Sobre mesa de lançamento do livro “Nova Classe Média?”, de Márcio Pochmann, na Unicamp
Por Iuri Tonelo, mestrando em sociologia pela Unicamp
É frequentemente sintomática a capacidade que a intelectualidade tem de expressar tendências mais estruturais que se avizinham: como as folhas de uma árvore, os intelectuais balançam e se sintonizam com mais facilidade aos “novos ventos”. Em se tratando de um intelectual como Márcio Pochmann, um dos mais destacados economistas ligado ao governo federal do PT, sua postura intelectual (e política) no lançamento de seu último livro[1] na Unicamp foi bastante visionária do “pragmatismo” [2] de herança lulista que se aproxima, tendo em vista um cenário de maior instabilidade para o Brasil advinda da situação internacional e a forte crise econômica.
Em debate com presença de Fernando Sarti (diretor do Instituto de Economia da Unicamp), Ricardo Antunes (organizador da coleção em que o livro foi publicado) e José Dário Krein (professor do IE), o auditório expressava já inicialmente a contradição da mesa: com muitos intelectuais renomados para presenciar Pochmann, chamava a atenção do vazio de estudantes da graduação, sintoma da despolitização, por um lado, e da dificuldade do petismo em alavancar novas figuras, por outro.
O tema teórico exposto era convidativo ao debate, posto sua importância: tem se tornado o Brasil um país da classe média? Uma vez que se tratava de intelectual petista, a mesa aparecia como um paradoxo, afinal, como já era sabido, Pochmann iria negar de que se tratava da chamada “ascensão da classe C”. Mas se o Brasil não é “o país da classe média”, como pretendia reivindicar o projeto de país vigente (quais avanços)?
O inverso do pragmatismo teórico: um discurso petista ofensivo de avanço do emprego no Brasil
Como grande expoente petista, Márcio Pochmann é ousado em inverter o discurso de seus pares: enquanto muitos setores se orgulhavam em falar no “país da classe média”, como parte da teorização das aparências (fruto inclusive de uma intelectualidade pequeno-burguesa auto-referenciada), o economista da Unicamp era categórico em explicitar essa “nova base da pirâmide social” segundo um fato: não se trata de uma nova classe média, mas da ampliação do conjunto dos trabalhadores no Brasil, com terceirizações, ampliação do setor de serviços e alguma nova camada operária.
Ou seja, Pochmann parte de uma definir essa nova camada empregada como parte da classe trabalhadora, e nesse ponto coincidimos em termos gerais com sua análise, bastante destoante do cenário atual. Além disso, Pochmann ainda busca atribuir o discurso de “país da classe média” aos setores neoliberais, pois com esse discurso abrir-se-ia as portas para a avalanche de privatizações nos diversos setores sociais, como saúde, educação etc., mercantilizando direitos sociais dos trabalhadores e os transformando em “serviços” para a classe média. Assim diz na apresentação de seu livro:
“O adicional de ocupados na base da pirâmide social reforçou o contingente da classe trabalhadora, equivocadamente identificada como uma nova classe média. Talvez não seja bem um mero equívoco conceitual, mas expressão da disputa que se instala em torno da concepção e condução das políticas públicas atuais. A interpretação de classe média (nova) resulta, em conseqüência, no apelo à reorientação das políticas públicas para a perspectiva fundamentalmente mercantil. Ou seja, o fortalecimento dos planos privados de saúde, educação, assistência e previdência, entre outros” (Apresentação – Nova Classe Média?)
![]() |
| Marcio Pochmann e Dilma Rousseff |
Assim, Pochmann fez questão de terminar sua fala inicial no lançamento de seu livro explicitando o conteúdo político expresso por trás dos termos e da discussão teórica. Entretanto, explicitar que “o país do futuro”, segundo slogan do governo federal, não é de avanço de uma nova classe, mas dos próprios trabalhadores, ao contrário de enfraquecer o discurso petista, trata de aprofundar o verniz de esquerda do “projeto de país” que vê no crescimento moderado, na expansão do emprego precário, na concessão intensa de crédito[3] e na falsa ilusão de gradualismo para os trabalhadores uma suposta prova da força do período lulista e os elementos de continuação no governo Dilma.
Ou seja, busca, isolando as partes do todo, demonstrar um conjunto de dados que mostram uma recomposição do trabalho e salários durante o governo Lula, na década de 2000. E assim Pochmann conclama os avanços, não da classe média, mas dos trabalhadores no Brasil, um avanço comparado ao “milagre” econômico, sem as condições políticas reacionárias.
O economista petista, entretanto, apenas “se esquece” de enfatizar e obscurece com essa ênfase no debate que essa expansão do emprego encontra-se envolvida pelo véu mais perverso do governo petista no Brasil: a intensa e desumana exploração do trabalho.
Precarização do trabalho: verdadeira base do “gradualismo” lulista
Como atesta o próprio Pochmann em seu novo livro, hoje metade dos trabalhadores no Brasil recebem um salário base, ou seja, no mar do conjunto do gigantesco proletariado brasileiro, metade desses trabalhadores são obrigados a viver com um miserável salário quase quatro vezes menor que mesmo instituições como o DIEESE recomendariam como mínimo[4].
Tal exploração do trabalho se explicita cada vez mais não só nos péssimos salários, mas também na ausência de direitos elementares do trabalho, que são negados aos trabalhadores em diversos cantos no Brasil e particularmente nos canteiros das obras do Programa de Aceleração do Crescimento: sobretudo na explosão de greve selvagem de 2011 em Jirau (RO), como expressão mais aguda da impossibilidade de seguir um trabalho num regime de exploração desumano -, mas também em diversas obras em todo o país e, mesmo (para uma realidade mais próxima ao debate) nas próprias Universidades Estaduais Paulistas, em que os intelectuais petistas conclamam esse projeto de país cada vez mais montados no trabalho precarizado e terceirizado nos setores de limpeza, jardinagem, alimentação etc; “mas os ataques às Estaduais são produto do tucanato”, diria um petista, mas se esqueceria de dizer que esses ataques correm em paralelo à selvagem precarização das universidades federais, como política de expansão produtivista e desenfreada do governo Lula (e seguido por Dilma), que encontram já sua contraposição na forte greve nacional do professores e estudantes das Universidades Federais.
Se analisarmos as múltiplas determinações da expansão do trabalho no Brasil, veremos que, ao contrário de um governo ou de uma perspectiva intelectual “em defesa do mundo do trabalho”, do que se trata é de um duríssimo ataque ao conjunto dos trabalhadores que, no caso do lulismo que Pochmann entusiastamente reivindica, garante-lhes a mais profunda liberdade capitalista, a de vender a sua força de trabalho nas condições mais degradantes e paupérrimas.
O próprio economista reivindica em seu livro a barbaridade de 95% dos empregos criados pela década de Lula serem de até 1,5 do salário mínimo(!):
“Por fim, a década de 2000 apresentou uma alteração importante no padrão de trabalho da mão de obra brasileira, marcada por forte dinamismo nas ocupações geradas e no perfil remuneratório. Do total líquido de 21 milhões de postos de trabalho criados na primeira década do século XXI, 94,8% foram com rendimento de até 1,5 salário mínimo mensal” (Cap. 2 – Nova Classe Média?)
Evidentemente, esclarecendo a confusão que Pochmann pretendeu fazer no debate, não se trata de “culpa” destes trabalhadores. A perversidade da exploração repousa exclusivamente nos monopólios imperialistas que rapinam a altas taxas a mais-valia do proletariado brasileiro, além de monopólios e oligopólios como os Odebrecht, Gerdau, Camargo Correa, e outras, verdadeiros campeões da super-exploração do trabalho e das terceirizações. E ao contrário da fraseologia de esquerda de Pochmann de que “a despolitização dos trabalhadores” os impede de “organizar em sindicatos”, o nosso programa contra esses monopólios expoliadores é a efetivação do conjunto dos trabalhadores ao quadro regular, com todos os direitos e “trabalho igual, salário igual”. No caso do economista petista, seu discurso se desmancha no ar tão logo se torna programa: para ele, é preciso “regularizar a terceirização”, ou seja, “regularizar” a expoliação desenfreada dos trabalhadores no Brasil.
Assim, a tese de Pochmann segundo a qual a classe trabalhadora estaria se recompondo e avançando se converte em seu contrário: cava-se a cova objetiva para os trabalhadores no Brasil implementando as diversas formas de exploração laboral, criando o caminho para os monopólios no desenvolvimento atual e a uma exploração ainda mais agressiva numa situação de crise econômica com impactos mais agudos no Brasil.
Pochmann político: pragmatismo vulgar e sintomático
![]() |
| Lula, Haddad e Maluf |
Se ainda restasse alguma dúvida aos que podem enxergar algum viés de esquerda na tese de fundo sustentada por Pochmann, sobretudo no debate a explicitação do pragmatismo reacionário petista se explicitou com toda sua completude. Todo o castelo de esquerda da fraseologia de Pochmann se esvaiu (sobretudo no claro nervosismo de sua resposta) quando indagamos se a aliança recente entre Lula, Haddad e Maluf, um dos principais herdeiros da ditadura militar e do conteúdo mais reacionário da política brasileira, não era uma mostra – não só para círculos intelectuais ou para a vanguarda operária, mas para o conjunto das massas – dos interesses do governo do PT em representar os interesses do capital financeiro e da burguesia imperialista e nacional, utilizando de todos os artifícios da política e alianças para se alçar ao poder no Estado de São Paulo, utilizando o jogo burguês tradicional da política, sem mediações e simbolicamente mais explicito que nunca, na aliança com Maluf – o que estamos chamando aqui de “pragmatismo”.
“É preciso acumular forças”, respondia Pochmann. E mais, utilizava de seguinte delírio em sua resposta, tal qual o discurso oficial: “quem foi de direita ontem não necessariamente será de esquerda hoje”, assassinando qualquer expectativa menos “pragmática”.
Está demonstrado por A + B que estamos diante de um governo burguês e que os intelectuais como Pochmann estão dispostos a rifar qualquer nível de seriedade política e ideológica para continuar a navegar no último suspiro da estabilidade brasileira (no marco da crise internacional) e manter-se no poder ou aprofundar a hegemonia petista.
Num cenário internacional em que vamos nos encaminhando rumo a uma “grande recessão”, em que a juventude se levante em diversos países no mundo (como Canadá, México, Chile, e conjunto da Europa) e em que vemos os primeiros passos do movimento operário, expressos embrionariamente na importante greve atual dos mineiros espanhóis, o petismo demonstra seus laços com a burguesia e o imperialismo, e mostra que mesmo o discurso reformista mais a esquerda ou mais tradicional (como o de Pochmann, que reivindica a herança passada no século XX e o Estado de Bem-Estar Social) não é outra coisa senão a velha máscara para a política burguesa dos novos tempos.
Os trabalhadores, jovens estudantes e intelectuais revolucionários, comprometidos com uma alternativa revolucionária a essa sociedade, devem tomar esse debate no lançamento do livro na Unicamp como um sintoma aberto do que se avizinha por parte do governo federal em ataques, não à nova classe média, mas à massa já explorada, terceirizada, e sem direitos de trabalhadores no Brasil – particularmente expressa com concretude na candidatura de Pochmann a prefeito em Campinas, visando aprofundar a espoliação dos trabalhadores na região. Nos preparemos para derrotar (nas fabricas, nas ruas e também na universidade) esse “projeto de país”.
[1] Nesse texto não pretendemos discutir exaustivamente o livro, mas tecer primeiros comentários-reflexões a partir do debate. Seguramente continuaremos um debate mais profundo, a partir da obra.
[2] Rompendo qualquer ilusão do chavão: “político por fora da banda podre do PT”
[3] - Se o suposto combate de Dilma e Mantega no último período “aos spreads” e aos bancos privados é claramente falacioso, está claro que desde o Brasil Maior existe uma política de incentivo ao consumo, como parte da ilusão gradualista do ciclo lulista: “Quando Dilma anunciou o Plano Brasil Maior, também declarou que iniciaria uma “guerra ao spread” no país, o que poderia ser interpretado como uma política de enfrentamento aos altos lucros dos bancos privados e uma postura “progressista” do governo diante da crise na indústria. Porém é preciso desmascarar o discurso superficial do governo Dilma, já que a redução do spread bancário não implica necessariamente em redução nos lucros dos bancos, visto que essa redução deve se reverter em maior oferta de crédito barato e assim, um maior consumo, por meio de ganhos no volume financeiro, com a contrapartida de uma pequena redução da margem de lucro dos bancos privados”, Ver Flávia Ferreira e Iuri Tonelo em http://desmanchanoar.wordpress.com/2012/05/17/a-falacia-do-combate-de-dilma-aos-bancos-privados/


Posted in: 

0 comentários:
Postar um comentário