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terça-feira, 21 de agosto de 2012

No meio do caminho tinha uma preta!


40 mineiros assassinados pela repressao capitalista! Toda solidariedade aos trabalhadores em greve!

por Letícia Oliveira



A Africa é um continente brutalmente explorado e assediado pelo capitalismo mundial, que vai desde a intervenção imperialista, ate os jogos de poderes dos países dependentes e semicoloniais como o Brasil, que sustenta uma serie de negocios com a burguesia sul africana, tendo em 2010 exportado US$ 301 milhoes da regiao, construido com base a uma serie de acordos fiduciarios sobre o agronegocio, cooperacao tecnica e cientifica1. No ultimo dia 16, a repressao policial sobre a greve de mineiros da empresa Lonmin decorreu na morte de mais de 40 mineiros, um massacre brutal apenas visto durante o violento apartheid sul africano.
A NUM (Uniao Nacional dos Mineradores), sua direcao historica com mais de 350 mil filiados em todo pais, é umbilicalmente ligada ao regime, e no dia 16, quando ocorreu o massacre, falou aos trabalhadores de dentro dos carros policiais, claramente amedrontada pela oposicao que se constroi ao sindicato em meio aos trabalhadores. A AMCU (Associacao de Mineiros e Uniao da Construcao) tem sido mais aceita pelos trabalhadores, entretanto, se mantem adaptada ao regime em toda a sua linha, reivindicando a democracia burguesa e pedindo que os trabalhadores voltem ao trabalho para que as negociacoes possam se iniciar. Desde o dia 10, quando a greve se iniciou, já se contavam 10 mortos, fruto da radicalizacao da oposicao a direcao sindical, tambem em enfrentamento direto com policiais que cercavam a fabrica.
Desde o inicio da greve, os mineiros da Lonmin tem dito se movimentar independentemente de ambas as direcoes, dizendo que não se importam com as disputadas sindicais, apenas querem seu aumento salarial. Esses trabalhadores recebem R4.000, o equivalente a R$ 960, e exigem um aumento para R12.500, equivalente a R$3.000.
O capitalismo em sua fase imperialista, como discutem Lenin e Trotski, se inicia com a necessidade de os monopolios que se instalavam internamente as potencias capitalistas, durante o fim do sec XIX e inicio do seculo XX, expandir suas zonas de dominacao para todo o mundo, de maneira a ampliar os mercados consumidores para escoar sua superproducao, assim como exportar seus capitais, para em países mais atrasados se utilizar de uma mao de obra barata, precaria, para baratear seus produtos em escala mundial, dominando os mercados de materia-prima pela via do monopolio da extracao.
A Lonmin tem seu escritório central localizado em Londres, e explora brutalmente os trabalhadores da Africa do Sul, nos complexos de Limpopo, ao noroeste do pais, e de Marikana, onde se iniciou a greve de mineiros, tendo iniciado sua corrida exploratoria em 1909. Como resultado, tornou-se uma das maiores produtoras de platina do mundo, com altissimas taxas de lucro, fruto da exploracao sobre um pais com um dos trabalhados de mais baixo custo no mundo, devido a miseria que imediamente se associa e naturaliza sobre os negros que vivem em Africa e em todo o mundo. Desde 2008, com o baque da queda do Lehman Brothers, a Lonmin teve uma queda brusca em suas reservas de platina, assim como nos seus lucros. Para esse ano, definiu metas de producao para garantir seus lucros, que com a explosao de uma greve de 3000 de seus mineiros, passa a ser comprometida e precisa, portanto, ser brutalmente reprimida.
No momento de crise economica que vivemos, a efetivacao de politicas repressivas cada vez mais duras se faz cada dia mais essencial para a burguesia, visto os duros ataques sobre a condicao de vida dos trabalhadores tornam-se fundamentais para que a burguesia, que só atraves de garantir os altos lucros, garante sua sobrevivencia como classe dominante.
A empresa tem tentado se desvencilhar da responsabilidade sobre as mortes, alegando contrariedade a medida repressiva ordenada pelo Estado sul africano e efetivada pela policia. Nao coloca, entretanto, que sob o capitalismo, todo Estado é palco dos negocios da burguesia, e em se tratando de um pais semicolonial como a Africa do Sul, da burguesia imperialista que domina a economia daquele pais.
Esse caso brutal de repressao, só visto antes durante o apartheid, deve ser tratado nos marcos de uma burguesia que frente a uma crise que coloca em cheque seu dominio passara cada dia mais a banhar de sangue a manutencao de seus lucros e de seu dominio sobre a classe trabalhadora, polarizando esse antagonismo de classes, questionado exaustivamente pela academia desiludida.
Lutar contra o imperialismo, contra cada ataque aos trabalhadores, se faz urgente, assim como a construcao de um programa que responda a altura frente a cada ataque imposto, de maneira internacionalista, sem ilusoes no “humanismo” vomitado pela burguesia.
A morte dos trabalhadores mineiros em Marikana é a morte de nossos irmaos de classe, e não se deve de maneira nenhuma a radicalidade de sua greve, mas a sede de lucros dos parasitas financeiros e da alta burguesia imperialista.


Toda solidariedade aos companheiros mineiros de Marikana!
Punicao imediata aos assassinos dos mais de 40 grevistas mortos!
Pelo direito de greve!
Que a crise paguem os capitalistas!


1http://www.itamaraty.gov.br/temas/temas-politicos-e-relacoes-bilaterais/africa/africa-do-sul/pdf


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Louis Althusser contra Lukács no colóquio Marx e Engels da Unicamp

Por Iuri Tonelo, mestrando no curso de Sociologia da Unicamp

João Quartim de Moraes abriu o colóquio Marx e Engels da Unicamp debatendo com Domênico Losurdo, que teria cometido a suposta heresia de colocar o ‘genioso’ Louis Althusser ao lado de pares do chamado marxismo ocidental[1] (conforme célebre expressão de Perry Anderson). Não foi um debate fortuito: em realidade, debatendo os termos filosóficos que envolvem a discussão do humanismo e a democracia formal no marxismo, João Quartim fundamentava as bases daquele que seria o objetivo da direção majoritária do CEMARX no colóquio: promover a “revitalização do marxismo” a partir do resgate do nome e legado de Louis Althusser no marxismo brasileiro e recolocar o CEMARX como um polo althusseriano do marxismo acadêmico[2].
Nesse processo, caberia notar que toda a discussão que Quartim fazia com Losurdo, apresentando seus argumentos, parecia um debate indireto com György Lukács, já que os poucos argumentos ditos de Losurdo eram sempre uma modificação mais simplificada das discussões de Lukács, sistematizadas em seus textos de maturidade.
Louis Althusser
Com esses debates que o IFCH, que já foi um polo importante dos lukacsianos[3], retoma um peso do estruturalismo francês, buscando demonstrar que se caducou a defesa ‘metodológica’ do marxismo, sendo necessária sua “renovação”.
Mas por que Althusser seria “renovador”, ainda mais sendo apresentado por aqueles que querem uma reivindicação de nada menos do que um dos principais expoentes da degeneração teórica, estratégica e prática do marxismo, Mao Tsé-tung?  Há os que acreditam que as críticas ao humanismo e ao “essencialismo” de Lukács (segundo uma busca de uma essência humana trans-histórica) estariam no sentido de demonstrar que Althusser estaria deslocado do grupo dos marxistas ocidentais na medida em que toda sua batalha filosófica se daria para manter (ao contrário dos outros) a ditadura do proletariado como eixo do marxismo, uma justificação estruturalista da ortodoxia marxista (uma interpretação “forçosamente de esquerda” tendo em vista a “vida militante” de Althusser).
Desse ponto de vista da “renovação” também justificam a inflexível discussão sobre o corte epistemológico na obra de Marx, pois “renovar” o marxismo seria reinterpretar as influências de Hegel no velho revolucionário alemão, mas mantendo a “independência materialista” de Marx (àquele que, diga-se de passagem, Marx teria se auto-proclamado em 1873 como “discípulo”[4]), na medida em que o que Marx maduro buscou em Hegel seria a herança espinoziana; e por isso não caíra no “essencialismo” humanista. Ou seja, para além das críticas a Lukács, nos parece um vendaval epistemológico a serviço de justificar suas intenções (de Althusser), e que, direta ou indiretamente, atacam a dialética de Marx.
Tendo isso em vista, cabe notar que (se ainda faltou alguma luz nessa questão) não será pelo legado de Althusser que encontraremos alguma revitalização do marxismo e, na melhor das hipóteses, os atlhusserianos no colóquio só tiveram sucesso questionar um ou outro elemento filosófico das interpretações de Lukács, Losurdo, Sánchez Váquez, entre outros, mas longe de passar perto de qualquer “renovação” (ao contrário, em alguns momentos, uma clara (e já conhecida) capitulação ao maoísmo).
Assim que, estando encastelados nas academias, “burguesamente especializados” (conforme nos dizia outrem[5]), os herdeiros expoentes marxistas da filosofia francesa e húngara se encontram nos colóquios numa conversa teórica de surdos. Quem paga o preço é o marxismo, que se debilita e perde sua força revolucionária e transformadora.
De um lado ou de outro, é difícil dizer como as discussões teóricas se vinculam à emergência dos problemas que a bancarrota capitalista atual imprimem para os marxistas e o conjunto da classe trabalhadora. Está mais do que na hora de que os debates teóricos se objetivem na recolocação da herança revolucionária do marxismo, e o necessário rearmamento estratégico para equipar os intelectuais que queiram passar das “diferentes interpretações do mundo”, para sua “transformação efetiva”. Aí que tanto Lukács quanto Althusser (em distintos níveis) representam duas vertentes que expressam total miséria da estratégia marxista, ambos girando na órbita do “comunismo oficial” stalinista - e sem encontrar no legado de Marx as armas para combater aquelas deformações históricas.
Pintura de Diego Rivera
É desse ponto de vista que queremos debater: contra a influência acadêmica que cooptou tantos jovens intelectuais (e sua força teórica) para os mil e um debates desvinculados dos trabalhadores (o que se traduz na impotência do marxismo acadêmico e, em algum aspecto, em seu sentido escolástico), os trotskistas oferecem um alternativa teórica e estratégica revolucionárias, que busca traduzir todos esses debates num rearmamento do proletariado em seu conjunto, para estar mais preparado, frente a situação concreta, para enfrentar a turbulenta dinâmica internacional e fazer com que os capitalistas paguem pela crise econômica. Nesse sentido, agora melhor localizados, os althusserianos impuseram o embate teórico no IFCH: cabe a nós fazer das palavras impressas os instrumentos da retomada revolucionária do pensamento de Marx, que não se sujeita a nenhuma lei da escolástica ou estruturalista.
*
Aprimoraremos o debate nas páginas do blog da Casa de Estudos e Pesquisas Hermínio Sacchetta.


[1] - Conforme o argumento de Perry Anderson em seu texto “Considerações sobre o Marxismo Ocidental”, o fundamental dessa corrente é que ela se desenvolve em separação com a classe trabalhadora: “como Sartre afirmara mais tarde, de 1924 a 1968 o marxismo não “parou”, mas seu avanço ocorreu afastado da prática política revolucionária” (Anderson, Considerações sobre o marxismo ocidental).
[2] Podemos dizer que, para além do objetivo “estruturalmente” inviável de “renovar o marxismo” pelas ideias de Althusser, foi um relativo “sucesso” dos althusserianos a atuação no colóquio.
[3] Onde chegaram a produzir em meados de 1990 a obra “Lukács, um Galileu do século XX”, organizada por Ricardo Antunes e Walquiria Rego, envolvendo intelectuais como Carlos N. Coutinho, Leandro Konder, José Paulo Netto, Celso Frederico, Isabel M. Loureiro, Jeanne-Marie Gagnebin, Marcos Nobre, Ricardo Musse, Sérgio Lessa e Wolfgang Leo Maar, entre outros. Além de um forte intercâmbio com István Mészáros, principal discípulo e herdeiro da tradição teórica de Lukács.
[4] Ver posfácio a segunda edição de O Capital.
[5] - Um professor acadêmico no corredores do colóquio atestando o diálogo de surdos entre acadêmicos.

Lukács e a “cruzada pelo ‘realismo’” no VII Colóquio Marx e Engels

por Thyago Marão Villela




Logo de início, cabe aqui uma advertência ao leitor desavisado: por melhor que fosse a capacidade de síntese de um escritor e sua erudição, seria impossível estabelecer um debate profundo sobre a teoria estética de Gyorgy Lukács em poucas páginas. Este post não se enveredará por este pretensioso caminho – fadado ao fracasso: procurará, entretanto, discutir em linhas gerais, à luz do sétimo Colóquio Marx e Engels, algumas das intervenções que procuraram afirmar o pensamento de Lukács no âmbito artístico.
Tratarei as intervenções dos intelectuais lukacsianos, neste Colóquio, como um conjunto homogêneo: não se expressaram divergências de posições quanto ao pensamento do marxista húngaro por parte desta intelectualidade em relação ao tema referido – ao menos, nenhuma diferença substantiva. Foram, ao todo, três sessões no Colóquio as destinadas ao tema “Cultura, capitalismo e socialismo” e uma mesa denominada “Cultura e sua reflexão no presente” (que contou com o professor da Universidade de Brasília, Hermenegildo José de Menezes Basto), e em todas elas foram feitas reivindicações, por parte de alguns pesquisadores, das noções estéticas de Lukács. Refiro-me a estas apresentações, em particular, e aos debates que suscitaram.
 
Lukács esteta x Lukács militante político
Chamou a atenção, em primeiro lugar, a ausência de referências à trajetória política do marxista húngaro – mediadas pelas reivindicações em abstrato de que “Lukács foi um grande militante!”, empreendidas principalmente por Hermenegildo Basto. O nivelamento das posições políticas de Lukács (o qual, por vezes, se aproximou do stalinismo), em favor de localizar sua teoria estética como uma oposição absoluta ao realismo-socialista, prestam um grande desserviço para a compreensão das contradições que permitiram o desenvolvimento desta mesma teoria[1]. 
O aspecto mais relevante, ao que me parece, deste nivelamento, é a não-contextualização das críticas de Lukács ao realismo-socialista. Se vistas por fora do quadro histórico dos expurgos stalinistas (a censura artística e a perseguição das vanguardas modernas [como as correntes futuristas e construtivistas], que se combinaram, posteriormente, aos Processos de Moscou), a crítica lukacsiana à construção dos personagens dos romances realistas-socialistas e à estrutura das obras assume a aparência de uma relevância e uma autonomia em relação à burocracia stalinista maiores do que se devidamente localizadas. Nenhuma palavra foi dita a respeito do silêncio de Lukács frente aos assassinatos e deportações de artistas, ou mesmo frente à imposição de uma estética estatal. O debate que o intelectual e militante húngaro estabeleceu, na década de 1930, limitou-se a críticas às obras dos “engenheiros da alma” soviéticos.
Os procedimentos analíticos das pesquisas esboçados nas intervenções do Colóquio, quais sejam, o de desvincular as elaborações e conclusões estéticas de Lukács de seu contexto político, prestaram contas apenas a um obscurecimento da complexidade da obra deste autor e a uma transposição mecânica das concepções lukacsianas para a problemática da arte contemporânea.
Não se pretende postular, conforme possa ter aparentado, que, dada a crítica política “cosmética” (frente ao contexto de perseguição) de Lukács ao realismo-socialista e ao stalinismo, o seu pensamento deve ser jogado às favas – uma conclusão por demais vulgar, diga-se de passagem. Pretendo levantar, no entanto, como uma primeira questão, o que julguei ser a principal debilidade das intervenções. Resumo-a a uma pergunta: qual a relevância da concepção estética de Lukács para pensarmos os dilemas da arte contemporânea e as saídas para a cultura atualmente?

Nos rastros do ‘verdadeiro realismo’, ou “Isto não é um cachimbo”[2]
Na condição de artista, a primeira tentação que tenho ao refletir sobre a pergunta acima colocada é respondê-la com um sonoro “nenhuma”. Deixando de lado este primeiro impulso (imaturo e sectário, eu entendo), cabe o desafio de apontar algumas questões a respeito da construção do conceito de ‘realismo’ na obra de Lukács e estabelecer uma alternativa marxista distinta para a crítica e reflexão da arte do século XX, bem como para armar a produção artística contemporânea.
Em linhas gerais, o fundamento da noção de “realismo” em Lukács encontra-se na sobrevalorização da etapa de ascensão burguesa e na produção artística que lhe corresponde – a saber, até meados do século XIX. A forma romance e as correntes românticas e realistas (destacadamente artistas como Goethe e Balzac, frequentemente citados nas elaborações lukacsianas) assumiram, segundo o marxista húngaro, o ápice da elaboração estética burguesa, e é a partir deste conjunto de obras que se deve entrever a continuidade da criação artística em uma sociedade socialista ou julgar os desenvolvimentos artísticos do período capitalista posterior.
Lukács estabelece, deste modo, uma identidade entre a decadência da burguesia como classe e a perda da capacidade social de criação de “grandes obras”. O cerne conceitual que embasa esta teoria sobre o decadentismo estético pode ser entendido, esquematicamente (infelizmente, é o que nos permite o tamanho do post), da seguinte forma: os grandes escritores e artistas do século XIX conseguiram, mediante seu estreito vínculo com a sociedade da qual foram contemporâneos, produzir obras de arte capazes de articular a subjetividade das personagens com as complexas determinações sociais e de classe em que se encontraram inseridas, expressar as nuances do pensamento e das ações humanas neste determinado contexto, empreender uma crítica à mercantilização da vida e dar como resposta o resgate do humanismo e a centralidade da práxis para a superação das misérias capitalistas. O realismo, para Lukács, encontra-se na capacidade das obras em situarem os nexos sociais e subjetivos de forma totalizante.
Alguns procedimentos artísticos foram determinados, pelo filósofo, como incontornáveis para a construção de obras capazes de retomar este conteúdo: a hierarquização das cenas a serem narradas, a indispensabilidade da narrativa e o vínculo explícito entre objetivo e subjetivo. A arte moderna (de finais do século XIX até meados do XX), com suas experiências de desconstrução da forma romance, de supressão da narrativa ficcional fundamentada em personagens (em favor de elaborações artísticas como a factografia, no caso da arte russa, por exemplo) e a fragmentação estrutural foram rechaçadas pelo filósofo como sintomas da decadência burguesa. O movimento expressionista alemão, por exemplo, foi entendido como a ante-sala do nazismo. 
As intervenções do Colóquio, por parte da intelectualidade lukacsiana, fizeram coro a estas linhas-mestras da estética normativa de Lukács. Quais os saldos do debate? Uma infindável e enfadonha nostalgia das “grandes epopéias do século XIX”, o estabelecimento da arte contemporânea e moderna como o terreno da pura negatividade (identificadas todas com as teorias pós-modernas – procedimento esquemático e que faz saltar aos olhos a incompreensão de boa parte da nova leva artística), em oposição aos grandes mestres do realismo, e nenhuma proposição ou atualização das premissas para a reflexão da arte atual, suas vicissitudes e seu contexto histórico.
Ainda que o pensamento de Lukács apareça como alternativa às análises formalistas e a-históricas, que assumem as obras artísticas como “auto-suficientes”, não se desdobram de suas noções os instrumentos necessários para o entendimento e juízo da arte atual, tampouco para a proposição de novas elaborações, ao que me parece. O conservadorismo artístico que se expressou no Colóquio, por parte desta intelectualidade acima referida, ficou expresso em formulações senso-comum de tipo: “Penso que atualmente nos preocupamos demais com o novo, sempre o novo. Está na hora de nos perguntarmos o porquê de Shakespeare ou Goethe ainda serem lidos nos dias de hoje”. Uma frase lamentável que dispensa maiores comentários.
Na contramão destas noções, uma tradição marxista paralela à lukacsiana, encabeçada por, dentre outros, Giulio Carlo Argan, define o realismo como uma linguagem que se atualiza a partir dos fatos. Ou seja, é realista a arte que investiga novos procedimentos para expressar criticamente o contexto e as preocupações contemporâneas. É bastante útil, para as intenções deste post, uma breve comparação entre o ideário do movimento construtivista (inserido no processo revolucionário russo) e o pensamento de Lukács. Surgido em 1921, os construtivistas (Aleksandr Rodchenko, Vladimir Tatlin, Alexei Gan, etc) propuseram a inserção da produção artística na produção material fabril e a dissolução da arte no social, ou seja, a vinculação radical da arte e dos artistas na reorganização social urbana e na organização de um novo modo de vida e de um novo psiquismo. Os construtivistas combateram a idéia de uma arte representativa (que se fundamentava na postura contemplativa) em prol de uma arte participativa, que explorasse a matéria da arte e tornassem estéticos e funcionais os objetos cotidianos. Em suma, o pensamento do grupo pode ser assim resumido: é realista, não a postura de se pintar uma banana, ou um macaco, ou operários, ou – Stálin? (independentemente de quão perfeitos eles sejam, em termos representativos), mas a explicitação de que no quadro não estão uma banana, um macaco, etc, mas cor, textura, pano, tela, etc. É realista o trabalho com o material e a explicitação do processo produtivo da obra.
É fato que a experiência construtivista se desenrolou mediante o processo revolucionário russo e não pode ser transposta mecanicamente para nosso contexto, de cultura de massas e lógica empresarial – mas cabe a pergunta: qual grupo expressou melhor a radicalização estética dos princípios da Revolução de Outubro: os construtivistas ou, por exemplo, Pavel Radimov (pintor figurativista, talvez de acordo com os gostos lukacsianos)? Deixemos a questão em aberto, quem sabe para o próximo Colóquio.
Aleksandr Rodchenko, A crise, 1923

Pavel Radimov, Um lar camponês, 1922














Magritte, "Isto não é um cachimbo", 1926
A problemática que aqui se quer enfatizar é, a despeito dos exemplos, como o conteúdo realista (no sentido estabelecido por Argan) não pode ser dissociado da exploração formal. O dirigente bolchevique Leon Trotsky, também ferrenho opositor do realismo-socialista, definiu com precisão o problema:
“Uma nova forma artística, apreciada no seu amplo sentido histórico, nasce em resposta a novas necessidades. Pode-se dizer, tomando-se como exemplo a poesia lírica, que, entre a psicologia do sexo e um poema sobre o amor, se insere um sistema complexo de mecanismos psíquicos de transmissão nos quais entram elementos individuais, hereditários e sociais. O fundamento hereditário, isto é, o fundamento sexual do homem, muda lentamente. As formas sociais do amor transformam-se com rapidez. Elas afetam a superestrutura psíquica do amor, produzem a necessidade de novo vocabulário e, assim, trazem novas exigências à poesia. O poeta só pode encontrar material de criação em seu meio social, e transmite os novos impulsos da vida através de sua própria consciência artística. (...) Se não houvesse mudanças na psicologia, produzidas pelas transformações do meio social, não existiria movimento na arte: os povos continuariam, de geração em geração, satisfeitos com a poesia da Bíblia ou a dos gregos antigos.” (A escola formalista de poesia e o marxismo, 1923)

A matriz do pensamento lukacsiano, estruturada em torno de conceitos como “representação”, por exemplo, não deslocaria toda a crítica da arte moderna e contemporânea para os fundamentos da arte que a precede? Não é ela, justamente, que barra uma leitura das vanguardas modernas capaz de entender o seu forte teor crítico à modernidade e também as suas contradições? As intervenções lukacsianas no Colóquio deram a impressão de formular o seguinte juízo negativo e genérico: “A arte contemporânea é aquela que não-é Balzac”.
A retomada do pensamento de Trotsky, por outro lado, permite à reflexão artística a compreensão dos elos que a arte estabelece com seu contexto social com base, não apenas no espelhamento em relação à “grande arte” do século XIX, mas no desenvolvimento de novas formas expressivas mediante o confronto da subjetividade poética com o mundo da luta de classes que a cerca (em todos os âmbitos: morais, políticos, econômicos, etc). 
“O rouxinol da poesia – como a ave do saber, a coruja – só é ouvido depois que o sol se põe. O dia é o tempo da ação, mas no crepúsculo o sentimento e a razão fazem o balanço do que se realizou.”, escreveu Trotsky no início de Literatura e Revolução. Infelizmente, as intervenções do Colóquio referidas parecem ter aderido à moda dos flaneurs parisienses: em troca de uma coruja atenta, uma tartaruga numa coleira.


[1] Para um aprofundamento acerca da trajetória política de Lukács, remetemos o leitor ao texto de Edison Salles, “A trajetória política de Gyorgy Lukács”, na Revista da Casa Hermínio Sacchetta, no. 0.
[2] Referência à obra “Ceci ne pas a pipe”, de Magritte.

O legado de Rosa Luxemburgo no Colóquio Marx-Engels: reforma para Isabel Loureiro, revolução para nós.




 


por André Augusto





A absorção particular que a academia pode fazer das doutrinas dos pensadores revolucionários e dos dirigentes do movimento libertador das classes oprimidas segue o curso percorrido na etapa histórica anterior – marcada por três décadas de ausência de revoluções – em que o marxismo, ao preço de se ver defendido teoricamente contra os ataques da ofensiva neoliberal do imperialismo, teve usurpado de si grande parte da substância de seus ensinamentos revolucionários. Não faltaram exemplos disso no Colóquio Marx-Engels da Unicamp, um evento de importância, já que se dispõe a discutir temas que gravitam ao redor da abordagem marxista.


Numa das principais mesas de debate, sobre “revolução e democracia” no pensamento e legado de Rosa Luxemburgo[1], pudemos ver um dos ecos tardios de uma etapa que tentou neutralizar a teoria marxista como teoria integral da revolução, utilizando-a em chave reformista em sustentação da democracia burguesa degradada: cercam de uma auréola de glória os elementos débeis da pensadora marxista, para melhor secundarizar e apagar os aspectos revolucionários desta. Foi o que fez Isabel Loureiro, renomada investigadora acadêmica e presidente do Instituto Rosa Luxemburgo de SP, fazendo do vício, virtude, e “compreendendo” de Rosa aquilo que melhor lhe convinha. No âmbito teórico, um fato curiosíssimo: conseguiu a façanha de tratar de Rosa Luxemburgo sem tratar do marxismo. Não teve intenção disso, o que refletirá, como mostraremos adiante, no completo afastamento de Rosa da classe operária.

Com o espírito de uma nota mais curta, assinalamos os posicionamentos essenciais de Loureiro no debate.

O argumento principal de Loureiro, ao redor do qual tudo o que disse gravitou, consistiu em exacerbar a dissensão existente entre as concepções de “partido de vanguarda” de Rosa Luxemburgo e Lênin, para desqualificar, apoiando-se na autoridade de Luxemburgo, a concepção leninista da centralização da direção revolucionária. Retratou a divergência, realmente existente, entre a polonesa e o russo sobre a natureza das tarefas preparatórias, no período pré-1905, no âmbito político-organizativo – que derivava de uma nova fase histórica da economia capitalista, de mudanças abruptas e oscilações brutais – como o “rechaço à idéia de lideranças superiores às massas” por parte de Rosa, uma vez que “todo centralismo degenera necessariamente em burocratismo” (reservou até tempo de fala para identificar - prepare-se o leitor - elementos de “stalinismo” no trotskismo, ou seja, no bolchevismo, um verdadeiro "viveiro de pequenas ditaduras pessoais"; mas se deteve em “identificar”, deixando à imaginação do ouvinte o debate do tema. Afinal, há ciência e ciência); encontrando em Rosa a distinção irreconciliável – tão própria da situação política pós-derrota do ascenso operário de 1968-81, e da cabeça de Loureiro – entre espontaneidade e consciência, crucificando o leninismo com os pregos da “autonomia da iniciativa criadora” das massas, algo “tão avesso a Lênin”, poderíamos complementar.

Toda a cadeia do raciocínio de Loureiro tratava de buscar no ponto central de sua intervenção – a divergência entre Lênin e Rosa na questão do partido – a proteção que pressentia necessária, para tomar liberdades de avançar no que pareceu ser o objetivo, mesmo que inconsciente, de sua presença, e talvez da existência do Instituto Rosa Luxemburgo aqui no Brasil: continuar a interrupção do diálogo teórico político entre Rosa, Lênin e Trotsky, genuínos representantes do marxismo revolucionário, e que o uniram à luta proletária de massas na época imperialista.

O que significa apoiar-se num ponto fraco? Uma interpretação (que não nos serve) social-democrata da revolucionária

E buscava na autoridade de Rosa tudo aquilo que esta autoridade histórica desmente em sua intervenção. A primeira nota chocante de tudo foi a inexistência de esforços em tratar das especificidades das distintas fases do pensamento de Rosa, o que resultava num tom geral que, para uma mulher de partido que sempre foi Rosa, colocava a revolucionária em contradição com a construção de ferramentas independentes do proletariado. Desde sua juventude, Rosa se preocupou com a questão do partido: na Polônia, construiu uma organização independente muito rígida (o que veio a se chamar posteriormente Social-Democracia do Reino da Polônia e da Lituânia); tinha no final da década de 1880 estreitas relações com o Partido Operário Social Democrata Russo (POSDR); ao chegar na Alemanha em 1898, ingressou no Partido Social-Democrata Alemão, encampando imediatamente uma das frentes da luta de classes, a luta ideológica, em defesa do marxismo contra o revisionismo liquidacionista do socialismo em Bernstein[2]. Seguindo um pouco além a rica biografia política da polonesa – o que está para além desta nota – pode-se ver com clareza que o combate furibundo que Rosa empreendeu contra os aparatos burocráticos da social-democracia alemã e dos sindicatos alemães (que atuavam incorporando esse partido histórico na engrenagem do Estado burguês alemão) deixou-lhe marcas tão profundas, na entrada do século XX, quanto a atenção que devotava ao aspecto da organização. A luta de Rosa contra as correntes oportunistas da Social-Democracia que derivavam, não do “fatalismo burocrático de todo centralismo”, mas de questões concretas, a saber, da estratégia reformista da existência do partido fundamentada na inserção adaptada ao regime parlamentar “como base de todas as coisas”, cujas atividades cessavam então de preparar o proletariado, isto é, “criar o fator subjetivo”, para a transformação socialista pela revolução, teve como resultado também o esforço de educar de antemão a ala revolucionária do proletariado e por reuni-lo organizativamente tanto quanto possível contra as aberrações de um partido que se centralizava para servir à burguesia, e não mais o proletariado. A partir dessa lógica interna da evolução dos acontecimentos políticos, é inegável que Rosa Luxemburgo contrapusesse apaixonadamente – apoiando-se nas experiências de massas da Rússia em 1904-1905, e posteriormente da Alemanha – a espontaneidade das ações de massas à “centralização reformista” e à política conservadora da social-democracia alemã. Na medida em que contou com a agudização inevitável dos conflitos de classe, baseou suas apostas e prognósticos na prevalência da ação independente de massas contra o aparato oficial reformista. As motivações eram portanto políticas – e mais, subordinando a reforma à revolução, na medida em que a revolução deve ser o motor de todas as reformas, encabeçadas pelo proletariado – oriundas da dialética da luta de classes, e essas motivações não estiveram isentas em deixar traços ideológicos em Rosa. Quisemos marcar este ponto, pois nada mais longínquo da realidade o que disse Loureiro.

Entretanto, de toda a potência e vigor do pensamento revolucionário de Rosa Luxemburgo, a questão da organização foi sempre um dos seus pontos mais débeis, o que a levou a uma série de distorções no campo das concepções entre os distintos níveis organizativos da política. A correta luta contra a burocracia oficialista da social-democracia levou-a a se equivocar pela extremidade oposta: o grande problema teórico e estratégico em identificar a centralização da direção com a defesa de uma “ditadura de um punhado de pessoas, ao modelo burguês”[3]. Ainda que Rosa nunca tenha se encerrado na mera teoria da espontaneidade – como quer Loureiro – não pôde encontrar e generalizar a dialética exata sobre a seguinte questão: o partido revolucionário centralizado não se contrapõe à auto-organização de massas, pelo contrário, a impulsiona e eleva ao âmbito de uma questão da estratégia. Não há contradição entre partido de vanguarda e auto-organização dos trabalhadores; são sim níveis de uma só e mesma coisa[4]. As revoluções não são feitas pelos partidos de vanguarda, mas as massas com sua auto-atividade são aquelas que farão as revoluções; entretanto, o partido revolucionário é chave para que triunfem, para que não se restrinjam no marco nacional e continuem na perspectiva da revolução permanente. A dedução acerca da aptidão intrínseca do proletariado a forjar por si mesmo, em sua luta, sua consciência revolucionária, se mostrou tão falsa pela história quanto a oposição da noção de uma organização “flexível, móvel, capaz de iniciativa” à orientação de um partido centralizado do proletariado, dotado do programa e da estratégia para derrotar a burguesia na época imperialista. Isso não exclui que um tipo elementar de consciência operária emerja do movimento espontâneo das massas, principalmente se nos remetemos aos sovietes russos, os conselhos de fábrica alemães, e demais organismos de tipo soviético, o que é de suma importância histórica. Uma forte direção revolucionária confere a orientação estratégica indispensável para que a atividade histórica de massas dos trabalhadores, independente e criadora, triunfe. Na tradição do marxismo revolucionário, a organização de vanguarda é inclusive elemento da constituição (às vezes mesmo embrionária) do movimento, é moldador da vanguarda, impulsiona desde o início os esforços para que a energia das massas conquiste expressão auto-organizada, e elabora a matéria-prima da história. O curso dos acontecimentos se encarregou de demonstrar, já em 1905, que a tarefa preparatória dos marxistas deveria consistir em buscar relacionar o partido revolucionário com os organismos de auto-organização (de tipo soviético). Em torno da relação ativa entre soviet e partido, escreve León Trotsky em História da Revolução Russa: “Seria um erro evidente identificar a força do Partido Bolchevique com a dos soviets aos quais dirigia: estes últimos representavam uma força muito mais poderosa; mas, faltando-lhes o partido, tornavam-se impotentes”. Esta combinação de organismos de diferente origem histórica, da espontaneidade e da consciência, é a que pode conferir o verdadeiro valor revolucionário da auto-atividade independente das massas.

Como continuador do bolchevismo, Trotsky dirá sobre Rosa, baseando-se na experiência da Revolução Russa triunfante: “O máximo que se pode dizer é que na avaliação histórico-filosófica do movimento operário, a seleção preparatória da vanguarda era deficiente em Rosa, em comparação com as ações de massas que se podiam esperar; Lênin, sem consolar-se com os milagres das futuras ações, tomava os operários avançados e constante e incansavelmente os soldava em núcleos firmes, legais e ilegais, nas organizações de massa e na clandestinidade, mediante um programa claramente definido”. No “Manifesto da IV Internacional sobre a guerra imperialista e a revolução proletária mundial”, de maio de 1940, Trotsky define: “Os céticos superficiais se deleitam em assinalar a degeneração em burocratismo do centralismo bolchevique. Como se todo o curso da história dependesse da estrutura de um partido! De fato, é o destino de um partido que depende do curso da luta de classes. Mas, de toda maneira, o Partido Bolchevique foi o único que demonstrou na ação sua capacidade de realizar a revolução proletária. É precisamente um partido assim que necessita agora o proletariado internacional”. Essa maneira de colocar a questão, por um dos mais contundentes defensores  do regime democrático dentro do partido leninista de vanguarda contra as ameaças de ossificação e degeneração apresentadas pelo stalinismo, coloca “meticulosidade investigativa” de Loureiro, que identifica  “stalinismo” no trotskismo e centralismo com burocratismo, ao jardim de infância da história.

O triunfo da insurreição de Outubro em 1917, quando relacionado com a derrota da Revolução Alemã de 1918, é um dos expeditos vereditos da história sobre a dissensão entre Rosa e Lênin sobre a questão da direção revolucionária centralizada, em favor do partido leninista de combate: mesmo com a difusão nacional dos comitês de fábrica na Alemanha, num país cuja população passava por um estado de penúria acima do habitual pela derrota na Guerra, a inexistência do partido revolucionário não pôde fecundar a tremenda energia da auto-atividade das massas com a orientação estratégica correta para derrubar a casta militar monarquista, a burguesia alemã e a social-democracia traidora. 

Retomar o diálogo daqueles que colocaram as idéias revolucionárias em ação: Rosa Luxemburgo, Lênin e Léon Trotsky

Recorrer à insuficiência teórica de Rosa nesse momento, sem mencionar os efeitos que a luta de classes transmitia na mudança de direção do pensamento da revolucionária – tendo em vista a Revolução de Outubro triunfante na Rússia, e a derrota da revolução na Alemanha em dezembro de 1918/janeiro de 1919 – é para nós o verdadeiro mistério que Loureiro não quis decifrar. A Revolução alemã foi derrotada, e de suas lições foi criado o Partido Comunista Alemão, com a participação dirigente de Rosa. Posteriormente, aderiu à Terceira Internacional revolucionária fundada por Lênin. Naturalmente, Loureiro percorreu uma linha de involução no pensamento de Luxemburgo: começou em 1905, pincelou fenômenos secundários pós-1910 (todos os que achou necessários para excomungar o leninismo pela voz de Rosa), mas não para chegar à “penúltima palavra de Rosa” antes de ser assassinada pela Social-democracia alemã em 1919 (sequer tocou nisso), mas para voltar ao período pré-1905 como a “última palavra” da revolucionária. Com isso, estava segura em não examinar a evolução tendencial de Rosa Luxemburgo para, a partir do equívoco de seu pensamento na questão do partido, a possibilidade de compreender a importância deste como acelerador da história e a principal ferramenta histórica da época imperialista. Uma maneira estranha de se apoiar nos trabalhos da Social-Democracia: deixar intocado a direção em que evoluía um pensamento que os sicários do reformismo calaram.

Erigir o proletariado em sujeito político-prático e capacitá-lo para afrontar no campo político o aparato centralizado da burguesia para destruí-la: eis um dos fins máximos de Rosa Luxemburgo. O traço complementar marcante dos intelectuais acadêmicos que se deleitam em tratar dos pensadores revolucionários é tratar deles como se sua vida estivesse destacada do destino da classe trabalhadora. Em nenhuma linha, Loureiro conseguiu encontrar um elo entre Rosa e os trabalhadores. Não admira. Promove Rosa transformando em virtude uma debilidade que desarmava os trabalhadores frente suas tarefas; não a promove por ser uma marxista revolucionária proletária. Seu temário sobre Rosa aproxima-se muito mais do automatismo teórico tradicional da Social-democracia alemã, do que propriamente de Rosa Luxemburgo: nunca o "kautskismo" esteve tão bem vestido quanto agora, sob a indumenta de Rosa! Se se observa quais são um dos objetivos do Instituto Rosa Luxemburgo no Brasil (que como está em http://www.rls.org.br/, "a promoção de uma cultura de paz e um mundo mais justo e pacífico"), entende-se o caso clássico dos esforços em inutilizar um pensamento revolucionário amordaçando-o na carroça da "humanização do imperialismo", numa época que tanto urge que o pensamento genuinamente revolucionário assuma o primeiro plano, como arsenal para que a classe trabalhadora destrua o imperialismo mundial.

Como "selo dourado" de toda sua intervenção, terminou dizendo que, "olhando o movimento Occupy Wall Street", podemos dizer “que estamos vivendo o momento Rosa Luxemburgo”.  Âhn? Entre uma síncope emocional, algumas frases sobre a "vantagem do empirismo salutar do PT" e o mais puro desrespeito com o legado, é com esse “rigor teórico” que Isabel Loureiro decide publicizar as obras de Rosa no Brasil, dentro do Colóquio: transformando uma das comunistas de maior estatura numa autonomista com a máscara de Guy Fawkes, num movimento importante da juventude mundial, mas ainda sem orientação de classe. Desconsiderando o grau de seriedade maior ou menor com que pôde dizer uma estupidez como essa, defendemos o legado revolucionário de Rosa Luxemburgo, a partir da leitura com que ela mesma abordaria sua obra, dos tresloucados espontaneístas e demais embelezadores inconscientes do capitalismo que não se refreiam em embotar o gume de sua militância, afirmando a importância de restabelecer o diálogo entre Rosa, Lênin e Trotsky, os grandes revolucionários, os mais “libertários” podemos dizer, que lutaram para por as idéias marxistas em ação junto ao proletariado como a base de tudo na época imperialista.

Mesmo com divergências importantes, não há como negar a importância de Rosa como aliada de Lênin em várias questões chave, (a exemplo, como precursora do combate a Kautsky e à bancarrota da social-democracia, que como assinala Perry Anderson ela deu antes mesmo que Lênin, entendendo mais profundamente suas raízes materiais no interior da social-democracia alemã). O fato é que o diálogo entre Rosa, Lênin e Trotsky forjou as melhores tradições do marxismo revolucionário, e que este diálogo ainda hoje siga interrompido, (uma das obras do stalinismo, que também com essa responsabilidade incrementa a aberração que foi como degeneração das conquistas teóricas e programáticas do marxismo), contribui para que em meio à crise capitalista a classe trabalhadora ainda não possa contar com uma direção capaz de conduzir sua imensa criatividade e energia à vitória. Este diálogo deve ser retomado hoje, mas Loureiro demonstrou que se encontra na contramão de sua reconstituição pelas posições que defende.





[1]              Mesa que contou com referências importantes da pesquisa sobre o pensamento de Rosa Luxemburgo, como Holger Politt, estudioso alemão das obras de Luxemburgo e introdutor daquela parte referente a sua “fase polonesa”, e Isabel Loureiro, doutora em filosofia pela USP, que lecionou no departamento de filosofia da UNESP, e hoje presidente do Instituto Rosa Luxemburgo Stiftung em São Paulo. Recentemente, pela editora Unesp, organizou uma compilação das obras de Rosa Luxemburgo.
[2]              Para uma visão mais detida, ler “Rosa Luxemburgo, a urgência em abrir um diálogo teórico-político interrompido, e as façanhas da burocracia”, em http://www.cephs.blogspot.com.br/2012/07/rosa-luxemburgo-urgencia-em-reabrir-um.html.
[3] Como ilustração da “teorização desafortunada” decorrente da debilidade – e não inexistência – no aspecto da organização revolucionária em seu pensamento, no panfleto “A Revolução Russa”, de 1918, Rosa Luxemburgo escreverá: “O erro básico da teoria de Lênin-Trotsky é que eles também, da mesma forma que Kautsky, opõem a ditadura à democracia. ‘Ditadura ou democracia’, é como colocam a questão tanto os bolcheviques como Kautsky. Este se decide naturalmente em favor da ‘democracia’, ou seja, da democracia burguesa, precisamente porque a opõe à alternativa da revolução socialista. [...] Lênin e Trotsky, por outro lado, se decidem a favor da ditadura de um punhado de pessoas, ou seja, da ditadura segundo o modelo burguês. São dois pólos opostos, ambos igualmente distantes de uma genuína política socialista”.

[4] Ou poderíamos dizer “não deveria haver” diferença entre esse dois níveis. O processo de burocratização do aparato do estado soviético e do Partido Bolchevique (que teve como um dos principais constituintes a campanha contra Trotsky iniciada por Zinoviev, Kamenev e Stalin ainda ao calor do processo revolucionário na Alemanha em 1923 e que se agravou no V Congresso da Internacional Comunista, em 1924), que objetivava a independentização crescente de uma camarilha de dirigentes da influência da classe operária e tinha como conseqüência a separação do partido em relação às massas e o enfraquecimento do caráter proletário deste, foi pondo em antagonismo cada vez mais profundo o aparato do partido comunista russo e os sovietes, até as forças destes serem totalmente anuladas pela infestação do stalinismo.



Sobre o debate “Teoria marxista da história” no 7º Colóquio Marx Engels: Quando a história se impõe

por Simone Ishibashi







O debate intitulado “Teoria marxista da história” ocorreu durante o último Colóquio Marx Engels, realizado na Unicamp em julho. O tema da mesa, amplo e um tanto abstrato, não permitia adivinhar que caminhos a discussão tomaria. Mas foi uma ocasião em que a realidade marcada pela crise capitalista internacional forçou a entrada em cena, sendo a crise o principal tema da mesa. O que para um evento em que reinam os althusserianos de todas as cores e matizes, pode ser encarado como um “sacrilégio”, a despeito da reivindicação da estratégia maoísta que alguns destes expoentes insistiram em fazer. Entretanto, para os que habitam o mundo dos vivos é um sopro de ar fresco ver algum fio de contato entre a teoria e os temas políticos, elemento fundamental da síntese historicamente expressada pelo marxismo, que é rompida sistematicamente e elevada ao status de princípio pela academia.

A abertura das discussões esteve a cargo de Eleutério Prado, professor da USP, a quem coube uma fala que mesclou questões interessantes com uma perspectiva marcada pelo ceticismo em relação à possibilidade de uma resposta progressista por parte da classe trabalhadora e da esquerda. Porém, dentre os aspectos mais relevantes contidos em sua exposição, figurou a observação da importância da ruptura na década de 1970 do padrão de Bretton Woods, que indexava o dólar ao ouro, como um mecanismo de exportação de crises utilizado pelo imperialismo norte-americano. Neste sentido, relacionou a sua crise atual com a saída buscada pela burguesia norte-americana naquele momento, assinalando que hoje os Estados Unidos não contam mais com as mesmas margens de manobras para instituir tais mecanismos. Ou pelo menos, não na mesma proporção, e sem ter que arcar com uma série de contradições crescentes junto às demais potências, sendo muito mais dificultosa uma saída que envolve quebrar seus competidores, tal como se estabeleceu com as intervenções na cotação do dólar durante a década de 1980 contra o Japão e a Alemanha. Entretanto, como já demarcamos acima, o elemento menos original de sua exposição residiu sem dúvida na postura cética em relação à possibilidade do surgimento de novos fenômenos da luta de classes, e acima de tudo à forma de organização dos setores que hoje mais sofrem as conseqüências da crise capitalista em partidos e organizações políticas capazes de forjar uma saída. Cabe questionar então: mediante tamanhas contradições postas, qual o papel da intelectualidade, da juventude e dos que hoje são os principais prejudicados pela crise capitalista? A questão permaneceu sem resposta, e nem sequer foi tomada como pertinente. Uma posição relativamente extravagante para alguém cuja exposição fora marcada pela preocupação acerca da validade de O Capital em nossos dias.

O próximo a tomar a palavra, seria a “atração internacional” da mesa, foi Fabio Frosini, da Universidade de Urbino, na Itália. Veio para falar da “teoria marxista da História”. Sua intervenção que durou quase uma hora inteira segue sendo uma verdadeira incógnita de sentido. De um intelectual italiano, proveniente de um dos bastiões da crise econômica, política e social que assola a Itália em nossos dias, tomando como referencial teórico Gramsci poderia fazer uma exposição de grande interesse. Não foi o que aconteceu. Em lugar disso o que tivemos foi uma intervenção que de maneira extremamente enfadonha, em que Fabio Frosini discorria sobre pensamentos vagos, dentre os quais figuravam as observações de que “para Gramsci a filosofia não se dissocia da práxis”, ou de que “a noção de história para Gramsci não é linear”. Como resultado, a “atração internacional” da mesa terminou deslocalizado em relação ao conjunto do debate.

A dinâmica das crises capitalistas

A última intervenção da noite foi feita pelo professor da USP, Jorge Grespan, que resgatou a discussão acerca de se haveria em O Capital uma noção clara acerca da inevitabilidade da crise capitalista, como via que possibilita a recomposição das vias necessárias para a reconstituição da extração de mais-valia e a realização de capital. E em outro plano se existiria ou não para Marx o que mais tarde o economista polonês Henryk Grossman definiu como “teoria do colapso”, ou seja, em linhas gerais a noção de que por suas próprias contradições o capitalismo tende a colapsar. Neste marco, o primeiro questionamento partiu de que, se assumimos que a crise capitalista seria uma necessidade, porquanto inevitável, por que então esta não se manifestaria a todo momento? Esta interrogante levou Jorge Grespan a expor as vias através das quais opera a dialética entre necessidade e possibilidade de irrupção das crises capitalistas para que a lei do valor pudesse voltar a operar. A crise capitalista existe sempre como potencial, que por vezes eclode, e por outras não. Em sendo assim, restaria o questionamento para se estabelecer quais as leis que determinariam sua explosão, como operam, e em que sentido pode evoluir.  E a dialética existente entre uma determinada crise particular, e como suas saídas afetam a saúde geral do capitalismo. Aqui o expositor fez uma delimitação com o conceito de “crise estrutural do capital”, muito em voga junto aos herdeiros de Mézsáros, observando que esta categoria pouco ajuda a delimitar os contornos concretos que cada crise assume, ademais de trazer implicitamente imbuída a noção de catástrofe iminente do capitalismo. Ou em outras palavras, a noção de que o capitalismo poderia enfrentar sua crise terminal, e sua conseqüente morte, de maneira relativamente automática. Remetendo-se então à clássica teoria das ondas longas de Kondratiev para colocar todos os limites que esta já provou ter, o expositor lançou a questão de se haveriam ciclos econômicos, segundo quais leis estes operariam, e como se daria a transformação de quantidade em qualidade responsável pela transformação de uma potencial crise em uma crise efetiva.

Aqui cabe uma elucubração. Ora, sabe-se que o debate existente acerca da teoria do colapso e a teoria da crise que Marx legou parcialmente no livro III de O Capital foi um dos grandes divisores de águas da II Internacional. Para descrever brevemente de um lado havia os setores revisionistas, personificados em Bernstein e Kautsky para os quais o advento da época imperialista levaria a uma época marcada pelo pacifismo entre as nações. De outro, os de sensibilidade mais catastrofista. Um expoente deste setor foi a própria Rosa Luxemburgo, para quem a expansão incontrolável do capitalismo pelo mundo entraria em colapso quando este atingisse sua plenitude de dominação sobre todo o globo, já que o capitalismo necessariamente dependeria de territórios não explorados que garantissem sua expansão. Coube à Lênin a mais dialética das posições sobre o tema. Combatendo os malefícios derivados das posições reformistas da social-democracia alemã (tal como a própria Rosa o fizera contundentemente, e ainda antes dele), Lênin atesta o caráter inerente das crises no capitalismo. Porém, vaticina que se não há um sujeito revolucionário que possa desferir através de sua ação consciente o golpe final, o capitalismo sempre se recompõe, ainda que com bases mais débeis. Esta definição se demonstrou correta ao longo de toda a segunda metade do século XX. Após a crise aberta em 1968 se dá uma saída coordenada que combinou o fim do acordo de Bretton Woods, uma financeirização exacerbada da economia, retirada de direitos da classe trabalhadora em diversos países do mundo, incluindo aí os EUA, e a posterior benesse trazida pela restauração capitalista do Leste europeu e a integração da China à OMC. Mas não envolveu destruição massiva de forças produtivas e de capitais, o que determina em grande parte o caráter histórico da presente crise, e sua natureza que deriva da não resolução efetiva das contradições da crise capitalista anterior.

Leon Trotsky foi quem, dando continuidade à definição de Lênin, melhor soube tratar da relação dialética entre as recuperações parciais, as crises, e o estado de “saúde” do capitalismo em um sentido estratégico. Sem negar o caráter cíclico das crises e recuperações capitalistas, porém sem recair em uma visão mística sobre sua operação, Trotsky demonstra também um domínio da dialética do desenvolvimento capitalista, que se a academia insiste em ignorar, é de extrema vitalidade para apreender o sentido das crises em geral, e da presente em particular. Em seu texto intitulado “A curva do desenvolvimento capitalista”, Trotsky retomando Marx assinala como “o capitalismo não se caracteriza apenas pela periódica recorrência de ciclos: se assim fosse, a história seria uma repetição complexa, e não um desenvolvimento dinâmico. Os ciclos comerciais e industriais são de diferente caráter em diferentes períodos. A principal diferença está determinada pelas inter-relações quantitativas entre o período de crise e o auge de cada ciclo considerado. Se o auge é restaurado com um excedente a destruição ou a austeridade do período precedente, então o desenvolvimento capitalista está em ascenso. Se a crise, que significa destruição, ou em todo caso contração das forças produtivas, ultrapassa em intensidade o auge correspondente então obtemos como resultado a contração da economia. Finalmente, se a crise e o auge se aproximam entre si em magnitude, obtemos um equilíbrio temporário. Este é o esquema fundamental. Épocas inteiras de desenvolvimento capitalista existem quando um certo número de ciclos estão caracterizados por auges agudamente delineados e crises débeis de curta duração. (...) E há os momentos em que durante certos períodos históricos a curva básica, ainda que passando como sempre através de oscilações cíclicas se inclina para baixo de conjunto, assinalando o declínio das forças produtivas”.

A partir desta observação, Trotsky analisará a conexão existente entre os fatores econômicos e políticos para definir a magnitude e saída buscada para as crises capitalistas. Cada vez mais as crises econômicas são impossíveis de serem entendidas e tratadas por fora da política. Esta é uma observação que de início parece ser deveras simples, simplória até. A crise capitalista atual, que já se transformou em uma crise social e política, ameaçando a “unidade” européia é a maior prova disso. Porém, com exceção da última fala realizada por Jorge Grespan, - em que este acerta por um lado ao assinalar a necessidade da recomposição dos sindicatos para fazer frente à crise capitalista, e erra de outro quando defende a “unidade da esquerda” por fora de um acerto de contas estratégico entre as forças que a compõem -, passou quilômetros luz das intervenções da mesa de debates em questão. Mas o alento é que cada vez se torna mais difícil para a intelectualidade marxista enclausurada na academia tratar da “História” sem ter que se remeter àquela que se desenvolve e acelera em meio a nossos dias.


domingo, 22 de julho de 2012

Direto de Sevilha: Contra os ataques de Rajoy as ruas transbordaram por toda Espanha


por Danilo Magrão




 

Hoje a Espanha inteira marchou contra o criminoso e histórico plano de austeridade imposto pelo governo de Rajoy. Mais de 80 cidadades foram palco do 19J. Segundo os sindicatos e as organizações de esquerda, ao todo 800 mil pessoas foram às ruas protestar. Segundo a imprensa burguesa não há correlato na história recente de uma manifestação com essas proporções. A maior delas, em Madri, inspirada pela Marcha Negra, com 100 mil pessoas! Barcelona, Cordoba e Sevilha também não ficaram para trás, transbordando suas ruas com ódio e indignação contra o governo dos banqueiros!
Pude participar do ato em Sevilha, capital de Andalúcia, onde também há uma importante luta mineira. No trajeto, procurando a praça de concentração para o ato, perguntei a direção para um senhor que assim me respondeu: ´´segue na direcao para onde todos se encaminham, nessa cidade ninguém ficará de fora, hoje é o dia de ouvirem a nossa voz.`` Assim a vida política se manifesta hoje na Espanha, a conjuntura nao permite espectadores ou observadores neutros, os efeitos da crise econômica são navalha na carne desses trabalhadores, estao procurando os meios para golpear com mais força.
Ainda que o 19J tenha contado com amplos setores da população, o protagonismo de hoje se fez pelos trabalhadores do serviço público. Os tiros de Rajoy acertaram em cheio o funcionalismo público com o anúncio de prováveis demissões e com a suspensão do que aqui se chama de pagamento extra de ´´Navidad´´ - algo semelhante ao décimo terceiro salário brasileiro. Setores da juventude, que tiveram suas primeiras experiências do movimento dos indignados, estão pela força da história reconhecendo nos trabalhadores um aliado estratégico para sua luta. E em cada manifestação que ocorre também estáo sendo linha de frente nos enfrentamentos contra a repressiva polícia anti-distúrbios. Repressão essa que talvez tenha sido a maior até agora.  O centro de Madrid se transformou literalmente em uma praça de guerra, dezenas foram detidos e outros tantos ficaram feridos. A policia se mantém instalada na frente do congresso por todo tempo, não há quem possa chegar perto da sede de implementação dos planos de austeridade.
A burocracia sindical tenta a qualquer custo frear o processo que se densevolve. Em meio a esse turbilhão, seu plano principal consiste apenas em chamar um plebiscito para consultar a população se está de acordo com as tesouradas de Rajoy. Uma resposta parlamentar em um país em chamas, em que a classe operária está se mostrando cada vez mais disposta a fazer o que for preciso para vencer. A batalha mineira é a expressão exata disso, e não por acaso estão se tornando exemplo para todos. Em meio às multidudinárias manifestações de hoje, o cinismo desses agentes da burguesia é escandaloso e criminoso. A necessidade de uma greve geral já está nos cânticos dos grandes atos, amplos setores de trabalhadores já identificam a necessidade de golpear os capitalistas onde eles mais sentem. O tempo político, enormemente acelerado pela crise econômica, há de desmascarar por completo esses burocratas que hoje estão empregando todos os seus esforços para amortecer a violenta porretada desferida pela burguesia.
Nesses últimos 30 anos passamos por um período de ofensiva burguesa em todos os âmbitos, onde a classe operária foi tratada como um fantasma que havia abandonado o terreno da história. Os baluartes do capitalismo se erguiam ante os olhos de uma geração inteira que deixou de acreditar que revoluções fossem possíveis. Pois bem, como adiantava Trotsky, na Espanha ela já se mostra como inevitável. As muralhas do capitalismo já começam a apresentar importantes fissuras, e são justamente os operários, responsáveis pela criação de todas as riquezas do mundo, que a colocarão abaixo. Não há reforma que seja possível em um sistema que finca seus alicerces na exploração humana. Não há alternativa que não seja a sua derrubada violenta para abrir caminho para a emancipação humana. Os operários espanhóis bradam: Que os capitalistas paguem pela sua crise!



 
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