(post extraído do blog http://elviolentooficio.blogspot.com.ar/, de nosso camarada Fernando Rosso do PTS, tratando da crise aberta temporariamente entre Hugo Moyano - burocrata sindical da CGT peronista - e a presidenta Cristina Kirchner, pela luta no acordo salarial na data-base do setor caminhoneiro na Argentina (dirigido por Moyano), e que à vista do grande "perigo" que representava a utilização de métodos da luta de classes, como piquetes e paralisações, para conseguir uma porcentagem salarial maior para o setor, foi fechada pelo próprio burocrata, firmando o "armistício" sem consultar os trabalhadores e aceitando um acordo mais desfavorável do que o de outros setores da classe operária.
O "perigo" de desatar forças incontroláveis que aproximem os interesses vitais da classe operária de todo o país (é o que aconteceria no caso deste setor chave da circulação, que é referência por ter como dirigente sindical um ex-caminhoneiro - que já não "maneja o volante" há décadas) à compreensão de que é necessário elevar a consciência econômica ao nível da consciência de classe revolucionária também na maneira como se busca "incrementar as condições de trabalho no regime de exploração", impulsionou o "armistício" entre governo e burocracia. Uma escolha evidente em deseducar o proletariado, a estratégia dos agentes da burguesia no movimento operário na Argentina, como no Brasil: são estrategas da divisão das fileiras da classe operária e da neutralização de seu poder de classe. Os limites da luta de classes, para a burocracia, estão no ponto antes do qual o combate eduque os trabalhadores a enxergarem não apenas o horizonte da "negociação em melhores termos o preço de sua exploração", mas derrubem esse véu para enxergar a tarefa quebrar o regime de dominação de classe e exploração burguês.
Por se tratar de importante lição internacionalista para nós também, publicamos o artigo de Rosso, para lutarmos por uma estratégia que possibilite unificar os interesses da classe de conjunto e forjar desde já a hegemonia sob a direção do proletariado.
"Sem pão e sem Trabalho", de Ernesto de la Cárcova
Moyanismo pagão e kirchnerismo líquido
O mais interessante teve nestas jornadas é que foram um ensaio geral que tornou evidente as fortalezas e, sobretudo, as debilidades tanto de Moyano como do governo.
O enfrentamento tem razões econômicas e políticas que superam de longe a campanha salarial caminhoneira. Moyano confesou quando se anunciou o moderado acordo de 25,5%, anunciado pelo chefão da Federação patronal, já que em linhas gerais se aproxima da média do que acodaram os demais sindicatos.
Mais profundamente a disputa começou quando o kirchnerismo, como projeto restaurador, passou de sua etapa inferior de coalisões e alianças úteis para conter e acaudilhar uma “sociedade civil” que havia deixado mal vista a autoridade estatal depois de 2001; para uma etapa superior mais abertamente bonapartista, quando se criou com uma força inusitada para se independitizar dos fatores reais do poder. As etapas não são antagônicas, e são parte da restauração, como dizia Gramsci: “todo governo de coalisão é uma graduação inicial de cesarismo, que pode ou não desenvolver-se para os graus mais significativos.” E efetivamente as distintas coalisões do kirchnerismo foram abrindo o caminho ao desenvolvimento do bonapartismo de hoje. Que as etapas coincidam em sua distinção com os governos de Nestor, na primeira, e Cristina, na segunda, é simples casualidade. Nestor hoje estaria fazendo mais ou menos o mesmo que Cristina, quem sabe com um pouco mais de jogo político porque há sutis diferenças na DNA mais peronista de Nestor Kirchner e no frepasismo raivoso de Cristina Fernandez. Porém, em geral, como governos de desvios e de contenção, deveriam seguir mais ou mkenos o mesmo roteiro. Ainda que a história às vezes se encarregue de encontrar os homens e as mulheres “necessárias” para cada momento – o negociador Nestor para o momento inicial, a pedante Cristina para a etapa posterior –, com a austúcia um pouco mais sinistra que a morte, foi um fator chave para o poder da outra.
Claro que “sobredeterminando” todos estes movimentos políticos esteve o vento de proa da economia mundial que favoreceu a Argentina e, anteriormente, a desvalorização duhaldista (com ajuda moyanista), o último grande serviço do não apresentável “Tachuela” à pátria... capitalista. É certo que não foi tudo simples determinação da economia, depois de tudo somos os que acreditamos em que a superestrutura tem relativa autonomia, mas “em última instância” a estrutura se impõe como ditadura de ferro.
Quando o “Proyecto” (restaurador) chegou a esse momento deciviso, cooptando e desarticulando o movimento de desempregados e de direitos humanos, disciplinando os governadores pejotistas [do PJ – partido justicialista, peronista, governista] com a vultuosa receita tributária, ganhando o apoio popular expresso nos 54% de votos, confiou que contava com uma “independência e uma força excepcionais”. Quem se encontra no cume nesses momentos não pode evitar adoecer de um “complexo de superioridade” próprio de todos os bonapartismos. Até que a realidade, que começa como a única verdade, o desperte do “sonho dogmático” (como Hume ou Kant), na Argentina destes dias essa irrupção adquiriu a forma de uma pralisação nacional dos caminhoneiros e o bloqueio das distilarias que se transformou numa crise política.
Esse foi o momento de mudança da etapa na qual (poder-se-ia dizer que até injustamente) se pode agredecer os serviços prestados a Moyano e sua destituição da coalisão do governo. O caminhoneiro (“colocar”, como dizem em Cordoba, já que há muito tempo não trabalha ou dirige qualquer caminhão), teve a política de persuadi-los durante todo este tempo de que ele e sua organização são necessários para sustentar a ordem no movimento operário e “apenas” pedia um pouco mais de poder político (que lhe garanta o armazém, além de sua impunidade). Se a guera é a continua da política, porém por outros meios, a paralisação e os piquetes não são mais que a continuidade dessa linha de perseguição de Moyano, aina que agora este servço seja oferecido por Scioli.
As anedotas destes tempos não foram mais que episódios desta álgebra de fundo.
Porém, estes dias, dizíamos no princípio, mostraram conjuntamente as debilidades do bonapartismo líquido do cristianismo para os momentos de crises mais ou menos agudas. Como se disse, a virtude do estadista mede-se essencialmente neste momentos, quando a fortuna acompanha cada vez menos.
A camarilha kirchnerista foi, durante estes dias, uma espécie de “Orquestra de San Ovidio” (imagem que um amigo utiliza muito), na ausência de nossa “Cesar”.
Boudou, uma das figuras com menos poder político deste governo, ao ponto de que quase caía da mesa na última conferência de imprensa de tão escanteado que o puseram, foi o encarregado de ameaçar os caminhoneiros num ato que teve tanta eficácia como o estado de sítio de De la Rua. O “rosquero” da Universidad de Lomas de Zamora, “Piñon Fijo” Mariotto, acreditava que pararia a crise repetindo como papagaio o “relato” pela televisão. A propósito, nem foi fista o “meu pobre anjo” que era a suposta nova estrela do kirchnerismo. O tão renomeado novo fenômeno militante da juventude, ou seja, La Cámpora, não a vimos à frente dos piquetes defendendo o projeto, como tão “valentemente” fez com um indefensável grupo de originários Qom na 9 de julho o ex-stalinista transformado em peronista que é o “Corvo” Larroque. Os que se retorcem numa angustiante impotência são os que pertencem a esse oxímoro chamado “esquerda kirchnerista” (o “seis-sete-oitismo”). Porque outra das questões que emergiu na conjuntura foi a ADN gorila e antioperária do cristianismo. O frepasismo raivoso, que na história política do nosso país não foi mais do que um “menemismo celeste” materializado na Alianza. Para desqualificar a greve sacaram à luz os argumentos do clássico manual do gorilismo crioulo.
Em síntese, foi o momento mais “delarruísta” do kirchnerismo e, para dizer a verdade, diante da primeira crise séria que ameaça não ser a única, em momentos nos quais a economia se deteriora aceleradamente e o “bonapartismo do anúncio permanente e da cadeia nacional” é cada vez menos eficaz (a propósito, não haviam retomado a agenda com outro plano – e vão – de moradias? Aos que não ficava claro, a este nos referimos como “debilidade estratégica”.
A estratégia de Moyano e os limites da guerra
O que encerrou a crise nacional foi Moyano. Como aprendemos do clássico teórico da guerra “quanto mais importante e de maior validade sejam os motivos da guerra tanto mais afetam os interesses vitais dos povos, com maior empenho se tratará de derrubar o adversário, então tendem a confundir-se objetivo guerreiro e fim político” (Carl Von Clausewitz, in De La Guera).
Esta é uma tradução possível deste complexo aforismo de Clausewitz que sintetizamos em algum outro lugar como “quanto mais política, mais guerreira”. Isto é, a política (que sempre dirige a guerra) pode atuar como moderadora ou levá-la até o final e desta maneira aproximá-la do seu conceito, adquirindo a forma mais pura no duelo.
Mais importante que a convocatória da paralisação e da marcha de quarta-feira foi o anúncio que Moyano “terceirizou” nas mãos do do chefe das patronais dos transportes com o acordo de 25,5% que de fato assinou o armistício. Se continuasse a paralisação e os piquetes até chegar aos 30% poder-se-ia desatar forças incontroláveis e abrir-se-ia crises com as campanhas salariais de todo o movimento operário. Ao sentenciar que o salário se tornava uma “questão secundária” obstaculizou esta possibilidade e reafirmou seu caráter de estrategista da divisão das fileiras operárias, sob o “relato” (Moyano também tem o seu) da defesaa dos interesses de todos os trabalhadores.
A possibilidade dos 30% se aproximava mais dos interesses vitais de toda a classe operária (ainda que, claro, não incluia todos) e levava a “guerra” um pouco mais próximo dos extremos.
Observam apenas a aparência aqueles que veem na convocatória da marcha e na paralisação um dobrar da aposta. É u retrocesso, mais que tático estratégico como bem definiu os (queridos) amigos Castilla e Del Caño.
A estratégia e a natureza do moyanismo é sua limitação estrutural para levar a guerra até o final. O programa de aumento do salário mínimo não tributável e os subsídios sociais, ainda que progressistas não unificam vitalmente o movimento operário. Ao contrário, divide os setores mais elevados dos “sem pão e sem trabalho” de hoje (retratados tão vividamente por De la Cárcova na imagem que ilustra este post) e que incluem não apenas os desempregados propriamente ditos mas a massa de precarizados, contratados, sem registros, terceirizados e essa maioria do subsolo da pátria que são os “excluídos” do programa moyanista.
E seu programa corresponde a sua estratégia, seus meios e seus fins. A aposta num lugar sob o projeto sciolista que junto com Clarín lhe conduziu e lhe pediu (ou impuseram?) moderação orienta suas táticas e seu programa que necessariametne supõem a contenção e a divisão do movimento operário. Mesmo que por seu lugar de burocrata sindical em seu ofício inclua por vezes brincar com fogo.
Para levar a guerra ao seu conceito ou, o que é o mesmo, a luta de classes até o final é necessário mudar a condução, a estratégia e o programa. Isto é, ter uma orientação política que unifique em seus interesses vitais toda a classe trabalhadora e com ela batalhar pela hegemonia.
Isso implica diferenciar base de direções, para o que é necessário a experiência da frente única e a participação ativa na marcha de quarta-feira com um programa e uma estratégia independentes.
Contudo, destaca-se que este episódio no drama (ou farsa) kirchnerista abriu um novo cenário e desnudou os limites de sua engenharia de poder, além de mostrar o potencial poder social da classe operária (a despeito de sua direção), em tempos de vento de proa e crises anunciadas que chegam a estas paragens.
Posted in: 

0 comentários:
Postar um comentário