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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Tragédia em Santa Maria:

Cianeto, monóxido de carbono e massacre do corpo e da alma: é o que este sistema econômico tem a oferecer 

 Por Milena Bagetti (ex-estudante da UFSM, estudante da Unicamp e professora temporária rede pública de SP)

Passados alguns dias do incêndio que matou mais de 230 jovens e feriu mais de 100 na boate Kiss em Santa Maria-RS - fato que gerou comoção e revolta internacionais, apesar da cobertura abutre da mídia, que busca vender seu jornalismo medíocre a qualquer custo - é reflexo das condições de vida que este sistema alicerçado no poder burguês nos relega a partir de sua ganância por lucro desmedida. Adentrando neste contexto, vemos que esse problema da ganância capitalista e suas consequências se expressam como fenômeno internacional, em que vemos as precárias condições de lazer e entretenimento que são oferecidas para a juventude, sobretudo a juventude pobre brasileira e mundial, além das péssimas condições de trabalho e a falta deste que os jovens estão submetidos atualmente, com tentativas de resistência através dos inúmeros protestos no mundo árabe e na Europa.
Este acontecimento, infelizmente, é apenas uma das demonstrações mais trágicas do que o capitalismo nos impõe. Hoje, aqueles que são os “culpados mais específicos” se eximem descaradamente da culpa. Sabemos que acontecimentos deste tipo não são inéditos, pois em Buenos Aires na Argentina, por exemplo, o fogo que atingiu a República Cromanhon há 8 anos, deixou 194 mortos. Em dezembro de 2012, 14 condenados foram presos pelo incêndio. Entre eles, o proprietário da boate, integrantes da banda e até funcionários do governo por causa da falta de fiscalização. Ainda que a justiça burguesa na Argentina também puna parcialmente e exima os verdadeiros culpados, os capitalistas, que estão dispostos a espremer jovens num espaço pequeno e sujeito a esses problemas; se julgou alguns dos envolvidos e em Santa Maria os culpados precisam ser punidos, tendo que pagar no mínimo indenizações às vítimas, no caso do prefeito César Schirmer ter seu mandato cassado e os empresários “donos da noite” Mauro Hoffman e Elissandro Callegaro Spohr também precisam no mínimo perder seus privilégios engendrados em sua sede por lucro,  a qual foi responsável por que centenas de jovens perdessem a vida.  A presidenta Dilma que  ignorou por meses a greve das universidades federais, piorando as condições dos professores universitários e vem orquestrando um crescimento econômico baseado no trabalho precário e o governador Tarso Genro que nem o piso salarial dos professores paga no Estado, não podem dar respostas neste momento e demonstrar solidariedade se no contexto geral seus mandatos tem sido para a burguesia.
Sabemos, no entanto, que a punição destes não trará os jovens de volta, mas ao menos um sentimento de justiça. Lembremos que a causa-morte de muitos e da intoxicação dos feridos foi a partir do cianeto, que apareceu junto com a fuligem e o monóxido de carbono dentro da Kiss, como consequência da combustão dos materiais usados no revestimento acústico1O cianeto era o princípio ativo do tristemente famoso Zyklon B dos campos de extermínio nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial, fazendo com que o ocorrido remonte ao horror das mortes nos campos de concentração. Embora, nos campos de concentração o cianeto fosse usado de forma consciente. É inaceitável que os hospitais no Brasil não sejam equipados com os medicamentos necessários em emergência, contando com as importantes doações (mas tardias em muitos casos) de Hidroxicobalamina (vitamina B 12, que faz a desintoxicação).  Na França, todos os serviços de pronto-socorro estão equipados com a hidroxocobalamina para tratar intoxicações por cianeto.   Os profissionais da saúde vêm colocando a importância de tê-la nos caminhões de socorro a vítimas, já que também provavelmente muitos hospitais públicos brasileiros não tenham o medicamento à disposição, pois, no Brasil, o medicamento (comercializado sob o nome de Rubranova) é de difícil acesso porque o laboratório que importava o sal parou de fazê-lo e o país não o produz. Nas farmácias, o sal também não é vendido.
 Isto nos faz refletir também o que este modelo econômico baseado no lucro tanto no que tange ao lazer quanto a questão da escolha  dos medicamentos  para comercialização e venda. Pode se dizer que não se esperaria que dezenas de pessoas em um hospital necessitassem de um mesmo medicamento ao mesmo tempo, mas sabemos da precariedade dos sistemas de saúde públicos, do SUS e a falta de disponibilidade do medicamento também tem a ver com a pouca demanda, já que o que “mereceria” ser comercializado é o que gera lucros, na lógica do capital. Sabemos inclusive de medicamentos que recentemente causaram mortes, como anticoncepcional Diane 35, largamente comercializado e indicado para tratamento de ovários micropolicísticos.
O que este modelo tem a oferecer para juventude e para os trabalhadores é o massacre do corpo e da alma destes, pois apesar de supostamente oferecer locais de divertimento, estes locais precisam estar dentro do modelo mercantil , já que os corpos devem ser disciplinados para o trabalho e não para a diversão e o lazer, somente se este lazer gerar lucros para os capitalistas.

       “O indivíduo não tem mais tempo para pensar, para ter seu momento de lazer, recreação, descanso, leitura, mas, está preocupado em trabalhar para conseguir sobreviver. O humano se torna uma máquina, e, na proporção que aumenta o seu trabalho, diminui a sua vida. Do Humano, neste sentido, é tirado o direito de viver e realizar a sua vida. Teoricamente todos têm liberdade, direito de viver com dignidade e realização. Do operário, na maioria das vezes, isto lhe é negado pela estrutura econômica.” (Golfe, O.L. – Antonio Gramsci – Uma alternativa para o marxismo)

Assim como as propostas que a juventude coloca para “fugir” deste modelo são, por vezes, reprimidas por meio do fechamento de bares universitários (inclusive a boate do DCE da UFSM2), do impedimento da realização de festas nos campi das universidades, que juntos contribuem com a lógica de que o lazer e o divertimento precisam ser privados e que o espaço universitário precisa ser direcionado somente às tarefas acadêmicas, ignorando o fato da universidade pública e outros de espaços serem locais ocupados e abertos à população, que através de seu suor é quem dá condições da universidade existir.
Este triste exemplo da realidade que aconteceu em Santa Maria nos chama a refletir também se “mais segurança”, assim como mais fiscalização, como a que vem ocorrendo no fechamento de casas de show do Brasil inteiro, através de políticas repressivas, seria realmente a “solução” para que as festas da juventude sejam realmente seguras, já que os próprios seguranças no momento do incêndio foram os que impossibilitaram os jovens de sair da boate, possivelmente orientados pelos donos a agirem de tal forma e totalmente impregnados pela lógica mercantil. Neste instante, percebemos que o lado que os seguranças tomaram foi o do sistema capitalista e não o lado das vidas dos inúmeros jovens.  As tentativas da juventude de fazer arte ou criar lazer e entretenimento não podem ser ignoradas e tampouco utilizadas como fonte de lucro, no entanto, acabam sendo consideradas tentativas subversivas diante do contexto que a burguesia impõe.
Manifestação em Santa Maria
Em relação às respostas que a população vem dando em Santa Maria, manifestantes saíram às ruas exigindo punição aos culpados, pois o sentimento de não se conformar com a tragédia na cidade ainda é muito grande, sendo que muita gente tem-se mobilizado em solidariedade, disponibilizando abrigo para os feridos, apoio profissional psicológico  gratuito, inclusive de todos os Estados do país. Embora os hospitais públicos da cidade não tenham tido capacidade de atender a todos, com remoções de feridos para Porto Alegre, e infelizmente não se tivesse a disposição de imediato,  o medicamento que faria a desintoxicação.
As páginas seguintes da história desta tragédia engendrada pelo sistema capitalista ainda estão por serem escritas, lutemos por justiça. Mas também lutemos pelo fim deste modelo econômico baseado na ganância que coloca o lucro acima da vida!

1- O gás é subproduto da combustão de materiais como espuma de poliuretano, usada em revestimentos baratos com finalidades acústicas. Revestimentos acústicos de boa qualidade são antichamas e não inflamáveis, portanto não produzem o cianeto
2 – O nome “boate do DCE” é uma denominação histórica da boate do prédio da casa do estudante universitário II (moradia estudantil), mas não faz alusão à gestão do DCE da UFSM.

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