por Thyago Marão Villela
Logo de início, cabe aqui uma advertência ao leitor desavisado: por melhor que fosse a capacidade de síntese de um escritor e sua erudição, seria impossível estabelecer um debate profundo sobre a teoria estética de Gyorgy Lukács em poucas páginas. Este post não se enveredará por este pretensioso caminho – fadado ao fracasso: procurará, entretanto, discutir em linhas gerais, à luz do sétimo Colóquio Marx e Engels, algumas das intervenções que procuraram afirmar o pensamento de Lukács no âmbito artístico.
Tratarei as intervenções dos intelectuais lukacsianos, neste Colóquio, como um conjunto homogêneo: não se expressaram divergências de posições quanto ao pensamento do marxista húngaro por parte desta intelectualidade em relação ao tema referido – ao menos, nenhuma diferença substantiva. Foram, ao todo, três sessões no Colóquio as destinadas ao tema “Cultura, capitalismo e socialismo” e uma mesa denominada “Cultura e sua reflexão no presente” (que contou com o professor da Universidade de Brasília, Hermenegildo José de Menezes Basto), e em todas elas foram feitas reivindicações, por parte de alguns pesquisadores, das noções estéticas de Lukács. Refiro-me a estas apresentações, em particular, e aos debates que suscitaram.
Lukács esteta x Lukács militante político
Chamou a atenção, em primeiro lugar, a ausência de referências à trajetória política do marxista húngaro – mediadas pelas reivindicações em abstrato de que “Lukács foi um grande militante!”, empreendidas principalmente por Hermenegildo Basto. O nivelamento das posições políticas de Lukács (o qual, por vezes, se aproximou do stalinismo), em favor de localizar sua teoria estética como uma oposição absoluta ao realismo-socialista, prestam um grande desserviço para a compreensão das contradições que permitiram o desenvolvimento desta mesma teoria
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O aspecto mais relevante, ao que me parece, deste nivelamento, é a não-contextualização das críticas de Lukács ao realismo-socialista. Se vistas por fora do quadro histórico dos expurgos stalinistas (a censura artística e a perseguição das vanguardas modernas [como as correntes futuristas e construtivistas], que se combinaram, posteriormente, aos Processos de Moscou), a crítica lukacsiana à construção dos personagens dos romances realistas-socialistas e à estrutura das obras assume a aparência de uma relevância e uma autonomia em relação à burocracia stalinista maiores do que se devidamente localizadas. Nenhuma palavra foi dita a respeito do silêncio de Lukács frente aos assassinatos e deportações de artistas, ou mesmo frente à imposição de uma estética estatal. O debate que o intelectual e militante húngaro estabeleceu, na década de 1930, limitou-se a críticas às obras dos “engenheiros da alma” soviéticos.
Os procedimentos analíticos das pesquisas esboçados nas intervenções do Colóquio, quais sejam, o de desvincular as elaborações e conclusões estéticas de Lukács de seu contexto político, prestaram contas apenas a um obscurecimento da complexidade da obra deste autor e a uma transposição mecânica das concepções lukacsianas para a problemática da arte contemporânea.
Não se pretende postular, conforme possa ter aparentado, que, dada a crítica política “cosmética” (frente ao contexto de perseguição) de Lukács ao realismo-socialista e ao stalinismo, o seu pensamento deve ser jogado às favas – uma conclusão por demais vulgar, diga-se de passagem. Pretendo levantar, no entanto, como uma primeira questão, o que julguei ser a principal debilidade das intervenções. Resumo-a a uma pergunta: qual a relevância da concepção estética de Lukács para pensarmos os dilemas da arte contemporânea e as saídas para a cultura atualmente?
Nos rastros do ‘verdadeiro realismo’, ou “Isto não é um cachimbo” Na condição de artista, a primeira tentação que tenho ao refletir sobre a pergunta acima colocada é respondê-la com um sonoro “nenhuma”. Deixando de lado este primeiro impulso (imaturo e sectário, eu entendo), cabe o desafio de apontar algumas questões a respeito da construção do conceito de ‘realismo’ na obra de Lukács e estabelecer uma alternativa marxista distinta para a crítica e reflexão da arte do século XX, bem como para armar a produção artística contemporânea.
Em linhas gerais, o fundamento da noção de “realismo” em Lukács encontra-se na sobrevalorização da etapa de ascensão burguesa e na produção artística que lhe corresponde – a saber, até meados do século XIX. A forma romance e as correntes românticas e realistas (destacadamente artistas como Goethe e Balzac, frequentemente citados nas elaborações lukacsianas) assumiram, segundo o marxista húngaro, o ápice da elaboração estética burguesa, e é a partir deste conjunto de obras que se deve entrever a continuidade da criação artística em uma sociedade socialista ou julgar os desenvolvimentos artísticos do período capitalista posterior.
Lukács estabelece, deste modo, uma identidade entre a decadência da burguesia como classe e a perda da capacidade social de criação de “grandes obras”. O cerne conceitual que embasa esta teoria sobre o decadentismo estético pode ser entendido, esquematicamente (infelizmente, é o que nos permite o tamanho do post), da seguinte forma: os grandes escritores e artistas do século XIX conseguiram, mediante seu estreito vínculo com a sociedade da qual foram contemporâneos, produzir obras de arte capazes de articular a subjetividade das personagens com as complexas determinações sociais e de classe em que se encontraram inseridas, expressar as nuances do pensamento e das ações humanas neste determinado contexto, empreender uma crítica à mercantilização da vida e dar como resposta o resgate do humanismo e a centralidade da práxis para a superação das misérias capitalistas. O realismo, para Lukács, encontra-se na capacidade das obras em situarem os nexos sociais e subjetivos de forma totalizante.
Alguns procedimentos artísticos foram determinados, pelo filósofo, como incontornáveis para a construção de obras capazes de retomar este conteúdo: a hierarquização das cenas a serem narradas, a indispensabilidade da narrativa e o vínculo explícito entre objetivo e subjetivo. A arte moderna (de finais do século XIX até meados do XX), com suas experiências de desconstrução da forma romance, de supressão da narrativa ficcional fundamentada em personagens (em favor de elaborações artísticas como a factografia, no caso da arte russa, por exemplo) e a fragmentação estrutural foram rechaçadas pelo filósofo como sintomas da decadência burguesa. O movimento expressionista alemão, por exemplo, foi entendido como a ante-sala do nazismo.
As intervenções do Colóquio, por parte da intelectualidade lukacsiana, fizeram coro a estas linhas-mestras da estética normativa de Lukács. Quais os saldos do debate? Uma infindável e enfadonha nostalgia das “grandes epopéias do século XIX”, o estabelecimento da arte contemporânea e moderna como o terreno da pura negatividade (identificadas todas com as teorias pós-modernas – procedimento esquemático e que faz saltar aos olhos a incompreensão de boa parte da nova leva artística), em oposição aos grandes mestres do realismo, e nenhuma proposição ou atualização das premissas para a reflexão da arte atual, suas vicissitudes e seu contexto histórico.
Ainda que o pensamento de Lukács apareça como alternativa às análises formalistas e a-históricas, que assumem as obras artísticas como “auto-suficientes”, não se desdobram de suas noções os instrumentos necessários para o entendimento e juízo da arte atual, tampouco para a proposição de novas elaborações, ao que me parece. O conservadorismo artístico que se expressou no Colóquio, por parte desta intelectualidade acima referida, ficou expresso em formulações senso-comum de tipo: “Penso que atualmente nos preocupamos demais com o novo, sempre o novo. Está na hora de nos perguntarmos o porquê de Shakespeare ou Goethe ainda serem lidos nos dias de hoje”. Uma frase lamentável que dispensa maiores comentários.
Na contramão destas noções, uma tradição marxista paralela à lukacsiana, encabeçada por, dentre outros, Giulio Carlo Argan, define o realismo como uma linguagem que se atualiza a partir dos fatos. Ou seja, é realista a arte que investiga novos procedimentos para expressar criticamente o contexto e as preocupações contemporâneas. É bastante útil, para as intenções deste post, uma breve comparação entre o ideário do movimento construtivista (inserido no processo revolucionário russo) e o pensamento de Lukács. Surgido em 1921, os construtivistas (Aleksandr Rodchenko, Vladimir Tatlin, Alexei Gan, etc) propuseram a inserção da produção artística na produção material fabril e a dissolução da arte no social, ou seja, a vinculação radical da arte e dos artistas na reorganização social urbana e na organização de um novo modo de vida e de um novo psiquismo. Os construtivistas combateram a idéia de uma arte representativa (que se fundamentava na postura contemplativa) em prol de uma arte participativa, que explorasse a matéria da arte e tornassem estéticos e funcionais os objetos cotidianos. Em suma, o pensamento do grupo pode ser assim resumido: é realista, não a postura de se pintar uma banana, ou um macaco, ou operários, ou – Stálin? (independentemente de quão perfeitos eles sejam, em termos representativos), mas a explicitação de que no quadro não estão uma banana, um macaco, etc, mas cor, textura, pano, tela, etc. É realista o trabalho com o material e a explicitação do processo produtivo da obra.
É fato que a experiência construtivista se desenrolou mediante o processo revolucionário russo e não pode ser transposta mecanicamente para nosso contexto, de cultura de massas e lógica empresarial – mas cabe a pergunta: qual grupo expressou melhor a radicalização estética dos princípios da Revolução de Outubro: os construtivistas ou, por exemplo, Pavel Radimov (pintor figurativista, talvez de acordo com os gostos lukacsianos)? Deixemos a questão em aberto, quem sabe para o próximo Colóquio.
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| Aleksandr Rodchenko, A crise, 1923 |
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| Pavel Radimov, Um lar camponês, 1922 |
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| Magritte, "Isto não é um cachimbo", 1926 |
A problemática que aqui se quer enfatizar é, a despeito dos exemplos, como o conteúdo realista (no sentido estabelecido por Argan) não pode ser dissociado da exploração formal. O dirigente bolchevique Leon Trotsky, também ferrenho opositor do realismo-socialista, definiu com precisão o problema:
“Uma nova forma artística, apreciada no seu amplo sentido histórico, nasce em resposta a novas necessidades. Pode-se dizer, tomando-se como exemplo a poesia lírica, que, entre a psicologia do sexo e um poema sobre o amor, se insere um sistema complexo de mecanismos psíquicos de transmissão nos quais entram elementos individuais, hereditários e sociais. O fundamento hereditário, isto é, o fundamento sexual do homem, muda lentamente. As formas sociais do amor transformam-se com rapidez. Elas afetam a superestrutura psíquica do amor, produzem a necessidade de novo vocabulário e, assim, trazem novas exigências à poesia. O poeta só pode encontrar material de criação em seu meio social, e transmite os novos impulsos da vida através de sua própria consciência artística. (...) Se não houvesse mudanças na psicologia, produzidas pelas transformações do meio social, não existiria movimento na arte: os povos continuariam, de geração em geração, satisfeitos com a poesia da Bíblia ou a dos gregos antigos.” (A escola formalista de poesia e o marxismo, 1923)
A matriz do pensamento lukacsiano, estruturada em torno de conceitos como “representação”, por exemplo, não deslocaria toda a crítica da arte moderna e contemporânea para os fundamentos da arte que a precede? Não é ela, justamente, que barra uma leitura das vanguardas modernas capaz de entender o seu forte teor crítico à modernidade e também as suas contradições? As intervenções lukacsianas no Colóquio deram a impressão de formular o seguinte juízo negativo e genérico: “A arte contemporânea é aquela que não-é Balzac”.
A retomada do pensamento de Trotsky, por outro lado, permite à reflexão artística a compreensão dos elos que a arte estabelece com seu contexto social com base, não apenas no espelhamento em relação à “grande arte” do século XIX, mas no desenvolvimento de novas formas expressivas mediante o confronto da subjetividade poética com o mundo da luta de classes que a cerca (em todos os âmbitos: morais, políticos, econômicos, etc).
“O rouxinol da poesia – como a ave do saber, a coruja – só é ouvido depois que o sol se põe. O dia é o tempo da ação, mas no crepúsculo o sentimento e a razão fazem o balanço do que se realizou.”, escreveu Trotsky no início de Literatura e Revolução. Infelizmente, as intervenções do Colóquio referidas parecem ter aderido à moda dos flaneurs parisienses: em troca de uma coruja atenta, uma tartaruga numa coleira.