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segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

O Globo e a Casa Grande ou os jornalistas de “grosso trato” e a falsificação da história e do presente


por Leandro Ventura [1]



Os traficantes de escravos no Rio de Janeiro do século XIX eram conhecidos como “comerciantes de grosso trato”, por razões auto-evidentes, até para os padrões de uma sociedade escravocrata. Hoje, 14/01/13, os editorialistas do O Globo se prezam a um papel semelhante. Seu “grosso trato” com o presente e com o passado é parte de um esforço intelectual e político da elite brasileira em negar de onde ela provém, e que tipo de capitalismo e “sistema democrático” existem no Brasil assentado sob a herança da escravidão e do racismo transformado mas perpetuado.
No editorial desta data, intitulado “Para salvar o mérito” debate-se as cotas raciais. De nossa parte não somos defensores das mesmas, mas do livre acesso às universidades através da estatização das universidades privadas e garantia de financiamento e qualidade a todo um sistema universitário através de um governo universitário de estudantes, professores e trabalhadores. Mas tal como a luta por garantir o mínimo que a constituição preconiza para os assalariados e é calculado pelo DIEESE em mais de R$ 2600 passa por acompanhar e lutar junto a grevistas que defendem salários muito menores; a luta pela radical democratização da universidade passa também por acompanhar a luta pelas cotas.
O objetivo do debate d’O Globo não é o das cotas, mas negar que exista racismo no Brasil e para isto usa uma série de absurdos argumentos renegadores da história. O eixo da polêmica para os jornalistas da casa grande é que haveria triunfado a “tese da ‘dívida histórica’”. Para este jornal não há dívida histórica. A escravidão foi-se, o Brasil é miscigenado e o problema que existe é puramente social. E o problema social brasileiro não tem nada a ver com seu passado nem com raça.
Vamos aos fatos e argumentações.
Primeiro, argumentam nossos casagrandinos contemporâneos “os negros mandados para o Brasil foram tornados escravos por outros negros durante guerras tribais na África”. Pulemos o eufêmicos “mandados”, as feitorias, os porões, a travessia....Há ampla historiografia que mostra o lugar, os tratos, absolutamente distintos dos escravos em África e nas Américas, particularmente em nosso país que exibia uma das mais baixas expectativas de vida de escravos em todas Américas. A escala do que foi a escravidão, os milhões de negros seqüestrados, metade de deles vindo para o Brasil, cerca de 5 a 20 milhões conforme as fontes. Não se trata da “velha guerra tribal africana” mas de algo absolutamente novo e bárbaro que foi produzido pelas elites européias e nascentes burguesias, inclusive a tupiniquim. Mudando de foco de um genocídio para outro, alguém diria que não houve massacre – holocausto – de judeus pelos nazistas porque havia alguns judeus que colaboravam com os nazi? Não houve o gueto de Varsóvia e seu massacre porque ele tinha uma espécie de “prefeitos” judeus colaboradores?
Segundo argumento dos herdeiros das terras e seres humanos, “os derrotados eram presos e vendidos no Brasil também para outros negros”. Isto ocorria em pequeníssimas proporções, mas o que isto muda? Há por acaso uma ampla e histórica camada de proprietários rurais, grandes industriais negros nestas terras? Ou ao contrário, o lugar privilegiado do negro neste país não são as prisões, o desemprego, trabalho precário, a moradia em favelas e locais que desabam, alagam, o trabalho doméstico para mulheres e meninas negras, as balas perdidas e “autos de resistências”? Existe, é fato, médicos, juízes, advogados negros neste país. Mas tal como os pedreiros negros frente aos pedreiros brancos os médicos negros ganham menos que os médicos brancos. Isto não é parte da “dívida histórica” que o Globo nega que existe?
Terceiro argumento odioso: “a grande dívida histórica brasileira é com o pobre, de qualquer cor. Agora, num país assentado numa sociedade miscigenada cria-se um apartheid contra o branco de baixa renda”. Os pobres são igualmente divididos entre brancos e negros? Pulemos este argumento que já abordamos parcialmente acima. O Brasil é um país miscigenado, mas quanto desta miscigenação foi voluntária? Ou não teria sido o estupro do senhor de engenho, seus filhos, feitores, capatazes parte desta miscigenação? A continuação da mesma prática no assédio sexual de patrões e filhos a empregadas domésticas entra como nesta miscigenação? Por fim para completar seus absurdos argumentos O Globo chama de apartheid as dificuldades que os pobres brancos terão para entrar nas universidades. Este argumento final é o cumulo de sua falsificação da história e do presente e a ele dedicaremos mais espaço argumentativo.
apartheid foi um dos mais odiosos regimes políticos erguido pela burguesia em todo o mundo, vingou na África do Sul e na atual Namíbia (país anexado pela África do Sul por décadas) e no Zimbabwe. Um regime assentado no racismo com contornos muito distintos do papel que teve o racismo no Brasil onde a classe dominante procurou desenvolver a falácia da “democracia racial”. No apartheid os negros eram encerrados em bantustões, tinham que ter passaporte para se locomover dentro do país, não tinham nenhum direito político, não podiam freqüentar os mesmos bairros, locais públicos, tinham os piores empregos, eram divididos conforme grupo étnico, etc, sistema muito diferente do brasileiro que procura mostrar que todos poderiam ter acesso a tudo e que não haveria nenhum tipo de discriminação.
O Globo não critica os limites das cotas, não argumenta uma linha que milhões de negros ficaram de fora das universidades mesmo com as cotas, não se preocupa com eles, não fala uma palavra do sistema prisional e como são condenados negros que roubaram um frango (como ocorreu recentemente em um restaurante da Petrobrás no Rio de Janeiro), dos autos de resistência, das favelas, do trabalho precário, e demagogicamente quer tomar a bandeira de pobres brancos. Tal como os bôer (brancos) da África do Sul que viviam de fomentar ódio, escrever fantasiosas histórias sobre sua origem e destino, para poder defender seus privilégios nossos herdeiros da casa grande querem com seu “grosso trato” repetir o papel de seus irmãos de classe na África do Sul. Nem que para isto precisem deturpar o que foi o apartheid, ignorar qual é a realidade do Brasil e ignorar sua história.
Walter Benjamin dizia em suas Teses sobre o Conceito da História, “que nem os mortos estariam a salvo se o inimigo vencer”. E trata-se justamente disto quando nos confrontamos com a história do Brasil. O Brasil ergueu-se em cima de um dos maiores genocídios da história, o genocídio passado e presente dos negros. O Carandiru, a chacina da Candelária estão aí como prova atual. Também estão como prova histórica cemitérios (que seriam melhor descritos como valas-comuns) como dos Pretos Novos na Gamboa no Rio que abrigaram em poucos anos 30mil escravos que morreram antes de serem vendidos. Este cemitério por sua importância histórica e magnitude do massacre deveria figurar nos livros de história mundial junto a Auschwitz e Treblinka. Mas não, não há racismo no Brasil diz o Globo.
Ocorre que este cemitério foi escondido pelas classes dominantes, foi encontrado em meio à obra de uma família em sua casa. Ruy Barbosa mandou queimar todos documentos da escravidão (temendo que os ex-proprietários exigissem indenização pela abolição e negando aos negros sua história). Tal como estes documentos, tal como este cemitério, o Rio de Janeiro e o Brasil foi erguido procurando apagar seu passado para erguer esta falácia de democracia racial. O Cais do Valongo, principal porto de entrada das Américas de negros seqüestrados, por onde passaram de 1811 a 1830, um milhão de negros (30 mil deles não sobreviveram e acabaram no vizinho cemitério, fora os que acabaram no mar) foi encontrado recentemente debaixo de asfalto. Não faltam exemplos do que esta burguesia tenta negar que ocorreu, do quilombo dos palmares, ao bombardeamento da ilha das cobras na “segunda revolta da chibata” matando centenas de marinheiros, entre inúmeros exemplos. A burguesia brasileira quer esconder seu passado e seu presente.
Na mão da burguesia brasileira e seus escribas nem os mortos estão a salvo. Da história dos derrotados ergueremos outro presente e futuro, onde não exista espaço para a escravidão, exploração, nem para falsificar e negar a história do maior genocídio já cometido na história e que se perpetua dia a dia nas mãos desta classe dominante.

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[1] Texto publicado originalmente em http://www.ler-qi.org/spip.php?article3720

domingo, 2 de setembro de 2012

Fora o ranço da monarquia da universidade pública! Fora a burocracia acadêmica que o legitima!


por LER-QI Franca






Em 1934, militantes trotskistas e anarquistas, reunidos na frente única antifascista, conseguiram, inclusive comprometendo os militantes do PCB, organizar uma forte resistência contra o crescente avanço de grupos integralistas no Brasil. Num evento que ficou conhecido como a “revoada dos galinhas-verdes” esses militantes revolucionários conseguiram dissolver um ato dos integralistas na praça da Sé, em São Paulo, e definitivamente colocaram fim nas pretensões dessa excrescência de organização, que defendia os valores mais atrasados e obscuros.
Depois de 78 anos, em outro contexto histórico e em outras proporções, o movimento estudantil da UNESP Franca, na melhor tradição antifascista, conseguiu organizar um grande ato-debate contra a criminalização dos movimentos sociais que reuniu cerca de 200 pessoas na universidade, através de uma ampla frente democrática composta por grupos acadêmicos, organizações políticas e inúmeros estudantes independentes para repudiar a presença Bertrand de Orleans e Bragança e do jornalista José Carlos Sepúlveda, representantes de setores entusiastas do regime militar brasileiro e que pregam abertamente a violência no campo e a morte de trabalhadores rurais sem-terra. 
Bertrand, herdeiro da família real brasileira, é líder de um movimento que prega abertamente que os grandes latifundiários brasileiros organizem milícias para atacar os movimentos sociais e camponeses que lutam pela reforma Agrária, além de fazer uma defesa fervorosa contra as comunidades quilombolas no interior do País. Já o jornalista Sepúlveda é membro do grupo Tradição, Família e Propriedade (TFP), entidade homofóbica e machista, inimiga número um dos direitos humanos e defensora saudosa do regime militar. Ambos ganharam notoriedade realizarem uma campanha fervorosa contra a aprovação de uma emenda constitucional para punir os fazendeiros que se utilizam de trabalho escravo ainda hoje no Brasil.
Vieram à Franca, com o convite de um grupo de extrema direita e com o apoio da direção do campus, para despejar todo seu ódio contra todas as formas de organização operária e popular e fazer mais propaganda de suas ideias que pregam a violência contra os trabalhadores do campo. Como se já não ocupassem espaço e cargos demais nas universidades de todo o país, além da mídia, empresas, governo e etc, os defensores do latifúndio, da propriedade e da criminalização da pobreza foram convidados de honra da burocracia acadêmica e de um grupo que se autoproclama intelectual, apesar de suas ideias terem pouca ou quase nenhuma base científica.
Em um dia que, com certeza, ficará marcado na história da UNESP-Franca, o movimento estudantil, que já possui uma importante tradição de lutar lado a lado dos trabalhadores da cidade, mostra que continua ao lado deles, dos sem terra que lutam por reforma agrária, dos quilombolas, das mulheres, dos negros e dos homossexuais não se seduziram pelo falso discurso de “liberdade de expressão” defendido pelos conservadores. O que eles defendem não se trata de liberdade de expressão, mas sim liberdade para seguir ocupando os bancos da universidade pública para conspirar contra a própria população, para seguir despejando seus rios de preconceito, para colocar a universidade cada vez mais a serviço dos ricos e latifundiários contra os interesses da maioria da população. Liberdade de opressão, liberdade de violência, liberdade de exploração, da classe dominante sob a classe trabalhadora. Liberdade para a classe dominante continuar no poder e para os operários, miséria profunda e trabalho precário, além de falta de acesso à moradia, saúde, educação, cultura, lazer e etc.
O mesmo setor que hoje defende essa suposta “liberdade de expressão” não se indigna nenhum pouco com essa situação da classe operária. Não se indignou nenhum pouco quando estudantes racistas picharam na Unesp de Araraquara contra a presença de estudantes negros na universidade pública “sem cotas para os animais africanos”. Também não se indignou quando alunos da Unesp fizeram o asqueroso “Rodeio das Gordas”, aonde ‘montavam’ em mulheres que definiam fora do padrão de magreza. Muito menos se movimentaram para que esses estudantes fossem punidos pela violência que praticaram.
Ao contrário, o movimento estudantil que batalha para ser a voz da classe trabalhadora na universidade, até que estes ocupem todas suas cadeiras, é parte ativa de denunciar os casos de racismo, machismo e homofobia dentro e fora da universidade. É parte constante dos movimentos que acontecem em pró da classe trabalhadora e do povo oprimido – é parte do movimento pela estatização do transporte público, é parte das ações conjuntas com a juventude trabalhadora e da periferia que organiza seus debates, como no 1º Fórum da Consciência Jovem, é parte dos movimentos sociais que lutam pela reforma agrária, é parte da luta dos sapateiros historicamente em defesa dos seus direitos, em especial o de eleger seus representantes sindicais e contra a exploração do trabalho e sua jornada extenuante.
Mostrando que os latifundiários, empresários e toda a classe dominante hoje estão no comando das universidades, apoiada numa estrutura de poder que concentra as decisões nas mãos dos professores e afirmando da pior maneira que não há espaço para liberdade de expressão aos que questionam esse projeto de educação elitista, lançam mão do aparato repressivo e de manobras acadêmicas para suspender, expulsar, punir os estudantes e demitir funcionários. Na USP, pelas mãos do reitor João Grandino Rodas, exemplo para os diretores e burocracia acadêmica das outras universidades, foram 73 presos na luta contra a presença da polícia militar na universidade. Ainda na USP, expulsões, sindicâncias e processos administrativos estão em curso contra os que se põe a lutar. Na Unicamp e na Unesp, a repressão aos que se levantam também é regra, com vários exemplos de perseguição aos estudantes de distintos campi, e com ameaças constantes de sindicância aos que ousam se colocar em aliança com a classe operária.
E por mais surpreendente que pareça após a ação do movimento estudantil de Franca algumas organizações monarquistas e ruralistas mostraram a sua cara e estão exigindo punição aos estudantes que participaram do ato realizado por centenas de pessoas.
Esses grupelhos, que frequentemente habitam as redes sociais defendendo a perseguição aos homossexuais, que vociferam contra qualquer medida que envolva os direitos humanos e que reivindicam com orgulho o regime militar brasileiro, são os mesmos que agora pedem a cabeça dos estudantes de Franca.
Não podemos permitir qualquer punição aos estudantes da Unesp Franca que colocaram para fora esses senhores representantes do que há de pior na política brasileira. O movimento estudantil, sindical e grupos de direitos humanos de todo o país precisam se manifestar contra qualquer represália aos estudantes de Franca.
Para nós da LER-QI o movimento estudantil deu um grande exemplo para o conjunto do movimento estudantil brasileiro. Mostramos que nossa luta, ao contrário desses novos “pintinhos verdes” do CIVI, vai para além das redes sociais. Nossa luta é cotidiana, real e incansável. Nosso ato foi pelos operários sapateiros de Franca que acordam pela madrugada para se preparar para um longo e duro dia de trabalho. Nossa luta foi em defesa de nossos irmãos no campo que nas madrugadas frias ocupam terras para produzir alimento e viver dignamente. Nosso grito de repúdio foi pela liberdade para poder exercer nossa sexualidade da maneira como queremos sem ter que nos esconder. Nossa palavra de ordem é o eco do grito de resistência dos negros que lutam por sua sobrevivência há mais de quatro séculos.
A luta dessa “terça vermelha” é em homenagem a todos os heróis do povo brasileiro que tombaram. Nesse momento, lembramo-nos dos militantes tombados pela ditadura militar. Dos camponeses assassinados no massacre de eldorado dos Carajás, do massacre do Carandiru, do massacre da candelária, da invasão pela PM no Pinheirinho e tantos outros genocídios contra os trabalhadores e o povo pobre que são causados por grupos e setores que hoje cinicamente falam em liberdade de expressão. A luta dessa “terça vermelha” é em homenagem aos mineiros sul africanos em greve que morreram nas mãos da polícia assassina. É em nome da Primavera Árabe, dos mineiros da Espanha, da juventude chilena, canadense, grega e de toda a juventude que se coloca a luta contra a crise econômica mundial e pela construção de um mundo novo. A luta dessa “terça vermelha” é para se ligar aos trabalhadores em greve de Suape, de toda a construção civil e da greve do funcionalismo público que enfrenta a repressão e se levanta contra o governo de Dilma e do PT que tenta passar vários ataques à classe trabalhadora para proteger os lucros da patronal e a estabilidade da classe dominante. A luta dessa “terça vermelha” é pelas terceirizadas da USP, estudantes e demais trabalhadores dessa universidade que lutam contra a precarização do trabalho e do ensino.
A partir dessa luta e da assembleia massiva que foi construída no campus pós ato, com a reafirmação da nossa aliança com a classe operária e os movimentos sociais, é ainda mais necessária a articulação com as outras universidade em que estudantes e funcionários são reprimidos pelos governos federal e estadual através de seus representantes na burocracia acadêmica. É preciso que a Unesp se coloque a frente numa grande campanha nacional contra a repressão e que organize seu Ceeuf (Conselho de Entidades Estudantis da Unesp e Fatec) nessa perspectiva, para que unamos todos os lutadores dentro das universidades junto com sindicatos, entidades, grupos políticos, de direito humanos, etc para construir uma universidade a serviço dos trabalhadores e da população pobre. Para partir do questionamento da universidade de classe para o questionamento da sociedade de classes.
Somos fortes. Nossa disposição na luta em defesa dos trabalhadores é indestrutível. Podemos mudar a história e junto com os trabalhadores e povo pobre o faremos.



quarta-feira, 11 de julho de 2012

Uma história escrita com sangue para defender os interesses imperialistas

por Simone Ishibashi


 
A batalha de Tuiuti, na Guerra do Paraguai


O golpe institucional que tirou o ex-presidente paraguaio Fernando Lugo do poder reacendeu a questão da influência política do Brasil sobre o país vizinho. Desde então os brasiguaios detentores de grandes parcelas de terra, e empresários, saíram a comemorar a entrada no poder de Federico Franco, desejando abertamente “mão-dura” contra os camponeses sem-terra do país, conhecidos como “carperos”. No que se remete à geopolítica regional, embora a retirada temporária do Paraguai do Mercosul seja vendida pela mídia burguesa como uma medida ofensiva dos governos latino-americanos pós neoliberais com Dilma à cabeça, seus efeitos são muito mais simbólicos que reais. Acima de tudo, este forcejo frente ao imperialismo não indica uma reversão da política dos governos pós-neoliberais e de Dilma, de fechar os olhos e negar completamente os direitos dos carperos paraguaios. Nem uma palavra foi dita contra o assassinato e a escalada de violência que estes setores vêm sofrendo. Como cume deste processo, a mídia burguesa faz coro com os setores mais reacionários da burguesia paraguaia, acusando os camponeses daquele país de serem xenófobos com os brasiguaios. Buscam com isso esconder uma história escrita a sangue e opressão. Esta combina capítulos mais remotos, embora nem por isso esquecidos, dos quais a Guerra do Paraguai de 1864 é a maior expressão, com outros mais recentes, como o conflito entre os ricos latifundiários, muitos dos quais brasiguaios, e os camponeses paraguaios para os quais as terras de seu país é negada. Uma história em que a burguesia brasileira demonstrou seu caráter subserviente em toda a linha ao imperialismo. E que o Brasil tem uma dívida histórica com os nossos irmãos paraguaios.

O massacre em defesa dos interesses ingleses

O papel do Brasil em relação ao Paraguai é marcado pelo imenso massacre daquele povo protagonizado pelos países que compuseram a Tríplice Aliança na segunda metade do século XIX. Embora ainda em nossos dias se apresente nas escolas a Guerra do Paraguai como um episódio heróico protagonizado pelas tropas brasileiras, glorificando figuras como Duque de Caxias, tratou-se de uma vergonhosa ação que visava garantir os interesses da potência hegemônica daquele momento, a Inglaterra.
Se a declaração de independência dos países latino-americanos os permitiu deixar de serem colônias da Espanha, de nenhuma maneira este processo significou a conquista de uma autonomia efetiva em relação à Inglaterra, potência que se fortalecia cada vez mais. O Paraguai conquistou sua independência em 1811 sem nenhum enfrentamento, produto da própria decadência da Espanha frente à Inglaterra. A partir de então, o Paraguai passaria a ser governado com ditaduras, sendo a primeira a de José Gaspar Rodríguez de Francia, que levou adiante uma política isolacionista em relação ao conjunto da região, impedindo a emigração e a imigração.
Mas foi com Carlos López que o sucedeu, que o Paraguai teria erradicado o analfabetismo, e estaria se alçando como um país com bases para obter margens de manobras um pouco superiores se comparado aos demais vizinhos da região, contando com um exército significativo. Isso não quer dizer que o Paraguai fosse uma potência, como defendem algumas leituras. Questões territoriais sempre marcaram a formação do Paraguai. Uma mostra disso é que parte de seu território teve que ser dado à Argentina, como a província de Misiones em 1852, em troca do reconhecimento de sua independência pelo país vizinho. Esta perda agravou ainda mais os problemas territoriais do país, que não conta com uma saída para o mar.
Mas mesmo assim, a política de resistência relativa à Inglaterra foi suficiente para que o país fosse alvo a ser destruído pela coroa britânica. A compra de mercadorias inglesas no Paraguai era menor se comparada aos demais da região, além do que este impedia a entrada de capital britânico, produto da política delineada por Carlos López. Consta que o lema britânico da época é que “o Paraguai não é bom para os negócios, pois dele compramos mate e nada vendemos”. Assim, impelidos pelos interesses da Inglaterra, a Tríplice Aliança, como ficou conhecida a unidade entre Brasil, Argentina e Uruguai, declara guerra ao país, no mais sangrento dos conflitos que compõem a Questão da Prata. Durante a ditadura de Solano López, que sucedeu Carlos López, a Inglaterra se apoiando nas disputas fronteiriças existentes financia o Brasil, a Argentina e o Uruguai para que estes protagonizem a Guerra do Paraguai, o maior conflito sul-americano, que durou de 1864 a 1870.
Coube ao Brasil o papel mais hediondo. Utilizando-se dos então escravos negros e mestiços como bucha de canhão, o Brasil enviou cerca de 150 mil homens à guerra, dos quais se estima que metade tenha perdido a vida neste conflito, que favoreceu os interesses do capital britânico. A população negra caiu drasticamente, já que havia no exército brasileiro durante a Guerra do Paraguai um branco para cada 45 negros. A Argentina e o Uruguai enviaram contingentes menores, dos quais cerca de 50% morreram.
Os resultados do conflito selaram o destino do Paraguai, que se transformou em um dos países mais pobres da América do Sul. Foram massacrados cerca de dois terços da sua população masculina. Suas terras foram devastadas, e uma grande fome se abateu sobre o país, sendo que cerca de 40% de seu território foi perdido para a Argentina e o Brasil. Além disso, uma pesada indenização foi imposta pelo Brasil, estando vigente até meados da Segunda Guerra Mundial. Muitos paraguaios foram trazidos para o Brasil e trabalharam como escravos.
Do ponto de vista do Brasil, os resultados do conflito fratricida aprofundaram a submissão econômica e política em relação à Inglaterra. O criminoso espólio de guerra imposto ao Paraguai pelo Brasil foi usado para que este pagasse à Inglaterra imensos juros pelo financiamento da guerra, tendo que ser complementado imensamente. O único que se beneficiou de fato com o massacre no Paraguai foi a Inglaterra.
Esta memória é pouco evocada, embora sirva para demonstrar como desde sua formação os países da América do Sul só conseguirão uma verdadeira independência se sua classe trabalhadora e seus povos unirem-se contra a dominação imperialista, e de suas burguesias nacionais.

Defendemos o direito dos camponeses paraguaios às suas terras

Onde a imprensa burguesa vê xenofobia dos carperos contra os brasiguaios, nós vemos apenas o anseio legítimo de nossos irmãos paraguaios de terem acesso à fértil terra de seu próprio país. De acabarem com a situação de miséria a que estão submetidos há décadas. A instalação dos brasiguaios data em sua maioria da década de 1970, quando os agricultores que viviam nas proximidades de Itaipu tiveram suas terras desapropriadas, e se mudaram para o Paraguai, onde puderam adquirir grandes faixas de terra na fronteira com Foz do Iguaçu a um preço irrisório. Isso se deu em meio à ditadura militar de Alfredo Stroessner, que governava o Paraguai naquele período, e ascendeu através de um golpe apoiado pelo Partido Colorado. Alfredo Stroessner, filho de imigrantes alemães foi um aberto simpatizante dos nazistas, asilando vários deles no Paraguai, como Josef Menghele. Stroessner massacrou a economia paraguaia pagando a imensa dívida externa e vendendo as férteis terras do país a preços praticamente simbólicos para os brasileiros.
A venda destas terras se deu de maneira completamente ilegal, mas o mais importante é que se tratou de uma política que confirma completamente o caráter antinacional das burguesias semicoloniais, que preferem praticamente doá-la, como se deu com a ocupada pelos brasiguaios, a permitir que o seu povo possa dispor dela. Desde então, alguns brasileiros que aí se instalaram se constituíram como verdadeiros latifundiários, que rendem homenagem à sua maneira à política de saque levada adiante com os imensos encargos impostos após a Guerra do Paraguai.
Dentre eles figura o brasileiro Tranquilo Favero, o maior produtor individual de soja do país. O Paraguai é o quarto maior exportador de soja do mundo, e somente Tranquilo Favero detém mais de 45 mil hectares de terra, acumulando lucros de US$ 50 milhões anuais. É um fato público e notório que ele esteve nos bastidores do golpe institucional recente, e que é um defensor aberto do massacre dos carperos. Em 2011 um grupo de carperos ocupou parte das terras de Favero, e foram desalojados pela polícia. Outros donos de longas faixas de terra no Paraguai são Hebe Camrago, Silvio Santos e Ratinho. Enquanto o elenco do SBT enriquece à custa da política historicamente criminosa da burguesia paraguaia, 10 mil carperos seguem desalojados, esperando para ter acesso à terra há mais de 13 anos. Cerca de 35,1% dos paraguaios vivem na pobreza total. Neste sentido, é totalmente legítimo que o povo paraguaio expresse rechaço aos latifundiários brasileiros que acumulam lucros sem fim. Isso nada tem a ver com xenofobia, como quer a mídia burguesa, mas com a raiva acumulada contra os grandes proprietários de terras. Se estes latifúndios fossem expropriados e colocados a serviço dos interesses dos camponeses e do povo paraguaio, os pequenos produtores brasileiros que ali se instalaram não seriam alvo de nenhuma hostilidade, e poderiam conviver pacificamente.
Embora a “festa do lucro” brasileiro no Paraguai tenha vindo à tona a partir da questão dos imensos latifúndios, isso não se restringe a este setor. Empresários brasileiros também compram quase de graças diversas fábricas, acumulando lucros exorbitantes enquanto super-exploram a mão-de-obra paraguaia. Um exemplo é a fábrica têxtil Cortineras Paraguai, de propriedade de Alexandre Bazzan, que acumula lucros de US$ 10 milhões. Outros que estão tirando o máximo de vantagem do Paraguai são a Camargo Correia e a Votorantim, que chegam a dizer que produzir no Paraguai é a via mais satisfatória para competir com a produção chinesa. A explicação para estes lucros é o baixo custo da mão-de-obra aliado à uma política de redução de impostos para a parcela da burguesia brasileira que ali se instala. Evidentemente todos eles apoiadores do golpe institucional.
Por outro lado, se o presidente derrubado Fernando Lugo demonstrou frente à miserável situação dos carperos a mesma passividade com que respondeu ao golpe institucional que o destituiu, agora a perspectiva é de um endurecimento ainda maior da repressão ao povo paraguaio com a ascensão da direita pró-ianque ao poder. Já Dilma Roussef tida como mentora da exclusão do Paraguai do Mercosul, demonstra como sua política nada tem a ver com qualquer preocupação progressista em relação à situação dos carperos. Nenhuma palavra foi dita sobre a situação dos carperos e seu assassinato, isso sim uma verdadeira ameaça à “democracia” que os governos dos países do Mercosul dizem defender.
Nós, marxistas revolucionários, defendemos o direito democrático elementar de o povo paraguaio dispor de suas terras. Defendemos a expropriação dos latifúndios em mãos de brasiguaios, sem indenização. Denunciamos a reacionária campanha que busca transformar os latifundiários brasiguaios em vítimas de xenofobia, e nos colocamos resolutamente ao lado de nossos irmãos paraguaios trabalhadores da cidade ou do campo, contra a burguesia brasileira que ali se instalou dando prosseguimento à política histórica de saque. É preciso que os trabalhadores das fábricas, empresas e grandes monopólios que estão instalados no Paraguai se unifiquem com os trabalhadores do campo, e coloquem os recursos de seu país à serviço de seus interesses. Estamos ao lado da classe trabalhadora e do povo paraguaio para que juntos escrevamos outra história, que seja marcada pela unidade da classe trabalhadora e dos povos da América do Sul.



 
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