Cianeto, monóxido de carbono e massacre do corpo e da alma: é o que este sistema econômico tem a oferecer
Por Milena
Bagetti (ex-estudante da UFSM, estudante da Unicamp e professora temporária
rede pública de SP)
Passados alguns dias do incêndio que matou mais de 230 jovens e
feriu mais de 100 na boate Kiss em Santa Maria-RS - fato que gerou comoção e
revolta internacionais, apesar da cobertura abutre da mídia, que busca vender
seu jornalismo medíocre a qualquer custo - é reflexo das condições de vida que
este sistema alicerçado no poder burguês nos relega a partir de sua ganância
por lucro desmedida. Adentrando neste contexto, vemos que esse problema da
ganância capitalista e suas consequências se expressam como fenômeno internacional,
em que vemos as precárias condições de lazer e entretenimento que são
oferecidas para a juventude, sobretudo a juventude pobre brasileira e mundial,
além das péssimas condições de trabalho e a falta deste que os jovens estão
submetidos atualmente, com tentativas de resistência através dos inúmeros
protestos no mundo árabe e na Europa.
Este
acontecimento, infelizmente, é apenas uma das demonstrações mais trágicas do
que o capitalismo nos impõe. Hoje,
aqueles que são os “culpados mais específicos” se eximem descaradamente da
culpa. Sabemos que acontecimentos deste tipo não são inéditos, pois em Buenos
Aires na Argentina, por exemplo, o fogo que atingiu a
República Cromanhon há 8 anos, deixou 194 mortos. Em dezembro de 2012, 14
condenados foram presos pelo incêndio. Entre eles, o proprietário da boate,
integrantes da banda e até funcionários do governo por causa da falta de
fiscalização. Ainda que a justiça burguesa na Argentina também puna
parcialmente e exima os verdadeiros culpados, os capitalistas, que estão dispostos a
espremer jovens num espaço pequeno e sujeito a esses problemas; se julgou
alguns dos envolvidos e em Santa Maria os culpados precisam ser punidos,
tendo que pagar no mínimo indenizações às vítimas, no caso do prefeito César Schirmer
ter seu mandato cassado e os empresários “donos da noite” Mauro Hoffman e Elissandro Callegaro Spohr também
precisam no mínimo perder seus privilégios engendrados em sua sede por lucro, a qual foi responsável por que centenas de
jovens perdessem a vida. A presidenta
Dilma que ignorou por meses a greve das
universidades federais, piorando as condições dos professores universitários e
vem orquestrando um crescimento econômico baseado no trabalho precário e o
governador Tarso Genro que nem o piso salarial dos professores paga no Estado,
não podem dar respostas neste momento e demonstrar solidariedade se no contexto
geral seus mandatos tem sido para a burguesia.
Sabemos,
no entanto, que a punição destes não trará os jovens de volta, mas ao menos um
sentimento de justiça. Lembremos que a causa-morte de muitos e da intoxicação
dos feridos foi a partir do cianeto, que apareceu junto com a fuligem e o
monóxido de carbono dentro da Kiss, como consequência da combustão dos
materiais usados no revestimento acústico1. O cianeto era o princípio ativo do tristemente
famoso Zyklon B dos campos de extermínio nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial,
fazendo com que o ocorrido remonte ao horror das mortes nos campos de
concentração. Embora, nos campos de concentração o cianeto fosse usado de forma
consciente. É inaceitável que os hospitais no
Brasil não sejam equipados com os medicamentos necessários em emergência,
contando com as importantes doações (mas tardias em muitos casos) de
Hidroxicobalamina (vitamina B 12, que faz a desintoxicação). Na França, todos os serviços de
pronto-socorro estão equipados com a hidroxocobalamina para tratar intoxicações
por cianeto. Os
profissionais da saúde vêm colocando a importância de tê-la nos caminhões de
socorro a vítimas, já que também provavelmente muitos hospitais públicos
brasileiros não tenham o medicamento à disposição, pois, no
Brasil, o medicamento (comercializado sob o nome de Rubranova) é de difícil
acesso porque o laboratório que importava o sal parou de fazê-lo e o país não o
produz. Nas farmácias, o sal também não é vendido.
Isto nos faz
refletir também o que este modelo econômico baseado no lucro tanto no que tange
ao lazer quanto a questão da escolha dos
medicamentos para comercialização e
venda. Pode se dizer que não se esperaria que dezenas de pessoas em um hospital
necessitassem de um mesmo medicamento ao mesmo tempo, mas sabemos da
precariedade dos sistemas de saúde públicos, do SUS e a falta de
disponibilidade do medicamento também tem a ver com a pouca demanda, já que o
que “mereceria” ser comercializado é o que gera lucros, na lógica do capital.
Sabemos inclusive de medicamentos que recentemente causaram mortes, como anticoncepcional
Diane 35, largamente comercializado e indicado para tratamento de ovários
micropolicísticos.
O que este modelo tem a oferecer para juventude e
para os trabalhadores é o massacre do corpo e da alma destes, pois apesar de
supostamente oferecer locais de divertimento, estes locais precisam estar
dentro do modelo mercantil , já que os corpos devem ser disciplinados para o
trabalho e não para a diversão e o lazer, somente se este lazer gerar lucros
para os capitalistas.
“O indivíduo não tem mais tempo para pensar, para
ter seu momento de lazer, recreação, descanso, leitura, mas, está preocupado em
trabalhar para conseguir sobreviver. O humano se torna uma máquina, e, na
proporção que aumenta o seu trabalho, diminui a sua vida. Do Humano, neste
sentido, é tirado o direito de viver e realizar a sua vida. Teoricamente todos
têm liberdade, direito de viver com dignidade e realização. Do operário, na
maioria das vezes, isto lhe é negado pela estrutura econômica.” (Golfe, O.L. –
Antonio Gramsci – Uma alternativa para o marxismo)
Assim como as
propostas que a juventude coloca para “fugir” deste modelo são, por vezes,
reprimidas por meio do fechamento de bares universitários (inclusive a boate do
DCE da UFSM2), do impedimento da realização de festas nos campi das
universidades, que juntos contribuem com a lógica de que o lazer e o
divertimento precisam ser privados e que o espaço universitário precisa ser
direcionado somente às tarefas acadêmicas, ignorando o fato da universidade
pública e outros de espaços serem locais ocupados e abertos à população, que através
de seu suor é quem dá condições da universidade existir.
Este triste exemplo da realidade que aconteceu em
Santa Maria nos chama a refletir também se “mais segurança”, assim como mais
fiscalização, como a que vem ocorrendo no fechamento de casas de show do Brasil
inteiro, através de políticas repressivas, seria realmente a “solução” para que
as festas da juventude sejam realmente seguras, já que os próprios seguranças
no momento do incêndio foram os que impossibilitaram os jovens de sair da
boate, possivelmente orientados pelos donos a agirem de tal forma e totalmente
impregnados pela lógica mercantil. Neste instante, percebemos que o lado que os
seguranças tomaram foi o do sistema capitalista e não o lado das vidas dos
inúmeros jovens. As tentativas da
juventude de fazer arte ou criar lazer e entretenimento não podem ser ignoradas
e tampouco utilizadas como fonte de lucro, no entanto, acabam sendo
consideradas tentativas subversivas diante do contexto que a burguesia impõe.
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| Manifestação em Santa Maria |
Em relação às respostas que a população
vem dando em Santa Maria, manifestantes saíram às ruas exigindo punição aos
culpados, pois o sentimento de não se conformar com a tragédia na cidade ainda
é muito grande, sendo que muita gente tem-se mobilizado em solidariedade,
disponibilizando abrigo para os feridos, apoio profissional psicológico gratuito, inclusive de todos os Estados do
país. Embora os hospitais públicos da cidade não tenham tido capacidade de
atender a todos, com remoções de feridos para Porto Alegre, e infelizmente não
se tivesse a disposição de imediato, o
medicamento que faria a desintoxicação.
As páginas seguintes da história
desta tragédia engendrada pelo sistema capitalista ainda estão por serem
escritas, lutemos por justiça. Mas também lutemos pelo fim deste modelo
econômico baseado na ganância que coloca o lucro acima da vida!
1- O
gás é subproduto da combustão de materiais como espuma de poliuretano, usada em
revestimentos baratos com finalidades acústicas. Revestimentos acústicos de boa
qualidade são antichamas e não inflamáveis, portanto não produzem o cianeto.
2 – O nome
“boate do DCE” é uma denominação histórica da boate do prédio da casa do
estudante universitário II (moradia estudantil), mas não faz alusão à gestão do
DCE da UFSM.



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