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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Foi realizada a primeira sessão do grupo de Estudos "Educação, escola e marxismo"


               
                 Realizou-se, no último sábado (20/10), com a presença de cerca de 20 pessoas, entre professores da rede estadual e municipal, e jovens secundaristas e universitários, o primeiro dia do grupo de estudos “Educação, escola e marxismo”, impulsionado pela corrente Professores Pela Base junto à Juventude às Ruas. A importância de este curso ser impulsionado por essas duas correntes vem para que consigamos unir a teoria produzida pela Universidade à realidade prática dos professores e, assim, partindo das raízes teóricas da causa da precarização da educação, conseguir entender os concretos motivos para as lutas travadas pelos professores da rede pública, e impulsionar uma juventude que se alie a essas lutas, se levantando ao lado dos professores que vem questionando a estrutura e precarização da escola e educação.
                A bibliografia dessa primeira sessão foi baseada em leituras de trechos de Marx e Engels relacionados à educação, e também um capítulo do livro “Escola, classe e luta de classes”, de Georges Snyders, onde o autor se remete a escritos de Lenin e Krupskaia.
                Partindo de colocar que não há nenhum texto específico nem de Marx nem de Engels que trate deste tema, a discussão passou por explicar e exemplificar conceitos como “divisão do trabalho”, e a necessidade da escola tal como ela é hoje, criada pela burguesia, para a manutenção desta divisão do trabalho e, portanto, do capitalismo.
                Dentre as várias intervenções que foram dando corpo ao grupo de estudos, surgiram elementos a respeito da formação cada vez mais técnica, criada justamente para atender aos interesses dos novos campos de trabalho criados pelo capital. Discutiu-se também como a escola possui um papel ideológico, pois não apenas cria a mão de obra barata para o capitalismo, como o convencimento de que a função dela é ser apolítica, um campo neutro em meio a uma sociedade dividida em classes e interesses antagônicos. Nesse momento, entra o importante papel do professor. Com exemplos tirados do cotidiano dos professores presentes no curso, foi colocada a discussão sobre como é fundamental que os professores não assumam um caráter imparcial, pois esta imparcialidade legitima as ideias dominantes, que como Marx já colocou no Manifesto do Partido Comunista, são as ideias da classe dominante.
                Em meio a outras discussões e exemplificações da realidade dos professores e estudantes ali reunidos, a conclusão que foi tirada é que, dado o papel ideológico e de manutenção do capitalismo que a escola hoje possui, não será apenas a exigência de mais verba para a educação que transformará tanto a própria educação, como a sociedade, como defendem alguns setores, teóricos e organizações políticas, pois não se questiona para qual educação irá essa verba. A educação hoje é voltada para a formação especializada de mão de obra – com os vários cursos técnicos -, e a escola nada mais é hoje, do que um reflexo da sociedade capitalista, dividida em classes. A luta por mais verba deve vir acompanhada da luta por uma transformação da educação! Que essa verba seja destinada para as escola e universidades públicas, e controlada pelos estudantes, funcionários, pais e professores. Com essa verba, que sejam criadas mais vagas nas universidades públicas, dando fim ao filtro social que é o vestibular, e estatizando as universidades privadas.
                Para a próxima sessão do grupo de estudos, marcada para o dia 10 de novembro, propomos a discussão sobre a pedagogia histórico-crítica, que hoje representa a vertente marxista mais atual dentro da pedagogia, suas problemáticas e implicações.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

"Por que Trotsky?" Reúne 150 pessoas em sua primeira sessão na USP








Na última quarta-feira (03/10) a sala 14 da Ciências Sociais ficou lotada para o primeiro debate do ciclo “Por que Trotsky?”. Na mesa estavam Edison Salles, dirigente da LER-QI e Claudionor Brandão, membro da LER-QI, dirigente do SINTUSP e demitido político.
Edison abriu a discussão colocando o objetivo mais geral o seminário de resgatar as idéias e o legado do revolucionário russo no momento de uma crise histórica do capitalismo que começa a colocar em movimento a juventude e a classe trabalhadora por todo mundo e que já quebra uma série de paradigmas ideológicos de “fim da história e das revoluções” inculcados pela classe dominante nos últimos 30 anos.
Apresentou um pano de fundo geral das mudanças percorridas pelo capitalismo no final do século XIX na Europa e em todo mundo com o advento do imperialismo como fase de agudização extrema dos conflitos entre as classes, abrindo segundo Lenin um período de “crises, guerra e revoluções”. Edison abordou a formação do movimento operário russo e as divergências dentro da social-democracia russa que iriam se expressar na prática já na revolução russa de 1905, destacando a posição de Trotsky que antecipava de maneira mais precisa a dinâmica de classe e as tarefas que iriam se colocar na revolução russa com a teoria da revolução permanente.
Retomou o debate a partir da Revolução de 1917 e o papel chave que Trotsky junto a Lênin cumpriram no processo revolucionário. Ressaltou a dialética entre soviets e partido na revolução de 1917 e a profundidade estratégica desta relação entre a auto-organização da classe junto ao partido de vanguarda como a única possível para a vitória da revolução.
Brandão iniciou sua fala resgatando a decisiva contribuição de Trotsky no debate da burocratização da revolução russa e da consolidação do stalinismo na década de 1920 e 1930. Longe de ser a “continuidade necessária” do bolchevismo como defendem até hoje os intelectuais liberais. A vitória de Stálin rompia diametralmente com a tradição revolucionária do partido e tinha profundas raízes materiais: a derrota da revolução internacional, a morte de um contingente gigantesco de revolucionários na guerra civil e o atraso econômico e cultural russo criaram as bases para o surgimento de uma casta burocrática que usurpou da classe operária o poder de decisão nos rumos da revolução e atacou frontalmente o próprio partido, perseguindo e caçando a fração revolucionária até assassinar todos os antigos dirigentes do partido nos processos de Moscou na década de 1930 e assassinando Trotsky em 1940 no exílio no México.
A partir disso Brandão resgatou o programa da revolução política para a URSS, formulado por Trotsky. A luta a ser travada era pela queda da burocracia e ressurgimento dos soviets como instrumento de auto-organização das massas, mas mantendo as bases sociais da revolução para manter uma clara diferenciação dos setores do imperialismo mundial que buscavam a todo custo restaurar as relações de propriedade capitalistas e ao mesmo tempo lutar contra o stalinismo e seus apoiadores, que sujavam de sangue a bandeira da Revolução Russa assassinando os membros da oposição de esquerda por todo mundo e sendo também responsáveis diretos pela ascensão do nazismo na Alemanha e pela derrota das revoluções chinesas de 1925-1927 e pela revolução espanhola que cortou toda a década de 1930.
Depois de várias intervenções da plenária que buscaram abrir um diálogo com os processos revolucionários da primavera árabe, Edison e Brandão fecharam o debate ressaltando o papel fundamental do partido revolucionário na Revolução de Outubro e a necessidade da juventude e dos trabalhadores lutarem contra os preconceitos instaurados pela burguesia contra a organização política e contra a construção de partidos revolucionários em nossos dias.
O debate se estendeu até depois do previsto com a sala praticamente lotada e desde a LER-QI lutamos para que tenha sido uma “primeira pincelada” para apaixonar trabalhadores, jovens estudantes e ativistas para o estudo aprofundado do legado teórico, político e militante de Trotsky.
Convidamos toda/os para os próximo debate do ciclo Por que Trotsky na UNICAMP no dia 18/10, com o mestrando Iuri Tonelo e Pablito Santos, trabalhador e dirigente do SINTUSP, que irão debater a Revolução Alemã, a intervenção e as lições táticas e estratégicas que Trotsky extraiu deste processo decisivo para o século XX.
Viva Leon Trotsky! Viva a IV internacional!




A propósito do falecimento de Eric Hobsbawn – Um historiador a serviço da classe trabalhadora?





Por Alicia Rojo, militante do Partido de los Trabajadores Socialistas - PTS - Argentina





O historiador Eric Hobsbawn nasceu em 1917 e acaba de morrer, no dia 1 deste mês. Junto a uma série de historiadores britânicos como Maurice Dobb, Rodney Hilton, E. P. Thompson e Christopher Hill, fundou em 1952 a revista “Past and present” e protagonizaram uma importante renovação historiográfica. Muitos deles abandonaram o Partido Comunista após a invasão à Hungria em 1956; Hobsbawn permaneceu nele desde sua filiação em 1935. A desaparição de Hobsbawn deu lugar a uma manifestação de valorização quase unânime no mundo acadêmico a respeito de sua trajetória, ainda que a maioria prefira acentuar que, em que pese sua adesão ao marxismo, cujos traços julgam presentes em toda sua obra, “seu talento de historiador os relativiza e minimiza” [1]. Contudo, encontramos as maiores contribuições de Hobsbawn naqueles trabalhos que melhor expressam uma interpretação marxista da história. Sua análise acerca das revoluções burguesas, por exemplo, constituem trabalhos incontornáveis para compreender estes processos históricos.

Os historiadores da academia resgatam em Hobsbawn aquilo que supõem que nega ou “matiza” sua concepção materialista da história: o “anti-dogmatismo”, sua visão “não esquemática”. No entanto, uma concepção materialista dialética da história exclui o dogmatismo, seu ponto de partida é a própria realidade social e seu método permite explicar a complexidade do todo social; o esquematismo que caracterizou certos historiadores que se diziam marxistas não tem nada a ver com o materialismo histórico.
Por outro lado, há setores da esquerda que reivindicam Hobsbawn como um dos historiadores marxistas mais importantes; é resgatado também como uma referência de intelectual comprometido com as causas populares. Entretanto, os limites de sua visão provêm de sua concepção política que, como sabemos, não pode ser separada de sua produção intelectual: a identificação política de Hobsbawn com o stalinismo o conduziu a interpretações claramente antimarxistas. Na mesma medida, sua localização política diante dos fatos mais importantes da luta de classes do século XX o colocou no lado oposto ao da revolução.
Um historiador do Partido Comunista
“História do século XX” é um dos trabalhos nos quais Hobsbawn – diante dos processos históricos que não eram aqueles de séculos precedentes, mas sim dos tempos nos quais o stalinismo cumpriu um papel chave para a sustentação e a estabilidade do capitalismo – manifesta com claridade as consequências de sua concepção política. [2]
Tomamos aqui apenas um dos possíveis ângulos para polemizar com Hobsbawn, ainda que seja um ponto central: a Segunda Guerra Mundial. Em seu livro afirma que esta guerra “deveria ser interpretada não tanto como um enfrentamento entre Estados, mas sim como uma guerra civil ideológica internacional, nessa guerra civil o enfrentamento fundamental não era o do capitalismo com a revolução social comunista, mas o de diferentes famílias ideológicas: por um lado os herdeiros da Ilustração do século XVIII e das grandes revoluções, inclusa, naturalmente, a revolução russa; por outro, seus oponentes”. [3]
Aqui Hobsbawn opina que não se aplica o caráter de guerra interimperialista: entre 1939 e 1945, o enfrentamento fundamental no interior dos Estados e em nível internacional se deu entre “fascismo e democracia”, ou seja, entre ideologias e regimes, e não entre Estados imperialistas, em primeiro lugar, e uma guerra contra o Estado Operário soviético, em segundo.
Não podemos desenvolver aqui o debate com esta concepção e todas as suas implicâncias [4], mas digamos que uma visão destas características não consegue explicar, por exemplo, a intervenção imperialista em defesa do regime fascista grego que combatia o processo revolucionário que se desenvolvia na Grécia nestes anos. Esta intervenção respondeu a profundos interesses imperialistas e rejeitou por completo toda a defesa da “democracia”.
O que esta interpretação permite “explicar” a Hobsbawn é a “aliança, insólita e temporária, do capitalismo liberal e o comunismo para fazer frente a este desafio [o avanço do fascismo que] permitiu salvar a democracia” [5]. Esta visão é utilizada, por exemplo, para reivindicar a política do Partido Comunista na Espanha, com as “frentes populares” antifascistas, ainda que, como sabemos, esta política não pôde vencer o fascismo, mas sim derrotar a revolução.
Chega a tal ponto seu afã justificatório que, para Hobsbawn, os “anos dourados” do pós-guerra, a “conquista” do Estado de Bem-estar (Wellfare State), são tributários da existência da própria URSS; enquanto a justificativa da política stalinista se trata de uma grande reivindicação não apenas do stalinismo mas também da “democracia” imperialista que ajudou a “salvar”. Não é gratuito, portanto, o reconhecimento atual que se presta a Hobsbawn.
Historiadores a serviço da classe trabalhadora
Hobsbawn não foi, portanto, um intelectual neutro. Se é verdade que legou análises históricas notáveis, em seu papel de historiador contribuiu mais à justificação do sistema dominante que à causa dos explorados.
Pois a história é uma arma poderosa para as classes em luta; para os trabalhadores é um caminho para conhecer sua própria história – inclusive as traições de suas direções que os levaram à derrota – e não começar em suas lutas a cada vez novamente do começo. O próprio Leon Trotsky, dirigente da revolução, escreveu a “História da Revolução Russa” mostrando, imbricada com os fatos de sua própria vida, toda a magnitude do maior processo revolucionário da história; milhares de páginas de suas obras estão destinadas a trazer para os trabalhadores as lições dos principais fatos da luta de classes mundial.
Historiadores como Pierre Broué, Milcíades Peña, Alberto Plá, são algumas das referências mais importantes, todos eles ligados de diferentes formas à corrente trotskista, de uma verdadeira história militante. [6] Está nas mãos das novas gerações recuperar estas obras e produzir novos conhecimentos a partir do marxismo revolucionário, que constituam ferramentas para compreender e transformar a realidade e fornecer uma arma para a luta da classe trabalhadora.



[1] Luis Alberto Romero, Revista Ñ, 6/10/12
[2] Não desenvolvemos aqui outro exemplo de alguns deses limites, o último livro de Hobsbawn, “Como mudar o mundo: Marx e o marxismo, 1840-2011″. Hernán Camarero resenhou este livro e, apontanto as contribuições do trabalho, conclui: “Mas existe um problema a assinalar sobre este inventário. Hobsbawn ainda não proporcionou uma explicação teórico-histórica acabada ou convincente da experiência soviética, mais especificamente do stalinismo (a cujo universo esteve vinculado, dado o seu pertencimento histórico ao PC britânico)”. E, acrecentamos nós, sequer considera o trotskismo como expressão do marxismo revolucionário e suas viscissitudes como alternativa política ao longo do século XX. Revista Ñ, 15/08/11
[3] Eric Hobsbawm, Historia del siglo XX, Crítica, Buenos Aires, 1998, pág. 150
[4] Para uma análise completa tanto do caráter da guerra em seus distintos aspectos, como uma polêmica específica com Hobsbawn, assim como uma análise das posições do trotskismo, ver “Guerra y Revolución, Una interpretación alternativa de la Segunda Guerra Mundial”, Ediciones CEIP, 2004. Os ensaios introdutórios de Andrea Robles e Gabriela Liszt podem ser lidos em www.ceip.org.ar
[5] Hobsbawm, op.cit. pág. 17
[6] Os trabalhos de Trotsky e os historiadores a que nos referimos podem ser consultados na biblioteca (em espanhol) do CEIP “León Trotsky” (endereço na nota 4)




segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Entrevista com Thiago Reis Vasconcelos, diretor da companhia de teatro Cia. Antropofágica - Parte 2


Segunda parte da entrevista com Thiago Reis Vasconcelos. Para ler a primeira parte, clique aqui.

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Cartaz do espetáculo da Cia Antropofágica, "Via Crucys à brazyleira"
Contra a Corrente: Como você avalia o governo do PT hoje e como acha que devemos nos preparar para o que virá?
Thiago: Eu e o grupo temos bastante clareza de quais são os limites dentro das possibilidades ilimitadas que tem a arte. A pergunta que interessa sempre é: o que fazer? Se você não souber o que fazer é um problema muito grande. O próprio jeito de falar deve estar composto por isso, de voltar para algum lugar e fazer as dialéticas necessárias. Por isso é necessário estudar a história, para tentar entender o que foi feito e tentar fazer uma arqueologia do futuro.
Quando falamos de PT temos de fazer a critica do que é igual e que estava proposto a ser diferente. PT, PSDB, PSD, Maluf, etc. são muito diferentes; beleza, as diferenças a gente já sabe. Mas o que tem de igual? Tem muita coisa igual. No ponto de vista da cultura, é isso: a manutenção da privatização da cultura; a manutenção da privatização da educação. Tem uma coisa, que é a cara do lulismo, que é exatamente essa imagem “tropicalista” de discurso libertário e práticas reacionárias. E eu acho que tivesse aqui o Lula, ele ia assinar embaixo, falar: “É verdade, é isso que a gente tá fazendo. Faz a política do possível, sem tentar mexer na estrutura e, portanto, tem muito mais dinheiro para banqueiro do que para cultura”. Tem muito mais dinheiro para banqueiro do que para tudo. E isso é uma pratica política extremamente condenável do meu ponto de vista. Só que é toda feita junto com pequenas reformas de avanço e de possibilidade para a classe trabalhadora, e isso confunde muito. Vivemos uma época de muita confusão.
A eficácia desse tempo é mistificar nossa compreensão da situação em vez de nos permitir pensá-la. Em outros tempos a gente conseguia pensar: “nossa, esse cara tá jogando nos times dos banqueiros”. Hoje, o cara joga no time dos banqueiros e diz que não joga. Esse é um dos fatores mais difíceis de lidar com essa política que está aí hoje. Entra naquela questão da ditadura, das figuras, de ter uma guerrilheira na presidência. Isso prova muito a importância do trabalho dos grupos e de quem trabalha com arte, que é a disputa do campo simbólico.
A gente fala coisas da estrutura e da superestrutura também, e é na análise da estrutura que você percebe que não é uma análise da qual possa se dizer: “não, mas você tá viajando...”. Está no jornal, estou falando do que sai na Folha e no Estado de São Paulo: bilhões para os bancos, cortes e redução de verba pública em diversos setores. Acho que o maior crime e o pior rumo político que pode ser tomado é deixar de ver a totalidade – e isso é uma coisa importante de ser observada porque todos que optam por esse tipo de caminho encerram a sua possibilidade política. Agora em outubro a gente vai ter campanha eleitoral; quando a campanha eleitoral deixa de ter uma proposta política de totalidade, ela passa a ter propostas políticas que eu chamo de “caixinhas”. O PT comprou essa prática e esse discurso. Não tem mais uma política para a cultura; tem o “leve ingresso”, o “vale cultura”. Não tem mais uma política para a educação; tem o “leve livro”, o “leve leite”, o “leve merenda”, etc. Então, não existe uma proposta política, é um partido político que tem propostas só administrativas. E é claro, eu não estou nem falando de uma proposta revolucionária, estou falando de qualquer proposta política de transformação. Fazer o leve isso, leve aquilo é uma proposta política clara de manutenção das coisas como elas estão. É óbvio que você não pode falar que é contra; pro cara que não tem o que comer tem o leve almoço, o leve café da manhã e o leve janta. E você não vai falar “não, isso ai não pode ter”. Tem que entender onde faz a crítica: que isso é uma proposta de governo e quando der qualquer problema isso não é lei, isso não é nada, não é estrutural, nem é estruturante. Quando disserem “esse ano não dá para ter o leve café da manha, vocês vão ficar com o leve almoço e o leve janta”. Vão dizer “Oh, esse governo é ruim!” Eu volto, e no meu governo ele vai ter o leve café da manhã, o leve almoço e o leve janta. Ganhou. E a gente está disputando quem leva mais. Então esse tipo de política é muito ruim. E a complexidade dela é que tem que fazer uma critica estrutural, de totalidade.
E agora vai começar o programa eleitoral e vai aparecer os dois tipos de programa: um que fica mostrando a biografia do administrador, e o outro mostra as propostas de “caixinhas”. Tudo virou uma publicidade e uma pesquisa de mercado. “Do que o pessoal está mais reclamando?”  “ah, tá reclamando da violência? Então vai ter o ‘leve guarda’”. O guarda vai levar o seu filho, entendeu? O que o PT abandonou foi uma política de totalidades por uma “política de caixinhas”. É o vale cultura, é o fome zero. Eles sabem, porque vemos isso na história nos textos antigos, que se você separar as coisas por caixinhas não dá conta, porque a totalidade não é igual à soma das partes, nem à justaposição das partes; e eles trabalham por partes. Então, eles assumiram um método reacionário, e isso no entendimento político chama-se capitulação. É simples, é triste até, mas é isso que aconteceu. Não tem discussão disso. E as coisas não estão descoladas: vamos pensar o que é um teatro pós-moderno. Uma das palavras do pós-moderno é a justaposição. Muitas cenas do pós-moderno não se completam porque elas são justaposição das partes, porque justamente o que o pós-moderno abandona é a ideia de totalidade, eles ficaram com as partes. E a parte é uma totalidade também, cada coisa tem sua totalidade: uma pessoa tem sua totalidade, mas é dentro da totalidade social. E por isso é um governo tropicalista. Então você começa a montar, e fica bonito na poesia. Porque você fala: “o caqui da Amazônia não sei o que”. Aí você pula para a cidade e fala, “dentro do bueiro vivia um homem do lado de um rato que comeu a castanha desse caqui”, e você começa a fazer essas ligações das partes e sai muita poesia bonita. Tudo isso você cola num discurso libertário, ou seja, não se tem mais política e se tem administração. Administrar é cair na ideia da política do possível.
A gente tem nas nossas peças a noiva da revolução, que é uma figura complexa, mas ela tem, dentro da sua ideia, uma hipótese revolucionária. É esse ser que anda e propõe a revolução, uma mudança radical, quebra com o que está aí. O vestido dela é vermelho, então isso indica um tipo de quebra simbólica no imaginário, que é uma quebra de esquerda. Essa quebra é aberta por que a possibilidade revolucionária é aberta, não é fechada. E junto com ela tem uma figura que é a viúva da esquerda. É uma pessoa que se sente aliviada, porque ela pode fazer as políticas administrativas. Se você não tem hipótese de revolução, só nos resta administrar humanitariamente o capitalismo, que é a proposta do PT. Por isso que talvez o Lula seja um sucesso mundial, porque ele conseguiu alguns êxitos nessa parte. Foi conseguindo esses êxitos que ele se construiu.
Mas tem que dividir, perguntar para a pessoa se o que quer realmente é uma administração humanitária do capital. Uma administração humanitária significa que ora pode se administrar humanitariamente a educação, e aí a saúde vai pra bancarrota; ora se pensa na saúde, e a educação vai pra lá, e nunca isso vai poder ser para todo mundo. Isso tá dado, isso é impossível.
Se você cria uma política onde sua maior bandeira é o combate à corrupção, ou o combate às ligações endêmicas e umbilicais entre Estado, Igreja, crime organizado – e a gente vê essas criticas sendo feitas – cai no mesmo lugar. É necessário fazer crítica à corrupção? Claro! É necessário fazer critica a essas ligações de crime organizado com o Estado? É necessário. Mas quem tem isso como bandeira, tem a mesma perspectiva de derrota de umas das formas da ditadura do capital. É claro que isso pode ser a bandeira mais imediata, talvez seja a bandeira mais correta para um espaço de tempo, mas precisa investigar se essa bandeira não é a única que está sendo proposta. E se ela for a única, de novo você pode dar uma “limpada”, a gente vê isso, isso é a história do Batman por exemplo. O Batman vai lá e tira a corrupção de Gotham City durante um tempo. No próprio filme do Batman eles não podem ser tão falsos: a corrupção volta. Então é preciso estar atento a tudo isso.
Mas, para definir o que eu acho da política agora, um dos problemas maiores é esse: é o esvaziamento da política e a gente ficar nessa esparrela administrativa. Quem administra melhor a desgraça. E é visível que além de administrar a desgraça, em alguns momentos é preciso criar desgraças maiores para se fazer girar a produção, porque toda essa desgraça tem um fundamento irracional. Você abre o site da ONU, UNESCO, FAO e lê: “a cada 4, 5 ou 6 segundos morre uma criança de fome no mundo”. Aí você faz o calculo ali, juntando os adultos, tem 30, 40 mil pessoas morrendo diariamente por problema de nutrição. Não é um problema de administração: no mesmo site se lê que a produção de calorias e alimentos para suprir toda a humanidade e resolver o problema já foi atingida.
Se fosse um problema somente administrativo, qualquer cara mais estúpido da administração saberia fazer assim: quantas calorias necessitam um ser humano? X calorias. Quantas calorias nós temos? Y calorias. Tem X calorias para todos os que precisam? Tem! Então vamos distribuir: você entrega aqui, você entrega aqui, você entrega aqui. Isso não é uma administração muito difícil. Quem opta pela política da administração dentro do capital, opta por saber que isso podia ser resolvido e não vai ser resolvido, porque é política a questão. Porque para resolver isso teria que mexer na propriedade da terra, na propriedade privada dos meios de produção, no direito à herança, em uma série de coisas, que nessas ninguém quem mexer. Então, isso é criminoso. Quem opta por saber que tem alimento pra todo mundo e que tem quarenta, cinquenta, sei lá, trinta mil pessoas morrendo de fome todo dia e falar: “isso vai ficar assim”, essa pessoa é uma criminosa, porque por mais que os processos que tenham que se passar pra se modificar isso sejam difíceis e vão custar vidas – processos de guerra civil – nada se compara a um ano a mais nesse sistema. A cada ano desses, são trinta, quarenta mil pessoas que morrem de fome a cada dia, vezes 365, não sei fazer a conta. Então não dá, isso é simplesmente inaceitável, do ponto de vista humanitário.
É por isso que as pessoas vão estudar e procurar coisas que modifiquem, e é por isso que elas chegam em lugares e situações revolucionárias, porque não existe uma outra situação pra resolver isso. Já temos tecnologia pra fazer isso. A crise é de superprodução, a gente sabe disso desde que queimaram sacas de café, e isso tá já nas peças, explicado.  Então não existe falta de coisas no mundo; existem pessoas com todas as coisas. E são poucas: se a gente for nos grandes monopólios no mundo inteiro dá números de cerca de mil empresas no máximo, que tem um dono, uma família. Então são mil famílias num universo de bilhões que vão ditar como é que o mundo funciona. E a lei Rouanet significa o que? Significa colocar em nome de uma dessas famílias falar quem deve fazer arte, quem não deve? Dá licença! Não pode.
CaC: Entrando nessa questão do acesso à cultura e produção de arte. Como é que o grupo, como é que você em particular entende isso? Vocês pensam em como tornar a arte de vocês mais acessível? Como seria isso? Mudando a forma, ou mudando os espaços de apresentação? Em termos acesso à cultura, como é que tem que se dar esse debate?
Thiago: Só pra voltar na outra questão, que era como se preparar. Para problemas complexos a gente precisa de soluções complexas, então não adianta se trancar dentro de uma sala de ensaio e achar que alguma resolução vai ser dada. O que eu quero dizer com isso? Se os grupos de teatro não estiverem junto dos movimentos sociais, movimentos populares, partidos, organizações da classe trabalhadora, sindicatos, tudo o que está acontecendo não vai “virar”.
É preciso entender que a luta contra o capitalismo tem que ser travada em todos os lugares: desde a relação dentro de casa lavando a louça, até dentro do teatro. O grupo de teatro vai travar essa luta na disputa da hegemonia do pensamento simbólico, primeiramente. E saber fazer análise de conjuntura pra saber quando que essa luta tem que extrapolar e ir pra outros lugares. Quando você sabe o que precisa fazer é que define que tipo de forma e de poética precisa. Isso define o trabalho da gente. Essa lógica impede que a comida que existe chegue no cara que está morrendo de fome a cada cinco segundos passa por colocar a comida como mercadoria; come quem pode comprar. A primeira coisa, por analogia mais estúpida que se pode fazer, é fazer um teatro que não seja na lógica da mercadoria, porque senão a gente vai reproduzir essa mesma ideia. Se ele é simplesmente mercadoria, algumas pessoas vão poder ir ao teatro e outras não vão poder.
Então a primeira coisa que a gente faz é um teatro que não passe por essa lógica de mercadoria. E não é simplesmente fazer um teatro com uma forma diferente da “mercadoria televisão”: se ele custar 50 reais, já está escolhendo seu público da mesma forma. E aí fazemos várias ações para que esse teatro chegue, porque de alguma forma você tem que compensar a falência do Estado na cultura. É falência que está decretado, nas três esferas. Fazemos oficinas, onde as pessoas podem ter contato com a linguagem. Muita gente que faz oficina não vai ser de teatro, mas é importantíssimo porque passa a entender como funciona a linguagem, e aí pode assistir e entender como funciona a coisa toda. É preciso ter gente que não conhece a linguagem, mas é preciso ter gente que conheça, porque esse cara volta pra casa e comenta com o tio, a tia, ele leva ao teatro e você vai formando um público com essas oficinas. Tem atividades que fazemos dentro do teatro, “na caixa”, que hoje em dia são todas gratuitas. Tem atividades de rua, que é com a carroça. Então, dentro de um grupo, em São Paulo, que dialoga com os outros grupos, estamos fazendo muita coisa, dentro do limite que existe. Vamos para a rua fazer teatro, fazemos meses de apresentações de graça e lota de pessoas assistindo. Também é um mito falar que não tem gente para ver teatro: estamos em cartaz com o “Terror e miséria no novo mundo” há três anos, e há três anos tem gente assistindo a peça. E cada vez vem mais gente, porque vai chamando. Tem gente que volta, porque é de graça, o cara vê um dia e diz, “nossa, aquele negocio ali me intrigou, eu não entendi direito, aquela figura, porque aquele fulano estava com o martelo na mão, porque aquela mulher estava vestida de viúva”. Aí volta, e nessa volta discute. A forma também é muito diferente quando a gente faz a peça: no intervalo estão os atores, direção, iluminador, cenógrafo, está todo mundo junto com o publico, dialogando, por isso não tem a “esfera áurea”, tem um dialogo ali. E é bom que ele aconteça porque tem como debater a partir daquilo. Organizamos debates sobre os temas que fazemos.
Então, tudo isso que está sendo feito, e isso sim são atividades humanitárias, e para a humanidade num sentido mais belo que existe. E tem pessoas que vem e falam: “ah esse teatro aí esquerdizante, terrorista”. Terrorista? Você ir para a rua e atravessar a cidade com uma carroça falando sobre poesia e sobre o mundo, isso é “terrorismo”. Como eles conseguem inverter as coisas e está na hora de a gente ter espaço e começar a falar em todos os lugares: “não cara, realmente você agora está diante de pessoas que gostam de outras pessoas e que não querem que o mundo fique assim”. Faz oficina, projeto de formação para formar atores. “Porque você faz um projeto para formar atores?” Porque um dia estávamos dando uma oficina, algumas pessoas se juntaram e falaram que gostaram de fazer teatro: “só que eu ganho um salário mínimo; eu sou caixa de supermercado; eu moro muito longe e não tenho condição de fazer isso; eu estudei até o colegial em escola publica e portanto não vou passar em vestibular nenhum; eu não tenho nenhum outro jeito de fazer as coisas”, e ai você ocupa o lugar do Estado. Não que isso seja bom, mas é uma medida que você faz que vai formar alguém para pensar, para transformar alguma coisa. Aí você monta um projeto de formação e se vira em 300 para fazer isso, trabalha 24 horas por dia para que isso aconteça.
Mas isso tem muita gente fazendo, e tem dois tipos de pessoas fazendo esse trabalho. Um que é simplesmente o “espontaneísta e voluntarista”; esse é um perigo, porque esse vai escamoteando as deficiências do Estado. Aqui não, porque aqui é dito isso: é errado o que  estamos fazendo, não deveríamos estar fazendo isso. Não é um grupo de teatro que devia estar ensinando você a ler; essa é a diferença. Deixar uma pessoa sem saber ler é criminoso também, mas você sabe que não era o seu papel. Isso define dois tipos de pensamento que lá na frente vão se confrontar, que são: o teatro alternativo ou a arte alternativa, que fala: “vou criar meu campo alternativo”. É quase como criar zonas autônomas temporárias, onde aquelas 30 pessoas que vivem ali tem seu modo de subsistência; você cria falanstérios e fala: “Resolvi. Nós aqui somos felizes”. Isso é hippie. Quando o movimento hippie surgiu isso tinha um sentido; é que nem o tropicalismo: isso já era conservador, mas era um negócio autêntico e tinha um papel ali. O que eu acho é que o Estado olhou para esse negócio e falou: “nossa, não é que essa ideia é boa? Vamos transformar ela em bem genérico, já que a gente leu e aprendeu o que significa ‘genérico’ para o Marx, ele ensinou e vamos utilizar”. E transformaram isso em política oficial: eles mesmos criam os espaços “alternativos contra hegemônicos” e falam: “A gente vai gerir esse espaço”. O PT devia criar o “ministério da rebeldia”, que são os grupos que o Estado financia para serem rebeldes contra ele próprio, administrados pelo Estado. Na peça a gente vai criar o ministério. Isso pode cair em dois lugares. O que é “alternativo” é isso: aceitar que o todo permaneça; uma vez por mês você “chora os mortos”, e ali faz projetos de subsistência, de solidariedade e tudo mais.
Outro tipo de projeto é, ao invés de ser alternativo, ser de oposição; e a oposição faz tudo que o alternativo faz, só que pensa numa perspectiva de classe e de transformação. Por isso ela tem que dialogar com todos os alternativos. Aí é uma das dificuldades. Você, como de oposição, não tem como não dialogar com os alternativos, porque a gente sabe que a modificação não depende dos indivíduos, de um agrupamento de indivíduos. Mas depende de uma perspectiva de classe, de uma perspectiva histórica, de conjuntura, etc. Então tem que dialogar com todo mundo alternativo também, e saber em que momento vai caminhar junto e em que momento não vai caminhar junto. Tem muita gente boa nos alternativos e que depois de um tempo entende, na prática, que estava perdendo tempo. Esse militante tem dois caminhos: ou ele vai procurar se estruturar em organizações de classe e entende que esse é o caminho; ou ele vai cair em depressão profunda e acaba desistindo de todas essas coisas. Ele veste uma “roupa”, vai para o psicólogo e fica em um dilema eterno. Ou ainda uma terceira opção, que é bem comum: ele vira um reacionário, começa a trabalhar e se entrega nessa coisa reacionária. Ou ainda ele vira alguém do governo e vai aplicar estruturalmente seus “falanstérios”. Essas são possibilidades.
Dentro dessas possibilidades está o que eu tenho chamado de UPP: “unidade do palhaço pacificador”. Sem desmerecer o palhaço, porque eu acho que o palhaço tem que ser justamente o contrário, ele não é um ser pacificador. E aí pacificador é entendendo dentro do processo de luta de classes, que acha que tem como pacificar dentro de um conflito: “Ah, eles vão continuar atirando de lá e daqui, mas nós vamos fazer um campo de força, que é a nossa UPP”. E aí a arte vira um espaço de contenção. E isso está dado para todo mundo, inclusive os de oposição, porque a capacidade metabólica do capital de perceber essas estruturas e transformar os grupos de teatro, de dança, de rap, de cultura popular em unidades pacificadoras é muito grande. É diante disso que a gente está agora, e esse é o caroço do angu que está sendo cozido. O que está dado hoje é que ninguém vai massacrar essa oposição artística: o que eles vão fazer é ver como transformar todos em UPPs, e fica todo mundo feliz. E dentro dessas UPPs vai poder se falar de revolução; ou melhor: vai ganhar mais dinheiro quem for mais revolucionário “no verbo”. Podemos falar das perspectivas que eu acho que tem que ter o movimento de teatros de grupo em São Paulo: sair da simples briga de categoria por políticas públicas, verbas, sair desse único patamar, porque o trabalhador da cultura é um trabalhador como outro qualquer, um trabalhador da cultura.
O pessoal fala “a classe artística”; começa daí: não tem “classe artística”, é categoria. Não, não é só uma palavra, é importante pra se pensar. Mas o que eu ia falar da categoria é: os trabalhadores da cultura têm que estar juntos como categoria e reivindicar melhor condição de trabalho, melhor cachê, salário, décimo terceiro; isso tudo faz parte. Ter os meios de produção pra produzir suas coisas artísticas, seus objetos, seus experimentos, os laboratórios de criação, tudo isso é briga de categoria. Mas têm que entender que essas brigas de categoria avançam quando avançam as brigas de classe e, portanto, o que está dado é: é preciso ter um programa da categoria, uma organização da categoria. A categoria tem medo de fazer um programa político. Quando a gente briga por um edital, estamos brigando pela “caixinha”, e voltamos a falar de administração e não de política. A gente precisa ter um programa de cultura que defenda, e esse programa não pode ser só de teatro. Porque existe um grande programa de cultura no Brasil: é o programa da renúncia fiscal, é o maior programa, ele tá aí, funcionando.
Essa categoria precisa fazer um programa e precisa estar conectada às lutas das outras categorias e, portanto, fazer uma luta de classe. É que quando você diz com essas palavras as pessoas vão falar assim: “Lá vem o dinossauro, o parque dos dinossauros”. Como se as palavras de quem diz isso fossem muito novas. Eu gosto de avacalhar também porque a teoria dos pós-modernos e dos Lyotard da vida não se sustentam nem perto do Macunaíma do Mário de Andrade. A complexidade formal do Macunaíma, de invenção, de junção de formas e possibilidades, e do que eles [os pós-modernos] chamam de pós-moderno, não chega perto da complexidade do Macunaíma, um projeto moderno que trabalha em cima da rapsódia. Todas essas ideias: platôs, rizomas, desconstruções, fazem você pensar que é muito [complexo], Mas é só um pedacinho do projeto modernista brasileiro. Um monte de gente é enganada na universidade de que a teoria do platô e do rizoma é a maior complexidade. Então você lê e descobre que não é.

Isso é um ponto de vista de organização, enquanto trabalhador, que não pode se perder. Se organizar como categoria, fazer as lutas da categoria e participar das lutas de outras categorias, sempre. E aí é movimento social, partido, sindicato, é isso.
A outra coisa é a luta que fazemos no plano da comunicação e disputa simbólica. Envolvem conteúdos, temas, assuntos e forma. Envolve técnica e uma série de coisas que é a criação, no caso do teatro.
Nesse âmbito, no momento exato que a Cia. Antropofágica está, ela não é agradável para os pós-modernos porque tem pressupostos como “fazer análises”. Fazer uma análise é olhar o objeto real, em movimento e tirar suas categorias. Pegamos o objeto, olhamos, saturamos as possibilidades ao olhar esse objeto. Isso é estudar. Olhamos isso tudo e dizemos: “nossa, então isso é a totalidade de um carrinho?” Isso, é a totalidade de um carrinho: ele começa na extração do ferro; é um baita estudo legal de fazer, você descobre o que é um carrinho. E o carrinho tá ligado à história do Brasil, aí tem Dom Pedro, e aí começa. Vai saturando os objetos reais, no sentido de não ficar preso à aparência desse real, mas sim revelar as contradições que tem.  Não se pode perder a categoria de totalidade e nem de mediação, porque é na mediação entre essas totalidades que se dão relações políticas, psicológicas, afetivas. Fazemos todo esse estudo pra tentar fazer um teatro dialético.
As pessoas falam “nossa, mas o Brecht vem com aquela fórmula...”. Primeiro que não tem fórmula. Quem disse que é linear? Você não agrada nem aos pós-modernos, por manter algumas categorias de análise política e de visão de mundo; mas também não agrada aos realistas socialistas, que se apropriaram do Brecht como uma fórmula metodológica fechada, partindo da fábula; é uma leitura equivocada do Brecht.
Dentro de um teatro dialético, épico, você pode fazer de tudo. A gente não usa a forma dramática no sentido de fazer uma peça dramática, mas existe dentro de uma peça da Antropofágica uma cena estritamente dramática, dentro de uma moldura épica, por exemplo, ou de uma estrutura de [teatro de] revista, ou de uma estrutura de rapsódia. E tem gente que assiste a peça e fala: “pô, mas aquela cena é dramática”. Então eu falo: “você já leu o Terror e miséria no Terceiro Reich [de Brecht]?” Na cena do espião, do pai, da mãe e do filho. O pai e a mãe discutindo e todas as emoções que estão ali, todo o drama daquela cena. Mas aquela cena está dentro de uma peça inteira, e ela não é a única cena. Eu usei recurso dramático porque era o melhor recurso,  foi o recurso que a gente escolheu pra dar conta daquele assunto. Daí se fala: “pô, aquela cena não serve porque você usou um recurso dadaísta que a partir dos dadaístas vai dar no pós-moderno, no pós-dramático...”. Não! É outra coisa. Eu posso usar todos os recursos. Toda liberdade em arte. Posso entrar pintado de verde, pelado, pra dizer uma outra coisa, que dê conta daquilo. E posso ter uma cena que seja um ruído de pensamento, dentre uma cena de uma batalha da luta de classes e  uma cena que seja um ruído de pensamentos só pro cara respirar. Pode fazer isso, no teatro épico, dialético? Pode. Inclusive é da característica antropofágica pegar uma forma, duas formas, três formas e esses conteúdos e de alguma forma misturar elas, juntar pra fazer uma outra coisa.
Daí falam:  “isso aí parece pós-moderno”. Não! O pós-moderno é que diz que é só isso. Eles é que fazem só uma parte do que é moderno. O pós-moderno é “meio moderno”, entendeu? É uma parte de moderno. Tudo que tem no pós-moderno, tem no moderno. O que eles tiraram, na verdade, é a perspectiva de mudar o mundo. Simplesmente eles capitularam e aceitaram o mundo como está, não sei quantas pessoas morrendo de fome por segundo, não tem discussão, é isso que você aceitou. Assume.
A  produção da esquerda por um tempo foi muito ruim mesmo. Ela comprou a ideia stalinista de que o teatro de esquerda tinha um jeito de der feito. Quando na verdade a gente pode fazer com todas essas coisas, que estão em todos esses autores e em todo mundo que já produziu arte. Aí falam: “como que nessa peça dialética aí tem síntese...?”. Que síntese? Síntese é diferente de posição. Na nossa peça tem posição, como em todas as obras de arte. Não estou falando que tem síntese, porque aí vem com essa ideia de que a nossa dialética é a dialética escolar de “tese, antítese e síntese”. Onde você está vendo isso? Aonde você viu falar que essa peça é a síntese do Brasil? Mas ela tem uma posição sobre o Brasil. Se você é o cara que esconde a sua posição pra não saber quem você é, você um mau caráter, esconde a sua posição. A gente não esconde a nossa posição quando faz uma peça. Mas não venha chamar posição de síntese. Então tem uma série de mentiras dentro das produções dos grupos, que as pessoas apontam. Outra mentira clássica é falar assim, “essa peça é marxista”. Que peça marxista?  A coisa primeira que você aprende com Marx é ser iconoclasta nesse sentido. “Ah, mas tem marxismo aí que vocês...”. Claro! Porque das teorias que leram essa realidade que eu vivo, que é a capitalista, é uma das quais pra gente tem mais fundamentos, mais apontamentos sobre isso. Ou dizem “Outro problema que eu vejo na peça é que vocês falam de tudo, de todos os temas”. Isso. Se você for pegar o estilo de tese do Umberto Eco, por exemplo,  você vai pegando teoria em tudo quanto é lugar, não tem problema a gente fazer isso. Mas elas não se diluem como a teoria pós-moderna, que você justapõe. Eu não estou justapondo. Estou digerindo teorias. Me interessa saber que uma tese pode ser monográfica ou panorâmica. Entendeu? Nossas teses são panorâmicas, não são monográficas. Mas eu não estou falando que o cara não pode fazer peça monográfica, escondendo a sua posição, faça o que quiser, amigo. Até porque, esse negócio de dar a fórmula, a forma que é o teatro avançado, é um problema do realismo socialista, jdanovista, isso eu estou fora. Quer fazer uma peça bem reacionária? Faça.
Mas é preciso ter um processo educativo, porque é preciso criar condições materiais para que se extingam as peças reacionárias. Então, essa é a questão. A gente precisa criar condições materiais pra que todo mundo sente diante de uma “geleca” reacionária estúpida e fale, “ah, isso aqui é uma ‘geleca’ reacionária estúpida”, não é tirar do cara. Porque o que aconteceu com isso? Isso gerou uma luta dentro do teatro, que é muito ruim, que é assim: está se disputando quais os grupos que tem legitimidade formal de fazer teatro, aí é burro, é reacionário. Mais uma vez é reacionário. “Ah, eu vou defender os grupos que tem uma estética revolucionária”, não amigo, a gente tem que defender a possibilidade de se fazer teatro pra todo mundo. Essa é a bandeira. E os grupos não tem essa bandeira. Vocês tem andado por aí e vocês veem, eles querem defender a bandeira de que um certo número de grupos, que tem um certo tipo de estética devem existir. Essa é a “bandeira da caixinha” de novo, tá errado.
Eu defendo o direito de existir o cara que quer montar um teatro tropicalista de novo, monte seu teatro tropicalista. “Ah, mas ele não está na organização da categoria”, pronto, esse é o problema, não é a peça dele. O problema dele é que ele não tá na organização de luta. E aí a gente fica brigando por estética? Faz todo o discurso político e na hora de fazer a briga não tem categoria, porque você dividiu por estética a luta? O que é isso? Vamos fazer um edital pra grupos de São Paulo que fazem teatro épico? Estou fora! Porque isso não é avançado, isso é atrasado, isso é cair no mesmo lugar. Peça é uma coisa, a briga pelo direito de produzir um objeto estético, é outra. Elas estão intrinsicamente relacionadas, e é obvio que quem puxa essa briga é quem tem condições políticas de fazer essas análises, mas ela não pode ser o lugar que nos separa. Eu não posso me separar do cara que falou, “ah, você não usou os recursos do teatro épico, então você não tem direito de fazer arte”. Não, isso tá errado. E aí a gente cai de novo nas caixinhas, e a gente volta pra administrar. O cara que quer só montar a peça, ele não quer ter um grupo de pesquisa. Ele quer ter o direito de só montar uma peça e ter pessoas pra ir ali assistir a peça que ele montou. Você acha que a sua forma de produção é a única que deve existir? Isso também tá equivocado. Você tem que criar condições materiais de mostrar pro cara, que a forma grupo é mais avançada que a forma produção. Mas não é proibindo a forma produção de existir, ceifando ela, que você extingue. E aí você fica na briga entre a categoria, que é o que eles queriam, e você não discute a base da forma de produção que é a Lei Rouanet, e aí na hora da Lei Rouanet pode. “Ah, não, mas a Lei Rouanet vai para os grupos”, não, você não consegue perceber que é esse tipo de política que faz com que existem formas de produção empresariais, patronais dentro do teatro? Não é, é um dos fatores que permite isso. Então em relação ao teatro de grupo eu acho que é isso que está dado. É preciso sentar de novo todo mundo junto e fazer um grande debate sobre isso. Nestes termos. Daí precisa de tempo, precisa de organização, precisa ter assembleia, precisa ter seminário, é preciso fazer coisas para além da briga imediata do que tá aí.
Qual a importância e os limites do teatro e da arte na luta na luta de classes?
Primeiro, vou falar das coisas gerais. Como potência o processo de transformar tudo em mercadoria, o processo de alienação, o processo da ideologia ele é como se fosse uma cunha da alma, sabe? Do coração assim, que vai tirando as suas possibilidades de subjetividade. E aí subjetividade no sentido de humanidade plena. Quando você se depara com a criação e você cria também, porque o espectador também cria, ele faz conexões, e principalmente aquele que tem acesso à arte, ele eleva a sua subjetividade. E isso não é pouca coisa. Esse detalhe da arte, já a diferencia e a coloca num lugar perigoso por si só. Por isso que ela precisa ser tão organizada, tão domesticada. Por isso ela pode servir a interesses tão vis. Então essa é a possibilidade da arte. Por que dentro das nossas cadeias de fazer escolha, que é uma coisa que o ser humano tem que fazer o tempo inteiro, o processo de fazer escolhas, depende das suas necessidades e das suas necessidades. A arte cria um laboratório de fazer escolhas. Então ela acaba ensinando o ser humano que ele pode fazer muitas escolhas. Isso é pra mim um dos fatores da arte que mais me encantam. Tanto pro bem, como pro mal.
Então, essa elevação de subjetividade quando você está diante de uma obra de arte, ou quando você está produzindo uma obra de arte, você entra num processo que eu vou chamar de “mágico”, mas eu não quero mistificá-lo, mas eu também não quero tirar dele esse caráter único que ele tem. Que é você pegar uma coisa, sei lá pegar um pedaço de madeira e transformar ele em um outro objeto de arte cortando ele, aqueles pedacinhos. Isso é muito bonito, mas não é só isso. Isso é uma das coisas que é importante pra luta de classes, isso é importante. Porque com a subjetividade elevada no entendimento do “eu” como homem e respeitando a subjetividade de todos, eu tenho a possibilidade de falar, “nossa, o mundo não parou”. A possibilidade de criação. E aí pra quem trabalha com História, porque fazer uma peça histórica, essa possibilidade de estudar a história do Brasil, pra inventar o Brasil que a gente quer. Isso dá pra fazer dentro do teatro. Então a gente pode, como na frase do Darcy Ribeiro, “pra inventar o Brasil que nós queremos”, então o que resta é inventar o Brasil que a gente quer, o Brasil e o mundo.
Então dentro dessa perspectiva de arte e luta de classes, você tem como experimentar coisas que na realidade as vezes você não consegue chegar até o fim. E faz parte o exercício de imaginação. Se você não tem a imaginação de como as coisas poderiam ser, você não faz nada, você não dá se quer nem o primeiro passo. Primeiro passo é imaginar que as coisas possam ser diferentes. Isso é o primeiro passo. Você pode dizer, “isso é muito óbvio”, não é muito óbvio. Tanto é que está lá nas teses sobre Feuerbach [de Marx], “não importa só pensar o mundo, mas sim transformá-lo”. Quando o cara vai pra fazer uma oficina de teatro e ele vê uma roupa, ele veste, ele encena, o homem criando o fogo, ele acabou de experimentar praticamente que a possibilidade de mudar coisas da natureza e mudar coisas da sociedade é possível. E isso devolve pro cara o primeiro passo, pra ele poder mudar o mundo, que é falar, “o mundo pode mudar”. E a arte trabalha o tempo inteiro com esse conceito, seja ela do pós-dramático, seja qualquer um que se debruça sobre a arte e que a assiste a arte está vendo isso. Está vendo mudança, está vendo movimento. Então isso é uma característica da arte que está dada.
Outra coisa é pegar o mundo como ele é, porque a gente parte dele, por mais que você parta de um pensamento do sonho, que pra gente aqui da Antropofágica é muito importante, essa coisa dos surrealistas e das experiências que eles fizeram com o inconsciente, nada disso é místico, por que a gente sonha e alguma coisa processa, e as imagens aparecem, aquelas imagens. Ao contrário do que as pessoas falam, não são uma mistificação da realidade, são digestões da realidade acontecendo em milhões de conexões por segundo, que te formam imagens maravilhosas quando você sonha. E o que eu acho que tem de potencial muito grande no surrealismo, se você consegue olhar o objeto surrealista e fazer leituras, você consegue sair na rua e olhar coisas que você fala, “nossa, isso aqui é surreal”. Aquelas leituras surrealistas estão calcadas na realidade. E elas se apresentam daquela forma porque elas forçam você a entender a complexidade daquela realidade. Isso é outro fator primordial.
Então, uma coisa é elevar essa subjetividade do fazer e do espectador e o outra é pensar o mundo como ele é e como ele poderia ser. Que é um dilema humano, não existe nenhuma figura humana, tirando o cara que seja bode, um bode mesmo, que não imagina que o mundo é de um jeito e ele vai ser de outro jeito. Isso a arte também radicaliza nisso. Porque quando você faz o mundo como ele é, você não faz como ele é, porque é impossível representar a realidade tal qual é, então, o cara que está fazendo e o cara que está assistindo, eles já estão diante de uma coisa que é e como ela poderia ser. E por mais que joguem na cabeça dele teorias mistificadoras de que isso não é possível, a experiência dele mostra o contrário.
Outra coisa da arte que eu acho importantíssima, dentro da perspectiva de luta de classes, é revelar as contradições do real. E aí você tem inúmeras possibilidades disso. E daí que fazer uma peça que você fale, e que você faça uma crítica ao presidente da república, o cara fala “não, isso é panfletário”. Depende. Muitas vezes isso é muito bom se você consegue revelar as contradições do real. E o real é premido de contradições o tempo inteiro. E vão dizer: “ah, isso é pós-dramático”. Não isso não é pós-dramático, isso é dialético. A arte tem como colocar o presidente Lula junto com Dom João VI e isso é muito importante. Você a partir do Dom João VI mostra contradições do Lula e a partir do Lula você mostra contradições do Dom João VI e se tiver um operário do lado trabalhando, você vai mostrar as contradições daquele operário, da esquerda e assim vai. Então isso é fundamental na arte.
E eu diria que tem mais uma coisa dentro dessa luta, que é a forma como os grupos se organizam. E aí é específico, estou falando de grupo de teatro porque é o que eu conheço. Mas o que eu poderia falar sobre isso, é que eu acho que a arte nesse sentido tem a contribuir. A forma de organização de um grupo, do mesmo jeito que a forma estética, que você sempre está procurando quebrar e procurando novas possibilidades estéticas, novas formas pra dar conta de novos movimentos do objeto real e num sentido geral o nosso conteúdo seja expressar (o que é conteúdo? É o conjunto das experiências do homem junto com a natureza, isso é o conteúdo de todos, não tem outro conteúdo, são as experiências humanas junto com a natureza). Se a gente pensar dentro dessa perspectiva de conteúdo, a forma como esses caras se organizam, os artistas, e a relação deles com o público, é muito importante, porque ela revela também que outras formas de organização possam também existir. Então quando você faz teatro num lugar onde você não tem patrão, você não tem gente terceirizada e funciona, você tá falando pro cara: “olha, fazer uma coisa sem patrão e sem terceirizado, é possível”.
A forma de organização de um grupo é muito importante. E do mesmo jeito que se tira do dadaísmo uma coisa legal, do surrealismo, você tem as noções, os pressupostos de que o mundo se transforma, de que a sociedade não pode permanecer como está, isso tudo é que mantem alguma unidade programática. A forma como se organizam esses grupos também vai beber das organizações da classe trabalhadora. Os grupos de teatro que acham que estão inventando a roda, está na hora de ler e ver que essa perspectiva de se organizar em assembleia não foi invenção dos grupos de teatro. Tem grupo de teatro achando que foi invenção deles se organizar sem patrão, se organizar de maneira colaborativa, cotizar pra manter o grupo... No mínimo, se a gente quiser pegar de duas fontes diferentes, a gente vai pegar de vários modelos de partido que existem e de vários modelos de igreja também.
Só que tem outra confusão, espontaneísta, que quer planificar a forma de organização de um grupo, quer colocar o sujeito do seu grupo como “O” sujeito histórico. Em determinado momento, o que o teatro notou é que o sujeito histórico do teatro, em determinado momento, como forma de organização, o mais avançado era o grupo; apostou nisso, e apostou certo. Mas isso é uma das apostas, e existem inúmeras variação de como se organiza um grupo e tomara que existam outras milhões de variações. E elas vêm de experiências, a maioria das formas como se organiza um grupo de teatro vêm de experiências de organização dos trabalhadores.
Só que o que parece é que os grupos de teatro hoje estão mais organizados que as organizações dos trabalhadores, alguma coisa se perdeu. Mas, se isso aconteceu com as organizações dos trabalhadores será que esse processo também não está começando a se dar no teatro? Tem os termos clássicos pra falar disso: burocratização, dependência do Estado; estamos começando a ficar dependentes do Estado... E como é que um grupo de teatro sai disso? Não sai, a gente tá num beco... com saída; mas precisa achar a saída, porque eu não acredito em beco sem saída. E se não tem a gente marreta e faz. Então, já teve organização muito mais avançada do que essa que a gente tem hoje de dependência do Estado, que é, por exemplo, estar organizado em assembleias: chama todas as pessoas interessadas nessa peça, as pessoas cotizam e mantém a subsistência dos trabalhadores de um determinado grupo de teatro pra eles fazerem aquela peça. Discute em assembleia, com quem só assiste, com que faz, mistura tudo isso e coloca ali. A Iná [Camargo Costa] conta isso no livro [Nem uma lágrima]. Seria ótimo se os trabalhadores, de maneira independente, tivessem condições materiais de proporcionar que esses grupos existissem para além do Estado.
E aí, não posso deixar de elogiar essa experiência histórica: em determinado momento, no Brasil se apostou que a forma grupo era mais avançada. E começou a se pensar coisas para a forma grupo e criou-se a Lei de Fomento, que é muito interessante. É muito boa, porque é uma lei de Estado e não de governo; isso é o primeiro ponto dela que é muito importante. Então, um governo se reivindicar como “dono” dela é bobagem, porque não é de um governo, é uma lei. Neste sentido, ela é mais estrutural e estruturante que as outras leis. Porque se um governo cria um edital que é melhor que o de fomento, e isso às vezes acontece, na troca de um governo para outro você fica sujeito ao governo de plantão, se ele quer ou não quer fazer aquele movimento. A Lei de Fomento não, ela é pra ser de Estado.
Mas aí vem um detalhe: como que surge a lei de fomento? Organização e luta da categoria, que impôs a um dos governos colocar isso como Lei de Estado. Essa é a história do fomento, não tem outra. E se a gente quiser qualquer tipo de avanço, o que vai ter que fazer? Vai ter que se organizar de novo como categoria, organizar a luta, buscar todos os meios – e não vão ser os mesmos da Lei de Fomento – e tentar enfiar de novo em algum governo alguma coisa que seja de Estado. Isso aconteceu há dez anos atrás e de lá pra cá não aconteceu mais. Outro detalhe que é muito importante: todos os governos desde a criação da Lei de Fomento tentaram derrubar ela. E não caiu porque todas as vezes que ela ia ser derrubada a categoria se organizou e foi fazer as suas formas possíveis de organização de luta. A categoria fez ato estético. É válido? É. A categoria levou isso pra dentro da sua peça de teatro. É válido? É. Mas ela também fez passeata, ocupação, escracho. O problema é que em determinados momentos o fetiche da forma de luta ganha da análise de conjuntura, de que tipo de forma de luta é preciso. Eu não tenho fetiche por nenhuma; precisa pensar qual é a que a gente precisa. “Bom, tivemos um problema, um ataque ao fomento, é melhor ocupar, escrachar, dançar, pintar...?”, tudo isso é válido, mas é preciso juntar em uma assembleia e discutir qual é o que precisa, e não olhar para o que tá mais famoso no mundo: “agora é occupy, então para lutar pelo fomento vamos ocupar”. Não, amigo, você está confundindo! É preciso ter clareza e falar qual é a forma de luta necessária agora pra conseguir o que precisa. E essas lutas são as pontuais.
Essas importâncias que eu dei aqui são algumas e a gente poderia ficar aqui a noite inteira falando de zilhões de importâncias da arte, porque ela tem milhares de importâncias. Outra importância é desestabilizar a crítica historiográfica brasileira oficial e mundial. O cara vem aqui numa peça e fala: “não sabia que o Tiradentes era assim, eu não sabia que o Euclides da Cunha... achei que ele fosse só legal, nunca tinha visto esse lado do Euclides da Cunha”. E assim você vai desestabilizando.
Outra coisa importante da arte é causar tensão entre imagens da indústria cultural e imagens que se contrapõem a isso; entre imagem de uma coisa do passado e uma do presente, isso a arte tem como fazer. E ela já faz. Pegar uma imagem e dar outra leitura pra ela. Outra questão da forma é que ela tem como ser um balão de ensaio de outras maneiras de organização da sociedade. Que é outro problema que a gente herdou do stalinismo maldito, que é achar que a forma de organização comunista é uma forma que se organiza assim e pronto. Não, os caras estavam quebrando a cabeça pras milhares de formas necessárias de organização do mundo. O conselho é uma, a assembleia é outra, e usar todas.
É que nem hoje em dia na educação, tem um problema na educação, que é tipo, “ah, a melhor forma de ensinar é em roda”. Ensinar o que? Tudo está se esvaziando o conteúdo, tudo se esvazia pela administração. Mas é claro, o cara entra na escola às sete da manhã e sai uma da tarde, ele pode começar com uma aula expositiva, depois ele vai na quadra, depois ele tem um processo formativo quando ele vai lavar o banheiro, depois ele tem um processo quando ele discute com um funcionário... Eu falo da educação porque eu fico chocado com a quantidade de escolas que chamam os caras da [Escola da] ponte pra vir falar, e aí eu falo: “ó, tem uma coisa no estatuto da ponte: primeiro, a escola da ponte não tem diferença de salário”. E tem uma escola gigante, burguesa, no meio da cidade: “ah não, essa parte aí a gente não usa”. Ah, então você faz a escola da ponte nos cinquenta minutos dentro de uma aula? E aí tudo o que o cara aprendeu sobre a liberdade dele, ele desfaz quando ele joga o papel no chão e fala: “escrava, limpa o meu papel”. Então não faz sentido. Essas junções são pós-modernas, que são essas de coisas irracionais de se juntar.
Então, essa coisa da educação: “ah, é em roda agora. Agora a aula é em roda”. Mas você está passando as coisas de maneira vertical, então assume! E esse é o problema. O maior problema de lidar com o governo que está aí é esse: é que turvou, tem uma nuvem de fumaça, ele é um governo que “governa em roda", mas que mantém a aula expositiva com o poder só do professor. Aí você fala assim: “ah, mas qual é a proposta revolucionária que você tá falando aí?” É em roda, é expositiva, é em triângulo: cada lugar, cada necessidade vai gerar uma possibilidade; cada possibilidade vai gerar uma nova necessidade. Portanto, eu vou brincar com todas elas. Se eu preparei um seminário, eu vou fazer seminário, terminar, e depois a gente vai debater. Se tem muita gente é legal ter um mediador; se não tem muita gente, não precisa de um mediador. Se é uma assembleia com cinco pessoas, não precisa ter inscrição; se tem cinquenta, tem que ter inscrição. Se tem alguém que está manobrando, precisa ter uma mesa que entenda disso e não deixe alguém manobrar. É muito simples. Isso sim é ser moderno: é olhar cada vez o real e ver o que precisa pra resolver um problema real. Vai estar sempre em movimento: quem é moderno está sempre em movimento.
Agora, não é pegar o fetiche da forma e falar: “agora é em roda”. Esse é um problema grave da educação, da cultura, das organizações dos trabalhadores. Burocratizar, em certo sentido é isso: é assumir uma forma como fetiche e colocar ela em um plano reto para todas as coisas. E a gente sabe que quem fez isso foi o stalinismo. Enquanto o Lenin estava vivo, o Teatro de Arte de Moscou do Stanislavski estava funcionando. Ninguém falou: pára isso aí! A liberdade religiosa na Rússia no começo da revolução era gigante, porque eles tinham como pressuposto que precisava criar a materialidade onde a religião não fosse necessária; isso era a ideia dos caras. Não era sair cortando cabeça de pessoas que são religiosas, isso foi a ideia da Igreja no período da Inquisição: “você não é da minha religião, corta a cabeça”.
Outra coisa que na luta e a arte também têm que é interessante é: quando você faz teoria, você precisa investigar; o método investigativo é feito com perguntas. Quando você escreve a teoria, o método expositivo é feito com perguntas e respostas. E, portanto, essas respostas vão sair de linha mais cedo ou mais tarde, elas vão dar conta daquela realidade. O Marx escreveu uma coisa e ele cansa de dizer que aquilo serve pra entender o capitalismo; se você quiser entender a Idade Média, algumas ferramentas vão servir, mas lá é outra coisa. Ele não escreveu a história nem o funcionamento da Idade Média. Ele entendeu um processo, mas ele se debruçou sobre o objeto real dele, que era o sistema capitalista. É sempre preciso fazer a análise desse objeto em movimento. Isso não significa cair no reformismo. É diferente o reformismo, é outra proposta. A arte também trabalha com esse tipo de material, e essa coisa da arte ser um processo é uma das descobertas mais importantes. Porque você sabe que o Terro e miséria I, é diferente do II, e que ele está em processo, que vai mudar a conjuntura, vou me deparar com outros objetos, outro ator vai ler um outro livro, e a gente vai modificar aquela obra. E a outra que foi feita dois anos atrás, aquela cena caiu. Mas, no momento em que faz, você precisa fazer ela com respostas, com posição e com convicção. Então é isso: investigação se faz com pergunta, se faz com dúvidas; ação política e apresentação de peça se faz com convicção. Isso eu também acho fundamental que as pessoas entendam.
Eu fiquei dez anos na USP, de 1998 até 2008, e eu lembro de um Zeitgeist, espírito do tempo dos alunos, que era assim: “ah, mas eu não sei, eu até concordo com aquele partido, mas eu ainda não estudei tudo pra saber se eu devo estar ali ou não”. Mas você nunca vai estudar tudo. Vai lá, entra no partido, erra e depois sai. Se não errar, fica. Agora, você quer ficar “punhetando” sobre a política universitária ou você quer interferir na política universitária? Se você quer interferir, se junta... ao partido, à federação anarquista, se junta com pessoas que também querem interferir, senão você não vai fazer nada, vai ser inútil dentro disso. Você não vai parar o seu processo de crítica ao partido, à federação, ao agrupamento qualquer que seja. Se você fizer uma ação sem análise teórica correta, a ação também não vai ser correta. Tudo bem, a gente está sujeito a isso o tempo inteiro: os partidos, as organizações operárias, dos trabalhadores fazem análises equivocadas e tem ações equivocadas. Talvez, do ponto de vista da história da humanidade como um gibi, isso seja o mais interessante. Que é você ver: “puta, naquele momento a corrente errou e fez tal coisa”, e aí se a corrente permanece no erro, você se retira. Se ela faz uma autocrítica e entende, não é o fim do mundo. É isso que é fazer política: é fazer essas escolhas. É analisar as possiblidades e necessidades dentro de um complexo, ora você vai acertar e ora você vai errar. Isso tá dado pra gente.
Mas, põe uma coisa na cabeça, que é o que eu falava pros cara lá dentro [da USP]: “cara, não adianta você querer aprender tudo da universidade, porque você não vai aprender”. Concorda? Então, amanhã os caras vêm desocupar a reitoria: você foi impulsionado a ter uma atuação política, e faça ela com convicção: ou esteja do lado da polícia, ou esteja do lado dos caras que estão aqui; ou esteja em outro lugar. Mas a ação política você faz com convicção, é uma atitude convicta, depois você tem que avaliar. E fazer uma peça de teatro é isso: você ensaia nove meses, inventa novecentas cenas e chega uma hora que você fala, “essa cena fica”. Por mais em processo que esteja, naquele dia aquela cena fica, pode ser que na semana que vem ela não esteja, mas quando o ator sobe lá pra fazer aquela cena, faz com convicção. É aquele momento, o cara sentou na sua frente, faz aquela cena, depois eu corrijo. É que nem agora, é uma entrevista, é uma produção teórica; eu considero entrevista uma produção teórica. Você faz com convicção, depois lê e com certeza vai falar: “caralho, quanta bosta eu disse”. Mas aí eu vou falar: “não, eu não vou falar com ninguém até que eu saiba tudo o que eu preciso falar”? Não. Isso a arte faz, a teoria faz e a luta dos trabalhadores exige isso. E aí, você sabe que o maior vício nesse tipo de luta é com o professor universitário e com o aluno. A classe trabalhadora nem cai tanto nessa esparrela, ela cai em outro tipo de demanda, mas a luta estudantil, que também faz parte da luta de classes, vive nessa esparrela; é o estudante que nunca tem convicção. Dá vontade de falar: “você é um idiota”.
E aí nesse sentido, se tem alguma coisa de todas, que aproxima como símbolo, e aí a gente tá falando de arte de novo, que é uma figura que eu acho legal o teatro falar, porque ela é muito forte simbolicamente, é o Che Guevara. O que fascina as pessoas no Che era a convicção com que ele tomava as atitudes políticas dele; só que muitas delas foram completamente equivocadas. Mas uma coisa ele tinha, que fascina muitos militantes que era a convicção: “vou fazer a revolução na África com quatro pessoas”.
Eu acho que o teatro também pode estudar a teoria contrarrevolucionária, porque sem teoria contrarrevolucionária não tem prática contrarrevolucionária. O teatro pode estudar, brincar com isso e colocar em cena. Eu acho legal os grupos de teatro se dedicarem um pouco mais à teoria contrarrevolucionária, como a gente tem feito. “Ah, eu quero saber o Heidegger, saber de todos os seus filhotes contrarrevolucionários”. É isso. Daí você vai lá e brinca com essas teorias contrarrevolucionárias. Inclusive as estéticas, que cabem dentro de uma moldura épica e tudo mais. Então, isso é outra coisa importantíssima, porque a contrarrevolução também tem teoria contrarrevolucionária, não é um espírito do mal que sempre dominou e que rondou a humanidade. Pra eles talvez seja inerente do ser humano essa briga infinita.
O que a gente tem detectado de muito interessante é: tratar do conteúdo da história, porque essas imagens do passado, reverberando no presente, ajudam a mostrar várias contradições e a gente tem feito isso. Dá trabalho e às vezes a peça fica difícil de ler, eu tenho plena certeza disso, mas não porque ela quer ser hermética: é porque ela tá dando conta de uma coisa complexa e a pessoa vai ter que ter um pouco de paciência. Marx nunca pensou que a peça tinha que ser assim, “você é o proletário, eu sou o patrão”, “você é do bem, eu sou do mal e acabou a peça”. Isso não é uma peça de teatro. Tem peça que é assim, não tem complexidade. E quando você põe um pouco de complexidade, exige um pouco de complexidade de quem está assistindo e você deixa espaços abertos de pensamento. Claro que a gente deixa também, mesmo que não queira, não tem como fechar, porque o cara vem com outro referencial, não precisa se preocupar em fazer isso, isso já tá dado.
A Antropofagia, no seu celeiro antropofágico, tem muita coisa a nos ensinar; a outra coisa é a estrutura épica-dialética que o Brecht propôs, que eu acho fundamental; a outra é o teatro de revista: o teatro de revista tem muito a nos ensinar, porque é uma técnica de passar em revista a história de um ano atrás. Eles criaram compadre, comadre, falsa história, história verdadeira, número de cortina, número de passarela, eles criaram uma série de coisas que têm que ser usadas. Número de cortina o que é? stand up comedy foi lá e fez um número de cortina. Olha como os contemporâneos pós-modernos são sempre um recorte minúsculo de coisas populares ou modernas.
Eu acredito que a visão panorâmica é necessária no processo de classe, é superimportante. É claro, o cara que desenvolve o número de cortina como o stand up comedy é bom, porque eu vou lá, assisto e falo: “nossa, olha lá, ele desenvolveu uma técnica só pra fazer isso”. Você vai lá e põe junto dessa outra. Então, na antropofagia a gente tem todas essas possibilidades de devoração, sempre entendendo, como o Oswald de Andrade, que é “contra a consciência enlatada”. Devorar é uma coisa, você me impor uma consciência enlatada é outra. Isso é rico. E tem uma coisa na antropofagia que é muito legal, que é a contribuição milionária de todos os erros, que eu também acho que é bom todo mundo aprender. E a história mais contada é a da química: foi por causa da alquimia, os caras quererem transformar mijo em ouro, bosta em diamante, e transformaram isso em química; e é bom ter química, poder saber fazer remédio e fazer coisas que podem ser capital genérico pra humanidade. Então, isso é antropofágico. O teatro épico nos dá essa noção histórica, essa possibilidade de poder trabalhar um quadro, que conte um fragmento, mas que esteja ligado a todos os outros e que esteja falando de vários assuntos. Ele liga a possibilidade da experiência dos trabalhadores, tem a experiência histórica ali dentro, você tem os gestus, tem milhares de procedimentos que o Brecht desenvolveu de dramaturgia, de trabalho de ator, que são muito importantes.
O Stanislavski eu acho fundamental o trabalho do Stanislavski de análise ativa, super-objetivo da peça, o ator conhecer isso. Não aparece nas nossas peças, mas o ator tem que entender como é esse salto qualitativo do drama, como é que pode se saltar do drama pra essas outras experiências, é importante entender esse lugar. E o Stanislavski trás pela primeira vez essa possibilidade contemporânea do ator experimentar, improvisando, e entender realmente o que está fazendo. Ele deixa de ser o ator que ficar cumprindo ordens de um diretor ou de um produtor e vai experimentar o que vai fazer em cena. Não é o Stanislavski no sentido de manutenção do drama ou de identificação; não é desse Stanislavski que eu estou falando, é o Stanislavski que cria um estudo de experimentação teatral. Isso é fundamental nele, possibilita depois um avanço. E a outra coisa em cena que é fundamental pra gente é o processo rapsódico do Macunaíma: essa ideia de coisas que se acumulam e se perdem, essa coisa do improviso que tem na música. Então, essas experiências todas, quando o cara está diante disso em uma peça, não tem a plaquinha dizendo cada pedaço que faz parte dessa experiência, porque elas são usadas conjuntamente pra produzir alguma coisa. Mas, de alguma forma, num teatro em que você mostra o processo, e isso também é épico, você está revelando coisas e processos que o cara pode usar pra analisar na hora de lavar a louça e na hora de escolher ou não estar numa greve. Então, isso tudo tá dado assim.
E aí eu acho que essas coisas, a forma de produção, os grupos, quando a gente ocupou a Funarte e ficou uma semana lá dentro, foi uma experiência muito boa, inclusive pros militantes de esquerda que estiveram lá e viram que os grupos se organizam. Porque tinha organização dos grupos, que estão acostumados a dormir juntos, comer juntos, manter organizado, arrumado. Mas faltou, no meu ponto de vista, uma direção política. E também coragem pra se assumir uma direção política. Mas não pode existir uma direção política se não tiver antes um programa. Não uma carta; um programa. E quem tinha que puxar essa coisa do programa era de certa forma a direção, porque a direção não é uma coisa estanque: “somos a direção política, agora vocês estão dirigidos”. Não! A direção é uma necessidade que aparece, e quem é a direção hoje pode ser que não seja depois. Mas é muito mais fácil entender as manobras se você entende quem está dirigindo. Porque existiu “dirigismo” dentro da Funarte, mas como não existia uma direção, uma clareza política da sua organização, e não existia um programa e nem um estatuto, tudo era válido lá dentro.
E aí, saindo de lá a gente perdeu, porque o que mais se aprendeu dentro da Funarte foi sobre a forma de luta, e a gente ficou em determinado momento maravilhado com a forma de luta e esqueceu – quando eu falo a gente é pra me incluir, mas alguns sim e outros não – porque estavam ali. Tanto é que alguns chegaram ali e falaram: “que legal, agora eu vou morar aqui”. “Não, não vai morar aqui, não quero morar aqui, entendeu? Aqui não é bom pra morar, é outra coisa o que a gente veio fazer aqui!”. Mas isso era a minoria, tem que se falar, foi um momento de avanço.
Agora é a hora de pegar toda essa experiência histórica – se a gente tem alguma coisa pra fazer nesse exato momento é olhar pro que está aí, nas três esferas de governo – fazer uma análise de conjuntura, de onde estão vindo os ataques (porque eles estão vindo) junto com os trabalhadores da cultura, fazer uma boa assembleia, pra fazer uma análise de conjuntura desses ataques e, a partir daí, começar esse processo de discutir categoria, discutir classe e, a partir de lutas concretas, materiais; são essas luta concretas que vão nos unir de novo. E elas já estão dadas aí de novo: a gente tem eleição agora, a gente não sabe o que os governos vão fazer com as leis, qual o plano deles pra cultura. Então era o momento da gente já estar se organizando e pensando: “ó, das possibilidades que vão ter pra governo, que estão dadas, vamos estudar o programa dos caras e já começar a pensar como a gente vai se mexer, assim que eles começarem”.
Mas isso é uma coisa que a gente vai precisar conversar entre os grupos, ver como isso pode ir pra mais pessoas. E a própria estrutura de grupo é muito boa por um lado, mas é muito ruim por outro. Porque o trabalhador da cultura é o cara também que trabalha na rede globo; é o cara que faz o cenário do teatro comercial; é o bilheteiro que faz a bilheteria do cine Bradesco. Se não dialogarmos com esse povo não tem condição, porque eu estou falando de trabalhador da cultura. Não faz sentido um grupo de teatro fazer greve sozinho. Mas põe o bilheteiro do cinema em greve, o cameraman em filme de greve, o diretor da novela em greve – claro, ele não vai, porque ele é outro escalão – mas o cara que trabalha lá na novela, põe esses caras em greve pra você ver se não existe essa greve. Claro que existe uma greve de trabalhadores da cultura! Se a perspectiva é o seu umbigo, o seu grupo não tem mesmo como fazer essa greve. É meio estúpido os grupos de teatro de São Paulo fazerem greve, não faz sentido, mas aí precisa ver. Ou o cara que está na bilheteria do cine Bradesco tá ganhando muito dinheiro? Eu não acho que seja isso. E aí você fala: “Ah, na mão de quem está o sindicato?” Esse sindicato dos artistas é zuadíssimo, então precisa pensar em disputar o sindicato pra poder dar um avanço, não vai avançar só os grupos de teatro. E você não vai convencer o cara que está vendendo o ingresso que ele ganha a grana dele fazendo telemarketing cinema a vir pro seu grupo de teatro; nem o seu grupo de teatro cabe todas essas pessoas, e nem porque ele tá ali fazendo o negócio você vai avacalhar com ele. Não é um trabalhador da cultura do mesmo jeito? Então precisa expandir essas coisas e tudo isso é consciência de classe... Só que aí, já entramos em outro capítulo...





quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Entrevista com Thiago Reis Vasconcelos, diretor da companhia de teatro Cia. Antropofágica - Parte 1

Publicamos abaixo a íntegra da entrevista realizada com Thiago Reis Vasconcelos, diretor da Cia Antropofágica, realizada originalmente pela Casa de Estudos e Pesquisa Hermínio Sacchetta, em conjunto com o Grupo de Estudos Cultura e Marxismo, e publicada com cortes na Revista Contra a Corrente no. 7. Em breve publicaremos as demais partes da entrevista.

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Contra a Corrente – A Companhia Antropofágica está há alguns anos trabalhando na trilogia “Alegria em Pindorama”, que trata da história do Brasil dividida em três partes: Colônia, Império e República. Qual a importância de fazer uma trilogia sobre a história do Brasil?
Thiago Vasconcelos – A companhia tem dez anos e sempre esteve neste projeto [de resgatar a história do Brasil]. A primeira peça que fizemos chama “Macunaíma no país do Rei da Vela”. Pegamos o “Macunaíma” do Mario de Andrade e o “Rei da Vela” do Oswald de Andrade e fizemos uma peça de rua, portanto, já falava do projeto de brasilidade que tínhamos. Fizemos uma série de outras peças que também diziam respeito a isso.
A importância fundamental é causar uma tensão com a historiografia oficial brasileira, que tem alguns pontos muito falhos. O primeiro é que sua perspectiva é a da história da manutenção do poder: as histórias de imperadores, reis, essas são as relações; e a gente tenta, na trilogia, trazer essa história do ponto de vista da luta de classes. Isso já não é pouca coisa; há pouquíssimos espetáculos, peças e reflexões nesse sentido. Segundo, que foi fundamental fazer uma investigação da herança colonial, que é muito forte e trás as especificidades que o modelo capitalista tem no Brasil. Dialogamos às vezes com gente que não é do Brasil, e existem coisas aqui que as pessoas sequer entendem. É um país muito diferente, se você pensar da perspectiva da Europa, que passou por uma revolução burguesa, revolução francesa, e nem sequer esse processo existiu aqui, então a gente tem mecanismos diferentes.
Durante toda a trilogia trabalhamos com o confronto entre a colônia, império e a própria república – não a república recente – mas sempre confrontando politicamente com o presente. Não há cenas historiográficas que apenas reproduzem aquela realidade; é sempre numa perspectiva de como isso se traduz e como chegou até o presente. Nossas peças partem da história, mas têm como pesquisa e assunto os dias de hoje, porque ficar fazendo uma mera ilustração do que existe, para nós é um problema muito grande. Isso é a base que fez nos interessarmos [por fazer a trilogia]. Um dos pressupostos que temos é o teatro épico e o teatro dialético, que têm como ideia partir de fatos históricos; quando se trabalha a partir de fatos históricos e da realidade, há uma materialidade histórica à qual você está se referindo e não só conceitos, subjetividades, que poderiam levar a pensar um teatro apenas fundado em um “ponto de vista”.
Dentro dessa relação [dos fatos históricos e o teatro épico] podemos pensar o que se mantém e o que se modifica, e a partir disso [questionar] algo fundamental, um discurso muito difícil hoje e que “pega” muito no teatro e na estética, que é de que “o mundo mudou”. Realmente, o mundo mudou, está em movimento; mas, a partir daí vem um “portanto” que é falso: “portanto, essas categorias [do teatro épico e dialético], essas coisas que vocês estão usando não servem mais, isso é velho, isso servia para tal lugar.” Essa ideia é falsa, porque o mundo mudou, mas muita coisa permaneceu. Por exemplo, a propriedade privada dos meios de produção permanece. Há mudanças históricas no mundo, mas a manutenção da propriedade privada dos meios de produção continua valendo, e as análises a respeito disso têm que ser pensadas.
É claro que a forma como se dá a propriedade privada dos meios de produção hoje tem variações em relação a como era há trinta ou cem anos atrás, mas ela não acabou. Portanto, esse discurso do fim da história, as desconstruções derridarrianas [referentes a Jacques Derrida], essas bobagens todas partem do pressuposto de que o mundo mudou, e é como se um teatro que tivesse como base de estudo a teoria do Marx fosse uma bobagem. Mas esse pressuposto de que o mundo muda e que as teorias precisam dar conta do movimento real, do objeto real em movimento, já está em Marx; não existe análise parada num processo de peça épica, dialética. E é impossível falar de peça épica, dialética e Brecht sem falar em Marx, porque é dali que isso saiu. Isso é fundamental. Dentro do nosso processo de construção das peças, esse estudo teórico é muito importante: o estudo da história do Brasil, a análise de conjuntura, de como isso hoje aparece na sociedade, e que tipo de poética, que tipo de estética, que tipo de treinamentos, que tipo de técnicas são necessários para contar essa história dessa maneira.
CaC – Quanto à República, em relação à ditadura militar, o que vocês estão considerando como mais relevante ser resgatado a partir dessa perspectiva, de trazer isso pro presente, como fio de continuidade; o que que sobra pros dias de hoje?
Thiago - Quando você vai discutir ditadura militar, existe uma opção de simplesmente pegar a historiografia que existe de maneira idealizada e fazer “Anos Rebeldes”, que é o que a Rede Globo fez; mostra toda uma “comoção nacional”, a “batalha das pessoas pela liberdade” e tudo mais. É um recorte, que vem dos fatos também, que tem uma posição politica muito clara e ideológica por trás.
Outra maneira de fazer isso é se debruçar sobre a historiografia e ver como foi denominado esse período, e aí você vai cair em duas coisas logo de cara: “ditatura militar” ou “a revolução redentora”. A primeira coisa que fizemos foi um estudo: o que é ditadura? Fomos ao bom e velho Marx, e, claro, isso parte de uma escolha sobre a partir de qual categoria teórica você irá contextualizar. Marx define ditadura como a hegemonia de uma classe no controle do Estado e do poder. Logo, chegamos à conclusão de que tem, como princípio, uma ditadura hoje; mas é muito importante definir a diferença da ditadura de hoje pra ditadura militar, e também que diminuí-la chamando-a só de militar é um problema muito grande. Foi uma ditadura civil e militar, trabalhada nesses dois âmbitos.
Então, se a ditadura é a hegemonia de uma classe no poder e sobre a outra, temos que olhar esses dois períodos – já que a gente trabalha nessa perspectiva com o presente – e entender que há uma continuidade. Existe um período de 64 a 84, onde essa ditadura era militarizada e as formas necessárias de manutenção dessa ditadura foram diferentes das que se apresentam hoje. Então combater a ditadura de hoje é diferente do combate à ditadura militar. Isso é outra coisa que pra gente é importante, porque há também todo um discurso que afirma “não, a ditadura não acabou, as coisas continuam acontecendo do mesmo jeito”. E, é claro, a violência, se a gente fizer uma pesquisa em número, pode ser que ela seja maior; o número de mortos provavelmente é mais truculento; a tortura continua; mas é diferente enquanto proposta de Estado.
Quanto à ditadura militar, vamos trabalhar muito buscando elementos da própria indústria cultural – desde o esporte, movimentos culturais como o movimento hippie, o movimento do esquerdismo que se deu no Brasil. É preciso lembrar que a ditadura militar, no Brasil, é um golpe sobre o populismo. Isso é fundamental entender. Às vezes, a própria visão idealizada diz que a ditadura militar é um golpe sobre uma “tentativa comunista”. E não era isso que estava dado. O que estava dado, antes da ditadura militar, era uma tentativa de golpe ao JK, uma tentativa de golpe ao Jango. Temos os três J: o Jango, o Jânio e o JK, e é em cima dessas figuras que é dado esse golpe. E aí percebemos que nem a proposta populista do Jango “passava”. É criado um mito que deixa a coisa mais nublada quando parece que tinha alguma coisa muito além dessa proposta moderada; e aí isso leva a equívocos, em que são criados um monte de “heróis” do período da ditadura. Em uma cena que estamos fazendo há uma música, não lembro se é do Cazuza, Legião Urbana, se é do Belchior, acho que é do Cazuza; mas isso é meio espírito do tempo da ditadura, que é aquela coisa: “Meus inimigos estão no poder”. [“é o Cazuza, Ideologia”] Isso! Mas essa ideia se repete em algumas músicas na indústria cultural contra a ditadura, isso se repete em muitos momentos: “Meus inimigos estão no poder.” Aí de repente eu olhei, e falei “puta, é foda, os inimigos estão no poder”; e aí os “ídolos” que a ditadura criou, “aqueles” que a derrubaram é que estão no poder hoje. Aí eu falei “Fodeu, tá uma bosta agora porque os meus amigos é que tão no poder.” É, porque se você pensar quem eram os inimigos – não que os inimigos tenham deixado de estar no poder, mas eles estão agora no poder junto com os “amigos”. Então, a gente tem uma das figuras de final de ditadura, que aparece quase como o “Sassá Mutema de São Bernardo”, que é o Lula, “o herói”, ele tá ali, e ele era um dos do coro do “meus inimigos estão no poder”. Se a gente pensar hoje numa imagem que ficou forte, a gente tem o que era um “amigo”, que é o Lula, junto com o Maluf; então a coisa ficou mais cruel, porque agora são “os meus inimigos” e “os meus amigos” que estão no poder. E, portanto, eles sabem da onde vem, pra onde vai, e o sistema ficou mais “afinadinho”, sabe? Toda essa movimentação de esquerda da época da ditadura, essa “inteligência” que pensou isso, toda ela foi pro poder. Tem o Fernando Henrique no poder, a Dilma no poder, e isso faz com que essa música precise ser recantada, só que nessa chave. É a partir disso que estamos trabalhando a ditadura: olhar dessa perspectiva o que aconteceu nesse momento histórico – é claro, sem tirar em nenhum momento a perspectiva humana, do grau de crueldade dessa ditadura, que foi de tortura aberta, o AI-5, e isso não pode ser esquecido.
Diria que é fundamental isso estar em cena, mostrar como foi um período difícil – e não é que eu esteja contemporizando ou diminuindo o valor dessas pessoas que lutaram durante o período da ditadura com muito empenho; foi toda essa luta que derrubou a ditadura. Mas a gente precisa entender como se dá esse movimento – que é mais ou menos o que o Chico de Oliveira disse: são os operários aparecendo de maneira forte de novo, as comunidades de base organizadas pela igreja e os que sobraram vivos da luta da militância de esquerda no Brasil. Ele diz que essa é a base, o extrato básico do PT, e mais alguns que lutaram no campo da academia, intelectuais, essa coisa toda. A questão é como que esses que sabiam que os inimigos estavam no poder de repente hoje estão no poder, repetindo coisas estruturais desse mesmo poder. Claro, não estou de maneira nenhuma dizendo que é a mesma coisa: o exército não age da mesma forma, as formas de dominação se transformaram bastante, e não acho que seja melhor ter vivido aquelas formas de dominação porque talvez a gente nem pudesse estar falando isso aqui. Mas, coisas estruturais que eram criticadas naquele tempo foram abandonadas, um monte de bandeiras foram abandonadas ou transformadas em bandeiras, digamos assim, cínicas. A reforma agrária é uma delas: hoje se faz um pouquinho ali, um pouquinho aqui; é o reformismo do reformismo, é reformar o reformismo: o que já era uma bandeira da Revolução Francesa, da revolução burguesa, vira o “etapismo do reformismo do reformismo”. Sei lá, não sei nem explicar, dar nome pra isso.
Investigar esse período é muito interessante, porque a imagem – e eu estou falando de imagem no sentido de espetáculo – que temos ao assistir uma minissérie da Globo, é que existiu uma unidade pra derrubar uma das formas da ditadura do capital, que é essa forma militarizada de 1964 a 1984. Quando essa forma cai, parece que caiu a ditadura do capital. E isso é importante ser dito na transição desse período: caiu a ditadura civil-militar, ou seja, caiu uma das formas da ditadura do capital, mas não caiu a ditadura do capital, isso é bem diferente. São pouquíssimos filmes, peças, textos que dão conta de pensar assim. Porque aí entram conceitos que são muito interessantes quando surgem, mas se você vai investigar de onde vem o conceito de totalitarismo, vê que é quase um conceito pra colocar Hitler e Stálin no mesmo lugar. Não que Stálin tenha algum valor revolucionário, mas dizer que Hitler e Stálin são a mesma coisa é um problema, porque falseia a história. Então, uma peça que trate da história da república, da colônia, do império, é sempre uma peça que exige uma complexidade de milhares de camadas, porque é disso que estamos tratando.
De outro lado a gente pode cair também, de duas formas: pode-se fazer uma peça que simplesmente levante fatos, e ela vira quase um “Globo Repórter” sobre a ditadura: apresenta fatos, fatos, fatos e, no final, com uma música que toque – que faça o papel de um editorial e de uma leitura política que fique ali e você nem perceba. Outra maneira é fazer uma história da ditadura usando ferramentas stalinistas do realismo socialista. Criam-se os tais “heróis necessários” da ditadura, e é como se de um lado houvesse as pessoas todas que lutavam contra a ditadura; isso tira a complexidade. Porque um primeiro nível da complexidade é esse: o que caiu foi uma das formas da ditadura do capital, não foi a ditadura do capital. Mas fazer uma peça e falar exatamente isso, eu não acho que seja o mais interessante; isso tem que estar pressuposto na hora de criação da cena. Em um grupo que debateu e chegou a essa conclusão vai criar coisas que dialoguem e que trabalhem a partir dessa ideia. Estamos trabalhando a ditadura a partir disso.
Trabalhamos muito com a poética do surrealismo, do dadaísmo, das vanguardas do início do século, que são coisas que o realismo socialista condenou e afirmou serem mistificações. Depois, o pós-modernismo se apropriou de todas essas vanguardas, esvaziando-as politicamente. O Lukács tem uma concepção interessante de que a obra de arte parte do factum brutum. Então, partindo desse fato bruto, que pode ser cotidiano, mas que não serve como categoria de análise, é possível derivar coisas que ajudem para a análise de um tempo e para a análise do presente. Por exemplo, a música do Geraldo Vandré [Pra não dizer que não falei das flores] – e ela é importante porque foi um marco, é simbólica. Se analisarmos sua letra: “Vem vamos embora, esperar não é saber, quem sabe faz a hora...” podemos pensar que quem fez isto foi a direita. Fazemos este processo de inverter algumas coisas, tirá-las de lugar: fizemos uma cena com essa música em que ela é falada na organização do exército que vai reprimir uma manifestação, com o capitão dizendo “Sentido, vem vamos embora!” E os soldados respondem “Vem, vamos embora!”, etc. Pronto, você faz a cena e vê que é uma ideia”. Aí vai na internet, dá uma “sapeada” e acha um vídeo de um cara da PM hoje em dia cantando essa música junto com o Geraldo Vandré. Existe esse vídeo! Então vemos como as coisas são apropriadas.
E, claro, corre um  risco ao fazer a crítica assim. Só que estamos fazendo essa crítica num momento da comissão da verdade, com uma série de intelectuais debatendo as questões de 64-84. Colocamos mais um elemento dentro disso, então a gente não vamos pro lugar que é esperado quando se fala da ditadura. Não é uma questão de diminuir a importância da música do Vandré naquele momento, mas é usar justamente isso pra entender porque que isto faz parte de um projeto que, ao chegar em 1984, falamos: “Puta, tiramos o canhão de trás da nossa orelha e a baioneta do peito, e alguma coisa continua de muito ruim”. Aqui no Brasil, especificamente, e no mundo todo também. Tem que dar conta de falar isso quando falamos do período da ditadura, e de todos os outros; mas a ditadura está próxima no imaginário, e a disputa simbólica do que foi a ditadura está muito próxima. Então, queremos trabalhar bastante com isso.  A disputa desse imaginário da ditadura tá aí na nossa porta.
CaC: Você acha que para isso é necessário fazer um balanço da esquerda?
Sim, com certeza. Um balanço da “sopa de letrinha” da esquerda. Estamos começando a estudar, mas tem pouca coisa sobre isso. Para entender o que aconteceu é necessário pegar o material de análise das várias correntes de esquerda e fazer um balanço. Porque há um monte de gente indo pra luta armada; no mesmo período um monte de gente indo fazer trabalho de base na fábrica, outro monte indo fazer trabalho de base junto com a Igreja Católica; é preciso entender como isso se deu e como se desdobrou. Porque algumas dessas figuras, que eram de grande expressão na luta contra a ditadura, ainda estão por aí, e a maioria delas está no poder hoje. O Serra, por exemplo, que era presidente da UNE (ele que salvou o arquivo do CPC).
Então, há uma série dessas pessoas que estavam ali, e que naquele momento estavam combatendo essa forma da ditadura do capital. Acho que o ponto chave é: entender quem estava combatendo essa forma da ditadura do capital – e isso, é claro, que todo mundo deveria estar fazendo, a não ser os fascistas mesmo, que achavam que aquilo tinha algum valor – e quem estava combatendo essa forma e também pensando no combate a todas as formas da ditadura do capital. Fazendo uma análise nada complexa, no mínimo essas duas possibilidades estavam presentes. Isso está em qualquer livro. Mas seria legal fazer um estudo mais aprofundado disso, porque você tinha também aquelas pessoas que estavam combatendo só em nome dos direitos humanos e de uma série de coisas, e que nem sequer estavam pensando que aquela ditadura tivesse alguma coisa a ver com a estrutura capitalista. O interessante é mapear tudo isso, que de alguma forma vai virar um grande “carnaval”. São essas figuras que tem que estar presentes.
CaC: Você comenta sobre estas forças que estavam presentes nesse período, e, no âmbito da indústria cultural, por exemplo, o Gilberto Gil, que foi pro Ministério da Cultura; e hoje o Caetano Veloso, que aparece na propaganda do [candidato a prefeito pelo PSOL no Rio] Marcelo Freixo, são figuras que também eram ícones da época. Você faz algum balanço, tanto da indústria cultural mais característica, tipo Jovem Guarda, etc., mas também da série de conflitos artísticos e políticos que estavam em jogo naquele período? Tem algum balanço nesse sentido, como vocês pensam a tropicália a partir desse contexto? Que reflexo e que influência que têm pra vocês hoje?
Thiago: Uma das bases da Tropicália é a antropofagia. E eu falo de antropofagia para além do entendimento do Oswald de Andrade. A gente poderia colocar até o modernismo como parte de uma coisa maior, e nesse projeto moderno, modernista, de pensamento – a gente passa pelo Maiakóvski, Meyerhold, Oswald de Andrade, Mario de Andrade, Brecht, etc. E dentro disso que a tropicália pegou, de alguma forma ela dilui politicamente, e faz parte desse coro que combatia essa forma da ditadura do capital. Naquele momento histórico, esse limite que eles apresentavam de combate àquela forma e também a algumas moralidades burguesas e recalques sexuais – isso tem muito a ver com a tropicália e com o movimento deles – isso tudo tinha um sentido. Era também uma coisa contra a qual se lutar. O problema da tropicália é  esse limite, porque ela viu a coisa até um certo pedaço. E logo ela que tinha um discurso de complexidade, de absorção de todas as teorias, de todos os ismos, de todas as formas e de todos os conteúdos. A Tropicália é muito careta e muito limitada, porque ela não dá conta de olhar para além desse período que ela estava vivendo. Esse pedaço que combateu, acertou ao fazer isso. Mas é diferente de algumas pessoas do mesmo tempo que deram um passo a mais. Uma dessas pessoas é o Glauber Rocha, que conseguiu ir um pouco além de alguns desses limites.
É claro que o combate à moralidade burguesa é fundamental no cotidiano, porque o processo de hegemonia e ideologia atravessa todas as relações. Desde as relações mais simples, de como lavar uma louça, até a administração do Estado e as suas politicas exteriores. E tem uma outra coisa: o combate da tropicália à moralidade se dá no momento mais propício a isso – é muito diferente do momento em que o Oswald de Andrade propõe a Antropofagia, em 1928, e o movimento modernista propõe a semana de arte moderna em 1922. O horizonte de expectativa do que era agressivo à moralidade burguesa era distinto. Realmente, falar, no Rei da Vela, das relações das famílias burguesas, das relações dos barões do café, das relações coloniais, isso estava muito além dos anos 30. Era um choque tão grande que não foi montado: nem o Rei da Vela, nem o Homem Cavalo. Quando o Rei da Vela é montado em 1968, o mundo já esperava o Rei da Vela. Aparece como sucesso garantido, tanto é que sai no jornal Estado de São Paulo como anúncio. Ele já era “o que ia acontecer”, era “surfar na crista da onda”. Deveria ter sido feito, eu defendo essa peça e esta montagem, só que não é aquilo queela  consagrou como história do que teria sido. Em 1933 seria uma coisa, em 1968 cumpriu outro papel, bem diferente. A tropicália se apropria dessas experiências – e o Rei da Vela é só uma delas – coloca noutro lugar e faz como se fossem as bandeiras máximas daquele tempo. Segundo o próprio discurso dos tropicalistas e dos pós-modernos, o mundo mudou, então precisava de coisas a mais.
A tropicália soube jogar, e sabe jogar até hoje – porque ela não acabou, na verdade é quase a vencedora desse “round histórico”. Ela chega depois ao poder, literalmente, com o Gilberto Gil como ministro da Cultura. Toda essa passagem do populismo, ditadura, abertura, democracia, conjuga duas coisas que não podemos perder de vista: junta as práticas e o pragmatismo de gestão empresarial mais reacionário possível a um discurso ultra-libertário. Então é “muito bonito”. Se você não observar a prática da coisa, que é o que determina, é levado por esse discurso inebriante e libertário. E há nessas figuras históricas uma impossibilidade de debate, porque elas são heróis construídos. Esse é o problema de se construir heróis, e já dizia o Brecht: “pobre do povo que precise de heróis”. Porque aí você vai discutir com uma pessoa dessa e ela vai falar: “Ah, mas eu vivi tal coisa, hoje em dia é fácil você falar isso”. E aí a gente entra exatamente em todo o discurso deles de fim da história, de movimento, de que as coisas mudam, e ele fica o mais reacionário possível, fica o discurso do cara de 30: “Olha, meu filho, você agora é jovem, depois vai...”;  eles assumiram esse discurso. Só que eles se assumem como heróis.
E aí eu vou falar de uma coisa que eu acho que foge do assunto, mas é a concretização do assunto: há todo um discurso aparente de combate durante um período, que é a crítica do consumismo, da mercadoria, as críticas que permeiam a borda desse “vampiro gigante” que é o capital. E aí, na gestão Gil, por exemplo, não posso esquecer isso, que aconteceu durante toda a gestão Lula e está acontecendo sob a gestão Dilma, que é a manutenção de uma lei de renúncia fiscal. E o que é uma lei de renúncia fiscal? É dinheiro público administrado pelo capital privado. Isso é inaceitável dentro até de uma proposta socialdemocrata. Portanto, nem sequer uma proposta socialdemocrata a gente tem; isso é uma proposta liberal, modelo Thatcher, dama de ferro. Os caras tinham um discurso anti-Thatcher como modelo. Aí você fala: “Qual era o problema? Ah, já entendi, a crítica deles era do cabelo dela com laquê.” E era isso. E se investigar nas músicas vai ver mesmo que é do laquê que estavam falando, não era metáfora. Porque quando o cara chega ao poder, reforça e mantém a mesma política liberal da Margareth Thatcher, que é a renúncia fiscal.
Estou falando tudo isso justamente pra correr o risco de ser criticado por “dinossaurices” e falta de complexidade, e já sei que uma das coisas que podem dizer é o seguinte: “Ah não, mas você tem que entender que isso é o que era possível”. E aí há pressupostos em questão: se você faz política com o possível, imediato, do seu tempo, então a gente pensa politicamente de formas bem diferentes. Não estamos pensando no que você acha que é possível lá no seu cargo. Dentro dessa estrutura de estado, desse sistema, realmente algumas mudanças são impossíveis sem um processo revolucionário. Sobre isso não há discussão. Mas a impossibilidade de um processo revolucionário é impossível de ser defendida, porque a história diz o contrário. Por mais que a historiografia queira escamotear e esconder os processos revolucionários que acontecem desde que o homem cercou lá o primeiro pedacinho de terra, ela não consegue. É impossível que ela esconda isso. E que culpa a gente tem se a história é marxista?
E aí quando você faz uma peça de teatro, tem que pensar: se eu falar que nada mudou é uma imbecilidade completa. Quando eu vou numa peça que defende que nada mudou, eu saio de lá puto, porque é uma peça que tende a cair em dogmatismos, que existem na esquerda. Muita gente na esquerda faz uma crítica de que nada mudou. Como nada mudou? Não existe nada que não mude. Isso é fora do campo da esquerda, isso é da direita. E outra coisa que deve ser colocada como perspectiva da esquerda é que quem defende que o mundo seja uma eterna luta de classes é a direita. Nós defendemos o fim de uma sociedade que tenha luta classes. Portanto, nós temos que participar dessa luta de classes para acabar com ela. Quem defende que o humano nasceu pra ficar eternamente em luta uns contra os outros, e disputando, e se matando, e se explorando, isso é quem falou que a história acabou. Então, se você defende isso, estamos de lados opostos. Porque você é violento, quer ver o mundo se estourar em morte, em genocídio, em permanência disso que está aí.
Eu não entendo como pode ser que as estéticas e as ideologias estéticas que ignoram a possibilidade revolucionária tenham ganhado no discurso. Não entendo como esses caras conseguem falar que são os contemporâneos e os modernos. Porque quando eles tiram essa perspectiva revolucionária estão afirmando que nós vamos viver a vida inteira, a humanidade vai viver até o fim da sua história (que já acabou) sob a chibata, humilhação, tortura; enquanto os revolucionários são os caras do mal, violentos, inimigos da sociedade.
 
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