classe trabalhadora perde mais um combatente. Foi em uma assembléia estudantil da Unesp onde o vi pela primeira vez. Não o conhecia, Marcio, com o dedo em riste, em defesa de uma greve estudantil fez uma intervenção furiosa contra a UJS-PCdoB e o governismo. Votamos juntos pela greve. Naquele ano tivemos uma greve que durou três meses. Fiquei curioso em saber mais sobre aquele rapaz, logo me disseram que era do grupo dos marxistas, o que me gerou mais curiosidade. Era meu primeiro ano de faculdade em ciências sociais, já era o terceiro de Márcio no mesmo curso.
Na primeira ocasião em que conversamos mais profundamente fiquei ainda mais impressionado, caracterizando-se como marxista, muito atento ao método dialético, discutia variados temas de forma profundíssima. “Do simples para o complexo, do complexo para o simples”. Numa ocasião debatíamos sobre o capitulo Maquinaria e grande indústria, em determinado momento da conversa, ele disse que achava um absurdo as pessoas gostarem de ir trabalhar de carro, pois com isso começavam a trabalhar mais cedo, pois o carro é uma maquina que precisa ser operada como qualquer outra... “Dirigir até o trabalho é atividade não remunerada”. Curiosa observação, sempre me lembro dela quando preciso dirigir. Estávamos em pleno acordo que o marxismo revolucionário tinha que discutir o cotidiano.
Daí em diante nossos encontros tornaram-se cada vez mais agradáveis. Em um domingo ou outro almoçava na casa onde eu morava com minha companheira, que também era muito amiga de Márcio. Almoços longuíssimos. Começávamos a cozinhar às duas da tarde, depois do almoço um café, a noitinha um lance, mais café, mais política, mais marxismo. Insistia em discutir antropologia por uma via marxista, por essa via discutia as percepções sociais, ha anos debatia fenomenologia, formação das cidades e seu caráter de classe, os mapas da violência, a violência contra as mulheres, pobreza e desigualdade. De vez enquanto ele reclamava, “chega de falar de política”, só que não... seguíamos conversando até a madrugada. Marxismo e política nacional, a prática política dos partidos. Lênin e a revolução russa, suas conquistas, as degenerações stalinistas, as posições políticas dos professores stalinistas do campus, e a nossa... Por luta política contra a reitoria, contra a direção da faculdade e sua congregação fomos perseguidos. Sofremos processo de sindicância na UNESP, primeiro Marcio, depois eu. Mas isso não nos impediu que continuarmos nos organizando, não nos impediu de buscarmos organizar pessoas para a luta e enfrentamento. 
Em outra ocasião eu, em conjunto com outros estudantes, organizava um ônibus para um congresso de sociologia em Recife. A longuíssima viagem de ônibus teria sido muito menos prazerosa se não fosse sua presença. No primeiro dia convenceu-me a conhecer algumas regiões da cidade. Durante cinco dias conversamos e passeamos por Pernambuco. Depois que entrou no doutorado na Unicamp acabamos por nos afastar. Nos encontramos novamente na greve da USP em 2009. Claudionor Brandão havia sido demitido e preso por lutar pelos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras terceirizados, estávamos em combate pela readmissão de Brandão, contra a Reitoria da USP e as políticas do governo Federal e Estadual, contra as perseguições aos estudantes. De repente encontro Márcio, super sorridente... Conversamos... Tinha um show do Tom Zé no velódromo... Durante a apresentação, Marcio tentava convencer-me a me transferir para a Unicamp... Eu resisti. Após a interrupção da apresentação nos despedimos, “Vamos marcar alguma coisa”, “eu te ligo”’... E os anos passaram... Depois disso um rápido encontro em um congresso sobre a classe trabalhadora em Marília, com agenda apertada nos falamos brevemente... Em 2012 fiquei sabendo que fora punido pela Reitoria da Unicamp por ter lutado por políticas de permanência estudantil em favor dos estudantes o documento com sua sentença dizia “Em relação ao discente Marcio Ricardo de Carvalho – RA 080272, em face de sua citação regular e revelia, também aplico a penalidade de 06 (seis) meses de suspensão de suas atividades letivas. Perseguido novamente por lutar, desta vez por determinação da Reitoria da Unicamp, Marcio perdeu sua bolsa de pesquisa.
No final de 2012 estive em uma atividade na Unicamp, uma amiga que ainda estuda nessa universidade, e milita na mesma organização que eu, disse que havia conhecido Márcio, descobrimos mais uma amizade em comum. Ela me disse que Márcio perguntava por mim. Queria saber o que me levou a militar no trotskismo... Disse que convergíamos em muitas questões políticas e teóricas. Queria me fazer perguntas sobre minha militância e minhas “novas concepções”. Se eu optei pelo trotskismo, porque ele também não poderia? Certamente essas perguntar tornar-se-iam palco um debate longuíssimo como era de nosso costume e aprenderíamos ainda mais um com o outro, pois o marxismo é uma ferramenta para entender e mudar a vida! 
Márcio, bem ante que eu, era um fervoroso combatente anti-stalinista, por essa via contribui muito para que eu pudesse compreender a tradição stalinista no Brasil, criticava enfaticamente como o PCB atuou ao longo de sua trajetória no Brasil, como esse partido rompia com o marxismo, suas traições históricas à possibilidade da revolução brasileira, como encarava as demandas democráticas, como esse partido menosprezava a luta do povo negro, como desacreditava na força da classe trabalhadora. Combatia frontalmente a homofobia, por isso criticava acidamente a forma como esse partido tratava a homoafetividade e as demandas das mulheres. Critico voraz do governismo, não cansava de repetir que o PT governava para a burguesia e o patronato contra a classe trabalhadora. Analisava a esquerda e a direita brasileira, mas não encontrava um partido que atendesse as suas expectativas. Precisava de um partido revolucionário. Apenas com isso poderia colocar-se completamente na luta pela emancipação da classe trabalhadora. Por uma série de processos políticos sociais, esse partido não existe ainda no Brasil e Márcio, jovem combatente político de intelecto brilhante e desafiador não pôde construí-lo e nem mais esperar por ele.
Camarada Márcio, presente!!!



Uma reflexão sobre Obama, Django e Lincoln


Por Letícia Parks, estudante da Letras da USP





Há anos se usou o termo melting pot (ou caldo cultural) para dizer que os EUA eram o país da homogeinedade cultural e da liberdade para se viver qualquer diferença. O momento em que Obama, o exaltado presidente negro, se reelege é talvez o momento onde não é possível esconder que esse caldo nasce azedo e ensaguentado, com profundas desigualdades raciais e sociais expostas no seio do país de maior população carcerária do mundo1 . As últimas eleições presidencias evidenciaram o tamanho da crise política que se desenvolveu durante o primeiro mandato de Obama, com um bipartidarismo polarizado ao nível de uma disputa real entre Republicanos e Democratas como há tempo não se via em uma eleição americana. Dentro do Partido Republicano, o Tea Party insiste em ser a contra mão mais radical do discurso Obamista, exigindo leis brutais de segregação a imigrantes.
O discurso de posse de Obama revelou suas intenções em meio a esse Estado fragilizado pela crise, que vem desde 2008 perdendo sua localização hegemônica no imperialismo mundial: declara com demagogia que seu governo será o dos homossexuais, negros e povo pobre norte americano. Sua política real em nenhum momento foi essa, o que se demonstra pela duríssima repressão aos movimentos sociais que explodiram desde o início da crise, em especial o movimento Occupy Wall Street, onde a repressão policial e os discursos do governo federal mostraram que, contra os 99% atacados pelos planos de resgate, Obama estava ao lado do 1% de industriais e oligarquia financeira, levando milhares de americanos ao desemprego e a condição de sem tetos.
No momento de fissura de seu discurso, onde os que votaram em Obama pela segunda vez apostaram na possibilidade de algo ainda ser possível (ao invés da sensação de salvação da primeira eleição), Spielberg e Tarantino – o primeiro um democrata declarado, o segundo um democrata um pouco mais tímido – escrevem duas narrativas para reviver o melting pot, exaltando a guerra de secessão como a salvação contra um país racista e reacionário que se formaria no sul do país. Aproveitam para escancarar a contradição do Partido Republicano, que passou de anti escravagista para voz conservadora, racista e xenofóbica do país, e tentam reconstruir o sentimento democrático que passou a se tornar a voz demagógica dos democratas após o início do século XX.
Django Livre, dirigido por Tarantino, gerou grandes debates pelo mundo, com setores reivindicando o filme como revolucionário, e outros, como Spike Lee2 , denunciando-o como sensacionalismo da violência escravista e, portanto, racista.
Tarantino escolhe dois negros para não andarem de cabeça baixa: um é Stephen, que dirige a casa grande junto com Calvin Candie; o outro, Django, que apesar de ser contra a escravidão, assume discursos profundamente racistas para conseguir libertar sua esposa, esta um personagem totalmente passivo aos rumos que os homens dão a sua vida. Será que para Tarantino só é possível que um negro seja sujeito por dentro de um sistema opressor se gradualmente passar a se tornar um corrompido? Segundo as palavras de Django para Dr. Schultz: “aprendi com você que para viver nesse mundo é preciso se sujar” (diz isso no momento em que passa a discursar contra escravos de maneira brutalmente racista.
Django aceita a proposta de seu comprador, um caçador de recompensas interpretado por Christoph Waltz, de levar o mesmo modo de vida, e questiona a proposta contente: “me propõe que eu ganhe para matar homens brancos?”. O que Tarantino e seus comentadores exaltados deixam de dizer é que os homens brancos mortos por Django são os perseguidos pelo mesmo Estado que o escravizou, e a pergunta que devemos fazer aos que vêm Django como herói é a seguinte: se este “másculo justiceiro” vivesse nos dias de hoje, quem seriam os perseguidos pelo Estado que ele assassinaria em troca de dinheiro para libertar sua esposa? As fotos e os dados de composição racial das prisões norte americanas não nos deixam mentir, e nos fazem ver claramente que a carroça de Dr Schultz estaria cheia de corpos negros.
Enquanto trotskistas, retomamos a cada discussão sobre a arte o manifesto da FIARI3 , onde Trotsky coloca que a arte deve ser livre, e que exigir que ela apresente um programa operário é retirar sua característica de arte, que representa o sentimento de um período, de uma classe, e que não deve ser proibida ou boicotada pela perspectiva de classe que apresenta. Está, entretanto, em nosso poder, criticar e demonstrar seu caráter de classe, para a partir do debate surgido em torno de cada trabalho artístico, contribuir para a emancipação dos homens. Django e Lincoln vêm à tona para contribuir à tentativa de, pela via do Partido Democrata e suas demagogias, manter a burguesia no poder, afogando o sentimento revolucionário que pode haver em torno de qualquer reivindicação democrática e tornando a figura dos lutadores dessas reivindicações partidários de uma direção também racista e profundos deturpados morais, por vezes racistas para alcançar suas realizações individuais.


1 Os dados sobre o sistema penitenciário de todos os países do globo pode ser visto no site do International Centre for Prison Studies: http://www.prisonstudies.org
2 Conhecido por filmes anti racistas, como “Malcom X” e “Faça a Coisa Certa”
3 O manifesto “Por uma arte revolucionária e independente” foi escrito em 1938 por Trotsky e André Breton e discorre sobre a reação stalinista sobre a URSS e o papel que esta cumpriu para aprisionar a arte. Essa discussão também é central no livro “Literatura e Revolução”, de Trotsky.




domingo, 10 de fevereiro de 2013

A atualidade de Rosa Luxemburgo frente ao sexto ano da crise econômica Internacional

94 Anos do assassinato de Rosa Luxemburgo!

Por Iuri Tonelo e Rita Frau




Há noventa e quatro anos, no mês de janeiro de 1919, morria uma das mais brilhantes dirigentes revolucionárias do proletariado internacional, Rosa Luxemburgo. Nas séries de batalhas dos trabalhadores alemães iniciadas em 1918, a revolucionária polonesa foi capturada pelos Freikorps (organização paramilitar da direita) a mando da direção socialdemocrata alemã (em seu curso reacionário). Rosa, acabara de fundar o partido comunista alemão, forjando as bases para a constituição de uma direção revolucionária a altura da revolução naquele país, se defrontou com o erro da ação de janeiro, onde se convocou uma insurreição em condições subjetivamente desfavoráveis e que não resistiu à contraofensiva traidora, e pagou com a vida pelo erro, optando por estar ao lado dos trabalhadores em combate que ao da socialdemocracia.
Em memória de Rosa Luxemburgo, o dirigente da Revolução Russa Lenin consagrou uma fábula russa que recitou em homenagem a ela que dizia que “as águias podem, às vezes, voar mais baixo do que as galinhas, porém as galinhas não podem jamais subir às alturas das águias”. Assim, completa Lenin, “apesar de todos os seus erros, Rosa Luxemburgo foi e continua sendo uma águia”. E justamente essa força de Rosa, especialmente em todos os seus acertos e “grandes vôos” que ganha atualidade e que devemos retomar num momento em que vamos para o sexto ano de crise econômica histórica.

Adentrando ao sexto ano da crise econômica: a luta contra os aparatos burocráticos

Com o desenvolvimento da crise econômica, que continua com seu epicentro na Europa, passamos da fase dos pacotes de salvamento dos bancos e representantes do capital financeiro, pelas vias dos recursos públicos do Estado, para a fase das dívidas públicas insuportáveis (representando mais de 100% do PIB em muitos países) conjuntamente aos sistemáticos pacotes de austeridade, fazendo os trabalhadores e a juventude arcar com a crise.
Na Europa, a juventude vem se mobilizando (ainda carregando velhos preconceitos da etapa anterior, de forma bastante espontânea e com estratégias autonomistas) e estamos vendo primeiros elementos de ação dos trabalhadores, como no caso das lutas contra aposentadoria na França em 2010 ou mais recentemente os mineiros na Espanha em 2012, mas ainda um movimento embrionário. Parte decisiva do obstáculo estratégico que os trabalhadores terão de enfrentar será a forte burocracia sindical desses países da Europa.
E ai ganha novo significado as lutas travadas por Rosa Luxemburgo no interior da socialdemocracia durante sua vida. Na segunda metade do século XIX, com o curso ascendente capitalista e um momento de relativa prosperidade econômica, os sindicalistas, parlamentares e setores da direção da socialdemocracia alemã começaram a se consolidar como uma verdadeira burocracia no movimento, especialmente no século XX. Se podemos dizer que Rosa se equivocou em apostar de modo relativamente unilateral na força da espontaneidade operária, podemos enxergar o outro lado, ou seja, de que ainda hoje, sem a demolição dos aparatos burocráticos (como na época de Rosa), sem a esquerda internacional retomar o exemplo de Rosa para combater os agentes da burguesia no seio do movimento operário, as frentes amplas contra os planos de austeridade não poderão ser mais que retórica, com a burocracia sindical iludindo os trabalhadores e isolando os setores combativos. Esse combate no caso de Rosa se estendeu e se concretizou em sua forma mais importante na luta política contra a linha chauvinista que fez de Karl Kautsksy dirigente de uma das mais importantes capitulações da história da socialdemocracia, quando votou os créditos de guerra no célebre 4 de agosto de 1914, inicio da Primeira Guerra Mundial.

As formas políticas de resposta à crise: o combate intransigente de Rosa Luxemburgo ao reformismo

Mas não só no combate aos aparatos burocráticos que ganha atualidade o legado da dirigente revolucionária. Especialmente depois de um período de três décadas sem revoluções, de uma forte ofensiva neoliberal contra a classe e uma hegemonia da ideologia do capitalismo triunfante, instaura-se no mundo pós-crise uma série de fenômenos políticos permeados por uma estratégia autonomista ou retomando os velhos erros do reformismo clássico (mesmo em sua faceta de esquerda).
No combate ao revisionismo de Bernstein, Rosa Luxemburgo já colocava implacavelmente que “eis porque quem quer que se pronuncie a favor do método das reformas legais, em vez de e em oposição à conquista do poder político e à revolução social, não escolhe, na realidade, um caminho mais tranquilo, mais calmo e mais lento, levando para a mesma finalidade, e sim uma finalidade diferente, isto é, modificações superficiais na antiga sociedade, em vez da instauração de uma nova” (Reforma ou Revolução?).
Para Bernstein era possível a classe trabalhadora melhorar seu nível de vida estruturalmente por dentro do capitalismo sem fazer uma revolução, defendendo a reforma pacífica e gradual do capitalismo, o que levou a traições históricas à classe trabalhadora. Rosa como uma grande dirigente revolucionária combatia incessantemente esta posição abrindo uma discussão teórica e profunda no seio do Partido Social Democrata Alemão (SPD) e na II Internacional.
Esta batalha de Rosa inspira e traz lições à luta revolucionária, pois a crise capitalista tende a atualizar a época de “crises, guerras e revoluções”, onde a juventude e a classe trabalhadora saem às ruas para protestar contra os planos de austeridade dos governos europeus e vemos surgir variantes reformistas de esquerda que ocupam um espaço eleitoral. Na Grécia, o Syriza, coalizão que capitalizou os votos populares em repúdio aos partidos patronais e também ao PASOK, que negociaram os planos de ajustes, estão alinhados com a frente burguesa imperialista que busca uma saída neokeynesiana perante a crise econômica. Em outros países como França e Inglaterra, também se expressam essas variantes como a Front de Gauche e o Respect. Os ensinamentos de Rosa se fazem atuais na luta de tendência com as correntes, tanto as reformistas citadas como inclusive as que reivindicam o trotskismo (como a UIT, LIT, PO da Argentina em seu apoio ao Syryza), que são pressionadas por este reformismo de esquerda e deixam de lado a definição de classe, centrando sua estratégia nas saídas eleitorais e sem delimitação entre reforma e revolução.

Uma mulher revolucionária e dirigente

Rosa não é conhecida por estudos e elaborações sistemáticas a reflexão da luta contra o machismo (que por suposto são decisivas na construção do socialismo e da emancipação da mulher), mas contribuiu em políticas fundamentais como, por exemplo, na preparação em 1915 com Clara Zetkin de uma conferência internacional de mulheres socialistas junto às mulheres russas, levantando a consigna “Guerra à guerra”, e colocando a luta das mulheres trabalhadoras num marco internacionalista.
No entanto, talvez a maior contribuição de Rosa na luta contra a opressão foi sua vida política (no interior de um movimento internacional com predominância de dirigentes homens) de uma mulher dirigente revolucionária que jamais renunciou às suas convicções e travou as maiores lutas políticas com os principais dirigentes da Segunda Internacional (o que dá bases sem dúvidas para despontar revolucionárias como Clara Zektin que deram contribuições teóricas indispensáveis aos revolucionários nos temas da luta contra a opressão das mulheres).
No dia 13 de janeiro completaram 94 anos do assassinato de Rosa Luxemburgo, e com este texto fazemos nossa homenagem resgatando algumas das mais importantes batalhas travadas por ela que são inspiração a todos os revolucionários e as revolucionárias para os desafios atuais na perspectiva da revolução socialista internacional.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Tragédia em Santa Maria:

Cianeto, monóxido de carbono e massacre do corpo e da alma: é o que este sistema econômico tem a oferecer 

 Por Milena Bagetti (ex-estudante da UFSM, estudante da Unicamp e professora temporária rede pública de SP)

Passados alguns dias do incêndio que matou mais de 230 jovens e feriu mais de 100 na boate Kiss em Santa Maria-RS - fato que gerou comoção e revolta internacionais, apesar da cobertura abutre da mídia, que busca vender seu jornalismo medíocre a qualquer custo - é reflexo das condições de vida que este sistema alicerçado no poder burguês nos relega a partir de sua ganância por lucro desmedida. Adentrando neste contexto, vemos que esse problema da ganância capitalista e suas consequências se expressam como fenômeno internacional, em que vemos as precárias condições de lazer e entretenimento que são oferecidas para a juventude, sobretudo a juventude pobre brasileira e mundial, além das péssimas condições de trabalho e a falta deste que os jovens estão submetidos atualmente, com tentativas de resistência através dos inúmeros protestos no mundo árabe e na Europa.
Este acontecimento, infelizmente, é apenas uma das demonstrações mais trágicas do que o capitalismo nos impõe. Hoje, aqueles que são os “culpados mais específicos” se eximem descaradamente da culpa. Sabemos que acontecimentos deste tipo não são inéditos, pois em Buenos Aires na Argentina, por exemplo, o fogo que atingiu a República Cromanhon há 8 anos, deixou 194 mortos. Em dezembro de 2012, 14 condenados foram presos pelo incêndio. Entre eles, o proprietário da boate, integrantes da banda e até funcionários do governo por causa da falta de fiscalização. Ainda que a justiça burguesa na Argentina também puna parcialmente e exima os verdadeiros culpados, os capitalistas, que estão dispostos a espremer jovens num espaço pequeno e sujeito a esses problemas; se julgou alguns dos envolvidos e em Santa Maria os culpados precisam ser punidos, tendo que pagar no mínimo indenizações às vítimas, no caso do prefeito César Schirmer ter seu mandato cassado e os empresários “donos da noite” Mauro Hoffman e Elissandro Callegaro Spohr também precisam no mínimo perder seus privilégios engendrados em sua sede por lucro,  a qual foi responsável por que centenas de jovens perdessem a vida.  A presidenta Dilma que  ignorou por meses a greve das universidades federais, piorando as condições dos professores universitários e vem orquestrando um crescimento econômico baseado no trabalho precário e o governador Tarso Genro que nem o piso salarial dos professores paga no Estado, não podem dar respostas neste momento e demonstrar solidariedade se no contexto geral seus mandatos tem sido para a burguesia.
Sabemos, no entanto, que a punição destes não trará os jovens de volta, mas ao menos um sentimento de justiça. Lembremos que a causa-morte de muitos e da intoxicação dos feridos foi a partir do cianeto, que apareceu junto com a fuligem e o monóxido de carbono dentro da Kiss, como consequência da combustão dos materiais usados no revestimento acústico1O cianeto era o princípio ativo do tristemente famoso Zyklon B dos campos de extermínio nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial, fazendo com que o ocorrido remonte ao horror das mortes nos campos de concentração. Embora, nos campos de concentração o cianeto fosse usado de forma consciente. É inaceitável que os hospitais no Brasil não sejam equipados com os medicamentos necessários em emergência, contando com as importantes doações (mas tardias em muitos casos) de Hidroxicobalamina (vitamina B 12, que faz a desintoxicação).  Na França, todos os serviços de pronto-socorro estão equipados com a hidroxocobalamina para tratar intoxicações por cianeto.   Os profissionais da saúde vêm colocando a importância de tê-la nos caminhões de socorro a vítimas, já que também provavelmente muitos hospitais públicos brasileiros não tenham o medicamento à disposição, pois, no Brasil, o medicamento (comercializado sob o nome de Rubranova) é de difícil acesso porque o laboratório que importava o sal parou de fazê-lo e o país não o produz. Nas farmácias, o sal também não é vendido.
 Isto nos faz refletir também o que este modelo econômico baseado no lucro tanto no que tange ao lazer quanto a questão da escolha  dos medicamentos  para comercialização e venda. Pode se dizer que não se esperaria que dezenas de pessoas em um hospital necessitassem de um mesmo medicamento ao mesmo tempo, mas sabemos da precariedade dos sistemas de saúde públicos, do SUS e a falta de disponibilidade do medicamento também tem a ver com a pouca demanda, já que o que “mereceria” ser comercializado é o que gera lucros, na lógica do capital. Sabemos inclusive de medicamentos que recentemente causaram mortes, como anticoncepcional Diane 35, largamente comercializado e indicado para tratamento de ovários micropolicísticos.
O que este modelo tem a oferecer para juventude e para os trabalhadores é o massacre do corpo e da alma destes, pois apesar de supostamente oferecer locais de divertimento, estes locais precisam estar dentro do modelo mercantil , já que os corpos devem ser disciplinados para o trabalho e não para a diversão e o lazer, somente se este lazer gerar lucros para os capitalistas.

       “O indivíduo não tem mais tempo para pensar, para ter seu momento de lazer, recreação, descanso, leitura, mas, está preocupado em trabalhar para conseguir sobreviver. O humano se torna uma máquina, e, na proporção que aumenta o seu trabalho, diminui a sua vida. Do Humano, neste sentido, é tirado o direito de viver e realizar a sua vida. Teoricamente todos têm liberdade, direito de viver com dignidade e realização. Do operário, na maioria das vezes, isto lhe é negado pela estrutura econômica.” (Golfe, O.L. – Antonio Gramsci – Uma alternativa para o marxismo)

Assim como as propostas que a juventude coloca para “fugir” deste modelo são, por vezes, reprimidas por meio do fechamento de bares universitários (inclusive a boate do DCE da UFSM2), do impedimento da realização de festas nos campi das universidades, que juntos contribuem com a lógica de que o lazer e o divertimento precisam ser privados e que o espaço universitário precisa ser direcionado somente às tarefas acadêmicas, ignorando o fato da universidade pública e outros de espaços serem locais ocupados e abertos à população, que através de seu suor é quem dá condições da universidade existir.
Este triste exemplo da realidade que aconteceu em Santa Maria nos chama a refletir também se “mais segurança”, assim como mais fiscalização, como a que vem ocorrendo no fechamento de casas de show do Brasil inteiro, através de políticas repressivas, seria realmente a “solução” para que as festas da juventude sejam realmente seguras, já que os próprios seguranças no momento do incêndio foram os que impossibilitaram os jovens de sair da boate, possivelmente orientados pelos donos a agirem de tal forma e totalmente impregnados pela lógica mercantil. Neste instante, percebemos que o lado que os seguranças tomaram foi o do sistema capitalista e não o lado das vidas dos inúmeros jovens.  As tentativas da juventude de fazer arte ou criar lazer e entretenimento não podem ser ignoradas e tampouco utilizadas como fonte de lucro, no entanto, acabam sendo consideradas tentativas subversivas diante do contexto que a burguesia impõe.
Manifestação em Santa Maria
Em relação às respostas que a população vem dando em Santa Maria, manifestantes saíram às ruas exigindo punição aos culpados, pois o sentimento de não se conformar com a tragédia na cidade ainda é muito grande, sendo que muita gente tem-se mobilizado em solidariedade, disponibilizando abrigo para os feridos, apoio profissional psicológico  gratuito, inclusive de todos os Estados do país. Embora os hospitais públicos da cidade não tenham tido capacidade de atender a todos, com remoções de feridos para Porto Alegre, e infelizmente não se tivesse a disposição de imediato,  o medicamento que faria a desintoxicação.
As páginas seguintes da história desta tragédia engendrada pelo sistema capitalista ainda estão por serem escritas, lutemos por justiça. Mas também lutemos pelo fim deste modelo econômico baseado na ganância que coloca o lucro acima da vida!

1- O gás é subproduto da combustão de materiais como espuma de poliuretano, usada em revestimentos baratos com finalidades acústicas. Revestimentos acústicos de boa qualidade são antichamas e não inflamáveis, portanto não produzem o cianeto
2 – O nome “boate do DCE” é uma denominação histórica da boate do prédio da casa do estudante universitário II (moradia estudantil), mas não faz alusão à gestão do DCE da UFSM.
 
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