Alessandro de Moura

A classe trabalhadora perde mais um combatente. Foi em uma assembléia estudantil da Unesp onde o vi pela primeira vez. Não o conhecia, Marcio, com o dedo em riste, em defesa de uma greve estudantil fez uma intervenção furiosa contra a UJS-PCdoB e o governismo. Votamos juntos pela greve. Naquele ano tivemos uma greve que durou três meses. Fiquei curioso em saber mais sobre aquele rapaz, logo me disseram que era do grupo dos marxistas, o que me gerou mais curiosidade. Era meu primeiro ano de faculdade em ciências sociais, já era o terceiro de Márcio no mesmo curso.
Na primeira ocasião em que conversamos mais profundamente fiquei ainda mais impressionado, caracterizando-se como marxista, muito atento ao método dialético, discutia variados temas de forma profundíssima. “Do simples para o complexo, do complexo para o simples”. Numa ocasião debatíamos sobre o capitulo Maquinaria e grande indústria, em determinado momento da conversa, ele disse que achava um absurdo as pessoas gostarem de ir trabalhar de carro, pois com isso começavam a trabalhar mais cedo, pois o carro é uma maquina que precisa ser operada como qualquer outra... “Dirigir até o trabalho é atividade não remunerada”. Curiosa observação, sempre me lembro dela quando preciso dirigir. Estávamos em pleno acordo que o marxismo revolucionário tinha que discutir o cotidiano.
Daí em diante nossos encontros tornaram-se cada vez mais agradáveis. Em um domingo ou outro almoçava na casa onde eu morava com minha companheira, que também era muito amiga de Márcio. Almoços longuíssimos. Começávamos a cozinhar às duas da tarde, depois do almoço um café, a noitinha um lance, mais café, mais política, mais marxismo. Insistia em discutir antropologia por uma via marxista, por essa via discutia as percepções sociais, ha anos debatia fenomenologia, formação das cidades e seu caráter de classe, os mapas da violência, a violência contra as mulheres, pobreza e desigualdade. De vez enquanto ele reclamava, “chega de falar de política”, só que não... seguíamos conversando até a madrugada. Marxismo e política nacional, a prática política dos partidos. Lênin e a revolução russa, suas conquistas, as degenerações stalinistas, as posições políticas dos professores stalinistas do campus, e a nossa... Por luta política contra a reitoria, contra a direção da faculdade e sua congregação fomos perseguidos. Sofremos processo de sindicância na UNESP, primeiro Marcio, depois eu. Mas isso não nos impediu que continuarmos nos organizando, não nos impediu de buscarmos organizar pessoas para a luta e enfrentamento.
Em outra ocasião eu, em conjunto com outros estudantes, organizava um ônibus para um congresso de sociologia em Recife. A longuíssima viagem de ônibus teria sido muito menos prazerosa se não fosse sua presença. No primeiro dia convenceu-me a conhecer algumas regiões da cidade. Durante cinco dias conversamos e passeamos por Pernambuco. Depois que entrou no doutorado na Unicamp acabamos por nos afastar. Nos encontramos novamente na greve da USP em 2009. Claudionor Brandão havia sido demitido e preso por lutar pelos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras terceirizados, estávamos em combate pela readmissão de Brandão, contra a Reitoria da USP e as políticas do governo Federal e Estadual, contra as perseguições aos estudantes. De repente encontro Márcio, super sorridente... Conversamos... Tinha um show do Tom Zé no velódromo... Durante a apresentação, Marcio tentava convencer-me a me transferir para a Unicamp... Eu resisti. Após a interrupção da apresentação nos despedimos, “Vamos marcar alguma coisa”, “eu te ligo”’... E os anos passaram... Depois disso um rápido encontro em um congresso sobre a classe trabalhadora em Marília, com agenda apertada nos falamos brevemente... Em 2012 fiquei sabendo que fora punido pela Reitoria da Unicamp por ter lutado por políticas de permanência estudantil em favor dos estudantes o documento com sua sentença dizia “Em relação ao discente Marcio Ricardo de Carvalho – RA 080272, em face de sua citação regular e revelia, também aplico a penalidade de 06 (seis) meses de suspensão de suas atividades letivas. Perseguido novamente por lutar, desta vez por determinação da Reitoria da Unicamp, Marcio perdeu sua bolsa de pesquisa.
No final de 2012 estive em uma atividade na Unicamp, uma amiga que ainda estuda nessa universidade, e milita na mesma organização que eu, disse que havia conhecido Márcio, descobrimos mais uma amizade em comum. Ela me disse que Márcio perguntava por mim. Queria saber o que me levou a militar no trotskismo... Disse que convergíamos em muitas questões políticas e teóricas. Queria me fazer perguntas sobre minha militância e minhas “novas concepções”. Se eu optei pelo trotskismo, porque ele também não poderia? Certamente essas perguntar tornar-se-iam palco um debate longuíssimo como era de nosso costume e aprenderíamos ainda mais um com o outro, pois o marxismo é uma ferramenta para entender e mudar a vida!
Márcio, bem ante que eu, era um fervoroso combatente anti-stalinista, por essa via contribui muito para que eu pudesse compreender a tradição stalinista no Brasil, criticava enfaticamente como o PCB atuou ao longo de sua trajetória no Brasil, como esse partido rompia com o marxismo, suas traições históricas à possibilidade da revolução brasileira, como encarava as demandas democráticas, como esse partido menosprezava a luta do povo negro, como desacreditava na força da classe trabalhadora. Combatia frontalmente a homofobia, por isso criticava acidamente a forma como esse partido tratava a homoafetividade e as demandas das mulheres. Critico voraz do governismo, não cansava de repetir que o PT governava para a burguesia e o patronato contra a classe trabalhadora. Analisava a esquerda e a direita brasileira, mas não encontrava um partido que atendesse as suas expectativas. Precisava de um partido revolucionário. Apenas com isso poderia colocar-se completamente na luta pela emancipação da classe trabalhadora. Por uma série de processos políticos sociais, esse partido não existe ainda no Brasil e Márcio, jovem combatente político de intelecto brilhante e desafiador não pôde construí-lo e nem mais esperar por ele.
Camarada Márcio, presente!!!


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