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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

A esquerda que não teme dizer Revolução: uma polêmica com o novo livro de Vladimir Safatle




Por Antonio Trevisan



"O explorador não pode ser igual ao explorado. Esta verdade, por mais desagradável que seja para Kautsky é o conteúdo mais essencial do socialismo. Outra verdade: não pode haver igualdade real, de fato, enquanto não estiver totalmente suprimida toda a possibilidade de exploração de uma classe por outra." (Lênin – A revolução proletária e o renegado Kautsky)

"É digno da imaginação de Lassale que se pode construir com a ajuda do Estado uma nova sociedade assim como se constrói uma estrada de ferro."(Marx – Crítica ao programa de Gotha)

No momento em que o PT estende a mão a Maluf para ganhar a prefeitura de São Paulo e em que os “partidos socialistas” na Europa implementam os planos de ataque a classe trabalhadora em meio a crise capitalista, abre-se todo um espectro de crítica a adaptação política da “esquerda”.

Crítica que ecoa profundamente dentro da juventude que desperta para vida política e para uma parcela de trabalhadores que já começam a se chocar na prática com estas direções em toda a Europa. Direções que se tornam a cada dia que passa, os principais obstáculos para suas lutas.

Vladimir Safatle, professor da USP e colunista da Folha de São Paulo atento a este espectro de contestação, vai tentar no seu novo livro,A esquerda que não teme dizer seu nome, criticar esta esquerda, que segundo ele, vendeu seus princípios históricos em troca dos acordos com as classes dominantes.

As primeiras páginas do livro “que pretende falar do inegociável”, porém, rapidamente lançam um banho de água fria no leitor. Safatle irá do início ao fim do seu livro fugir da raiz do problema e sua posição será a do conselheiro: acende de um lado, assopra do outro.

I – É possível a igualdade entre opressor e oprimido?

Para o autor, a esquerda têm de resgatar alguns princípios “inegociáveis”, que segundo ele seriam: o igualitarismo, a soberania popular e o direito de resistência. E completando a seqüência teremos o universalismo e o internacionalismo. Foquemos nos três primeiros:
Para Safatle a esquerda deve resgatar o igualitarismo, pois quando ela se aliou com o capital para governar, deixou de lado esse princípio e ficou fascinada “por ser recebida em casas de escroques na Riviera Francesa” (p.16)

A luta contra a desigualdade para ele, porém,

só pode ser realmente minorada por meio da institucionalização de políticas que encontram no Estado seu agente. Pode-se dizer isso porque, de outra forma, elas nunca terão a escala e a universalidade necessárias para funcionar. (p.23)

O Estado segundo Safatle é “a única instituição que garante o estabelecimento de processos gerais capazes de submeter toda a extensão da sociedade” (p.23).

Mas não é o mesmo Safatle que denuncia frenquentemente o nosso Estado oligárquico, dirigido pelas elites mais retrógradas?

Mas para ele, o Estado é também “resultado de uma rede de normas sociais cuja configuração é sensível à pressão da sociedade organizada”. (p.23)

Daí surge a proposta em resgatar o princípio da soberania popular e do direito de resistência como formas de se realizar esta pressão. Falando sobre as mobilizações populares, como os piquetes operários, ocupações de terra do MST, etc:

...é graças a ações como essas que os direitos são ampliados, que a noção de liberdade ganha novos matizes. Sem elas, com certeza nossa situação de exclusão social seria significativamente pior. (p.48)

A maior prova que o autor lança no decorrer do livro de que o Estado pode ser “uma força capaz de limitar interesses de concentração de riquezas vindos dos setores mais afluentes” e ser agente do igualitarismo, é o Estado de Bem-Estar Social do pós-guerra.

Sem dúvidas, podemos dizer que todas as mudanças e direitos conquistados pela classe trabalhadora dentro do capitalismo, como a jornada de 8 horas, o acesso “gratuito” a educação, saúde, etc. foram garantidos a partir de lutas e enfrentamentos populares, que impuseram mudanças na legislação e separação de parte da renda nacional para financiá-los. Defender ainda a resistência popular frente este Estado brasileiro que ataca brutalmente os movimentos de reivindicação, utilizando a estrutura policial herdeira da ditadura para reprimir e espionar é sem dúvida uma tarefa que o conjunto da esquerda tem de tomar.

Nosso autor, porém, radicaliza um suposto universalismo do Estado e da própria democracia, que apaga o essencial, isto é, que ambos são instrumentos de dominação de classe.

Safatle fala em diversos momentos do seu texto de uma “plasticidade natural” da democracia. Ora, esta suposta “plasticidade”, tem um limite claro e intransponível. Como lembrava Engels em 1891, para aqueles que após a morte de Marx, tentavam revisar sua teoria da luta de classes,

o Estado não é mais do que uma máquina para a opressão de uma classe por outra e de modo nenhum menos na república democrática do que na monarquia [1].

Seu surgimento, esta diretamente ligada a divisão da sociedade em classes antagônicas. O Estado,

... é um produto da sociedade numa certa fase do seu desenvolvimento. É a confissão de que essa sociedade se embaraçou numa insolúvel contradição interna, se dividiu em antagonismos inconciliáveis de que não pode desvencilhar-se. Mas, para que essas classes antagônicas, com interesses econômicos contrários, não se devorassem entre si e não devorassem a sociedade numa luta estéril, sentiu-se a necessidade de uma força que se colocasse aparentemente acima da sociedade, com o fim de atenuar o conflito nos limites da "ordem". Essa força, que sai da sociedade, ficando, porém, por cima dela e dela se afastando cada vez mais, é o Estado...

E completando, dizia:

...o segundo traço característico do Estado é a instituição de um poder público que já não corresponde diretamente à população e se organiza também como força armada. Esse poder público separado é indispensável, porque a organização espontânea da população em armas se tornou impossível desde que a sociedade se dividiu em classes. Esse poder público existe em todos os Estados. Compreende não só homens armados, como também elementos materiais, prisões e instituições coercivas de toda espécie, que a sociedade patriarcal (clã) não conheceu [2].

Este corpo especial, “destacamento de homens armados” que fica por cima da sociedade, não surge para “regular” o conflito das classes, mas surge como instrumento da classe dominante para a exploração da classe oprimida.

O surgimento do Estado e das instituições representativas na Grécia Antiga nos ajuda a entender mais profundamente esta verdade.

pólis (cidade-Estado) surge quando a velha aristocracia se depara com o surgimento de novas classes de artesãos e comerciantes que começam a tomar cada vez mais importância econômica. A democracia surge como uma forma de acomodação dessas novas classes sobre as regras e a dominação desta antiga classe aristocrata, quando não é mais viável a antiga forma de dominação.

Guardadas todas as diferenças históricas, podemos dizer que a democracia é a forma que a burguesia irá encontrar para acomodar as antigas (aristocracia, camponeses, etc.) e novas classes (proletariado urbano) sob suas regras, sob sua tutela. A democracia, portanto, passa longe de ter um valor universal. Ela é a ditadura escamoteada da classe burguesa sob o proletariado, “instrumento de exploração do trabalho assalariado pelo capital” [3].

E quando esta tutela sobre as massas exploradas fica ameaçada, como nos incontáveis processos revolucionários do século XX, a “plasticidade natural” da democracia faz com que ela se transforme rapidamente em ditadura aberta e sangrenta contra o proletariado.

Como escreve Lênin na polêmica com Kaustky em 1918:

Tomai as leis fundamentais dos Estados contemporâneos, tomai a sua administração, tomai a liberdade de reunião ou de imprensa, tomai a “igualdade dos cidadãos perante a lei”, e vereis a cada passo a hipocrisia da democracia burguesa, bem conhecida de qualquer operário honesto e consciente. Não há Estado, nem mesmo o mais democrático, onde não haja escapatórias ou reservas nas constituições que assegurem à burguesia a possibilidade de lançar as tropas contra os operários, declarar o estado de guerra, etc, “em caso de violação da ordem”, de fato em caso de “violação” pela classe explorada da sua situação de escrava e de tentativas de não se comportar como escrava [4].

O Estado de Bem-Estar, por sua vez, só pôde existir circunstancialmente na Europa e nos EUA a partir de uma conjuntura muito específica de crescimento econômico a partir da reconstrução de 1/3 das forças produtivas mundiais destruídas pela Segunda Guerra mundial e pelas rendas de exploração da classe trabalhadora das colônias e semi-colônias na África, América Latina, Ásia pelos grandes monopólios imperialistas. Países estes que foram dominados por ditaduras sangrentas - financiadas pelos distintos imperialismos - durante a década de 60 e 70 para conter as tensões de libertação desses povos dos seus opressores nacionais e internacionais. Soma-se ainda a existência da URSS que fazia com que a burguesia imperialista tivesse que ceder ao movimento operário ao custo de este ficar sobre a influência de Moscou.

Hoje, em meio a maior crise capitalista de 1929, diferente do espaço idealizado por Safatle, o Estado demonstra todo seu caráter de classe com os resgates trilhionários ao capital financeiro internacional e os ataques as condições de vida dos trabalhadores para salvar os grandes capitalistas.

Com os governos da Grécia e Itália escolhidos pelas finanças de Paris, Frankfut e Bruxelas se escancara mais uma vez que longe de ser um instrumento para realização dos “interesses gerais” da sociedade “o Estado moderno é um comitê para gerir os negócios comuns de toda a classe burguesa” [5] 5.

II – Democracia para além do Estado de Direito?

Safatle não deixa de reconhecer que as finanças mundiais estão pisando sobre as cabeças de milhões de trabalhadores europeus ao desviar seus impostos para salvar os bancos e colocando os governos dos seus interesses sem o mínimo de participação popular.
Para isso ele invoca novamente a soberania popular para a superação da democracia parlamentar com destino a democracia direta.

Toda sua digressão visa, porém, aperfeiçoar o Estado de Direito, com a busca de uma maior dinâmica de plebiscitos e ...consultas virtuais aos cidadãos.

Seu cavalo de batalha será a pequena ilha da Islândia, que segundo ele, tem algo a nos ensinar: seu presidente chamou um plebiscito para saber se a população iria salvar ou não os bancos no início da crise em 2009.

Esta por 98% decidiu que não e formulou-se ainda uma nova constituição com a colaboração virtual dos cidadãos.

Safatle só se esquece de lembrar o leitor que a Islândia é uma ilha com pouco mais de 300.000 mil habitantes, sendo a 132ª economia do mundo. Isto é, como nosso autor pode acreditar que medidas como essas poderiam realmente acontecer nas maiores potências capitalistas mundiais? Lembrando que quando se tentou fazer o mesmo na Grécia que é a economia mais fraca hoje da Europa continental, Geórgios Papandréu foi tirado de cena em poucas horas...

Sem falar que a própria Islândia que esta fora da zona do euro, com suas influências reduzidíssimas no comércio de capitais mundial, sofreu inúmeras pressões e ameaças de boicote de diversos bancos internacionais, do FMI e dos governos europeus em razão deste plebiscito.

Acredita mesmo Safatle que se algum presidente da França, Inglaterra, Alemanha, EUA entre outras potências, propusessem o mesmo, continuaria no cargo?

Longe de apresentar uma saída “para além do Estado de Direito”, Safatle conclui que
o verdadeiro desafio democrático consiste, desse modo, em institucionalizar tal poder 
instituinte, criando uma dinâmica plebiscitária de participação popular(p.52).

Muito barulho para muito pouco, não?

III – Reforma ou revolução?

Safatle tangencia a resposta desta questão de todas as maneiras. Primeiro diz que é uma dicotomia falsamente criada. Em seguida, reclama daqueles que só falam de reforma e depois dos que elevam “a revolução à condição de modelo único de acontecimento dotado de verdade” (p. 72).

Mais no meio desse diz que me diz não consegue esconder sua preferência:

Por outro lado, deve-se entender que uma sequência de reformas profundas provoca um salto qualitativo a partir do qual dificilmente se volta para trás. Este era o caminho de uma das mais impressionantes experiências da esquerda no século XX, experiência sobre a qual ainda temos muito o que meditar, a saber, o socialismo democrático de Salvador Allende. (p.76)

Mas a experiência do “socialismo democrático” de Salvador Allende demonstrou exatamente o oposto. Demonstrou que é impossível se chegar ao socialismo por via das reformas e da democracia burguesa.

Como descreve o próprio Safatle no livro, todas as tentativas de mudanças radicais neste processo, foram barradas e atacadas pela burguesia por dentro e por fora do aparato Estatal. Os cordões industriais - talvez uma das formas mais avançadas de auto-organização que a classe operária construiu na América Latina – que surgiram para fazer frente aos lockouts patronais foram instrumentalizados pelo governo na expectativa de isolar os setores mais conservadores dentro do exército e do aparato Estatal.

As organizações que participavam do processo não tiveram uma política de transformar os cordões em organismos superiores para centralizar a luta e defesa do conjunto da classe trabalhadora (se limitando a um organismo de distribuição econômica) e acabaram reféns das mudanças que Allende prometia por dentro do parlamento e da democracia burguesa.

Acabaram, dessa maneira, sendo surpreendidas e não conseguiram organizar nenhum tipo de defesa efetiva contra o golpe dirigido por Pinochet, que afogou em sangue toda a resistência, estabelecendo uma das ditaduras mais sangrentas da história do século XX. Tudo o que a experiência do “socialismo democrático” demonstra é que a revolução não pode se dar pelo acúmulo gradativo de reformas.

A dialética dos processos revolucionários é muito mais complexa do que o processo que faz a água ferver depois de certa quantidade acumulada de calor.

O processo revolucionário é marcado pela luta viva e desesperada entre revolução e contra-revolução e longe de seguir uma linha reta é marcada por fluxos e refluxos. Avanços e retrocessos na consciência das massas exploradas e no nível de coesão das classes dominantes.

Esta visão, de uma transformação evolutiva do capitalismo para o socialismo, impregnou os grandes partidos do movimento operário no final do século XIX, voltou novamente no pós-guerra na Europa e tentou selar bases eternas depois da restauração capitalista na URSS pelas próprias mãos da burocracia stalinista.

Todos estes períodos têm um mesmo traço em comum: são períodos de um capitalismo relativamente “pacífico”, que produziram um retrocesso ideológico profundo que tentou escamotear o principal, isto é, que existe uma contradição irreconciliável entre a burguesia e o proletariado e que esta luta invariavelmente ultrapassa em determinadas etapas a legalidade formal das instituições criadas pela classe dominante e só pode se resolver a partir da força e da violência.

Para Allende que aguardava a maioria no parlamento e para Safatle que aguarda a maioria nos plebiscitos, vale resgatar alguns importantes trechos das fortes e profundas palavras de Lênin contra Kautsky em 1918:

Em tal estado de coisas, supor que numa revolução minimamente profunda e séria a solução do problema depende simplesmente da relação entre a maioria e a minoria, é a maior estupidez, é o mais tolo preconceito de um vulgar liberal, é enganar as massas, esconder-lhes uma verdade histórica manifesta. Esta verdade histórica consiste em que, em qualquer revolução profunda, a regra é que os exploradores, que durante uma série de anos conservam sobre os explorados grandes vantagens de fato, opõem uma resistência prolongada, obstinada e desesperada. Nunca — a não ser na doce fantasia do doce tonto Kautsky — os exploradores se submetem à decisão da maioria dos explorados antes de terem posto à prova a sua superioridade numa desesperada batalha final, numa série de batalhas.

A transição do capitalismo para o comunismo constitui toda uma época histórica. Enquanto ela não terminar os exploradores continuam a manter a esperança da restauração e esta esperança transforma-se em tentativas de restauração. E depois da primeira derrota séria, os exploradores derrubados, que não esperavam o seu derrubamento, não acreditavam nele, não admitiam a ideia dele, lançam-se com energia decuplicada, com uma paixão furiosa, com um ódio cem vezes acrescido na luta pelo regresso do “paraíso” que lhes foi arrebatado, pelas suas famílias que viviam tão docemente e a quem a “vil população” condena à ruína e à miséria (ou ao “simples” trabalho). E atrás dos capitalistas exploradores arrasta-se uma grande massa da pequena burguesia, que, como mostra a experiência histórica de dezenas de anos de todos os países, oscila e vacila, que hoje segue o proletariado e amanhã se assusta com as dificuldades da revolução, cai no pânico à primeira derrota ou semi-derrota dos operários, se enerva, se agita, choraminga, corre de um campo para outro . . .

E em tal estado de coisas, numa época de guerra desesperada, aguda, quando a história coloca na ordem do dia as questões da existência ou não existência de privilégios seculares e milenários, fala-se de maioria e minoria, de democracia pura, de que não é necessária a ditadura, de igualdade entre exploradores e explorados! [6].

Dá para entender depois destas passagens, por que o nosso autor fala em seu livro da “tão rica querela de Lênin contra Kautsky” mas não se dá ao trabalho de se posicionar ou explicar a posição de qualquer uma das partes.

Ela se choca diretamente com seu pensamento... e com seu íntimo:

Hoje, defender uma sequência substantiva de reformas é muito mais difícil do que defender rupturas radicais de molde revolucionário, pois mais perigosa é uma mudança que está ao alcance de nossas mãos do que a que está fora do alcance de nossa visão. Lutar por reformas sem perder de vista que processos incalculáveis podem acontecer – mais do que um conselho político, isso talvez seja uma forma de vida. (p.76)

Será que Safatle não percebe que a estratégia que defende é a mãe da adaptação do PT e da esquerda dos dias de hoje? O casamento do PT com Maluf, Sarney, Skaf, etc, é reflexo de uma estratégia que tinha o objetivo de ir ganhando espaços e transformando de maneira gradual o regime burguês.

Os setores majoritários dentro do PT desde sua fundação queriam ir empurrando pouco a pouco o poder dos militares para fora do Estado, acreditando que a pressão de sua base operária da CUT e dos outros movimentos sociais, iria resultar em um espaço cada vez maior dentro do regime burguês e que a partir das eleições municipais, estaduais, nacionais e uma base ampla no congresso poderia implementar seu programa. Só que o destino – isto é, a luta de classes – fez com que PT acabasse mostrando mais uma vez na prática a falha fundamental do reformismo e da estratégia de pressão.

Os Estados e regimes não são como um recipiente que podem ser preenchidos com qualquer conteúdo. Para se tornar hegemônico no Estado burguês o PT teve que se adaptar cada vez mais ao conteúdo que dá vida a esta forma de Estado, isto é, a propriedade privada. A carta ao povo brasileiro de Lula em 2002, nada mais faz do que tentar manifestar a classe dominante que o PT tinha aprendido muita coisa na escola de atuação por dentro do regime nos anos 1980 e 1990, isto é, queria mostrar que estava graduado paragerenciar a propriedade privada nacional e internacional.

Para tanto, tem de se aliar com as forças políticas que foram base da ditadura (Sarney, Maluf, Cia.) e nunca e em nenhuma hipótese, afrontar o instrumento que mantém o domínio daqueles que detém a propriedade privada sobre a imensa maioria da população: o exército e a polícia.

Mas Safatle diz que não quer o retorno da “social-democracia” e do “Estado de Bem-Estar Social”. Segundo ele, em artigo para a revista Cult de junho deste ano:

... falar em esgotamento da social-democracia significa compreender que sua função histórica já foi realizada. Ela já passou. Não se trata de procurar recuperar o Estado do Bem Estar-Social tal como ele foi concebido nos anos 50 e 60, mas compreender suas limitações e propor algo que tenha a radicalidade de evitar seus defeitos, limites e exclusões. Ou seja, pensar (no sentido hegeliano do termo) em uma superação do Estado de Bem-Estar Social [7].

O que seria esta “superação do Estado de Bem-Estar Social” fica no ar, (será talvez o “socialismo democrático de Allende”?) mas a superação ao “esgotamento da social democracia” tem nome e endereço segundo nosso autor:

...o fenômeno a ser notado é a reconstrução dos partidos à esquerda da social-democracia, como o francês Front de Gauche, o grego Syriza e o alemão Die Linke. Todos eles têm duas características básicas: são organizados como frentes e forçam o debate político em direção a uma ação a partir de valores.

E continua,

Essa nova organização de frente permite o acordo de várias sensibilidades de esquerda (trotskistas, comunistas, ecologistas, social-democratas radicais, autonomistas, etc) diante de um projeto de pontos comuns, mas não completamente determinado. Essa indeterminação relativa é uma virtude e não um problema, pois ela implica afirmar que a política não é o domínio das identificações especulares, onde me engajo apenas quando encontro a imagem especular perfeita de minhas crenças [8].

Tais agrupamentos buscam a formação de “partidos amplos” a partir da aglutinação de uma série de correntes sem uma unidade estratégica e uma clara delimitação de classe. Este fenômeno vem se desenvolvendo desde a década passada com a formação do RESPECT na Inglaterra, o NPA na França e o PSOL no Brasil.

Essa “indeterminação relativa” de “pontos comuns”, porém, esta muito longe de ser uma virtude. O RESPECT, formado a partir da fusão do SWP britânico (que se reivindica trotskista) com correntes muçulmanas burguesas no início da guerra do Iraque explodiu pouco tempo depois, gerando uma crise de que a corrente britânica tenta se recompor até hoje.
No NPA a aglutinação da LCR (que também se reivindica trotskista) com grupos ecologistas e abertamente reformistas que saíram do PS, passa por uma importante crise, com setores que nem sequer apoiaram a candidatura do próprio partido nas ultimas eleições.

As profundas divergências que paralisam o NPA se expressam com maior agudez desde o processo de luta contra as reformas da aposentadoria de Sarkozy em outubro de 2010. Neste processso o NPA acabou tendo uma política seguidista a burocracia sindical da CGT que buscou desde o início desviar o profundo processo que estava em curso. Tais políticas, somadas a uma perspectiva de buscar os “novos sujeitos revolucionários” que acaba por deixar de lado a centralidade de se construir um partido orgânico na classe trabalhadora fazem o NPA assistira  uma saída sistemática de operários de suas filas.

O caso do Syriza (Coalização da Esquerda Radical), porém, é o mais emblemático, formado por mais de 10 grupos distintos que vão de ecosocialistas a maoístas, passando por autonomistas. Sua principal força política é o Synaspismos, fruto de uma cisão do partido comunista (KKE) nos anos 1980 e que em 1989 e 1990 chegou a fazer parte de governos de coalizão com a Nova Democracia e com o PASOK.

O Syriza obteve uma expressiva votação nas últimas eleições gregas, com sua vitória sendo cogitada até poucos dias antes das eleições. Seu discurso de crítica às medidas impostas pela troika e principalmente pela Alemanha, com ameaças de questionamento à dívida grega, causou impacto nos principais centros financeiros mundiais que montaram um verdadeiro operativo de intervenção nas eleições gregas a favor da vitória da Nova Democracia.
O discurso do Syriza acabou canalizando de maneira distorcida o profundo sofrimento que vem passando a maior parte da população grega, mas longe de poder responder efetivamente os ataques implementados pela troika se mostrou cada vez mais adaptado no decorrer do processo eleitoral, tentando se apresentar como uma alternativa “viável” de administração capitalista da crise grega.

Além de não ter relações orgânicas com setores de trabalhadores o SYRIZA se organiza principalmente através da figura midiática de Alexis Tsipras que propõem não o rompimento com o imperialismo alemão e francês, mas uma “renegociação dos pontos da dívida”, a partir de um “consenso europeu” nos moldes do acordo de Londres de 1953 (que reduziu pela metade as dívidas da Alemanha Ocidental no pós-guerra) e um “plano Marshall de investimentos”.

Isto é, um programa nos marcos do capitalismo e utópico já que espera a “benevolência” dos imperialismos europeus em um contexto muito diferente do início do pós-guerra. O próprio plano Marshall financiado pelos EUA tinha como principal objetivo afastar da Europa destruída o fantasma da revolução socialista. Para a Alemanha e seus bancos, perdoar a dívida grega hoje significaria trazer a crise para dentro da sua economia, que até agora ficou relativamente fora dos efeitos catastróficos da crise graças a imposição das medidas de “equilíbrio-fiscal” ao restante da Europa pelo BCE sob a batuta de Merkel.

Nesta semana o SYRIZA, estandarte dos setores “a esquerda da social-democracia”, escancarou de vez seu programa para administrar o capitalismo grego, com Tsipras vindo ao Brasil para se reunir com o PT e com Lula para “aprender a governar” [9] e costurar um arco de alianças internacionais com vistas às próximas eleições gregas.

Ao espectador atento, deve ser sintomático o fato de que na sua visita ao Brasil neste final de ano, Tsipras tenha passado quase uma semana em reuniões com a cúpula petista e com membros do governo Dilma, enquanto que com os membros do PSOL – seu partido “homônimo” aqui no Brasil – não tenha passado mais que duas tardes.

Se tivesse tido mais tempo, Luciana Genro e Ivan Valente poderiam ter contado como o PSOL está lutando para consolidar passos neste mesmo sentido nos tempos brasileiros.
Poderiam ter contado que mais uma vez seu partido recebeu financiamento da burguesia para as eleições (agora foi Edmilson em Belém) e todas as “virtudes” de se formar um partido “sem todos os princípios claros” aqui no Brasil também, se aliando com o DEM, PSDB, PT, PMDB, PPS, PDT, PCdoB..... (ufa!) nestas últimas eleições municipais...

Tsipras poderia até aprender a mais nova teoria criada pelo senador Randolfo Rodrigues, que para explicar a aliança com os setores burgueses em Macapá, disse que

Se alguém apóia um governo de esquerda é porque se converteu ao nosso programa. Não há luta de classes quando a burguesia apóia as reivindicações do proletariado. Aí a burguesia deixa de ser burguesia [10].

Mas o SYRIZA têm pressa para aprender a gerenciar o capitalismo!

Resta perguntar por que Safatle - que apoiou ativamente as candidaturas do PSOL nestas últimas eleições municipais – fica em silêncio com estas alianças.




Podemos sintetizar a querela com Safatle da seguinte maneira: a contradição fundamental do pensamento do autor é que ele vai criticar a esquerda e sua adaptação aos interesses e valores da burguesia, propondo o resgate de princípios estritamente liberais: o igualitarismo, a soberania popular e o direito de resistência.

Isto é, princípios da burguesia em seu momento de luta contra a aristocracia e quando lutava para moldar o Estado feudal aos seus interesses. Igualdade para combater os privilégios da nobreza. Soberania popular, para a pequena burguesia jacobina arrastar as massas plebéias e camponesas contra o poder da aristocracia. Direito de resistência frente a tirania do monarca.

O proletariado não pode ficar refém dos valores e destes princípios, pois não refletem sua verdadeira tarefa histórica e sua irreconciliável posição perante o Estado capitalista. Este não pode ser “adaptado” aos interesses do proletariado. Ele têm de “ser quebrado”, como Marx e Engels já adiantavam como primeira lição histórica da Comuna de Paris de 1871 que atacou e suprimiu os pilares do Estado capitalista, o exército permanente e a burocracia, substituídos pela democracia direta dos produtores.

Para superar sua adaptação a classe dominante a esquerda deve recuperar não os princípios liberais, mas sim o arsenal teórico-político do marxismo.

Para esta tradição a revolução proletária é impossível sem a destruição violenta da máquina de Estado e a criação simultânea de uma nova forma estatal transitória, a ditadura revolucionária do proletariado, baseada na democracia dos produtores - como a Comuna de 1871 e os soviets na Revolução Russa de 1917 – que vise a dissolução das classes e, por conseguinte, a dissolução do próprio Estado.

Muito mais valioso para a esquerda que o liberté, egalité e fraternité, seriam princípios como a independência política da classe trabalhadora perante a burguesia, seus partidos e governos. Princípios que derivam diretamente desta estratégia, que não pode permitir em hipótese alguma que os trabalhadores se iludam de que as transformações efetivas possam ocorrer em aliança com a classe dominante e por meio de seu aparelho de dominação de classe que é o Estado. Muito mais valioso para os trabalhadores e para a esquerda é o resgate do legado de revolucionários como Leon Trotsky, que nos deixou ferramentas fundamentais para enfrentar os desafios abertos pela crise capitalista.

Como o Programa de Transição, fruto de uma síntese teórica e programática das principais experiências do movimento operário do início do século XX e que superando a velha divisão entre o “programa mínimo” para as reformas e o “programa máximo” para a revolução, assenta importantes bases para que possamos desde hoje atuar nos processos de luta e resistência a nível mundial, buscando criar uma ponte entre o nível atual de consciência dos trabalhadores e a necessidade da revolução socialista com a tomada do poder pelo proletariado.

Nosso autor, que escreve um livro “que pretende falar do inegociável” acaba sendo o representante de novas variantes do reformismo que já deram uma enxurrada de exemplos de que estão dispostos a negociar qualquer princípio por uma “saída viável”, sem rompimentos “unilaterais” em troca de seu “pedacinho de regime”.

Safatle, que tenta afastar o leitor das conseqüências terrenas das suas idéias vai até a filosofia para defender a nova esquerda, segundo ele

...Deleuze costumava dizer que o novo não aparece como um clarão. Ele sempre nasce com as máscaras do antigo, pois se mostrasse completamente seu rosto enquanto ainda está se consolidando, seria destruído. A verdadeira astúcia do novo consiste em aparecer sem alarde, isto para que, em um segundo momento, possa enfim expor toda sua potencialidade  [11].

Na nossa visão, estas novas variantes “à esquerda do reformismo” no Brasil e na Europa se parecem mais com o velho que se transverte de novo para não deixar de existir. Sua verdadeira astúcia consiste sim em esconder seu verdadeiro significado, pois este já foi provado e rejeitado pela história.


___________________________________________________
[1] ENGELS, F. Prefácio - Guerra Civil na França.
[2] ENGELS, F. A origem da família, da propriedade privada e do Estado.
[3] Idem.
[4] LÊNIN, V.I. A revolução proletária e o renegado Kautsky
[5] MARX, K; ENGELS F. Manifesto do Partido Comunista.
[6] LÊNIN, V.I. A revolução proletária e o renegado Kautsky.
[7] V. SAFATLE. Ensaio de Orquestra. Revista Cult n. 169. Junho de 2012.
[8] Idem.
[9] http://www.pt.org.br/noticias/view/pt_recebe_a_visita_de_delegacaeo_grega_do_syriza
[10] Nota da Carta Capital sobre Randolfe, as alianças e o debate interno do PSOL publicada no blog do próprio Randolfe. “Após vitória em Macapá, PSOL discute alianças e como governar”, ver em HTTP: blogdorandolfe.com.br/
[11] V. SAFATLE. Ensaio de Orquestra. Revista Cult n. 169. Junho de 2012.





quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Um "Levante" que nos deixa de joelhos: pequeno comentário político


por Curió, professor da Rede Pública e militante da agrupação "Professores Pela Base"





O Levante Popular da Juventude recebeu das mãos de Dilma uma menção honrosa na 18a edição do Prêmio dos Direitos Humanos. Segundo a presidenta, o prêmio homenageia “pessoas lutadoras” que “arriscam suas vidas em defesa dos direitos humanos”.

O Levante nada mais é, após o rechaço da UNE no movimento estudantil, a tentativa do governo voltar a ter seus aliados ganhando força nas entidades estudantis, como CAs e DCEs. Novas roupagens, novas formas, para a velha política.

Os escrachos do Levante são parte disso. Afinal, para se questionar de fato as heranças do regime militar, haveria que se iniciar pelos financiadores do golpe e da tortura. Camargo Correa e Odebrecht, por exemplo. Mas como questionar os grandes monopólios, se são eles que financiam as campanhas dos candidatos de Dilma, apoiados país afora pela Consulta Popular e pelo Levante, como foi com Haddad?

Odebrecht e Camargo Correa lucram bilhões de reais com as obras do PAC. Em Jirau, 1 jovem trabalhador de 21 anos foi assassinado em 2011 pela polícia durante uma manifestação pelo atraso do transporte para o trabalho. Nesse momento, 5 operários de Belo Monte estão há mais de 30 dias presos por lutar contra a burocracia sindical e as condições humilhantes de trabalho. Essas empresas seguem lucrando como há 40 anos atrás, através do suor e sangue trabalhador, mas agora com o apoio de Dilma e a cumplicidade de seus afilhados no movimento estudantil.

O sorriso cúmplice e o silêncio sobre os operários de Belo Monte na entrega do prêmio diz tudo. Um "Levante" que só serve pra manter a juventude de joelhos...

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Culpados no papel de acusadores


por Danilo Magrão




Tanta "consternação" e "vergonha" por que as paredes da biblioteca do IFCH apareceram pintadas. O cinismo do pronunciamento da direção do IFCH instituto é escandaloso e nojento! Agora são os baluartes do “patrimônio público”, porém convivendo pacificamente e passando anos dirigindo o instituto ao lado da empresas terceirizadas que rapinam a universidade pública! Esse diretor tem a ousadia de se 
colocar como acusador, enquanto na realidade é culpado! Por que nada se disse quando quase perdemos todo o nosso acervo da biblioteca por culpa de uma reforma mal feita de uma empresa terceirizada? Por que não se ouviu qualquer manifestação de repúdio pelo fato de que os trabalhadores negros que subiram essas paredes brancas não receberam seus salários? Ninguém se indignou com a ausência do salário no prato de comida dos filhos desses trabalhadores? Não há indignação pelo fato desses terem contribuído com seu suor o tão louvado patrimônio público e nem sequer poderem usufruir de seus benefícios? E o novo prédio do IG, que recém inaugurado também jorra água pelos telhados? E a biblioteca do IEL que teve 2000 livros de seu acervo encharcados (http://www.cephs.blogspot.com.br/2012/12/a-inundacao-da-biblioteca-do-iel-e.html)? E o acervo do AEL que quase se perdeu por conta de um ar condicionado que mais parecia um chafariz? Por que nem sequer uma carta pública de qualquer membro da comunidade acadêmica frente a tantos acontecimentos que de fato colocaram em risco o patrimônio da universidade? ISSO SIM É QUE FOI UM ATAQUE AO PATRIMÔNIO PÚBLICO! Para esses fatos narrados, o silêncio que agoniza! Nenhum grito de revolta, indignação, consternação ou vergonha ecoou, nem mesmo pelos e-mails institucionais! Agora uma letra do Floyd ataca os corações desses benevolentes defensores do bem público! Palavras escritas na parede que nem sequer tocaram na capa de qualquer livro! Aos que propõem aos estudantes a pintura das paredes “pichadas”, lembrem-se que se não fosse por esses só haveria papel machê no lugar de estantes de livros! Foi a festa ilegal dos “baderneiros” e “arruaceiros” que salvou nosso acervo de uma catarata que despencava dos telhados! Por último, lutemos para que não só os muros e paredes possam falar, mas que a arte se alastre feito peste em um mundo carcomido pela exploração e opressão do gênero humano!

domingo, 9 de dezembro de 2012

A little opinion sobre ARTE and vandalism - sobre as pichações no IFCH

por Thyago Villela, mestrando em Artes Visuais pela USP e militante da LER-QI
Basquiat

Tomei conhecimento ontem de uma carta escrita pelo diretor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH, localizado na UNICAMP), John Monteiro, acerca de pichações na parede (até então, solenemente branca) do novo prédio da biblioteca. O e-mail, endereçado a toda a comunidade ifchiana, intitulava-se “Vandalism is not art” e, neste e-mail, John condena a “atitude agressiva, desrespeitosa e inaceitável” dos pichadores e roga-lhes, em nome do espírito cívico, um pouco mais de respeito quanto ao uso do espaço público. 
Interessante, em primeiro lugar, o tom do texto escrito por John: os dois primeiros parágrafos são construídos mediante o recurso da ironia, lançando, em primeira mão, o uso de sofisticadas “tiradas” para, no terceiro parágrafo, apaziguar o seu espírito sagaz (retirando o monóculo) e confrontar diretamente a comunidade ifchiana, em um tom um pouco choroso, mas também sóbrio. 
Começa John: “Queria saudá-los com notícias mais alentadoras mas [sic] não posso deixar de trazer para a atenção de toda a comunidade a minha consternação com mais um ato de vandalismo. Ontem o IFCH amanheceu manchado. [refere-se às pichações do prédio da biblioteca] (...) Não se sabe, por exemplo,se as frases foram escritas em inglês para o benefício dos nossos visitantes estrangeiros ou se os autores já aderiram, por antecipação, ao movimento de adotar esse idioma na sala de aula e na elaboração de teses, como nas outras grandes universidades do mundo.” Muito bem: após atribuir ao idioma inglês a qualidade de esperanto acadêmico(e John lança mão desta “fina” ironia para estabelecer uma distinção entre os civilizados das também “grandes universidades do mundo” [aqueles que não picham, mas redigem brilhante teses] e os supostos estudantes que, criminosamente, corromperam uma parede em branco, maculando, não apenas a parede, mas tão notável idioma), John inicia um doloroso trabalho de análise das obras.
Diz-nos: “A primeira frase, à esquerda, simplesmente copia a letra de uma música do Pink Floyd. Consegue, de uma só vez, cometer duas transgressões que gostaria de ver eliminadas do nosso meio: o plágio, que não pára de crescer, e o desrespeito ao patrimônio público que é de todos nós. A frase à direita requer mais cuidado, talvez. O autor nos lança um desafio, ao pleitear o estatuto de arte para a sua garatuja e ao assinar a obra. Queria que este artista, ao invés de agir no calor da festa ou na calada da noite, defendesse publicamente a sua obra e sua mensagem.”
Aqui me salta à vista, em primeiro lugar, certo desconhecimento de alguns procedimentos artísticos modernos. Citar uma frase e não citar seu autor não, necessariamente, configura plágio, mas pode configurar, no contexto de uma obra, o uso de um recurso artístico bem, mas beeeem comum, que é a colagem (ou seja, uma citação re-significada). Foi assim que Godard (cabra esperto) se safou de muitos processos em relação a seu documentário Histoire(s) du Cinéma, realizado apenas com este recurso . Existe, de fato, um “grande contingente de pessoas cujas pesquisas e ensinamentos ajudam a entender” este procedimento artístico, inclusive nas bibliotecas do IFCH e do IEL, disponíveis à consulta (se tais teses e livros conseguiram se salvar do dilúvio final, evidentemente). Ademais, John, com agudo senso crítico cívico, aponta ainda a qualidade de “desrespeitosa ao patrimônio público” à frase do Pink Floyd pintada na parede. Evidentemente, trata-se também de uma crítica ao suporte artístico e ao local de exposição (pressupondo-se que é arte, problema que adentraremos adiante). Não posso deixar de lembrar do poema “Ordem do dia aos exércitos da arte”, de Maiakóvski, no qual o poeta russo exclama: “As ruas são nossos pincéis/ E as paletas as nossas praças” , indicando a perda de sentido histórico da tela enquanto suporte artístico. Inúmeras outras poéticas foram desenvolvidas ao longo do séc XX que afrontaram a hegemonia do museu e da tela, como os happenings e a performance art. A idéia de um discurso urgente, cujo suporte seja o corpo, ou então os materiais mais próximos ao alcance das mãos, também foram trabalhados por muitos artistas, bem como a idéia de apropriação do espaço público (existe, inclusive, toda uma vertente artística que trabalha com esta noção, como a site specific e a land art). Penso que ai se enquadra também a street art (todos nomes em inglês, muito bonitos), a qual, no caso brasileiro ao menos, ainda remete diretamente a uma produção derivada da periferia. As pichações se inserem neste contexto: e percebe-se, falo de pichação, e não de grafitte, que é considerado em larga medida, a pichação civilizada, respeitosa. O preconceito quanto à pichação também diz um pouco sobre o que consideramos arte (interessante, muito interessante...). 
John refere-se também à qualidade de obra de arte da segunda frase em função de sua assinatura, como se deste elemento pictórico derivasse uma distinção (uma aura) entre a primeira e a segunda frase pichadas. Não entro neste debate, superado desde o século XIX, e que dispensa maiores comentários. A presença de autoria não autoriza uma distinção entre arte/não-arte. Simples assim. Quanto ao debate sobre “o que é arte, então?!”, cabe apenas apontar o caráter metafísico desta especulação, como se fosse possível determinar ontologicamente uma coisa que é arte, outra que não é. O conceito de arte é um conceito em disputa, e participa inclusive das disputas sociais e de classe no qual está inserido. Este texto espera, inclusive, contribuir para um conceito de arte mais amplo.
E agora, quanto ao ataque vexatório ao espaço público. Interessante uma intervenção tão inflamada sobre esta pichação, e um silêncio tão grande sobre outros tópicos, também artísticos, evidentemente. Quando entrei no IFCH, em 2007, por exemplo, no lugar desta biblioteca existia apenas um imenso descampado no qual figurava apenas uma escada de cimento que levava a lugar algum – é difícil imaginar, eu sei, mas basta perguntar a quem está no IFCH há mais tempo... Sim, uma escada no meio de um terreno vazio. Por lá ela permaneceu por dois anos, livre de qualquer outra construção (vale lembrar que o prédio da biblioteca já era prometido – e esperado – pelos professores, alunos, e livros encaixotados). Talvez John preferisse este cenário surrealista (que lembrava um Magritte) ao construtivismo ou Nova Objetividade desta nova construção. Nenhuma análise sobre esta obra nos foi legada, muito infelizmente. Também não li comentários sobre o happening das construtoras que terceirizam trabalho (com a conivência das diretorias de instituto e reitoria, evidentemente) acerca da cerimônia de inundação dos prédios. Ou então sobre o show de mágica da alta cúpula da Unicamp em supervalorizar os seus salários. Ou então sobre a ópera (de muitos atos) das empresas terceirizadas que não pagam a seus funcionários, decretam falência, e voltam com um nome novo para “concluírem as obras”. Ou então sobre o ato cênico/lúdico de coroamento do reitor. Ou então sobre a experiência acústica de projetar o silêncio nos espaços de vivência. Ou então, ou então, ou então...
A escolha temática de nosso crítico artístico é bastante restrita, vê-se. Se não denota também uma posição política, denota ao menos uma sensibilidade demasiado restrita. Cabe também perguntar sobre a escolha acerca da pintura do prédio (por quem foi feita, foi consensual, foi votada, etc, etc). Notável que nas bibliotecas do IFCH também se encontram autores sérios e renomados que discutem sobre o caráter de higienização do espaço (e a obrigação desta higiene visual) como uma supervivência de uma estética “fascistizante”. Mas isso são outros quinhentos...
Sem mais, essa carta era pra ser um pitaco que acabou ficando muito longo.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Contra o aumento da passagem! Estatização imediata do transporte público





Antes mesmo de assumir o cargo, o recém-eleito prefeito Jonas Donizette (apoiado pelo Reitor da Unicamp e por Geraldo Alckmin) já dá exemplos de uma gestão para os monopólios. Ontem (02/12), a passagem dos ônibus de Campinas aumentou, de exorbitantes R$ 3 para R$ 3,30. O aumento da passagem promovido pela Transurc (empresa privada que agencia o transporte público [!] na cidade há 25 anos) é parte da lógica dos governos municipal, estadual e federal, que concedem cada vez mais benefícios aos empresários e demais patrões de Campinas, e cada vez mais uma vida precarizada, miserável e privada de cultura à juventude e ao conjunto da população pobre. Esta mesma lógica se manifesta no crescimento do parque industrial da Zona Metropolitana de Campinas (que garante altos lucros aos patrões), concomitante ao incremento do trabalho terceirizado, das demissões de mais de 3000 trabalhadores na região em 2012, da perda de direitos trabalhistas e da péssima qualidade no ensino público e na saúde.

A precarização da vida da juventude e dos trabalhadores só pode ser combatida pela auto-organização dos estudantes e dos jovens trabalhadores em aliança com a classe trabalhadora. O problema do transporte público só se pode resolver contra os monopólios que desviam dinheiro pela concessão municipal; a estatização sob controle de trabalhadores e usuários é a única maneira de que justamente os que utilizam o transporte público possam decidir em que áreas desse serviço se deve investir, para o benefício de toda a população. Apenas desta maneira será possível garantir o pleno acesso da população à cidade, aos seus espaços de cultura, lazer, tratamento médico, etc (que devem ser nossos, e não dos empresários!).


CONTRA O AUMENTO DA PASSAGEM!
PELA ESTATIZAÇÃO DO TRANSPORTE PÚBLICO!
PASSE-LIVRE PARA ESTUDANTES E TRABALHADORES DESEMPREGADOS!

A inundação da biblioteca do IEL e a política de classe contra o regime universitário



por André Augusto




Como uma reedição perfeita das catástrofes que a Reitoria da Unicamp prepara, a biblioteca do IEL (Instituto de Estudos da Linguagem) foi inundada por uma infiltração nas tubulações do auditório acima, que praticamente arruinou mais de 2000 livros de um dos acervos mais importantes do Brasil (como havia acontecido com a biblioteca do IFCH em 2009, inundada em função da política de precarização do trabalho e abertura de licitações com empresas terceirizadas fraudulentas). Ironia: o lacaio de segurança da Reitoria, que tira fotos e registra estudantes e trabalhadores combativos da universidade na lista negra que a Unicamp compartilha com o 7º DP, tirou fotos das rachaduras...e foi embora! Incapaz de desligar o registro hídrico do prédio! Nenhuma equipe de vigilância do patrimônio, nenhum corpo de manutenção do prédio. Nada. Isso é um indício importante de um ponto programático candente para nós: de que uma suposta "guarda patrimonial da universidade" estaria sempre sob comando de uma chefia do regime universitário que pouco se preocupa com o acervo histórico ali guardado, e opera de maneira a abrir possibilidades infinitas para que esse arsenal de idéias documentadas seja posto a perder. Para salvar as vidas humanas que se debatem nas agruras da terceirização, e dos livros e documentos que se perdem em meio às entranhas de uma universidade de elite para a elite, é preciso questionar e por abaixo a estrutura de poder responsável por essas catástrofes. O debate de "segurança patrimonial" que corra por fora do combate político contra a Reitoria e o CRUESP (Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas) e seu projeto de universidade protegido pelo "cão de guarda" do vestibular, ficará dentro das linhas do poeta russo: "A ilusão exalatada é para nós mais preciosa que o negrume da amarga verdade". Mas a ironia de Pushkin é o alerta dos revolucionários: nossa crítica vai justamente no caminho da luta transicional de massas por recuperar o conhecimento das mãos dos abutres da educação superior e colocá-la a serviço da população negra e pobre!

Mais uma vez: essa cena (que contou com as bibliotecárias lamentando a ruína dos livros, estudantes e trabalhadores da biblioteca correndo para todo lado com os livros sobre o chão que enxarcava os que caíam, além da jornada extra de trabalho de vários deles no último final de semana) é de total responsabilidade da Reitoria amiga do Santander e de Jonas Donizette, que pune e sindica estudantes e trabalhadores. Mostra a completa correção do programa da chapa ContraCorrente-CACH, que denunciou em tempo hábil (como vem fazendo há 10 anos) a super-exploração do trabalho das negras terceirizadas (que em todos os institutos da universidade "de elite" precisam pedir demissão por não aguentar a carga laboral e as enfermidades irremediáveis que surgem), e o descaso com os acervos históricos do movimento operário e literário (como no AEL, com infiltrações pelo ar condicionado e rede elétrica).

Buscaremos refundar um movimento estudantil de centenas na Unicamp, anti-burocrático e classista, que defende com unhas e dentes os trabalhadores terceirizados para que se incorporem ao quadro de funcionários públicos sem mediação de concurso público, para acabar com a super-exploração imposta pela burocracia de Fernando Costa; para golpear por essa via um dos pilares da estrutura de poder que nega poder de decisão a estudantes e trabalhadores enquanto saúda silenciosamente a efetuação das sindicâncias contra os 31 estudantes da UNESP-Franca que puseram a correr os palestrantes da monarquia e da ditadura; para que o CACH, CAEL e demais entidades estudantis se unam aos trabalhadores e ponham toda a estrutura dos CAs em função da luta intransigente contra o regime universitário que arruína vidas operárias, exclui a população negra pelo vestibular e destrói o legado cultural da humanidade!


 
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