Um surrealista no Brasil: o itinerário político-artístico de Benjamin Péret (1929-1931)
por Thyago Marão Villela, estudante de pós graduação em artes visuais e militante da LER-QI
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| Benjamin Péret |
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Quem é Benjamin Péret? Um homem que parece um homem.
(Paul Eluárd)
Reconhecido amplamente pelo próprio movimento surrealista como o surrealista por excelência, Benjamin Péret mostrou-se precoce no desenvolvimento da afinidade entre a vanguarda artística surrealista e o trotskismo.[1] O poeta rompeu com o Partido Comunista Francês ainda em 1926[2] - em função da stalinização de suas fileiras – e tomou contato com o trotskismo e com a Oposição de Esquerda Internacional na França, tendo manifestado mais fortemente sua simpatia à corrente política após a relação que estabeleceu em 1928 com o trotskista brasileiro Mário Pedrosa, de quem se tornou concunhado. A primeira aproximação entre o surrealista e Pedrosa teve o papel central de construir a empatia entre Péret e o Brasil, país no qual desembarcou em 1929 com sua companheira, a cantora Elsie Houston, inicialmente com o intento de realizar pesquisas acerca do folclore nacional e adquirir objetos pré-colombianos, pesquisando os mitos das diversas regiões brasileiras para um livro que pretendia escrever, bem como realizar um filme documentário e um “romanceado” sobre as lendas dos indígenas brasileiros. A inviabilidade do projeto em função da falta de verbas, ao contrário de resultar na volta de Péret à França, fez com que este se aproximasse e aprofundasse sua relação com Pedrosa e Lívio Xavier (com quem manteve contato até sua morte, em 1959), bem como empreendesse projetos nas mais diversas frentes.
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| Primeiro exemplar da Revista de Antropofagia, de maio de 1928 |
No campo artístico, o poeta participou do momento de radicalização artística e política do movimento Antropófago (e é, segundo o pesquisador Jean Puyade[3], um dos responsáveis pela mesma), que se encontrava em sua “segunda dentição”, escrevendo na Revista de Antropofagia (suplemento quinzenal do Diário de S. Paulo) e freqüentando o círculo dos modernistas, bem como seus eventos performáticos (como o “festim antropofágico”, por exemplo, ocorrido em 27 de março de 1929). Pouco tempo depois deste processo de ascensão do movimento, a Revista de Antropofagia é suspensa do jornal. É conhecido o fato de que os modernistas brasileiros encontravam-se, até então, muito mais em contato com o cubismo e o futurismo – sendo o surrealismo incorporado ao grupo apenas com o advento da Antropofagia (que se dá aproximadamente em 1928). Péret cumpriu um papel chave nesta incorporação, na medida em que estreitou seus laços com Oswald de Andrade e propagandeou o ideário surrealista em palestras e polêmicas travadas em periódicos. [4]
Segundo Valentim Facioli,
A proposta social, cultural e artística do movimento antropófago aproximou-se extraordinariamente do surrealismo. Formulou uma utopia libertadora para o homem brasileiro e ocidental, propondo a ‘instauração’ de um matriarcado com regime civilizatório e governativo, exaltando as forças inconscientes reveladas por Freud e as energias das culturas primitivas e populares. Pregava a revolução bolchevista, a revolução surrealista e a revolução caraíba (do indígena). [5]
No desenrolar dos dois primeiros anos de estadia em solo brasileiro, o poeta continuou a manter contato com os surrealistas franceses, em especial Paul Eluárd , com quem trocava correspondências[6] sobre a situação do movimento e os acontecimentos políticos da França. No ano de 1930, Péret visitou terreiros de candomblé, como parte desta pesquisa que planejava acerca do folclore, além de aproximar-se do grande arquiteto e artista plástico Flávio de Carvalho.
Se, entretanto, esta aproximação entre o surrealista e os modernistas fez-se bastante proveitosa, interessa ressaltar, segundo Maria Rita Palmeira, que:
Se esses primeiros companheiros brasileiros de Péret caminhavam rumo ao nacionalismo, à busca do genuinamente brasileiro, Mário Pedrosa percorria o caminho oposto, em direção ao internacionalismo revolucionário. Era natural que Péret, para quem todas as pátrias eram uma mesma desonra, avesso à idéia de nação e pronto a pôr em prática as máximas adotadas pelo surrealismo (...), estivesse mais próximo de Pedrosa. Este, tendo chegado da Europa no meio do ano, vinha desde lá, por carta, orientando os amigos brasileiros nas discussões sobre os rumos do Partido, com o qual romperia em breve. É difícil a partir de 1930 traçar a trajetória de Benjamin Péret sem misturá-la à sua atividade militante e à proximidade com Pedrosa, sobretudo a partir de 1931. Pois se Péret já havia mesmo passado pelo PCF, é no Brasil que consolida sua posição trotskista que irá orientar sua ação política por muitos anos. [7]
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| A Luta de Classe no. 20 (1935), periódico da LCI |
Assim, Benjamin Péret, em conjunto com mais oito militantes (dentre os quais Aristides Lobo, João da Costa Pimenta, bem como Xavier e Pedrosa, supracitados) atuou na fundação, em 1931, da Liga Comunista Internacionalista, seção nacional da Oposição de Esquerda Internacional (trotskista). O poeta foi eleito, na assembléia de constituição da Liga, para integrar a Comissão de Agitação e Propaganda, coordenada por Lívio Xavier, ficando encarregado do agitprop na Comissão Executiva, de onde decorrem as duas fases de sua militância: a primeira, de janeiro a abril de 1931; a segunda, de abril até sua expulsão do país.
O primeiro momento apontado corresponde a uma atuação mais restrita, em função da intensa perseguição aos estrangeiros militantes do movimento operário empreendida pelo governo de Getúlio Vargas, bem como do prestígio que carregava entre os meios mais intelectualizados, o que fazia do campo da cultura um espaço privilegiado para sua atuação. O artista propôs, neste período, a criação de uma cooperativa cinematográfica para a exibição de filmes revolucionários e a escrita de um folheto em linguagem popular, que explicasse os acontecimentos da Revolução de Outubro e discutisse as posições dos oposicionistas brasileiros.
O segundo momento revela um salto qualitativo na atuação do poeta, fruto de sua ida ao Rio de Janeiro, onde assumiu a função de secretário do Comitê da Região e, ao lado de Pedrosa, coordenou a organização dos militantes cariocas – os quais após a desarticulação do Grupo Comunista Lenine, anterior à LCI, encontravam-se dispersos – e a edição do Boletim da Oposição[8]. A pesquisa sobre a Revolta da Chibata, de onde resultará o livro O Almirante Negro, tomou o tempo livre do artista, quando não se encontrava militando.[9] As críticas do artista aos militantes de São Paulo são freqüentes (em função principalmente da falta de comunicação entre os dois núcleos), e a freqüência de suas correspondências endereçadas a estes acabou por tornar-se um auxilio para o estudo de sua figura e das suas atividades, de onde resulta uma maior exatidão e rigor no que responde ao ano de 1931. Percebe-se, por exemplo, que se ocupava bastante com a escrita do livro e que provavelmente deve tê-lo distribuído a alguns amigos, como Lívio Xavier, possivelmente. Péret, em função de sua atividade militante, foi detido em conjunto com João Mateus, outro militante da seção carioca, em 28 de novembro do mesmo ano. Os documentos da Liga Comunista por eles guardados foram confiscados, e o poeta foi expulso do país dia 30 de dezembro, após passar o tempo entre tais eventos na prisão. O almirante negro é confiscado e atualmente apenas quatro páginas da obra são conhecidas. A imprensa não noticiou o ocorrido.
Benjamin Péret, em apenas dois anos de estadia no país, foi capaz de deixar importantes marcas na política e nas artes nacionais, encarando o campo da cultura como um campo de conflito e uma das linhas de combate a serem tomadas integralmente pelos revolucionários.
[1] Mais sobre esta afinidade em http://cephs.blogspot.com.br/2011/12/surrealismo-e-trotskismo-os-caminhos.html.
[2] Existem, no entanto, divergências quanto à data de desfiliação do poeta. Maria Rita Palmeira aponta para um desligamento efetivo no ano de 1927.
[3] Cf. PUYADE, Jean. Benjamin Péret: um surrealista no Brasil (1929-1931). O Olho da História, Salvador, n. 8, p. 1-20, jan. 2006.
[4] A mais conhecida sendo a polêmica com o jornalista Raul Polillo, que tem como conseqüência a redação, por parte de Péret, de O que é surrealismo. Resposta a um imbecil, de 7 de março de 1929; dentre outros artigos.
[5] FACIOLI, Valentim. Modernismo, vanguardas e surrealismo no Brasil. In: Robert Ponge (org), Surrealismo e Novo Mundo. Porto Alegre, Editora da Universidade, 1999, p. 40.
[6] Boa parte das correspondências de Benjamin Péret, no período, encontram-se hoje no CEDEM/UNESP, em São Paulo , nos arquivos Benjamin Péret, Elsie Houston e Lívio Xavier.
[7] PALMEIRA, Maria Rita Sigaud Soares. Introdução. Capítulo I. Capítulo II. in: “Poeta, isto é, revolucionário: itinerários de Benjamin Péret no Brasil (1929-1931). 2000. Dissertação (Mestrado em Teoria Literária ) – Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas. p. 15-87. P. 49
[8] Muitos números deste Boletim encontram-se hoje, para pesquisa, no Arquivo Edgard Leurenroth, na Universidade Estadual de Campinas (SP).
[9] Importa ressaltar que Péret havia escrito, no mesmo ano, o prefácio para a edição brasileira de O encouraçado Potemkin, a partir do qual estabeleceu um paralelo com o processo brasileiro da Chibata.



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