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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Louis Althusser contra Lukács no colóquio Marx e Engels da Unicamp

Por Iuri Tonelo, mestrando no curso de Sociologia da Unicamp

João Quartim de Moraes abriu o colóquio Marx e Engels da Unicamp debatendo com Domênico Losurdo, que teria cometido a suposta heresia de colocar o ‘genioso’ Louis Althusser ao lado de pares do chamado marxismo ocidental[1] (conforme célebre expressão de Perry Anderson). Não foi um debate fortuito: em realidade, debatendo os termos filosóficos que envolvem a discussão do humanismo e a democracia formal no marxismo, João Quartim fundamentava as bases daquele que seria o objetivo da direção majoritária do CEMARX no colóquio: promover a “revitalização do marxismo” a partir do resgate do nome e legado de Louis Althusser no marxismo brasileiro e recolocar o CEMARX como um polo althusseriano do marxismo acadêmico[2].
Nesse processo, caberia notar que toda a discussão que Quartim fazia com Losurdo, apresentando seus argumentos, parecia um debate indireto com György Lukács, já que os poucos argumentos ditos de Losurdo eram sempre uma modificação mais simplificada das discussões de Lukács, sistematizadas em seus textos de maturidade.
Louis Althusser
Com esses debates que o IFCH, que já foi um polo importante dos lukacsianos[3], retoma um peso do estruturalismo francês, buscando demonstrar que se caducou a defesa ‘metodológica’ do marxismo, sendo necessária sua “renovação”.
Mas por que Althusser seria “renovador”, ainda mais sendo apresentado por aqueles que querem uma reivindicação de nada menos do que um dos principais expoentes da degeneração teórica, estratégica e prática do marxismo, Mao Tsé-tung?  Há os que acreditam que as críticas ao humanismo e ao “essencialismo” de Lukács (segundo uma busca de uma essência humana trans-histórica) estariam no sentido de demonstrar que Althusser estaria deslocado do grupo dos marxistas ocidentais na medida em que toda sua batalha filosófica se daria para manter (ao contrário dos outros) a ditadura do proletariado como eixo do marxismo, uma justificação estruturalista da ortodoxia marxista (uma interpretação “forçosamente de esquerda” tendo em vista a “vida militante” de Althusser).
Desse ponto de vista da “renovação” também justificam a inflexível discussão sobre o corte epistemológico na obra de Marx, pois “renovar” o marxismo seria reinterpretar as influências de Hegel no velho revolucionário alemão, mas mantendo a “independência materialista” de Marx (àquele que, diga-se de passagem, Marx teria se auto-proclamado em 1873 como “discípulo”[4]), na medida em que o que Marx maduro buscou em Hegel seria a herança espinoziana; e por isso não caíra no “essencialismo” humanista. Ou seja, para além das críticas a Lukács, nos parece um vendaval epistemológico a serviço de justificar suas intenções (de Althusser), e que, direta ou indiretamente, atacam a dialética de Marx.
Tendo isso em vista, cabe notar que (se ainda faltou alguma luz nessa questão) não será pelo legado de Althusser que encontraremos alguma revitalização do marxismo e, na melhor das hipóteses, os atlhusserianos no colóquio só tiveram sucesso questionar um ou outro elemento filosófico das interpretações de Lukács, Losurdo, Sánchez Váquez, entre outros, mas longe de passar perto de qualquer “renovação” (ao contrário, em alguns momentos, uma clara (e já conhecida) capitulação ao maoísmo).
Assim que, estando encastelados nas academias, “burguesamente especializados” (conforme nos dizia outrem[5]), os herdeiros expoentes marxistas da filosofia francesa e húngara se encontram nos colóquios numa conversa teórica de surdos. Quem paga o preço é o marxismo, que se debilita e perde sua força revolucionária e transformadora.
De um lado ou de outro, é difícil dizer como as discussões teóricas se vinculam à emergência dos problemas que a bancarrota capitalista atual imprimem para os marxistas e o conjunto da classe trabalhadora. Está mais do que na hora de que os debates teóricos se objetivem na recolocação da herança revolucionária do marxismo, e o necessário rearmamento estratégico para equipar os intelectuais que queiram passar das “diferentes interpretações do mundo”, para sua “transformação efetiva”. Aí que tanto Lukács quanto Althusser (em distintos níveis) representam duas vertentes que expressam total miséria da estratégia marxista, ambos girando na órbita do “comunismo oficial” stalinista - e sem encontrar no legado de Marx as armas para combater aquelas deformações históricas.
Pintura de Diego Rivera
É desse ponto de vista que queremos debater: contra a influência acadêmica que cooptou tantos jovens intelectuais (e sua força teórica) para os mil e um debates desvinculados dos trabalhadores (o que se traduz na impotência do marxismo acadêmico e, em algum aspecto, em seu sentido escolástico), os trotskistas oferecem um alternativa teórica e estratégica revolucionárias, que busca traduzir todos esses debates num rearmamento do proletariado em seu conjunto, para estar mais preparado, frente a situação concreta, para enfrentar a turbulenta dinâmica internacional e fazer com que os capitalistas paguem pela crise econômica. Nesse sentido, agora melhor localizados, os althusserianos impuseram o embate teórico no IFCH: cabe a nós fazer das palavras impressas os instrumentos da retomada revolucionária do pensamento de Marx, que não se sujeita a nenhuma lei da escolástica ou estruturalista.
*
Aprimoraremos o debate nas páginas do blog da Casa de Estudos e Pesquisas Hermínio Sacchetta.


[1] - Conforme o argumento de Perry Anderson em seu texto “Considerações sobre o Marxismo Ocidental”, o fundamental dessa corrente é que ela se desenvolve em separação com a classe trabalhadora: “como Sartre afirmara mais tarde, de 1924 a 1968 o marxismo não “parou”, mas seu avanço ocorreu afastado da prática política revolucionária” (Anderson, Considerações sobre o marxismo ocidental).
[2] Podemos dizer que, para além do objetivo “estruturalmente” inviável de “renovar o marxismo” pelas ideias de Althusser, foi um relativo “sucesso” dos althusserianos a atuação no colóquio.
[3] Onde chegaram a produzir em meados de 1990 a obra “Lukács, um Galileu do século XX”, organizada por Ricardo Antunes e Walquiria Rego, envolvendo intelectuais como Carlos N. Coutinho, Leandro Konder, José Paulo Netto, Celso Frederico, Isabel M. Loureiro, Jeanne-Marie Gagnebin, Marcos Nobre, Ricardo Musse, Sérgio Lessa e Wolfgang Leo Maar, entre outros. Além de um forte intercâmbio com István Mészáros, principal discípulo e herdeiro da tradição teórica de Lukács.
[4] Ver posfácio a segunda edição de O Capital.
[5] - Um professor acadêmico no corredores do colóquio atestando o diálogo de surdos entre acadêmicos.

2 comentários:

Valter Duarte Ferreira Fiho disse...

E se chegar alguém e disser que economia não existe, como ficará?

Juarez Medeiros disse...

O curso de sociologia da UNICAMP é isso?

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