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sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A crise capitalista e a necessidade da reconstrução da IV Internacional - Lançamento da revista Estratégia Internacional Brasil 6 lota sala na USP







No dia 8 de novembro mais de 120 pessoas dentre estudantes, trabalhadores e militantes de organizações da esquerda compareceram ao debate convocado pela LER-QI para discutir a crise capitalista e a necessidade da reconstrução da IV Internacional hoje. Esta atividade encerrou a primeira rodada do ciclo de seminário Por que Trotsky?, e lançou o sexto número da revista Estratégia Internacional Brasil 6, publicação da Fração Trotskista – QI, em português. A mesa foi composta pelos militantes da LER-QI Simone Ishibashi, socióloga e diretora da revista Estratégia Internacional Brasil 6, Gilson Dantas, da revista Contra Corrente e histórico militante trotskista, e Leticia Parks, estudante da USP perseguida politicamente.
A atividade se iniciou com a fala de Leticia Parks, que mediou o debate. Letícia faz parte dos 73 estudantes que foram presos no ano passado no exato dia 8/11, por lutar contra a presença da polícia no campus, política levada adiante pela reitoria de Rodas como parte de uma ofensiva repressiva contra os estudantes, trabalhadores e docentes que possam se opor aos seus planos. Hoje encontra-se, ao lado de diversos outros estudantes e trabalhadores que abarca inclusive os diretores do Sintusp, sob a condição de perseguida política. Letícia partiu de resgatar a importância do combate à repressão aos lutadores, e ligou a situação que acontece dentro dos muros da universidade com a crescente perseguição e assassinato ao povo negro e pobre, que tem sido alvo de gatilho fácil bem próximo à maior universidade de São Paulo, com a ocupação da favela São Remo. “ “ Nesse sentido, ressaltou como existe um pacto entre o governo federal e o governo do estado, que apesar das polarizações eleitorais coincidem em uma questão fundamental: em reprimir e impor o terror aos trabalhadores, jovens e todos os oprimidos que vivem nas periferias.
Em seguida, abrindo o debate, falou Simone Ishibashi, que partiu de remarcar que em seu quinto a crise capitalista começa a dar lugar a expressões políticas que demonstram que é uma crise que não pode ser entendida meramente como uma crise econômica. Assim, apontou que apesar de Barack Obama ter sido reeleito no dia anterior ao debate, o processo de decadência histórica da hegemonia norte-americana continuava em curso, e que se a crise aí parecia mais controlada se devia mais ao baixo nível de luta de classes, que a uma recuperação significativa da economia. Neste marco, a vitória de Obama se distinguia da sua primeira eleição, que fora marcada por um alto grau de ilusões, tendo sido favorecida também pelo perfil direitista das candidaturas do Partido Republicano.
Em relação à Europa, epicentro da crise hoje, apontou que se depois de 17 greves gerais na Grécia, 4 no Estado Espanhol, e da luta dos trabalhadores e da juventude francesa contra as reformas da previdência de Sarkozy, e da greve dos mineiros espanhóis não se conseguiu responder à altura dos ataques, é graças ao papel da burocracia sindical, que sistematicamente tem se negado a romper com a estratégia de lutas de pressão. Daí a necessidade imperiosa de levantar um combate duro contra a burocracia, e da esquerda e todos os jovens que despertam para a luta política em meio à crise levantar um programa que possa fazer dos atos do 14N um momento chave para avançar neste sentido.
Do ponto de vista político, ressaltou como começam a se dar novos fenômenos para além do fortalecimento da direita, como a Frente Nacional de Marine Le Pen no período anterior, que se concretiza na refundação de novas mediações reformistas que buscam ocupar o descontentamento popular com os partidos tradicionais. Este conformam-se como partidos amplos ou coalizões entre reformistas antineoliberais e resquícios dos velhos stalinistas, que buscam ocupar o espaço eleitoral aberto pelo descontentamento de setores de massas com os ataques como forma de lidar com a crise capitalista.
“A primeira prova política para a esquerda internacional foi o Syriza grego. Esta coalizão que reúne cerca de 30 organizações dos mais distintos matizes dentre os quais figuram representantes do no-global, de setores stalinistas, reformistas de todos os tipos, nucleados em torno do Synaspismo, apesar de ter se alçado como uma alternativa ao PASOK não tem nenhuma ligação com a classe trabalhadora. Trata-se muito mais de um partido midiático, que um partido com capacidade real de mobilização. Entretanto, nada disso foi tomado em conta pelas organizações do centrismo trotskista, que rapidamente saíram a apoiá-los. Esta pode ser encarada como uma primeira prova política, que aponta a que em relação a estas novas mediações estes setores não estão dando um giro para reverter a sua deriva estratégica”, disse. Neste sentido, criticou o apoio dado pelas organizações que se reivindicam como trotskistas, como o Partido Obrero argentino, e o PSTU em nosso país, como uma política que rompe com o legado de Trotsky ao dar apoio eleitoral a um engendro reformista, em detrimento de uma política que faça avançar a independência de classe dos trabalhadores. Este mesmo teste não foi cumprido também frente à primavera árabe, em que organizações como a LIT-PSTU saem a comemorar a queda de Kadafi na Líbia mesmo sob a atuação da OTAN rompendo com a política de defesa da queda revolucionária dos regimes árabes, de maneira independente do imperialismo e da burguesia. Terminou ressaltando a necessidade de nos apropriar do legado de Trotsky, não para repeti-lo dogmaticamente ou para dias de festa, mas para definir as posições corretas frente a estas novas provas da luta de classe internacional.
Em seguida Gilson Dantas interveio, resgatando como Trotsky era visto pela sua geração. Traçou um paralelo entre o trotskismo de sua geração, setentista, e o por quê da necessidade da ofensiva Trotsky hoje. Do trotskismo pela metade ou centrista, ao trotskismo de centralidade estratégica, foi seu tema. Ele ressaltou que em tempos do guevarismo, do maio de 68 na França, da revolução vietnamita em marcha, da marcha dos cem mil contra a ditadura no Brasil e onde afloravam revoluções pelo mundo afora, a figura de Trotsky se destacava, para além de sua figura épica, por sua relação indissolúvel com sovietes, com o partido bolchevique e com a Revolução Russa. Uma parte da juventude de esquerda encontrava, ao mesmo tempo, em Trotsky, o programa da revolução política e a explicação para o chamado “socialismo real”, a sociedade onde o capital foi expropriado mas o proletariado foi confiscado e subjugado no poder de Estado por uma burocracia parasitária.
No entanto o que existia em seu tempo era um trotskismo pela metade. Que abandonara parte crucial da sua bagagem clássica e se degradara no centrismo auto-proclamatório e, para nada, internacionalista.Todas as revoluções do seu tempo, de todo aquele ciclo fechado com a frustrada revolução política na Polônia em 1981, fracassaram. Nenhuma delas instaurou qualquer coisa parecida com a Revolução Russa, com um Estado operário que não nascesse deformado. Por outro lado, nenhuma delas partiu do legado da Revolução Russa ou dos quatro primeiros congressos da III Internacional de Lenin e Trotsky. E este foi o primeiro destaque na sua fala: hoje, quando surgem elementos de um possível novo ciclo revolucionário, o programa e a estratégia da IV Internacional, continuadores diretos da Revolução Russa, do partido bolchevique, mostram-se atualíssimos e incontornáveis para que a ofensiva proletária não desemboque em novas derrotas, no nosso século, atalho direto para a barbárie. Eram revoluções sem partido revolucionário, sem a centralidade operária como sujeito político e programático e sem a estratégia de luta pelo poder democrático da classe trabalhadora e seus aliados pobres. Dessa forma poderiam até ir muito longe – para além dos limites de suas direções pequeno-burguesas ou stalinistas – mas sua estratégia e seus instrumentos políticos não conduziriam ao triunfo sustentado da classe operária.
Esse vem a ser precisamente o vazio que somente pode ser preenchido pelas ideias, pelo programa de transição e pela estratégia da revolução proletária, legados diretos da IV Internacional de Trotsky. Em sua fala, ele procurou mostrar a deriva e os atalhos estratégicos do trotskismo do pós-Guerra, seus elos débeis de continuidade com Trotsky, sua adaptação a quaisquer aparatos de massa que surgissem e, em consequência, sua conformação centrista, ambivalente, dual. E a miséria da estratégia do atual trotskismo, amplamente explicado no informe da Simone. O que nos leva, com toda premência dessa nova época, ao debate Trotsky e ao resgate de sua experiência teórica clássica para condições novas. Mas que ainda que novas, se dão nos marcos de um tempo histórico que ainda é o de Trotsky, de crises convulsivas que rapidamente podem por a revolução na ordem do dia, assim como guerras de grande porte.
Trotsky é atual hoje porque a revolução não avança de qualquer jeito e nem com qualquer estratégia. A revolução é mundial, o partido é mundial, e assim como a burguesia tem sua estratégia, nós apenas avançaremos com direções proletárias e revolucionárias que conheçam estratégia, programa e estejam focadas no objetivo de um poder político onde o sujeito seja a classe trabalhadora. Foi explicado porque aquele trotskismo se degradou. E quais são as características de um trotskismo que ao mesmo tempo em que evolua para compreender os novos fenômenos da luta de classes – explicados na intervenção da Simone – e se funda com a nova vanguarda operária, mas também seja capaz de não começar do zero; ao contrário, que se funda com o legado revolucionário e estratégico de Trotsky.



Uma ferramenta que deve estar em nossas mãos








O CEIP-IPS (Centro de Estudo, Investigação e Pesquisa Leon Trotsky - Instituto do Pensamento Socialista), ligado ao PTS (organização irmã da LER-QI na Argentina, membro da Fração Trotskista - Quarta Internacional) desenvolveu uma nova ferramenta virtual para o acesso ao riquíssimo acervo do trotskismo acumulado em décadas de pesquisa e investigação, intimamente vinculado às respostas dadas aos grandes problemas da luta de classes atual. Ampla gama do inesgotável arsenal de idéias do marxismo revolucionário de Leon Trotsky se encontra ora disponível no novo site do CEIP (http://ceipleontrotsky.org/), em que a nova geração da juventude poderá ter acesso ao legado histórico de Trotsky e da IV Internacional, como continuidade da Internacional Comunista de Lênin, além de diversos artigos de outros revolucionários de importância. No 95º ano da Revolução Russa de 1917, as idéias da classe dominante começam a dissolver-se juntamente com a dissolução de suas condições de existência, no quinto ano da crise histórica do capitalismo. Para colocar novamente as idéias revolucionárias em ação, entrevistamos Andrea Robles do CEIP e Leonardo Vásquez e Lúcia Simone da TVPTS que colaboraram no desenvolvimento e desenho do novo site.

Por que decidiram fazer uma nova página na internet?

AR: Centralmente a idéia foi tornar acessível todo o trabalho de investigação e publicação sobre a obra de Leon Trotsky que o CEIP realiza a quase 15 anos em uma situação em que as idéias de Leon Trotsky se tornam mais atuais. A juventude é o fenômeno político mais relevante gerado pela crise capitalista. Esta juventude começa a buscar saídas de superação a um sistema que não lhe da nenhuma perspectiva. Até a sovietóloga liberal Sheila Fitzpatrick afirma que estamos em um momento em que “a julgar pelas entradas no Google, Trotsky segue sendo famoso em todo o mundo”. Em essência nos colocamos em um trabalho em nova escala para tentar ser um ponto de referência para estes leitores nos países de língua espanhola, começando em aproximar estes trabalhos da militância..
LV: O site foi pensado e desenvolvido de maneira militante e não como uma tarefa técnica ou acadêmica. Partimos de um arquivo com grande quantidade de informação que organizamos, programamos e classificamos para que sirva como ferramenta para a militância cotidiana e não somente um site informativo. Estamos frente a responsabilidade de estarmos frente ao site mais importante sobre Trotsky em língua espanhola, tendo em conta que a difusão das novas tecnologias digitais fazem que cada vez mais textos e materiais teóricos possam ser consultados e lidos na internet.
LS: Concretamente a complexidade é que o site integra um arquivo digital e uma biblioteca física que reflete a atividade militante de investigação e publicação de muitíssimos anos. Desde o ponto de vista do desenho foi um desafio pensar uma organização que permita tornar facilmente acessível este enorme universo de informação tanto por sua variedade temática e conceitual como em relação aos distintos formatos em que se encontrava.

De onde partem para realizar este trabalho? Qual o conteúdo da página?

AR: Em 1998 fundamos o CEIP com o objetivo de fortalecer uma instituição que concentra-se um trabalho que envolvesse o conjunto do partido e nossa corrente internacional,a FT, no estudo e na investigação da história da Oposição de Esquerda e da IV internacional e no debate sobre a atualidade da obra de Leon Trotsky. Como resultado fomos editando nossos Boletins e Cadernos e publicamos livros sobre o pensamento de Trotsky como os Escritos Latino americanos, a compilação sobre a teoria da revolução permanente, sobre a Segunda Guerra Mundial, seus escritos sobre economia, os Escritos Filosóficos entre outros. Também digitalizamos obras importantes de difícil acesso como os Escritos de Leon Trotsky )1929-1940) que reúne mais de 1000 artigos e cartas, em sua maioria sobre a construção das distintas seções da IV internacional. Realizamos também um trabalho de estudo, investigação e tradução, já que havia trabalhos de grande importância – junto com O caso Leon Trotsky – que se encontravam inéditos e que disponibilizamos agora em uma nova seção do site, digitalizado em espanhol. Em síntese, o site contem todo o trabalho do CEIP.
LV: No site também se pode consultar o catálogo da biblioteca e hemeroteca para saber que materiais têm no CEIP disponíveis para aqueles que quiserem consultá-los.  Assim como na seção arquivo histórico em que apresentamos os periódicos de grupos trotskistas de diferentes partes do mundo entre os anos 30 e 70. Alguns, estão digitalizados como as publicações norteamericanas Fourth International, New International e International Socialism.
LS: A hemeroteca conta com revistas de investigação trotskistas de diversos idiomas. Seus índices, que seguem os temas que as mesmas tratam, se encontram traduzidos e disponíveis no site. Além de uma ferramenta de escolha de temas e conceitos marxistas que permite filtrar e fazer buscas entre os mais de 2.000 artigos de Leon Trotsky, quase 40 livros digitalizados e dezenas de estudos e investigações sobre sua obra.

Que esperam a partir do lançamento da nova página?

LS: É importante que os novos companheiros tomem esta página em suas mãos, tanto para ler e consultar para buscar textos históricos mas também para buscar respostas aos problemas que apresentam os múltiplos fenômenos da nova situação, como também para tomar em suas mãos a tarefa de enriquecer-la e melhorá-la.
AR: O lançamento da nova página esta ligada ao relançamento de toda a atividade do CEIP e que tem como grande eixo de publicação as Obras Escolhidas de Leon Trotsky mas também o sentido que falávamos no começo de uma ofensiva tanto no terreno da apropriação de todo este acervo como na influência que conseguirmos a partir deste.
LV: Sim, neste sentido, este é um ponto de partida para ampliar a colaboração de jovens e intelectuais. E continuar com a difusão da obra de Trotsky e ampliando as investigações elaborações do CEIP




quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Após uma eleição despolitizada, precisamos organizar o movimento estudantil e as entidades para lutar por um outro projeto de Universidade








Enquanto as eleições para o DCE da Unicamp ocorriam, o Reitor Fernando Costa recebia para um almoço oficial o recém-eleito prefeito de Campinas, Jonas Donizette, do PSB (em aliança com os tucanos e Alckmin), apoiando sua eleição e prometendo entendimentos entre a universidade e a prefeitura. Na mesma semana, recebeu o reitor da Universidade de Indiana, em busca de negócios. Se somarmos a isso a determinação do Tribunal de Contas do Estado exigindo que o alto escalão do Conselho Administrativo da Unicamp devolvesse aos cofres públicos o dinheiro desviado para seus próprios salários, temos o resultado sumário do que significa para todos nós (e para a população pobre) o “projeto de Unicamp” instalado hoje: uma universidade que auxilia o projeto de país que fecha as portes da educação pública  pra massa da juventude e dos trabalhadores, envolvida pelo elitismo e racismo e ligada umbilicalmente ao capital privado.

Nesta mesma Unicamp, dirigida por aqueles que exploram “por excelência” os trabalhadores terceirizados, que reprimem greves dos funcionários, que desmontam a Moradia estudantil e as políticas de permanência e desviam verbas públicas com o aval do governo Alckmin, a chapa “Prelúdio das Primaveras” entrou nas eleições para o DCE com o intuito de abrir a reflexão: “que tipo de entidade precisamos para o combate ao modelo de universidade existente?”, com a perspectiva de, finalmente, fazer do DCE uma entidade militante e viva que organize junto aos estudantes a luta contra à continuidade desse projeto elitizante e privatista de universidade. Militamos e debatemos na campanha em torno desse eixo, deixando claro para cada estudante que para nós essa Universidade não é uma bolha, mas está inserida em uma realidade estadual e nacional marcada por governos que de distintas formas(Alckmin e Dilma), mas com objetivos extremamente parecidos, direcionam a educação cada vez mais às necessidades cotidianas do capitalismo.

Cada detalhe dessa universidade é um reflexo indireto disso: blocos de moradias insuficientes e que desmoronam convivem com a “excelência” de laboratórios privatizados e suas pesquisas de ponta a serviço de grandes empresas. A super-exploração do trabalho terceirizado, com opressão à mulher. O assassinato de um jovem negro no campus de Limeira há 10 anos atrás; a juventude secundarista (patrulheira) que tem acesso negado ao ensino nas salas de aulas da Unicamp, mas tem a “liberdade plena” de ser mão-de-obra barata para a burocracia em cada instituto e departamento; a carência de professores e de funcionários; a utilização de fundos públicos (com a parceria do Santander) para a instalação de um parque tecnológico entre Unicamp-Facamp-PUC que, nas palavras de Jonas, “intensificarão as relações entre o governo municipal e a academia”[1]: uma entidade como o DCE que não busque ser um oponente à altura a essa política consciente da Reitoria, de nada nos servirá. Nem a chapa “Vira-Mundo”, nem a “Pra Fazer Diferente - Oposição”, se propuseram a esse debate conosco. Os chamados despolitizados entre “votar na chapa que está em todo lugar” e o “vote diferente” sem conteúdo, mostra o eleitoralismo vazio que as chapas “Vira-mundo” e a “Pra fazer diferente” construíram nesse processo, não denunciando aos milhares de estudantes o atual projeto de universidade empresarial gerenciado por uma estrutura de poder anti-democrática e nem dizendo como se enfrentar com essa reitoria e governo.

Chamamos o conjunto dos estudantes a seguirem nessa luta conosco após a eleição da nova gestão, “Vira-mundo”. É necessário uma alternativa ao rotineirismo do grupo 1º de Maio/ Rosa do Povo do PSOL que dirige o DCE nos últimos 12 anos e não foi capaz de organizar um movimento estudantil que se enfrente seriamente com esse projeto, sendo um freio para a auto-organização e democracia do movimento. Isso fica claro em todas as greves e mobilizações: a força numérica durante as eleições é substituída, quando se fecham as urnas, por um DCE que “quer lutar, mas os estudantes não querem”, jogando nas costas dos estudantes a opção política de um grupo que prefere gerenciar e negociar aparentes “conquistas”, ao invés de organizar seriamente o movimento contra os ataques que passaram ao longo da última década, que em vários momentos foram derrotas sem lutas, ou lutas contra a reitoria, que viam que no meio do caminho tinha uma pedra...o DCE. Seu oportunismo foi evidente mais uma vez, já que o mesmo grupo que burocraticamente se opõe a uma gestão proporcional e democrática, diz que precisamos de um DCE “independente de partidos”, alimentando o apartidarismo e escondendo-se politicamente.

A chapa “Pra Fazer Diferente”(composta majoritariamente por militantes do PSTU) não pode ser uma real alternativa à direção atual do DCE. Percebendo o desgaste da atual direção do DCE com sua paralisia de 12 anos, buscaram canalizar todo tipo de descontentamento, dos mais sinceros e críticos até os mais conservadores. Passaram da “unidade pelo mesmo projeto” para serem a “oposição” que ia “fazer diferente”, com um discurso despolitizado, o que ficava claro desde o começo de sua carta-programa, quando diziam que “estamos cansados das mesmas pessoas e dos mesmos discursos”, apoiando-se num sentimento atrasado contra as entidades e o movimento estudantil. Não levantaram em sua campanha eleitoral um programa que se enfrentasse explicitamente contra a Reitoria e o Governo do Estado, ampliando seu arco de influência em setores da universidade que são à favor do atual projeto da Unicamp. Um pragmatismo eleitoreiro escandaloso onde estar no aparato se torna o objetivo e a luta contra o elitismo, a privatização e a repressão na universidade fica guardado para quem sabe depois das urnas! Nem uma palavra sobre a aliança entre estudantes e trabalhadores; nem uma palavra sobre a greve dos funcionários de 2011 ou das Federais de 2012, seus perseguidos, e aqueles da repressão aos estudantes que lutaram por Moradia; nem uma palavra sobre a histórica greve no IFCH contra a entrada da PM na USP. Uma “oposição” que se apoiava nos elementos mais atrasados, como a “questão da segurança”, justamente no momento em que o governo de SP assassina centenas de jovens negros. Um oportunismo eleitoral “do tamanho da Unicamp”, o que talvez explique sua alta votação em cursos dirigidos por Centro Acadêmicos que se colocam contra o movimento estudantil e as greves de  trabalhadores, como foi na Ciências da Computação.
A postura eleitoral oportunista dessas correntes que dirigiam as duas chapas não se restringe à Unicamp, como pudemos ver nas eleições municipais.[2]

A luta por uma nova universidade democrática que garanta o direito elementar de acesso de toda a população ao ensino superior público (que rasgue o “filtro de pobres”, que separa a universidade da cidade, que é o vestibular e os monopólios particulares de educação, como o grupo Anhanguera), que não seja um viveiro que reproduz os interesses privados da parceria de Fernando Costa com Donizette, que conspiram contra a educação dos trabalhadores e da juventude, mas varra essa burocracia e sua estrutura de poder corrupta; para isso, é necessário uma nova prática, distante do pessimismo dessa direção do DCE, que confie na força de um movimento auto-organizado e democrático em aliança com os trabalhadores e a população, única via de buscar responder de fato as contradições estruturais dessa universidade elitista e racista.

Nós da chapa “Prelúdio das Primaveras” apresentamos sinceramente nosso projeto ao conjunto dos estudantes, e dedicamos a campanha feita a cada jovem negro assassinado nas últimas semanas pelas periferias, cujo acesso à educação pública superior é cotidianamente negado. Nos orgulhamos de ter sido a única voz dos milhões de jovens barrados pelos vestibulares e cercas racistas da Unicamp, mas sabemos que é necessário um movimento estudantil de centenas nessa Universidade que busque democratizar a educação para a juventude trabalhadora e pobre: chamamos o conjunto dos estudantes a lutar por um movimento estudantil de milhares que busque a transformação radical dessa Unicamp junto conosco, na chapa Contracorrente para o CACH, assim como em todos os institutos debatendo e construindo a Juventude às Ruas.


[2]  A “vitória” do PSOL na prefeitura de Macapá apoiado pelos partidos de direita DEM e PSDB, com Freixo no Rio de Janeiro dizendo que poderia reprimir uma greve, ou em Belém do Pará em que o candidato à prefeitura pelo PSOL fez parte de uma frente com o PSTU que recebeu 400 mil de empresários e foi apoiado pelo partido governista e amigo dos latifundiários na reforma do Código Florestal, o PCdoB. Somente após eleger seu vereador com os votos dessa frente, o PSTU rompeu, mas continou apoiando o candidato.

Chapa Contra Corrente - apoio ativo à jornada internacionalista do 14N! Por uma Greve Geral continental contra a Europa do capital!








"Dizei aos séculos futuros, pelo menos isto, que eu estou em chamas!". Todos aqueles que viveram momentos históricos de lutas, quebras da estabilidade econômica e social, fim da passividade e da rotina, sentiram a incandescência de viver numa época de mudanças abruptas, de crises e revoluções. Assim como Maiakovski estava em chamas em seu poema escrito em 1905 na Rússia revolucionária, também sentimos o novo clima quente incendiando a juventude: é inevitável não ferver ao ver as imagens das lutas que ocorrem no Chile, Espanha, Grécia, México e muitas outras, ver que o antigo momento em que nada se passava acabou.
            O 14N é a materialização desse momento: nesse dia ocorrerá uma greve geral no sul europeu, Espanha, Portugal, Malta, Chipre, Grécia e Itália estarão parados contra os planos de austeridade que os governos capitalistas destes países superendividados tentam passar para salvar os banqueiros e empresários, colocando a população em estado de calamidade: mais de 50% da juventude espanhola está desempregada, na Grécia já houve intermináveis pacotes de ajuste com 17 greves gerais desde 2010, fim do décimo terceiro, entre demissões, corte de gastos com saúde e educação que ocorrem em todos esses países. Essa conjuntura impõe grandes enfrentamentos de importância mundial para a juventude e os trabalhadores, também para o Brasil.
            Assim, o 14N poderá ser um impulso às lutas da juventude e dos trabalhadores nesses países para romper com a "pax social" que a burocracia sindical tenta manter, sufocando e desviando as lutas dos trabalhadores para que estes não consigam se auto organizarem de forma independente do governo e dos patrões, e avançarem num questionamento mais profundo do poder capitalista. A burocracia sindical vendida tratará de impor fortes limites à jornada europeia; contudo, vemos esse ano uma nova referência operária na luta de classes, com a greve geral do 29M, a greve dos mineiros, a potencialidade instalada da luta conjunta entre a juventude, estudantes e trabalhadores. No 14N estará colocada, continentalmente, a maior luta contra a austeridade até agora desde o estouro da crise em 2008, com trabalhadores e estudantes andando lado a lado.
            Essa jornada de luta continental deve ser um primeiro passo em forjar a unidade internacionalista dos trabalhadores contra os planos da troika. No Brasil, queremos impulsionar uma nova frente de solidariedade internacionalista a partir dos debates das eleições de entidade, também para o CACH. O elemento de unir os setores da classe operária junto à juventude sem emprego e aos setores mais oprimidos da sociedade não só regionalmente, mas mundialmente, é fundamental para nos fortalecer frente à crise que já tem alcance global, ainda que por ora se instale desigualmente nos países. Nós, que fazemos parte da chapa "Contra Corrente", consideramos os centros acadêmicos uma conquista histórica do movimento estudantil, que nos possibilita termos entidades militantes voltadas à organização dos estudantes, ou seja, que organize a resposta unitária dos estudantes tanto às questões locais quanto às grandes questões de importância histórico-mundial. Em nossa opinião, a quebra do corporativismo se dará com entidades dotadas de um programa que encampe exemplos de luta como é o 14N. Essa é a alternativa de entidade que defendemos com a chapa "Contra Corrente".
            Esse é um exemplo prévio do que podemos fazer com uma concepção de entidade que é a unica alternativa concreta para todos aqueles estudantes que querem atuar frente a tantos e novos acontecimentos históricos.

Chapa Contra Corrente


quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Por uma Comissão da Verdade e Justiça da USP independente do governo e da Reitoria!






O Sindicato dos Trabalhadores da USP vem construindo, desde o início, a iniciativa de impulsionar uma Comissão da Verdade da USP. Isto porque, já há alguns anos, estivemos na linha de frente da luta pelos direitos humanos e contra a ditadura e seus resquícios nesta “democracia dos ricos”. Particularmente na USP, que teve entre os quadros de sua administração figuras importantes da ditadura militar, e que teve também estudantes, funcionários e professores perseguidos, presos, torturados e desaparecidos políticos, faz-se necessária a organização, a partir da comunidade, de uma Comissão da Verdade. Mas também porque hoje na USP viemos um momento de perseguição política baseado justamente em um decreto de 1972. Nem mesmo o Estado, na última semana, se sentiu “confortável” em utilizar uma lei da ditadura para supostamente enfrentar o “crime” em São Paulo. Porém, a Reitoria da USP recorre a leis da ditadura. Como pode-se ver, o sentido da ditadura na USP tem seus resquícios atuando firmemente contra a organização política de estudantes, trabalhadores e professores, e particularmente contra entidades como o nosso Sindicato, com dezenas de processos administrativos e criminais além de Claudionor Brandão demitido, e também como a Adusp que foi ameaçada pela Reitoria neste ano.

Ao mesmo tempo, desde o início de nossa participação na construção de uma Comissão da Verdade da USP deixamos claro a necessidade de que fosse uma Comissão da Verdade e da Justiça, ou seja, que não se limitasse a “desvendar” o passado, mas que levantasse firmemente – ainda que não fosse sua função cumprir – a punição dos torturadores e assassinos da ditadura militar brasileira. Foi com este mote que organizamos o lançamento da Comissão da Verdade entre os trabalhadores da USP, pois não podemos admitir que haja impunidade, mesmo havendo alguma verdade. Por outro lado, para que esta Comissão pudesse levar adiante estas tarefas não poderia ter nenhum tipo de comprometimento ou acordo com o governo federal ou com qualquer governo, nem mesmo com a Comissão Nacional da Verdade que já demonstrou estar sob a pressão dos militares da ditadura. Na USP, é ainda mais necessário que, ainda que exijamos reconhecimento, tenhamos claro que a punição dos torturadores só será conquistada a partir da mobilização independente de trabalhadores, estudantes, professores, familiares e entidades de direitos humanos e que a Comissão da Verdade seja independente da Reitoria, de Grandino Rodas e toda a burocracia acadêmica, única forma de não se misturar com os setores que hoje são agentes da repressão dentro e fora da USP – não esqueçamos que além da militarização da universidade a “reurbanização-despejo” da São Remo também é encabeçada por João Grandino Rodas.

Por tudo isso, neste ato de entrega dos abaixo-assinados pela constituição de uma Comissão da Verdade da USP queremos reafirmar nossa posição de que é necessário manter uma completa independência em relação à Comissão Nacional da Verdade e à burocracia acadêmica. Isso significa questionar a política da Comissão Nacional da Verdade de propor aos reitores das universidades, e da USP em particular, o que eles chamam de “Convênio de Cooperação”, delegando às reitorias o papel de investigação, que não consideramos que pode ser feito de forma consequente pela burocracia acadêmica. É coerente por parte de uma Comissão Nacional da Verdade pactuada com os militares propor acordos deste tipo para a burocracia acadêmica, mas caberia à Comissão da Verdade da USP, que se propôs em princípio a ser independente da burocracia acadêmica, exigindo apenas o seu reconhecimento, rechaçar este convênio e reafirmar seu caráter independente. A Comissão da Verdade da USP não pode percorrer o mesmo caminho que está sendo traçado em algumas universidades federais de um atrelamento com a Comissão Nacional da Verdade e às burocracias acadêmicas, sob pena de comprometer tarefa de buscar a verdade e a justiça. Nesse sentido, somos contrários a participação de burocratas acadêmicos em atos como esse.

E por fim, chamamos a Comissão da Verdade da USP e todos os presentes a superar todo tipo de passividade e nos colocarmos na linha de frente da luta contra a ocupação e a violência policial nos bairros e favelas de São Paulo, a começar pela São Remo, que estão sofrendo uma violência que revive os tempos dos “esquadrões da morte” na ditadura militar. A repressão da ditadura vive hoje de forma mais sangrenta na instituição policial que carrega em seu brasão as 18 estrelas que representam chacinas e matanças contra a população pobre. É esta polícia a que ocupa a favela da São Remo, dividida num verdadeiro apartheid social e racial pelos muros da Universidade de São Paulo. A ditadura vive nas balas e cacetetes que atingem a juventude negra, os trabalhadores e a população pobre. Chamamos a Frente Pela Democratização da USP e a Comissão da Verdade da USP, e também a Adusp e o DCE, a comporem as reuniões conjuntas com o Sintusp e a Associação de Moradores da São Remo para construir no dia 22 de novembro às 14h30 (com local a ser definido por Assembleia de Moradores) um grande ato contra a “reurbanização-despejo” da São Remo, pelo fim imediato da ocupação militar e violência policial na São Remo e contra a perseguição política aos lutadores e lutadoras da USP responsabilizando o governador do Estado Geraldo Alckimin e o Reitor João Grandino Rodas.
Diretoria do Sindicato dos Trabalhadores da USP - 07/11/12



quarta-feira, 7 de novembro de 2012

“Educação, escola e marxismo”: realizou-se a primeira discussão do grupo de estudos na Casa de Estudos e Pesquisas Hermínio Sacchetta


por Iaci Maria, estudante de pedagogia na Unicamp e
João de Regina, professor da rede estadual

Foi realizado, com a presença de cerca de 20 pessoas, entre professores da rede estadual e municipal e jovens secundaristas e universitários, o primeiro dia do grupo de estudos “Educação, escola e marxismo”, impulsionado pela corrente Professores Pela Base junto à Juventude às Ruas. A importância deste grupo reside em que consigamos unir a teoria produzida pela Universidade à realidade prática dos professores e, assim, partir de um estudo teórico das raízes históricas das enormes contradições que vemos na educação (sobretudo pública) no Brasil contemporâneo, para em seguida conseguir relacionar com as diversas lutas impulsionadas na categoria de professores em nosso país nos últimos anos (refletindo a dinâmica dos professores que tem sido vanguarda das lutas em muitos países no cenário internacional) e contribuir com um importante debate de educação que ajude a armar nossa categoria, superando os limites de uma política meramente sindical ou de uma discussão apenas teórica (acadêmica). Nesse sentido, temos uma importante participação de estudantes no grupo, na perspectiva de conseguirmos alimentar também na juventude um debate que sirva à perspectiva estratégia de uma aliança entre professores e estudantes para barrar os ataques que temos sofrido e possibilitar um projeto revolucionário de educação.

Elementos teóricos da primeira discussão do grupo de estudos

i)                    A problemática da divisão do trabalho

A bibliografia dessa primeira sessão foi baseada em leituras de trechos de Marx e Engels relacionados à educação, e também um capítulo do livro “Escola, classe e luta de classes”, de Georges Snyders, onde o autor se remete a escritos de Lenin e Krupskaia. Como não encontramos em Marx e Engels uma elaboração sistemática relacionada à temática da educação, buscamos visitar passagens que os autores discutem esse tema e relacionar com comentadores.
Para dar-se início à discussão acerca do papel da escola de hoje na sociedade capitalista, partimos de definições clássicas do marxismo como a “divisão social do trabalho”. Esta é caracterizada pela divisão da produção social e das tarefas dessa produção, e avançou muito devido ao “salto” das forças produtivas no surgimento e desenvolvimento do capitalismo, estando relacionada (desde sua origem) com a manutenção da sociedade de classes, tendo por base a divisão entre trabalho intelectual e manual.
 A partir do novo sistema fabril, coloca-se a necessidade da criação pela burguesia da escola enquanto uma instituição “separada” para o ensino e educação, que fosse destinada à produção de força de trabalho (“mão de obra”) especializada, onde se aprofundará a divisão entre trabalho intelectual e manual, sustentando poucos polos de “excelência” em educação para a classe dominante e escolas públicas onde se criará o conhecimento específico necessário para controlar e vigiar o maquinário das fábricas. A escola tal qual é hoje, construída em base à “educação universal”, vem para constituir a reprodução de uma classe: a classe trabalhadora. Vem para reproduzir e manter o sistema.
Nesse sentido, para além de qualquer papel progressivo que a escola possa cumprir em um dado contexto, nos moldes do sistema ela sempre necessita voltar aos elementos que garantam a base ideológica da divisão do trabalho. Um desses elementos é a meritocracia, alimentada desde a base do âmbito escolar, até o seu ápice contemporâneo que é o vestibular. Hoje, essa imposição da meritocracia já começa com a divisão entre a escola pública e a privada, em que a primeira formará o operário, e a segunda o patrão. O conhecimento produzido por cada uma dessas escolas também é bastante defasado, já que no sentido cultural e de produção de conhecimento, segundo Engels “A burguesia proporciona exatamente aos trabalhadores tanta cultura quanto o seu próprio interesse exige. E não é muita.”[1] Assim, os parcos avanços na escola particular só servem para reafirmar a divisão do trabalho, criando diretamente aqueles que terão as condições de explorar.
Esses possíveis avanços que podem surgir a partir da escola por dentro do capitalismo ainda não são suficientes para que de fato se pense uma educação a serviço de todos, pois o capitalismo necessita da divisão do trabalho, e a escola é um de seus instrumentos de garantir isso.

Hoje, com o desenvolvimento das forças produtivas e o surgimento de cada vez mais novos campos de trabalho tecnológicos e específicos, a educação vem se adequando ainda mais às necessidades do mercado – ou seja, do capital – e vem criando novos cursos técnicos, cada vez mais específicos, e inclusive de nível superior, que apenas atenderão à demandas de certo mercado, através de um emprego precário e um lucro exorbitante do burguês, dono do negócio. Por exemplo, cursos ligados a tecnologias específicas que apenas atenderão a um tipo de plantação e, logo, a alguns poucos latifundiários. Em contraposição a isso, há a massificação de uma educação com amplo acesso, mas totalmente precarizada. E essa mesma precarização interessa ao capitalismo, pois interessa que a escola seja uma instituição criada para não dar certo. Dentro dos interesses da burguesia, o “não dar certo” é o perfeitamente correto, pois a partir disso que se mantém a divisão do trabalho, a desigualdade, a criação em série de mão de obra barata para seu exército de reserva e, não menos importante, pessoas que não questionam sua miséria e exploração e acreditam na real necessidade da meritocracia, dentro e fora da escola.

ii)                  A ideologia dominante e educação

Frente a isso, é necessário ao capitalismo que os professores cumpram um papel ideológico na escola, colocando-se neutros em meio a uma sociedade desigual, baseada em classes e interesses antagônicos. O professor não se vê enquanto sujeito social e político, e muitas vezes acredita que sua função é manter-se imparcial frente a conflitos sociais. Cumprindo esse papel, o professor acaba por reproduzir a manutenção da sociedade de classes, pois, como Marx já colocava desde o Manifesto do Partido Comunista, as ideias dominantes de uma época são sempre as ideias da classe dominante. E a escola tem o papel ideológico de formar pessoas convencidas dos ditames éticos da sociedade do capital, do enquadramento as pressupostos dessa sociedade. Nesse sentido, as escolas hoje se omitem de discutir temas que estão diretamente ligados ao cotidiano dos seus alunos (ou apenas discutem para enquadrar esse cotidiano aos interesses dominantes). Como coloca Snyders:

“Por outro lado, a escola, a pretexto de ser neutra, não aborda as questões que estão na base da existência das crianças, acima de tudo das crianças proletárias: os salários, as greves, o desemprego, as guerras coloniais. Tal escola transforma-se numa escola do silêncio para a criança, uma escola de morte: a escola torna-se estranha e distante, e são os filhos do proletariado que mais duramente o sentirão, isto é, os que mais se expõem à reprovação e ao insucesso. Enquanto existir uma sociedade de classes, a escola será inevitavelmente escola de classes. A burguesia tenta transformar a escola de massas em instrumento capaz de subjugar os trabalhadores.” [2]
Com isso, a classe trabalhadora não aprende na escola a sua própria história. Dado o papel que a escola e a educação possuem hoje, não será a sua transformação que levará a uma transformação da sociedade, mas sim a luta pela transformação da sociedade, adentrando a escola, a partir de estudantes, professores e funcionários não docentes, que transformará a escola e construirá uma educação voltada aos interesses da ampla maioria da população, da classe trabalhadora. Há teorias bastante discutidas pela Academia que propõem novos modelos pedagógicos por fora de uma análise coerente da realidade, acreditando na idéia de que é possível mudar a sociedade apenas através de uma transformação da educação. Algumas até mesmo propõem transformações radicais da educação, mas ainda por dentro do contexto capitalista. Uma dessas teorias é a da pedagogia libertária – uma vertente anarquista da educação –, mas que não responde aos anseios da classe trabalhadora porque, ainda que represente uma tentativa de mudança para a educação, em que nessas escolas tudo é decidido pelo coletivo,  não traz respostas concretas à realidade do lado de fora delas e não vincula de maneira revolucionária o esfacelamento da sociedade do capital como única via possível de transformação da escola, pois se trata de uma escola ainda inserida no sistema capitalista, onde a desigualdade, miséria e exploração ainda são reinantes.

Além disso, essas teorias tão estudadas e aprofundadas na Academia chegam a questionar o papel da educação na sociedade, mas não questionam o papel e o projeto de Universidade, onde esses intelectuais estão diretamente inseridos. Não questionam que a Universidade pública hoje também forma mão de obra qualificada, e produz conhecimento diretamente voltado aos interesses do capital, dos grandes empresários, da burguesia.

iii)                O papel dos professores aliados ao conjunto da classe

Frente a toda essa problemática da escola hoje, os professores possuem um papel fundamental enquanto sujeitos ativos da transformação da educação diretamente ligada à transformação da sociedade. Desde o papel ideológico de trazer para a escola, sem a “neutralidade” da classe dominante, a consciência de classe necessária para que a juventude possa compreender a atual conjuntura em que vivem, e o papel crucial que podem cumprir a partir da compreensão e questionamento do sistema de exploração em que estão inseridos; até o papel militante de sair às ruas questionando a precarização da educação, partindo de compreender que esta é real e necessária ao capitalismo e, portanto, acabando por questionar a própria “educação” capitalista como um todo, e a serviço de quem ela está voltada. A escola de hoje deve sim ser disputada, pois, embora seja um instrumento criado pela burguesia para garantir sua própria existência, ela pode ser tomada e colocada a serviço da classe trabalhadora, da ampla maioria da população, ensinando à essa classe sua história e colocando-a enquanto sujeito da transformação de sua própria condição.

Um exemplo dessa necessidade de disputa e de como a educação está diretamente ligada aos processos históricos de luta de classes foi o Liceu A90, no Chile. Esse colégio foi expressão da resistência da luta dos estudantes por educação pública, gratuita, de qualidade e para todos, que ocuparam esse colégio e foram parte ativa da juventude que se levantou para, partindo do questionamento da educação, questionar todo o sistema de miséria que lhes é imposto. Durante meses, o Liceu A90 foi auto-gestionado, com todas as decisões a serem tomadas sendo discutidas entre estudantes, professores, funcionários e pais, através de assembléias. Em um cenário de acirrada luta de classes, o A90 provou que é possível assentar as bases de uma educação a serviço dos trabalhadores e do povo, questionando não apenas a educação, mas o próprio sistema capitalista, e como é fundamental lutar para que experiências como essa se generalizem..

Com isso, apontamos reflexões conclusivas no sentido que a escola hoje é um reflexo da sociedade de classes que pode – e deve – inclusive refletir também os momentos de acirramento da luta de classes. Viemos vendo ao redor do mundo estudantes e jovens trabalhadores se levantando para questionar a educação que está colocada para eles hoje, mostrando que eles possuem força e não vão aceitar que lhes sejam impostos a miséria educacional para a manutenção da miséria do capitalismo. Que os jovens estudantes juntos aos professores questionem a escola de classes e, partindo deste questionamento, passem a questionar a sociedade de classes, avançando para sua derrubada!



[1] Apud SNYDERS, George. Escola, classe e luta de classes. Trad. Leila Prado. São Paulo, SP: Centauro, 2005.
[2] In: SNYDERS, George, op cit, p. 31-32.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Foi realizada a primeira sessão do grupo de Estudos "Educação, escola e marxismo"


               
                 Realizou-se, no último sábado (20/10), com a presença de cerca de 20 pessoas, entre professores da rede estadual e municipal, e jovens secundaristas e universitários, o primeiro dia do grupo de estudos “Educação, escola e marxismo”, impulsionado pela corrente Professores Pela Base junto à Juventude às Ruas. A importância de este curso ser impulsionado por essas duas correntes vem para que consigamos unir a teoria produzida pela Universidade à realidade prática dos professores e, assim, partindo das raízes teóricas da causa da precarização da educação, conseguir entender os concretos motivos para as lutas travadas pelos professores da rede pública, e impulsionar uma juventude que se alie a essas lutas, se levantando ao lado dos professores que vem questionando a estrutura e precarização da escola e educação.
                A bibliografia dessa primeira sessão foi baseada em leituras de trechos de Marx e Engels relacionados à educação, e também um capítulo do livro “Escola, classe e luta de classes”, de Georges Snyders, onde o autor se remete a escritos de Lenin e Krupskaia.
                Partindo de colocar que não há nenhum texto específico nem de Marx nem de Engels que trate deste tema, a discussão passou por explicar e exemplificar conceitos como “divisão do trabalho”, e a necessidade da escola tal como ela é hoje, criada pela burguesia, para a manutenção desta divisão do trabalho e, portanto, do capitalismo.
                Dentre as várias intervenções que foram dando corpo ao grupo de estudos, surgiram elementos a respeito da formação cada vez mais técnica, criada justamente para atender aos interesses dos novos campos de trabalho criados pelo capital. Discutiu-se também como a escola possui um papel ideológico, pois não apenas cria a mão de obra barata para o capitalismo, como o convencimento de que a função dela é ser apolítica, um campo neutro em meio a uma sociedade dividida em classes e interesses antagônicos. Nesse momento, entra o importante papel do professor. Com exemplos tirados do cotidiano dos professores presentes no curso, foi colocada a discussão sobre como é fundamental que os professores não assumam um caráter imparcial, pois esta imparcialidade legitima as ideias dominantes, que como Marx já colocou no Manifesto do Partido Comunista, são as ideias da classe dominante.
                Em meio a outras discussões e exemplificações da realidade dos professores e estudantes ali reunidos, a conclusão que foi tirada é que, dado o papel ideológico e de manutenção do capitalismo que a escola hoje possui, não será apenas a exigência de mais verba para a educação que transformará tanto a própria educação, como a sociedade, como defendem alguns setores, teóricos e organizações políticas, pois não se questiona para qual educação irá essa verba. A educação hoje é voltada para a formação especializada de mão de obra – com os vários cursos técnicos -, e a escola nada mais é hoje, do que um reflexo da sociedade capitalista, dividida em classes. A luta por mais verba deve vir acompanhada da luta por uma transformação da educação! Que essa verba seja destinada para as escola e universidades públicas, e controlada pelos estudantes, funcionários, pais e professores. Com essa verba, que sejam criadas mais vagas nas universidades públicas, dando fim ao filtro social que é o vestibular, e estatizando as universidades privadas.
                Para a próxima sessão do grupo de estudos, marcada para o dia 10 de novembro, propomos a discussão sobre a pedagogia histórico-crítica, que hoje representa a vertente marxista mais atual dentro da pedagogia, suas problemáticas e implicações.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

"Por que Trotsky?" Reúne 150 pessoas em sua primeira sessão na USP








Na última quarta-feira (03/10) a sala 14 da Ciências Sociais ficou lotada para o primeiro debate do ciclo “Por que Trotsky?”. Na mesa estavam Edison Salles, dirigente da LER-QI e Claudionor Brandão, membro da LER-QI, dirigente do SINTUSP e demitido político.
Edison abriu a discussão colocando o objetivo mais geral o seminário de resgatar as idéias e o legado do revolucionário russo no momento de uma crise histórica do capitalismo que começa a colocar em movimento a juventude e a classe trabalhadora por todo mundo e que já quebra uma série de paradigmas ideológicos de “fim da história e das revoluções” inculcados pela classe dominante nos últimos 30 anos.
Apresentou um pano de fundo geral das mudanças percorridas pelo capitalismo no final do século XIX na Europa e em todo mundo com o advento do imperialismo como fase de agudização extrema dos conflitos entre as classes, abrindo segundo Lenin um período de “crises, guerra e revoluções”. Edison abordou a formação do movimento operário russo e as divergências dentro da social-democracia russa que iriam se expressar na prática já na revolução russa de 1905, destacando a posição de Trotsky que antecipava de maneira mais precisa a dinâmica de classe e as tarefas que iriam se colocar na revolução russa com a teoria da revolução permanente.
Retomou o debate a partir da Revolução de 1917 e o papel chave que Trotsky junto a Lênin cumpriram no processo revolucionário. Ressaltou a dialética entre soviets e partido na revolução de 1917 e a profundidade estratégica desta relação entre a auto-organização da classe junto ao partido de vanguarda como a única possível para a vitória da revolução.
Brandão iniciou sua fala resgatando a decisiva contribuição de Trotsky no debate da burocratização da revolução russa e da consolidação do stalinismo na década de 1920 e 1930. Longe de ser a “continuidade necessária” do bolchevismo como defendem até hoje os intelectuais liberais. A vitória de Stálin rompia diametralmente com a tradição revolucionária do partido e tinha profundas raízes materiais: a derrota da revolução internacional, a morte de um contingente gigantesco de revolucionários na guerra civil e o atraso econômico e cultural russo criaram as bases para o surgimento de uma casta burocrática que usurpou da classe operária o poder de decisão nos rumos da revolução e atacou frontalmente o próprio partido, perseguindo e caçando a fração revolucionária até assassinar todos os antigos dirigentes do partido nos processos de Moscou na década de 1930 e assassinando Trotsky em 1940 no exílio no México.
A partir disso Brandão resgatou o programa da revolução política para a URSS, formulado por Trotsky. A luta a ser travada era pela queda da burocracia e ressurgimento dos soviets como instrumento de auto-organização das massas, mas mantendo as bases sociais da revolução para manter uma clara diferenciação dos setores do imperialismo mundial que buscavam a todo custo restaurar as relações de propriedade capitalistas e ao mesmo tempo lutar contra o stalinismo e seus apoiadores, que sujavam de sangue a bandeira da Revolução Russa assassinando os membros da oposição de esquerda por todo mundo e sendo também responsáveis diretos pela ascensão do nazismo na Alemanha e pela derrota das revoluções chinesas de 1925-1927 e pela revolução espanhola que cortou toda a década de 1930.
Depois de várias intervenções da plenária que buscaram abrir um diálogo com os processos revolucionários da primavera árabe, Edison e Brandão fecharam o debate ressaltando o papel fundamental do partido revolucionário na Revolução de Outubro e a necessidade da juventude e dos trabalhadores lutarem contra os preconceitos instaurados pela burguesia contra a organização política e contra a construção de partidos revolucionários em nossos dias.
O debate se estendeu até depois do previsto com a sala praticamente lotada e desde a LER-QI lutamos para que tenha sido uma “primeira pincelada” para apaixonar trabalhadores, jovens estudantes e ativistas para o estudo aprofundado do legado teórico, político e militante de Trotsky.
Convidamos toda/os para os próximo debate do ciclo Por que Trotsky na UNICAMP no dia 18/10, com o mestrando Iuri Tonelo e Pablito Santos, trabalhador e dirigente do SINTUSP, que irão debater a Revolução Alemã, a intervenção e as lições táticas e estratégicas que Trotsky extraiu deste processo decisivo para o século XX.
Viva Leon Trotsky! Viva a IV internacional!




A propósito do falecimento de Eric Hobsbawn – Um historiador a serviço da classe trabalhadora?





Por Alicia Rojo, militante do Partido de los Trabajadores Socialistas - PTS - Argentina





O historiador Eric Hobsbawn nasceu em 1917 e acaba de morrer, no dia 1 deste mês. Junto a uma série de historiadores britânicos como Maurice Dobb, Rodney Hilton, E. P. Thompson e Christopher Hill, fundou em 1952 a revista “Past and present” e protagonizaram uma importante renovação historiográfica. Muitos deles abandonaram o Partido Comunista após a invasão à Hungria em 1956; Hobsbawn permaneceu nele desde sua filiação em 1935. A desaparição de Hobsbawn deu lugar a uma manifestação de valorização quase unânime no mundo acadêmico a respeito de sua trajetória, ainda que a maioria prefira acentuar que, em que pese sua adesão ao marxismo, cujos traços julgam presentes em toda sua obra, “seu talento de historiador os relativiza e minimiza” [1]. Contudo, encontramos as maiores contribuições de Hobsbawn naqueles trabalhos que melhor expressam uma interpretação marxista da história. Sua análise acerca das revoluções burguesas, por exemplo, constituem trabalhos incontornáveis para compreender estes processos históricos.

Os historiadores da academia resgatam em Hobsbawn aquilo que supõem que nega ou “matiza” sua concepção materialista da história: o “anti-dogmatismo”, sua visão “não esquemática”. No entanto, uma concepção materialista dialética da história exclui o dogmatismo, seu ponto de partida é a própria realidade social e seu método permite explicar a complexidade do todo social; o esquematismo que caracterizou certos historiadores que se diziam marxistas não tem nada a ver com o materialismo histórico.
Por outro lado, há setores da esquerda que reivindicam Hobsbawn como um dos historiadores marxistas mais importantes; é resgatado também como uma referência de intelectual comprometido com as causas populares. Entretanto, os limites de sua visão provêm de sua concepção política que, como sabemos, não pode ser separada de sua produção intelectual: a identificação política de Hobsbawn com o stalinismo o conduziu a interpretações claramente antimarxistas. Na mesma medida, sua localização política diante dos fatos mais importantes da luta de classes do século XX o colocou no lado oposto ao da revolução.
Um historiador do Partido Comunista
“História do século XX” é um dos trabalhos nos quais Hobsbawn – diante dos processos históricos que não eram aqueles de séculos precedentes, mas sim dos tempos nos quais o stalinismo cumpriu um papel chave para a sustentação e a estabilidade do capitalismo – manifesta com claridade as consequências de sua concepção política. [2]
Tomamos aqui apenas um dos possíveis ângulos para polemizar com Hobsbawn, ainda que seja um ponto central: a Segunda Guerra Mundial. Em seu livro afirma que esta guerra “deveria ser interpretada não tanto como um enfrentamento entre Estados, mas sim como uma guerra civil ideológica internacional, nessa guerra civil o enfrentamento fundamental não era o do capitalismo com a revolução social comunista, mas o de diferentes famílias ideológicas: por um lado os herdeiros da Ilustração do século XVIII e das grandes revoluções, inclusa, naturalmente, a revolução russa; por outro, seus oponentes”. [3]
Aqui Hobsbawn opina que não se aplica o caráter de guerra interimperialista: entre 1939 e 1945, o enfrentamento fundamental no interior dos Estados e em nível internacional se deu entre “fascismo e democracia”, ou seja, entre ideologias e regimes, e não entre Estados imperialistas, em primeiro lugar, e uma guerra contra o Estado Operário soviético, em segundo.
Não podemos desenvolver aqui o debate com esta concepção e todas as suas implicâncias [4], mas digamos que uma visão destas características não consegue explicar, por exemplo, a intervenção imperialista em defesa do regime fascista grego que combatia o processo revolucionário que se desenvolvia na Grécia nestes anos. Esta intervenção respondeu a profundos interesses imperialistas e rejeitou por completo toda a defesa da “democracia”.
O que esta interpretação permite “explicar” a Hobsbawn é a “aliança, insólita e temporária, do capitalismo liberal e o comunismo para fazer frente a este desafio [o avanço do fascismo que] permitiu salvar a democracia” [5]. Esta visão é utilizada, por exemplo, para reivindicar a política do Partido Comunista na Espanha, com as “frentes populares” antifascistas, ainda que, como sabemos, esta política não pôde vencer o fascismo, mas sim derrotar a revolução.
Chega a tal ponto seu afã justificatório que, para Hobsbawn, os “anos dourados” do pós-guerra, a “conquista” do Estado de Bem-estar (Wellfare State), são tributários da existência da própria URSS; enquanto a justificativa da política stalinista se trata de uma grande reivindicação não apenas do stalinismo mas também da “democracia” imperialista que ajudou a “salvar”. Não é gratuito, portanto, o reconhecimento atual que se presta a Hobsbawn.
Historiadores a serviço da classe trabalhadora
Hobsbawn não foi, portanto, um intelectual neutro. Se é verdade que legou análises históricas notáveis, em seu papel de historiador contribuiu mais à justificação do sistema dominante que à causa dos explorados.
Pois a história é uma arma poderosa para as classes em luta; para os trabalhadores é um caminho para conhecer sua própria história – inclusive as traições de suas direções que os levaram à derrota – e não começar em suas lutas a cada vez novamente do começo. O próprio Leon Trotsky, dirigente da revolução, escreveu a “História da Revolução Russa” mostrando, imbricada com os fatos de sua própria vida, toda a magnitude do maior processo revolucionário da história; milhares de páginas de suas obras estão destinadas a trazer para os trabalhadores as lições dos principais fatos da luta de classes mundial.
Historiadores como Pierre Broué, Milcíades Peña, Alberto Plá, são algumas das referências mais importantes, todos eles ligados de diferentes formas à corrente trotskista, de uma verdadeira história militante. [6] Está nas mãos das novas gerações recuperar estas obras e produzir novos conhecimentos a partir do marxismo revolucionário, que constituam ferramentas para compreender e transformar a realidade e fornecer uma arma para a luta da classe trabalhadora.



[1] Luis Alberto Romero, Revista Ñ, 6/10/12
[2] Não desenvolvemos aqui outro exemplo de alguns deses limites, o último livro de Hobsbawn, “Como mudar o mundo: Marx e o marxismo, 1840-2011″. Hernán Camarero resenhou este livro e, apontanto as contribuições do trabalho, conclui: “Mas existe um problema a assinalar sobre este inventário. Hobsbawn ainda não proporcionou uma explicação teórico-histórica acabada ou convincente da experiência soviética, mais especificamente do stalinismo (a cujo universo esteve vinculado, dado o seu pertencimento histórico ao PC britânico)”. E, acrecentamos nós, sequer considera o trotskismo como expressão do marxismo revolucionário e suas viscissitudes como alternativa política ao longo do século XX. Revista Ñ, 15/08/11
[3] Eric Hobsbawm, Historia del siglo XX, Crítica, Buenos Aires, 1998, pág. 150
[4] Para uma análise completa tanto do caráter da guerra em seus distintos aspectos, como uma polêmica específica com Hobsbawn, assim como uma análise das posições do trotskismo, ver “Guerra y Revolución, Una interpretación alternativa de la Segunda Guerra Mundial”, Ediciones CEIP, 2004. Os ensaios introdutórios de Andrea Robles e Gabriela Liszt podem ser lidos em www.ceip.org.ar
[5] Hobsbawm, op.cit. pág. 17
[6] Os trabalhos de Trotsky e os historiadores a que nos referimos podem ser consultados na biblioteca (em espanhol) do CEIP “León Trotsky” (endereço na nota 4)




segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Entrevista com Thiago Reis Vasconcelos, diretor da companhia de teatro Cia. Antropofágica - Parte 2


Segunda parte da entrevista com Thiago Reis Vasconcelos. Para ler a primeira parte, clique aqui.

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Cartaz do espetáculo da Cia Antropofágica, "Via Crucys à brazyleira"
Contra a Corrente: Como você avalia o governo do PT hoje e como acha que devemos nos preparar para o que virá?
Thiago: Eu e o grupo temos bastante clareza de quais são os limites dentro das possibilidades ilimitadas que tem a arte. A pergunta que interessa sempre é: o que fazer? Se você não souber o que fazer é um problema muito grande. O próprio jeito de falar deve estar composto por isso, de voltar para algum lugar e fazer as dialéticas necessárias. Por isso é necessário estudar a história, para tentar entender o que foi feito e tentar fazer uma arqueologia do futuro.
Quando falamos de PT temos de fazer a critica do que é igual e que estava proposto a ser diferente. PT, PSDB, PSD, Maluf, etc. são muito diferentes; beleza, as diferenças a gente já sabe. Mas o que tem de igual? Tem muita coisa igual. No ponto de vista da cultura, é isso: a manutenção da privatização da cultura; a manutenção da privatização da educação. Tem uma coisa, que é a cara do lulismo, que é exatamente essa imagem “tropicalista” de discurso libertário e práticas reacionárias. E eu acho que tivesse aqui o Lula, ele ia assinar embaixo, falar: “É verdade, é isso que a gente tá fazendo. Faz a política do possível, sem tentar mexer na estrutura e, portanto, tem muito mais dinheiro para banqueiro do que para cultura”. Tem muito mais dinheiro para banqueiro do que para tudo. E isso é uma pratica política extremamente condenável do meu ponto de vista. Só que é toda feita junto com pequenas reformas de avanço e de possibilidade para a classe trabalhadora, e isso confunde muito. Vivemos uma época de muita confusão.
A eficácia desse tempo é mistificar nossa compreensão da situação em vez de nos permitir pensá-la. Em outros tempos a gente conseguia pensar: “nossa, esse cara tá jogando nos times dos banqueiros”. Hoje, o cara joga no time dos banqueiros e diz que não joga. Esse é um dos fatores mais difíceis de lidar com essa política que está aí hoje. Entra naquela questão da ditadura, das figuras, de ter uma guerrilheira na presidência. Isso prova muito a importância do trabalho dos grupos e de quem trabalha com arte, que é a disputa do campo simbólico.
A gente fala coisas da estrutura e da superestrutura também, e é na análise da estrutura que você percebe que não é uma análise da qual possa se dizer: “não, mas você tá viajando...”. Está no jornal, estou falando do que sai na Folha e no Estado de São Paulo: bilhões para os bancos, cortes e redução de verba pública em diversos setores. Acho que o maior crime e o pior rumo político que pode ser tomado é deixar de ver a totalidade – e isso é uma coisa importante de ser observada porque todos que optam por esse tipo de caminho encerram a sua possibilidade política. Agora em outubro a gente vai ter campanha eleitoral; quando a campanha eleitoral deixa de ter uma proposta política de totalidade, ela passa a ter propostas políticas que eu chamo de “caixinhas”. O PT comprou essa prática e esse discurso. Não tem mais uma política para a cultura; tem o “leve ingresso”, o “vale cultura”. Não tem mais uma política para a educação; tem o “leve livro”, o “leve leite”, o “leve merenda”, etc. Então, não existe uma proposta política, é um partido político que tem propostas só administrativas. E é claro, eu não estou nem falando de uma proposta revolucionária, estou falando de qualquer proposta política de transformação. Fazer o leve isso, leve aquilo é uma proposta política clara de manutenção das coisas como elas estão. É óbvio que você não pode falar que é contra; pro cara que não tem o que comer tem o leve almoço, o leve café da manhã e o leve janta. E você não vai falar “não, isso ai não pode ter”. Tem que entender onde faz a crítica: que isso é uma proposta de governo e quando der qualquer problema isso não é lei, isso não é nada, não é estrutural, nem é estruturante. Quando disserem “esse ano não dá para ter o leve café da manha, vocês vão ficar com o leve almoço e o leve janta”. Vão dizer “Oh, esse governo é ruim!” Eu volto, e no meu governo ele vai ter o leve café da manhã, o leve almoço e o leve janta. Ganhou. E a gente está disputando quem leva mais. Então esse tipo de política é muito ruim. E a complexidade dela é que tem que fazer uma critica estrutural, de totalidade.
E agora vai começar o programa eleitoral e vai aparecer os dois tipos de programa: um que fica mostrando a biografia do administrador, e o outro mostra as propostas de “caixinhas”. Tudo virou uma publicidade e uma pesquisa de mercado. “Do que o pessoal está mais reclamando?”  “ah, tá reclamando da violência? Então vai ter o ‘leve guarda’”. O guarda vai levar o seu filho, entendeu? O que o PT abandonou foi uma política de totalidades por uma “política de caixinhas”. É o vale cultura, é o fome zero. Eles sabem, porque vemos isso na história nos textos antigos, que se você separar as coisas por caixinhas não dá conta, porque a totalidade não é igual à soma das partes, nem à justaposição das partes; e eles trabalham por partes. Então, eles assumiram um método reacionário, e isso no entendimento político chama-se capitulação. É simples, é triste até, mas é isso que aconteceu. Não tem discussão disso. E as coisas não estão descoladas: vamos pensar o que é um teatro pós-moderno. Uma das palavras do pós-moderno é a justaposição. Muitas cenas do pós-moderno não se completam porque elas são justaposição das partes, porque justamente o que o pós-moderno abandona é a ideia de totalidade, eles ficaram com as partes. E a parte é uma totalidade também, cada coisa tem sua totalidade: uma pessoa tem sua totalidade, mas é dentro da totalidade social. E por isso é um governo tropicalista. Então você começa a montar, e fica bonito na poesia. Porque você fala: “o caqui da Amazônia não sei o que”. Aí você pula para a cidade e fala, “dentro do bueiro vivia um homem do lado de um rato que comeu a castanha desse caqui”, e você começa a fazer essas ligações das partes e sai muita poesia bonita. Tudo isso você cola num discurso libertário, ou seja, não se tem mais política e se tem administração. Administrar é cair na ideia da política do possível.
A gente tem nas nossas peças a noiva da revolução, que é uma figura complexa, mas ela tem, dentro da sua ideia, uma hipótese revolucionária. É esse ser que anda e propõe a revolução, uma mudança radical, quebra com o que está aí. O vestido dela é vermelho, então isso indica um tipo de quebra simbólica no imaginário, que é uma quebra de esquerda. Essa quebra é aberta por que a possibilidade revolucionária é aberta, não é fechada. E junto com ela tem uma figura que é a viúva da esquerda. É uma pessoa que se sente aliviada, porque ela pode fazer as políticas administrativas. Se você não tem hipótese de revolução, só nos resta administrar humanitariamente o capitalismo, que é a proposta do PT. Por isso que talvez o Lula seja um sucesso mundial, porque ele conseguiu alguns êxitos nessa parte. Foi conseguindo esses êxitos que ele se construiu.
Mas tem que dividir, perguntar para a pessoa se o que quer realmente é uma administração humanitária do capital. Uma administração humanitária significa que ora pode se administrar humanitariamente a educação, e aí a saúde vai pra bancarrota; ora se pensa na saúde, e a educação vai pra lá, e nunca isso vai poder ser para todo mundo. Isso tá dado, isso é impossível.
Se você cria uma política onde sua maior bandeira é o combate à corrupção, ou o combate às ligações endêmicas e umbilicais entre Estado, Igreja, crime organizado – e a gente vê essas criticas sendo feitas – cai no mesmo lugar. É necessário fazer crítica à corrupção? Claro! É necessário fazer critica a essas ligações de crime organizado com o Estado? É necessário. Mas quem tem isso como bandeira, tem a mesma perspectiva de derrota de umas das formas da ditadura do capital. É claro que isso pode ser a bandeira mais imediata, talvez seja a bandeira mais correta para um espaço de tempo, mas precisa investigar se essa bandeira não é a única que está sendo proposta. E se ela for a única, de novo você pode dar uma “limpada”, a gente vê isso, isso é a história do Batman por exemplo. O Batman vai lá e tira a corrupção de Gotham City durante um tempo. No próprio filme do Batman eles não podem ser tão falsos: a corrupção volta. Então é preciso estar atento a tudo isso.
Mas, para definir o que eu acho da política agora, um dos problemas maiores é esse: é o esvaziamento da política e a gente ficar nessa esparrela administrativa. Quem administra melhor a desgraça. E é visível que além de administrar a desgraça, em alguns momentos é preciso criar desgraças maiores para se fazer girar a produção, porque toda essa desgraça tem um fundamento irracional. Você abre o site da ONU, UNESCO, FAO e lê: “a cada 4, 5 ou 6 segundos morre uma criança de fome no mundo”. Aí você faz o calculo ali, juntando os adultos, tem 30, 40 mil pessoas morrendo diariamente por problema de nutrição. Não é um problema de administração: no mesmo site se lê que a produção de calorias e alimentos para suprir toda a humanidade e resolver o problema já foi atingida.
Se fosse um problema somente administrativo, qualquer cara mais estúpido da administração saberia fazer assim: quantas calorias necessitam um ser humano? X calorias. Quantas calorias nós temos? Y calorias. Tem X calorias para todos os que precisam? Tem! Então vamos distribuir: você entrega aqui, você entrega aqui, você entrega aqui. Isso não é uma administração muito difícil. Quem opta pela política da administração dentro do capital, opta por saber que isso podia ser resolvido e não vai ser resolvido, porque é política a questão. Porque para resolver isso teria que mexer na propriedade da terra, na propriedade privada dos meios de produção, no direito à herança, em uma série de coisas, que nessas ninguém quem mexer. Então, isso é criminoso. Quem opta por saber que tem alimento pra todo mundo e que tem quarenta, cinquenta, sei lá, trinta mil pessoas morrendo de fome todo dia e falar: “isso vai ficar assim”, essa pessoa é uma criminosa, porque por mais que os processos que tenham que se passar pra se modificar isso sejam difíceis e vão custar vidas – processos de guerra civil – nada se compara a um ano a mais nesse sistema. A cada ano desses, são trinta, quarenta mil pessoas que morrem de fome a cada dia, vezes 365, não sei fazer a conta. Então não dá, isso é simplesmente inaceitável, do ponto de vista humanitário.
É por isso que as pessoas vão estudar e procurar coisas que modifiquem, e é por isso que elas chegam em lugares e situações revolucionárias, porque não existe uma outra situação pra resolver isso. Já temos tecnologia pra fazer isso. A crise é de superprodução, a gente sabe disso desde que queimaram sacas de café, e isso tá já nas peças, explicado.  Então não existe falta de coisas no mundo; existem pessoas com todas as coisas. E são poucas: se a gente for nos grandes monopólios no mundo inteiro dá números de cerca de mil empresas no máximo, que tem um dono, uma família. Então são mil famílias num universo de bilhões que vão ditar como é que o mundo funciona. E a lei Rouanet significa o que? Significa colocar em nome de uma dessas famílias falar quem deve fazer arte, quem não deve? Dá licença! Não pode.
CaC: Entrando nessa questão do acesso à cultura e produção de arte. Como é que o grupo, como é que você em particular entende isso? Vocês pensam em como tornar a arte de vocês mais acessível? Como seria isso? Mudando a forma, ou mudando os espaços de apresentação? Em termos acesso à cultura, como é que tem que se dar esse debate?
Thiago: Só pra voltar na outra questão, que era como se preparar. Para problemas complexos a gente precisa de soluções complexas, então não adianta se trancar dentro de uma sala de ensaio e achar que alguma resolução vai ser dada. O que eu quero dizer com isso? Se os grupos de teatro não estiverem junto dos movimentos sociais, movimentos populares, partidos, organizações da classe trabalhadora, sindicatos, tudo o que está acontecendo não vai “virar”.
É preciso entender que a luta contra o capitalismo tem que ser travada em todos os lugares: desde a relação dentro de casa lavando a louça, até dentro do teatro. O grupo de teatro vai travar essa luta na disputa da hegemonia do pensamento simbólico, primeiramente. E saber fazer análise de conjuntura pra saber quando que essa luta tem que extrapolar e ir pra outros lugares. Quando você sabe o que precisa fazer é que define que tipo de forma e de poética precisa. Isso define o trabalho da gente. Essa lógica impede que a comida que existe chegue no cara que está morrendo de fome a cada cinco segundos passa por colocar a comida como mercadoria; come quem pode comprar. A primeira coisa, por analogia mais estúpida que se pode fazer, é fazer um teatro que não seja na lógica da mercadoria, porque senão a gente vai reproduzir essa mesma ideia. Se ele é simplesmente mercadoria, algumas pessoas vão poder ir ao teatro e outras não vão poder.
Então a primeira coisa que a gente faz é um teatro que não passe por essa lógica de mercadoria. E não é simplesmente fazer um teatro com uma forma diferente da “mercadoria televisão”: se ele custar 50 reais, já está escolhendo seu público da mesma forma. E aí fazemos várias ações para que esse teatro chegue, porque de alguma forma você tem que compensar a falência do Estado na cultura. É falência que está decretado, nas três esferas. Fazemos oficinas, onde as pessoas podem ter contato com a linguagem. Muita gente que faz oficina não vai ser de teatro, mas é importantíssimo porque passa a entender como funciona a linguagem, e aí pode assistir e entender como funciona a coisa toda. É preciso ter gente que não conhece a linguagem, mas é preciso ter gente que conheça, porque esse cara volta pra casa e comenta com o tio, a tia, ele leva ao teatro e você vai formando um público com essas oficinas. Tem atividades que fazemos dentro do teatro, “na caixa”, que hoje em dia são todas gratuitas. Tem atividades de rua, que é com a carroça. Então, dentro de um grupo, em São Paulo, que dialoga com os outros grupos, estamos fazendo muita coisa, dentro do limite que existe. Vamos para a rua fazer teatro, fazemos meses de apresentações de graça e lota de pessoas assistindo. Também é um mito falar que não tem gente para ver teatro: estamos em cartaz com o “Terror e miséria no novo mundo” há três anos, e há três anos tem gente assistindo a peça. E cada vez vem mais gente, porque vai chamando. Tem gente que volta, porque é de graça, o cara vê um dia e diz, “nossa, aquele negocio ali me intrigou, eu não entendi direito, aquela figura, porque aquele fulano estava com o martelo na mão, porque aquela mulher estava vestida de viúva”. Aí volta, e nessa volta discute. A forma também é muito diferente quando a gente faz a peça: no intervalo estão os atores, direção, iluminador, cenógrafo, está todo mundo junto com o publico, dialogando, por isso não tem a “esfera áurea”, tem um dialogo ali. E é bom que ele aconteça porque tem como debater a partir daquilo. Organizamos debates sobre os temas que fazemos.
Então, tudo isso que está sendo feito, e isso sim são atividades humanitárias, e para a humanidade num sentido mais belo que existe. E tem pessoas que vem e falam: “ah esse teatro aí esquerdizante, terrorista”. Terrorista? Você ir para a rua e atravessar a cidade com uma carroça falando sobre poesia e sobre o mundo, isso é “terrorismo”. Como eles conseguem inverter as coisas e está na hora de a gente ter espaço e começar a falar em todos os lugares: “não cara, realmente você agora está diante de pessoas que gostam de outras pessoas e que não querem que o mundo fique assim”. Faz oficina, projeto de formação para formar atores. “Porque você faz um projeto para formar atores?” Porque um dia estávamos dando uma oficina, algumas pessoas se juntaram e falaram que gostaram de fazer teatro: “só que eu ganho um salário mínimo; eu sou caixa de supermercado; eu moro muito longe e não tenho condição de fazer isso; eu estudei até o colegial em escola publica e portanto não vou passar em vestibular nenhum; eu não tenho nenhum outro jeito de fazer as coisas”, e ai você ocupa o lugar do Estado. Não que isso seja bom, mas é uma medida que você faz que vai formar alguém para pensar, para transformar alguma coisa. Aí você monta um projeto de formação e se vira em 300 para fazer isso, trabalha 24 horas por dia para que isso aconteça.
Mas isso tem muita gente fazendo, e tem dois tipos de pessoas fazendo esse trabalho. Um que é simplesmente o “espontaneísta e voluntarista”; esse é um perigo, porque esse vai escamoteando as deficiências do Estado. Aqui não, porque aqui é dito isso: é errado o que  estamos fazendo, não deveríamos estar fazendo isso. Não é um grupo de teatro que devia estar ensinando você a ler; essa é a diferença. Deixar uma pessoa sem saber ler é criminoso também, mas você sabe que não era o seu papel. Isso define dois tipos de pensamento que lá na frente vão se confrontar, que são: o teatro alternativo ou a arte alternativa, que fala: “vou criar meu campo alternativo”. É quase como criar zonas autônomas temporárias, onde aquelas 30 pessoas que vivem ali tem seu modo de subsistência; você cria falanstérios e fala: “Resolvi. Nós aqui somos felizes”. Isso é hippie. Quando o movimento hippie surgiu isso tinha um sentido; é que nem o tropicalismo: isso já era conservador, mas era um negócio autêntico e tinha um papel ali. O que eu acho é que o Estado olhou para esse negócio e falou: “nossa, não é que essa ideia é boa? Vamos transformar ela em bem genérico, já que a gente leu e aprendeu o que significa ‘genérico’ para o Marx, ele ensinou e vamos utilizar”. E transformaram isso em política oficial: eles mesmos criam os espaços “alternativos contra hegemônicos” e falam: “A gente vai gerir esse espaço”. O PT devia criar o “ministério da rebeldia”, que são os grupos que o Estado financia para serem rebeldes contra ele próprio, administrados pelo Estado. Na peça a gente vai criar o ministério. Isso pode cair em dois lugares. O que é “alternativo” é isso: aceitar que o todo permaneça; uma vez por mês você “chora os mortos”, e ali faz projetos de subsistência, de solidariedade e tudo mais.
Outro tipo de projeto é, ao invés de ser alternativo, ser de oposição; e a oposição faz tudo que o alternativo faz, só que pensa numa perspectiva de classe e de transformação. Por isso ela tem que dialogar com todos os alternativos. Aí é uma das dificuldades. Você, como de oposição, não tem como não dialogar com os alternativos, porque a gente sabe que a modificação não depende dos indivíduos, de um agrupamento de indivíduos. Mas depende de uma perspectiva de classe, de uma perspectiva histórica, de conjuntura, etc. Então tem que dialogar com todo mundo alternativo também, e saber em que momento vai caminhar junto e em que momento não vai caminhar junto. Tem muita gente boa nos alternativos e que depois de um tempo entende, na prática, que estava perdendo tempo. Esse militante tem dois caminhos: ou ele vai procurar se estruturar em organizações de classe e entende que esse é o caminho; ou ele vai cair em depressão profunda e acaba desistindo de todas essas coisas. Ele veste uma “roupa”, vai para o psicólogo e fica em um dilema eterno. Ou ainda uma terceira opção, que é bem comum: ele vira um reacionário, começa a trabalhar e se entrega nessa coisa reacionária. Ou ainda ele vira alguém do governo e vai aplicar estruturalmente seus “falanstérios”. Essas são possibilidades.
Dentro dessas possibilidades está o que eu tenho chamado de UPP: “unidade do palhaço pacificador”. Sem desmerecer o palhaço, porque eu acho que o palhaço tem que ser justamente o contrário, ele não é um ser pacificador. E aí pacificador é entendendo dentro do processo de luta de classes, que acha que tem como pacificar dentro de um conflito: “Ah, eles vão continuar atirando de lá e daqui, mas nós vamos fazer um campo de força, que é a nossa UPP”. E aí a arte vira um espaço de contenção. E isso está dado para todo mundo, inclusive os de oposição, porque a capacidade metabólica do capital de perceber essas estruturas e transformar os grupos de teatro, de dança, de rap, de cultura popular em unidades pacificadoras é muito grande. É diante disso que a gente está agora, e esse é o caroço do angu que está sendo cozido. O que está dado hoje é que ninguém vai massacrar essa oposição artística: o que eles vão fazer é ver como transformar todos em UPPs, e fica todo mundo feliz. E dentro dessas UPPs vai poder se falar de revolução; ou melhor: vai ganhar mais dinheiro quem for mais revolucionário “no verbo”. Podemos falar das perspectivas que eu acho que tem que ter o movimento de teatros de grupo em São Paulo: sair da simples briga de categoria por políticas públicas, verbas, sair desse único patamar, porque o trabalhador da cultura é um trabalhador como outro qualquer, um trabalhador da cultura.
O pessoal fala “a classe artística”; começa daí: não tem “classe artística”, é categoria. Não, não é só uma palavra, é importante pra se pensar. Mas o que eu ia falar da categoria é: os trabalhadores da cultura têm que estar juntos como categoria e reivindicar melhor condição de trabalho, melhor cachê, salário, décimo terceiro; isso tudo faz parte. Ter os meios de produção pra produzir suas coisas artísticas, seus objetos, seus experimentos, os laboratórios de criação, tudo isso é briga de categoria. Mas têm que entender que essas brigas de categoria avançam quando avançam as brigas de classe e, portanto, o que está dado é: é preciso ter um programa da categoria, uma organização da categoria. A categoria tem medo de fazer um programa político. Quando a gente briga por um edital, estamos brigando pela “caixinha”, e voltamos a falar de administração e não de política. A gente precisa ter um programa de cultura que defenda, e esse programa não pode ser só de teatro. Porque existe um grande programa de cultura no Brasil: é o programa da renúncia fiscal, é o maior programa, ele tá aí, funcionando.
Essa categoria precisa fazer um programa e precisa estar conectada às lutas das outras categorias e, portanto, fazer uma luta de classe. É que quando você diz com essas palavras as pessoas vão falar assim: “Lá vem o dinossauro, o parque dos dinossauros”. Como se as palavras de quem diz isso fossem muito novas. Eu gosto de avacalhar também porque a teoria dos pós-modernos e dos Lyotard da vida não se sustentam nem perto do Macunaíma do Mário de Andrade. A complexidade formal do Macunaíma, de invenção, de junção de formas e possibilidades, e do que eles [os pós-modernos] chamam de pós-moderno, não chega perto da complexidade do Macunaíma, um projeto moderno que trabalha em cima da rapsódia. Todas essas ideias: platôs, rizomas, desconstruções, fazem você pensar que é muito [complexo], Mas é só um pedacinho do projeto modernista brasileiro. Um monte de gente é enganada na universidade de que a teoria do platô e do rizoma é a maior complexidade. Então você lê e descobre que não é.

Isso é um ponto de vista de organização, enquanto trabalhador, que não pode se perder. Se organizar como categoria, fazer as lutas da categoria e participar das lutas de outras categorias, sempre. E aí é movimento social, partido, sindicato, é isso.
A outra coisa é a luta que fazemos no plano da comunicação e disputa simbólica. Envolvem conteúdos, temas, assuntos e forma. Envolve técnica e uma série de coisas que é a criação, no caso do teatro.
Nesse âmbito, no momento exato que a Cia. Antropofágica está, ela não é agradável para os pós-modernos porque tem pressupostos como “fazer análises”. Fazer uma análise é olhar o objeto real, em movimento e tirar suas categorias. Pegamos o objeto, olhamos, saturamos as possibilidades ao olhar esse objeto. Isso é estudar. Olhamos isso tudo e dizemos: “nossa, então isso é a totalidade de um carrinho?” Isso, é a totalidade de um carrinho: ele começa na extração do ferro; é um baita estudo legal de fazer, você descobre o que é um carrinho. E o carrinho tá ligado à história do Brasil, aí tem Dom Pedro, e aí começa. Vai saturando os objetos reais, no sentido de não ficar preso à aparência desse real, mas sim revelar as contradições que tem.  Não se pode perder a categoria de totalidade e nem de mediação, porque é na mediação entre essas totalidades que se dão relações políticas, psicológicas, afetivas. Fazemos todo esse estudo pra tentar fazer um teatro dialético.
As pessoas falam “nossa, mas o Brecht vem com aquela fórmula...”. Primeiro que não tem fórmula. Quem disse que é linear? Você não agrada nem aos pós-modernos, por manter algumas categorias de análise política e de visão de mundo; mas também não agrada aos realistas socialistas, que se apropriaram do Brecht como uma fórmula metodológica fechada, partindo da fábula; é uma leitura equivocada do Brecht.
Dentro de um teatro dialético, épico, você pode fazer de tudo. A gente não usa a forma dramática no sentido de fazer uma peça dramática, mas existe dentro de uma peça da Antropofágica uma cena estritamente dramática, dentro de uma moldura épica, por exemplo, ou de uma estrutura de [teatro de] revista, ou de uma estrutura de rapsódia. E tem gente que assiste a peça e fala: “pô, mas aquela cena é dramática”. Então eu falo: “você já leu o Terror e miséria no Terceiro Reich [de Brecht]?” Na cena do espião, do pai, da mãe e do filho. O pai e a mãe discutindo e todas as emoções que estão ali, todo o drama daquela cena. Mas aquela cena está dentro de uma peça inteira, e ela não é a única cena. Eu usei recurso dramático porque era o melhor recurso,  foi o recurso que a gente escolheu pra dar conta daquele assunto. Daí se fala: “pô, aquela cena não serve porque você usou um recurso dadaísta que a partir dos dadaístas vai dar no pós-moderno, no pós-dramático...”. Não! É outra coisa. Eu posso usar todos os recursos. Toda liberdade em arte. Posso entrar pintado de verde, pelado, pra dizer uma outra coisa, que dê conta daquilo. E posso ter uma cena que seja um ruído de pensamento, dentre uma cena de uma batalha da luta de classes e  uma cena que seja um ruído de pensamentos só pro cara respirar. Pode fazer isso, no teatro épico, dialético? Pode. Inclusive é da característica antropofágica pegar uma forma, duas formas, três formas e esses conteúdos e de alguma forma misturar elas, juntar pra fazer uma outra coisa.
Daí falam:  “isso aí parece pós-moderno”. Não! O pós-moderno é que diz que é só isso. Eles é que fazem só uma parte do que é moderno. O pós-moderno é “meio moderno”, entendeu? É uma parte de moderno. Tudo que tem no pós-moderno, tem no moderno. O que eles tiraram, na verdade, é a perspectiva de mudar o mundo. Simplesmente eles capitularam e aceitaram o mundo como está, não sei quantas pessoas morrendo de fome por segundo, não tem discussão, é isso que você aceitou. Assume.
A  produção da esquerda por um tempo foi muito ruim mesmo. Ela comprou a ideia stalinista de que o teatro de esquerda tinha um jeito de der feito. Quando na verdade a gente pode fazer com todas essas coisas, que estão em todos esses autores e em todo mundo que já produziu arte. Aí falam: “como que nessa peça dialética aí tem síntese...?”. Que síntese? Síntese é diferente de posição. Na nossa peça tem posição, como em todas as obras de arte. Não estou falando que tem síntese, porque aí vem com essa ideia de que a nossa dialética é a dialética escolar de “tese, antítese e síntese”. Onde você está vendo isso? Aonde você viu falar que essa peça é a síntese do Brasil? Mas ela tem uma posição sobre o Brasil. Se você é o cara que esconde a sua posição pra não saber quem você é, você um mau caráter, esconde a sua posição. A gente não esconde a nossa posição quando faz uma peça. Mas não venha chamar posição de síntese. Então tem uma série de mentiras dentro das produções dos grupos, que as pessoas apontam. Outra mentira clássica é falar assim, “essa peça é marxista”. Que peça marxista?  A coisa primeira que você aprende com Marx é ser iconoclasta nesse sentido. “Ah, mas tem marxismo aí que vocês...”. Claro! Porque das teorias que leram essa realidade que eu vivo, que é a capitalista, é uma das quais pra gente tem mais fundamentos, mais apontamentos sobre isso. Ou dizem “Outro problema que eu vejo na peça é que vocês falam de tudo, de todos os temas”. Isso. Se você for pegar o estilo de tese do Umberto Eco, por exemplo,  você vai pegando teoria em tudo quanto é lugar, não tem problema a gente fazer isso. Mas elas não se diluem como a teoria pós-moderna, que você justapõe. Eu não estou justapondo. Estou digerindo teorias. Me interessa saber que uma tese pode ser monográfica ou panorâmica. Entendeu? Nossas teses são panorâmicas, não são monográficas. Mas eu não estou falando que o cara não pode fazer peça monográfica, escondendo a sua posição, faça o que quiser, amigo. Até porque, esse negócio de dar a fórmula, a forma que é o teatro avançado, é um problema do realismo socialista, jdanovista, isso eu estou fora. Quer fazer uma peça bem reacionária? Faça.
Mas é preciso ter um processo educativo, porque é preciso criar condições materiais para que se extingam as peças reacionárias. Então, essa é a questão. A gente precisa criar condições materiais pra que todo mundo sente diante de uma “geleca” reacionária estúpida e fale, “ah, isso aqui é uma ‘geleca’ reacionária estúpida”, não é tirar do cara. Porque o que aconteceu com isso? Isso gerou uma luta dentro do teatro, que é muito ruim, que é assim: está se disputando quais os grupos que tem legitimidade formal de fazer teatro, aí é burro, é reacionário. Mais uma vez é reacionário. “Ah, eu vou defender os grupos que tem uma estética revolucionária”, não amigo, a gente tem que defender a possibilidade de se fazer teatro pra todo mundo. Essa é a bandeira. E os grupos não tem essa bandeira. Vocês tem andado por aí e vocês veem, eles querem defender a bandeira de que um certo número de grupos, que tem um certo tipo de estética devem existir. Essa é a “bandeira da caixinha” de novo, tá errado.
Eu defendo o direito de existir o cara que quer montar um teatro tropicalista de novo, monte seu teatro tropicalista. “Ah, mas ele não está na organização da categoria”, pronto, esse é o problema, não é a peça dele. O problema dele é que ele não tá na organização de luta. E aí a gente fica brigando por estética? Faz todo o discurso político e na hora de fazer a briga não tem categoria, porque você dividiu por estética a luta? O que é isso? Vamos fazer um edital pra grupos de São Paulo que fazem teatro épico? Estou fora! Porque isso não é avançado, isso é atrasado, isso é cair no mesmo lugar. Peça é uma coisa, a briga pelo direito de produzir um objeto estético, é outra. Elas estão intrinsicamente relacionadas, e é obvio que quem puxa essa briga é quem tem condições políticas de fazer essas análises, mas ela não pode ser o lugar que nos separa. Eu não posso me separar do cara que falou, “ah, você não usou os recursos do teatro épico, então você não tem direito de fazer arte”. Não, isso tá errado. E aí a gente cai de novo nas caixinhas, e a gente volta pra administrar. O cara que quer só montar a peça, ele não quer ter um grupo de pesquisa. Ele quer ter o direito de só montar uma peça e ter pessoas pra ir ali assistir a peça que ele montou. Você acha que a sua forma de produção é a única que deve existir? Isso também tá equivocado. Você tem que criar condições materiais de mostrar pro cara, que a forma grupo é mais avançada que a forma produção. Mas não é proibindo a forma produção de existir, ceifando ela, que você extingue. E aí você fica na briga entre a categoria, que é o que eles queriam, e você não discute a base da forma de produção que é a Lei Rouanet, e aí na hora da Lei Rouanet pode. “Ah, não, mas a Lei Rouanet vai para os grupos”, não, você não consegue perceber que é esse tipo de política que faz com que existem formas de produção empresariais, patronais dentro do teatro? Não é, é um dos fatores que permite isso. Então em relação ao teatro de grupo eu acho que é isso que está dado. É preciso sentar de novo todo mundo junto e fazer um grande debate sobre isso. Nestes termos. Daí precisa de tempo, precisa de organização, precisa ter assembleia, precisa ter seminário, é preciso fazer coisas para além da briga imediata do que tá aí.
Qual a importância e os limites do teatro e da arte na luta na luta de classes?
Primeiro, vou falar das coisas gerais. Como potência o processo de transformar tudo em mercadoria, o processo de alienação, o processo da ideologia ele é como se fosse uma cunha da alma, sabe? Do coração assim, que vai tirando as suas possibilidades de subjetividade. E aí subjetividade no sentido de humanidade plena. Quando você se depara com a criação e você cria também, porque o espectador também cria, ele faz conexões, e principalmente aquele que tem acesso à arte, ele eleva a sua subjetividade. E isso não é pouca coisa. Esse detalhe da arte, já a diferencia e a coloca num lugar perigoso por si só. Por isso que ela precisa ser tão organizada, tão domesticada. Por isso ela pode servir a interesses tão vis. Então essa é a possibilidade da arte. Por que dentro das nossas cadeias de fazer escolha, que é uma coisa que o ser humano tem que fazer o tempo inteiro, o processo de fazer escolhas, depende das suas necessidades e das suas necessidades. A arte cria um laboratório de fazer escolhas. Então ela acaba ensinando o ser humano que ele pode fazer muitas escolhas. Isso é pra mim um dos fatores da arte que mais me encantam. Tanto pro bem, como pro mal.
Então, essa elevação de subjetividade quando você está diante de uma obra de arte, ou quando você está produzindo uma obra de arte, você entra num processo que eu vou chamar de “mágico”, mas eu não quero mistificá-lo, mas eu também não quero tirar dele esse caráter único que ele tem. Que é você pegar uma coisa, sei lá pegar um pedaço de madeira e transformar ele em um outro objeto de arte cortando ele, aqueles pedacinhos. Isso é muito bonito, mas não é só isso. Isso é uma das coisas que é importante pra luta de classes, isso é importante. Porque com a subjetividade elevada no entendimento do “eu” como homem e respeitando a subjetividade de todos, eu tenho a possibilidade de falar, “nossa, o mundo não parou”. A possibilidade de criação. E aí pra quem trabalha com História, porque fazer uma peça histórica, essa possibilidade de estudar a história do Brasil, pra inventar o Brasil que a gente quer. Isso dá pra fazer dentro do teatro. Então a gente pode, como na frase do Darcy Ribeiro, “pra inventar o Brasil que nós queremos”, então o que resta é inventar o Brasil que a gente quer, o Brasil e o mundo.
Então dentro dessa perspectiva de arte e luta de classes, você tem como experimentar coisas que na realidade as vezes você não consegue chegar até o fim. E faz parte o exercício de imaginação. Se você não tem a imaginação de como as coisas poderiam ser, você não faz nada, você não dá se quer nem o primeiro passo. Primeiro passo é imaginar que as coisas possam ser diferentes. Isso é o primeiro passo. Você pode dizer, “isso é muito óbvio”, não é muito óbvio. Tanto é que está lá nas teses sobre Feuerbach [de Marx], “não importa só pensar o mundo, mas sim transformá-lo”. Quando o cara vai pra fazer uma oficina de teatro e ele vê uma roupa, ele veste, ele encena, o homem criando o fogo, ele acabou de experimentar praticamente que a possibilidade de mudar coisas da natureza e mudar coisas da sociedade é possível. E isso devolve pro cara o primeiro passo, pra ele poder mudar o mundo, que é falar, “o mundo pode mudar”. E a arte trabalha o tempo inteiro com esse conceito, seja ela do pós-dramático, seja qualquer um que se debruça sobre a arte e que a assiste a arte está vendo isso. Está vendo mudança, está vendo movimento. Então isso é uma característica da arte que está dada.
Outra coisa é pegar o mundo como ele é, porque a gente parte dele, por mais que você parta de um pensamento do sonho, que pra gente aqui da Antropofágica é muito importante, essa coisa dos surrealistas e das experiências que eles fizeram com o inconsciente, nada disso é místico, por que a gente sonha e alguma coisa processa, e as imagens aparecem, aquelas imagens. Ao contrário do que as pessoas falam, não são uma mistificação da realidade, são digestões da realidade acontecendo em milhões de conexões por segundo, que te formam imagens maravilhosas quando você sonha. E o que eu acho que tem de potencial muito grande no surrealismo, se você consegue olhar o objeto surrealista e fazer leituras, você consegue sair na rua e olhar coisas que você fala, “nossa, isso aqui é surreal”. Aquelas leituras surrealistas estão calcadas na realidade. E elas se apresentam daquela forma porque elas forçam você a entender a complexidade daquela realidade. Isso é outro fator primordial.
Então, uma coisa é elevar essa subjetividade do fazer e do espectador e o outra é pensar o mundo como ele é e como ele poderia ser. Que é um dilema humano, não existe nenhuma figura humana, tirando o cara que seja bode, um bode mesmo, que não imagina que o mundo é de um jeito e ele vai ser de outro jeito. Isso a arte também radicaliza nisso. Porque quando você faz o mundo como ele é, você não faz como ele é, porque é impossível representar a realidade tal qual é, então, o cara que está fazendo e o cara que está assistindo, eles já estão diante de uma coisa que é e como ela poderia ser. E por mais que joguem na cabeça dele teorias mistificadoras de que isso não é possível, a experiência dele mostra o contrário.
Outra coisa da arte que eu acho importantíssima, dentro da perspectiva de luta de classes, é revelar as contradições do real. E aí você tem inúmeras possibilidades disso. E daí que fazer uma peça que você fale, e que você faça uma crítica ao presidente da república, o cara fala “não, isso é panfletário”. Depende. Muitas vezes isso é muito bom se você consegue revelar as contradições do real. E o real é premido de contradições o tempo inteiro. E vão dizer: “ah, isso é pós-dramático”. Não isso não é pós-dramático, isso é dialético. A arte tem como colocar o presidente Lula junto com Dom João VI e isso é muito importante. Você a partir do Dom João VI mostra contradições do Lula e a partir do Lula você mostra contradições do Dom João VI e se tiver um operário do lado trabalhando, você vai mostrar as contradições daquele operário, da esquerda e assim vai. Então isso é fundamental na arte.
E eu diria que tem mais uma coisa dentro dessa luta, que é a forma como os grupos se organizam. E aí é específico, estou falando de grupo de teatro porque é o que eu conheço. Mas o que eu poderia falar sobre isso, é que eu acho que a arte nesse sentido tem a contribuir. A forma de organização de um grupo, do mesmo jeito que a forma estética, que você sempre está procurando quebrar e procurando novas possibilidades estéticas, novas formas pra dar conta de novos movimentos do objeto real e num sentido geral o nosso conteúdo seja expressar (o que é conteúdo? É o conjunto das experiências do homem junto com a natureza, isso é o conteúdo de todos, não tem outro conteúdo, são as experiências humanas junto com a natureza). Se a gente pensar dentro dessa perspectiva de conteúdo, a forma como esses caras se organizam, os artistas, e a relação deles com o público, é muito importante, porque ela revela também que outras formas de organização possam também existir. Então quando você faz teatro num lugar onde você não tem patrão, você não tem gente terceirizada e funciona, você tá falando pro cara: “olha, fazer uma coisa sem patrão e sem terceirizado, é possível”.
A forma de organização de um grupo é muito importante. E do mesmo jeito que se tira do dadaísmo uma coisa legal, do surrealismo, você tem as noções, os pressupostos de que o mundo se transforma, de que a sociedade não pode permanecer como está, isso tudo é que mantem alguma unidade programática. A forma como se organizam esses grupos também vai beber das organizações da classe trabalhadora. Os grupos de teatro que acham que estão inventando a roda, está na hora de ler e ver que essa perspectiva de se organizar em assembleia não foi invenção dos grupos de teatro. Tem grupo de teatro achando que foi invenção deles se organizar sem patrão, se organizar de maneira colaborativa, cotizar pra manter o grupo... No mínimo, se a gente quiser pegar de duas fontes diferentes, a gente vai pegar de vários modelos de partido que existem e de vários modelos de igreja também.
Só que tem outra confusão, espontaneísta, que quer planificar a forma de organização de um grupo, quer colocar o sujeito do seu grupo como “O” sujeito histórico. Em determinado momento, o que o teatro notou é que o sujeito histórico do teatro, em determinado momento, como forma de organização, o mais avançado era o grupo; apostou nisso, e apostou certo. Mas isso é uma das apostas, e existem inúmeras variação de como se organiza um grupo e tomara que existam outras milhões de variações. E elas vêm de experiências, a maioria das formas como se organiza um grupo de teatro vêm de experiências de organização dos trabalhadores.
Só que o que parece é que os grupos de teatro hoje estão mais organizados que as organizações dos trabalhadores, alguma coisa se perdeu. Mas, se isso aconteceu com as organizações dos trabalhadores será que esse processo também não está começando a se dar no teatro? Tem os termos clássicos pra falar disso: burocratização, dependência do Estado; estamos começando a ficar dependentes do Estado... E como é que um grupo de teatro sai disso? Não sai, a gente tá num beco... com saída; mas precisa achar a saída, porque eu não acredito em beco sem saída. E se não tem a gente marreta e faz. Então, já teve organização muito mais avançada do que essa que a gente tem hoje de dependência do Estado, que é, por exemplo, estar organizado em assembleias: chama todas as pessoas interessadas nessa peça, as pessoas cotizam e mantém a subsistência dos trabalhadores de um determinado grupo de teatro pra eles fazerem aquela peça. Discute em assembleia, com quem só assiste, com que faz, mistura tudo isso e coloca ali. A Iná [Camargo Costa] conta isso no livro [Nem uma lágrima]. Seria ótimo se os trabalhadores, de maneira independente, tivessem condições materiais de proporcionar que esses grupos existissem para além do Estado.
E aí, não posso deixar de elogiar essa experiência histórica: em determinado momento, no Brasil se apostou que a forma grupo era mais avançada. E começou a se pensar coisas para a forma grupo e criou-se a Lei de Fomento, que é muito interessante. É muito boa, porque é uma lei de Estado e não de governo; isso é o primeiro ponto dela que é muito importante. Então, um governo se reivindicar como “dono” dela é bobagem, porque não é de um governo, é uma lei. Neste sentido, ela é mais estrutural e estruturante que as outras leis. Porque se um governo cria um edital que é melhor que o de fomento, e isso às vezes acontece, na troca de um governo para outro você fica sujeito ao governo de plantão, se ele quer ou não quer fazer aquele movimento. A Lei de Fomento não, ela é pra ser de Estado.
Mas aí vem um detalhe: como que surge a lei de fomento? Organização e luta da categoria, que impôs a um dos governos colocar isso como Lei de Estado. Essa é a história do fomento, não tem outra. E se a gente quiser qualquer tipo de avanço, o que vai ter que fazer? Vai ter que se organizar de novo como categoria, organizar a luta, buscar todos os meios – e não vão ser os mesmos da Lei de Fomento – e tentar enfiar de novo em algum governo alguma coisa que seja de Estado. Isso aconteceu há dez anos atrás e de lá pra cá não aconteceu mais. Outro detalhe que é muito importante: todos os governos desde a criação da Lei de Fomento tentaram derrubar ela. E não caiu porque todas as vezes que ela ia ser derrubada a categoria se organizou e foi fazer as suas formas possíveis de organização de luta. A categoria fez ato estético. É válido? É. A categoria levou isso pra dentro da sua peça de teatro. É válido? É. Mas ela também fez passeata, ocupação, escracho. O problema é que em determinados momentos o fetiche da forma de luta ganha da análise de conjuntura, de que tipo de forma de luta é preciso. Eu não tenho fetiche por nenhuma; precisa pensar qual é a que a gente precisa. “Bom, tivemos um problema, um ataque ao fomento, é melhor ocupar, escrachar, dançar, pintar...?”, tudo isso é válido, mas é preciso juntar em uma assembleia e discutir qual é o que precisa, e não olhar para o que tá mais famoso no mundo: “agora é occupy, então para lutar pelo fomento vamos ocupar”. Não, amigo, você está confundindo! É preciso ter clareza e falar qual é a forma de luta necessária agora pra conseguir o que precisa. E essas lutas são as pontuais.
Essas importâncias que eu dei aqui são algumas e a gente poderia ficar aqui a noite inteira falando de zilhões de importâncias da arte, porque ela tem milhares de importâncias. Outra importância é desestabilizar a crítica historiográfica brasileira oficial e mundial. O cara vem aqui numa peça e fala: “não sabia que o Tiradentes era assim, eu não sabia que o Euclides da Cunha... achei que ele fosse só legal, nunca tinha visto esse lado do Euclides da Cunha”. E assim você vai desestabilizando.
Outra coisa importante da arte é causar tensão entre imagens da indústria cultural e imagens que se contrapõem a isso; entre imagem de uma coisa do passado e uma do presente, isso a arte tem como fazer. E ela já faz. Pegar uma imagem e dar outra leitura pra ela. Outra questão da forma é que ela tem como ser um balão de ensaio de outras maneiras de organização da sociedade. Que é outro problema que a gente herdou do stalinismo maldito, que é achar que a forma de organização comunista é uma forma que se organiza assim e pronto. Não, os caras estavam quebrando a cabeça pras milhares de formas necessárias de organização do mundo. O conselho é uma, a assembleia é outra, e usar todas.
É que nem hoje em dia na educação, tem um problema na educação, que é tipo, “ah, a melhor forma de ensinar é em roda”. Ensinar o que? Tudo está se esvaziando o conteúdo, tudo se esvazia pela administração. Mas é claro, o cara entra na escola às sete da manhã e sai uma da tarde, ele pode começar com uma aula expositiva, depois ele vai na quadra, depois ele tem um processo formativo quando ele vai lavar o banheiro, depois ele tem um processo quando ele discute com um funcionário... Eu falo da educação porque eu fico chocado com a quantidade de escolas que chamam os caras da [Escola da] ponte pra vir falar, e aí eu falo: “ó, tem uma coisa no estatuto da ponte: primeiro, a escola da ponte não tem diferença de salário”. E tem uma escola gigante, burguesa, no meio da cidade: “ah não, essa parte aí a gente não usa”. Ah, então você faz a escola da ponte nos cinquenta minutos dentro de uma aula? E aí tudo o que o cara aprendeu sobre a liberdade dele, ele desfaz quando ele joga o papel no chão e fala: “escrava, limpa o meu papel”. Então não faz sentido. Essas junções são pós-modernas, que são essas de coisas irracionais de se juntar.
Então, essa coisa da educação: “ah, é em roda agora. Agora a aula é em roda”. Mas você está passando as coisas de maneira vertical, então assume! E esse é o problema. O maior problema de lidar com o governo que está aí é esse: é que turvou, tem uma nuvem de fumaça, ele é um governo que “governa em roda", mas que mantém a aula expositiva com o poder só do professor. Aí você fala assim: “ah, mas qual é a proposta revolucionária que você tá falando aí?” É em roda, é expositiva, é em triângulo: cada lugar, cada necessidade vai gerar uma possibilidade; cada possibilidade vai gerar uma nova necessidade. Portanto, eu vou brincar com todas elas. Se eu preparei um seminário, eu vou fazer seminário, terminar, e depois a gente vai debater. Se tem muita gente é legal ter um mediador; se não tem muita gente, não precisa de um mediador. Se é uma assembleia com cinco pessoas, não precisa ter inscrição; se tem cinquenta, tem que ter inscrição. Se tem alguém que está manobrando, precisa ter uma mesa que entenda disso e não deixe alguém manobrar. É muito simples. Isso sim é ser moderno: é olhar cada vez o real e ver o que precisa pra resolver um problema real. Vai estar sempre em movimento: quem é moderno está sempre em movimento.
Agora, não é pegar o fetiche da forma e falar: “agora é em roda”. Esse é um problema grave da educação, da cultura, das organizações dos trabalhadores. Burocratizar, em certo sentido é isso: é assumir uma forma como fetiche e colocar ela em um plano reto para todas as coisas. E a gente sabe que quem fez isso foi o stalinismo. Enquanto o Lenin estava vivo, o Teatro de Arte de Moscou do Stanislavski estava funcionando. Ninguém falou: pára isso aí! A liberdade religiosa na Rússia no começo da revolução era gigante, porque eles tinham como pressuposto que precisava criar a materialidade onde a religião não fosse necessária; isso era a ideia dos caras. Não era sair cortando cabeça de pessoas que são religiosas, isso foi a ideia da Igreja no período da Inquisição: “você não é da minha religião, corta a cabeça”.
Outra coisa que na luta e a arte também têm que é interessante é: quando você faz teoria, você precisa investigar; o método investigativo é feito com perguntas. Quando você escreve a teoria, o método expositivo é feito com perguntas e respostas. E, portanto, essas respostas vão sair de linha mais cedo ou mais tarde, elas vão dar conta daquela realidade. O Marx escreveu uma coisa e ele cansa de dizer que aquilo serve pra entender o capitalismo; se você quiser entender a Idade Média, algumas ferramentas vão servir, mas lá é outra coisa. Ele não escreveu a história nem o funcionamento da Idade Média. Ele entendeu um processo, mas ele se debruçou sobre o objeto real dele, que era o sistema capitalista. É sempre preciso fazer a análise desse objeto em movimento. Isso não significa cair no reformismo. É diferente o reformismo, é outra proposta. A arte também trabalha com esse tipo de material, e essa coisa da arte ser um processo é uma das descobertas mais importantes. Porque você sabe que o Terro e miséria I, é diferente do II, e que ele está em processo, que vai mudar a conjuntura, vou me deparar com outros objetos, outro ator vai ler um outro livro, e a gente vai modificar aquela obra. E a outra que foi feita dois anos atrás, aquela cena caiu. Mas, no momento em que faz, você precisa fazer ela com respostas, com posição e com convicção. Então é isso: investigação se faz com pergunta, se faz com dúvidas; ação política e apresentação de peça se faz com convicção. Isso eu também acho fundamental que as pessoas entendam.
Eu fiquei dez anos na USP, de 1998 até 2008, e eu lembro de um Zeitgeist, espírito do tempo dos alunos, que era assim: “ah, mas eu não sei, eu até concordo com aquele partido, mas eu ainda não estudei tudo pra saber se eu devo estar ali ou não”. Mas você nunca vai estudar tudo. Vai lá, entra no partido, erra e depois sai. Se não errar, fica. Agora, você quer ficar “punhetando” sobre a política universitária ou você quer interferir na política universitária? Se você quer interferir, se junta... ao partido, à federação anarquista, se junta com pessoas que também querem interferir, senão você não vai fazer nada, vai ser inútil dentro disso. Você não vai parar o seu processo de crítica ao partido, à federação, ao agrupamento qualquer que seja. Se você fizer uma ação sem análise teórica correta, a ação também não vai ser correta. Tudo bem, a gente está sujeito a isso o tempo inteiro: os partidos, as organizações operárias, dos trabalhadores fazem análises equivocadas e tem ações equivocadas. Talvez, do ponto de vista da história da humanidade como um gibi, isso seja o mais interessante. Que é você ver: “puta, naquele momento a corrente errou e fez tal coisa”, e aí se a corrente permanece no erro, você se retira. Se ela faz uma autocrítica e entende, não é o fim do mundo. É isso que é fazer política: é fazer essas escolhas. É analisar as possiblidades e necessidades dentro de um complexo, ora você vai acertar e ora você vai errar. Isso tá dado pra gente.
Mas, põe uma coisa na cabeça, que é o que eu falava pros cara lá dentro [da USP]: “cara, não adianta você querer aprender tudo da universidade, porque você não vai aprender”. Concorda? Então, amanhã os caras vêm desocupar a reitoria: você foi impulsionado a ter uma atuação política, e faça ela com convicção: ou esteja do lado da polícia, ou esteja do lado dos caras que estão aqui; ou esteja em outro lugar. Mas a ação política você faz com convicção, é uma atitude convicta, depois você tem que avaliar. E fazer uma peça de teatro é isso: você ensaia nove meses, inventa novecentas cenas e chega uma hora que você fala, “essa cena fica”. Por mais em processo que esteja, naquele dia aquela cena fica, pode ser que na semana que vem ela não esteja, mas quando o ator sobe lá pra fazer aquela cena, faz com convicção. É aquele momento, o cara sentou na sua frente, faz aquela cena, depois eu corrijo. É que nem agora, é uma entrevista, é uma produção teórica; eu considero entrevista uma produção teórica. Você faz com convicção, depois lê e com certeza vai falar: “caralho, quanta bosta eu disse”. Mas aí eu vou falar: “não, eu não vou falar com ninguém até que eu saiba tudo o que eu preciso falar”? Não. Isso a arte faz, a teoria faz e a luta dos trabalhadores exige isso. E aí, você sabe que o maior vício nesse tipo de luta é com o professor universitário e com o aluno. A classe trabalhadora nem cai tanto nessa esparrela, ela cai em outro tipo de demanda, mas a luta estudantil, que também faz parte da luta de classes, vive nessa esparrela; é o estudante que nunca tem convicção. Dá vontade de falar: “você é um idiota”.
E aí nesse sentido, se tem alguma coisa de todas, que aproxima como símbolo, e aí a gente tá falando de arte de novo, que é uma figura que eu acho legal o teatro falar, porque ela é muito forte simbolicamente, é o Che Guevara. O que fascina as pessoas no Che era a convicção com que ele tomava as atitudes políticas dele; só que muitas delas foram completamente equivocadas. Mas uma coisa ele tinha, que fascina muitos militantes que era a convicção: “vou fazer a revolução na África com quatro pessoas”.
Eu acho que o teatro também pode estudar a teoria contrarrevolucionária, porque sem teoria contrarrevolucionária não tem prática contrarrevolucionária. O teatro pode estudar, brincar com isso e colocar em cena. Eu acho legal os grupos de teatro se dedicarem um pouco mais à teoria contrarrevolucionária, como a gente tem feito. “Ah, eu quero saber o Heidegger, saber de todos os seus filhotes contrarrevolucionários”. É isso. Daí você vai lá e brinca com essas teorias contrarrevolucionárias. Inclusive as estéticas, que cabem dentro de uma moldura épica e tudo mais. Então, isso é outra coisa importantíssima, porque a contrarrevolução também tem teoria contrarrevolucionária, não é um espírito do mal que sempre dominou e que rondou a humanidade. Pra eles talvez seja inerente do ser humano essa briga infinita.
O que a gente tem detectado de muito interessante é: tratar do conteúdo da história, porque essas imagens do passado, reverberando no presente, ajudam a mostrar várias contradições e a gente tem feito isso. Dá trabalho e às vezes a peça fica difícil de ler, eu tenho plena certeza disso, mas não porque ela quer ser hermética: é porque ela tá dando conta de uma coisa complexa e a pessoa vai ter que ter um pouco de paciência. Marx nunca pensou que a peça tinha que ser assim, “você é o proletário, eu sou o patrão”, “você é do bem, eu sou do mal e acabou a peça”. Isso não é uma peça de teatro. Tem peça que é assim, não tem complexidade. E quando você põe um pouco de complexidade, exige um pouco de complexidade de quem está assistindo e você deixa espaços abertos de pensamento. Claro que a gente deixa também, mesmo que não queira, não tem como fechar, porque o cara vem com outro referencial, não precisa se preocupar em fazer isso, isso já tá dado.
A Antropofagia, no seu celeiro antropofágico, tem muita coisa a nos ensinar; a outra coisa é a estrutura épica-dialética que o Brecht propôs, que eu acho fundamental; a outra é o teatro de revista: o teatro de revista tem muito a nos ensinar, porque é uma técnica de passar em revista a história de um ano atrás. Eles criaram compadre, comadre, falsa história, história verdadeira, número de cortina, número de passarela, eles criaram uma série de coisas que têm que ser usadas. Número de cortina o que é? stand up comedy foi lá e fez um número de cortina. Olha como os contemporâneos pós-modernos são sempre um recorte minúsculo de coisas populares ou modernas.
Eu acredito que a visão panorâmica é necessária no processo de classe, é superimportante. É claro, o cara que desenvolve o número de cortina como o stand up comedy é bom, porque eu vou lá, assisto e falo: “nossa, olha lá, ele desenvolveu uma técnica só pra fazer isso”. Você vai lá e põe junto dessa outra. Então, na antropofagia a gente tem todas essas possibilidades de devoração, sempre entendendo, como o Oswald de Andrade, que é “contra a consciência enlatada”. Devorar é uma coisa, você me impor uma consciência enlatada é outra. Isso é rico. E tem uma coisa na antropofagia que é muito legal, que é a contribuição milionária de todos os erros, que eu também acho que é bom todo mundo aprender. E a história mais contada é a da química: foi por causa da alquimia, os caras quererem transformar mijo em ouro, bosta em diamante, e transformaram isso em química; e é bom ter química, poder saber fazer remédio e fazer coisas que podem ser capital genérico pra humanidade. Então, isso é antropofágico. O teatro épico nos dá essa noção histórica, essa possibilidade de poder trabalhar um quadro, que conte um fragmento, mas que esteja ligado a todos os outros e que esteja falando de vários assuntos. Ele liga a possibilidade da experiência dos trabalhadores, tem a experiência histórica ali dentro, você tem os gestus, tem milhares de procedimentos que o Brecht desenvolveu de dramaturgia, de trabalho de ator, que são muito importantes.
O Stanislavski eu acho fundamental o trabalho do Stanislavski de análise ativa, super-objetivo da peça, o ator conhecer isso. Não aparece nas nossas peças, mas o ator tem que entender como é esse salto qualitativo do drama, como é que pode se saltar do drama pra essas outras experiências, é importante entender esse lugar. E o Stanislavski trás pela primeira vez essa possibilidade contemporânea do ator experimentar, improvisando, e entender realmente o que está fazendo. Ele deixa de ser o ator que ficar cumprindo ordens de um diretor ou de um produtor e vai experimentar o que vai fazer em cena. Não é o Stanislavski no sentido de manutenção do drama ou de identificação; não é desse Stanislavski que eu estou falando, é o Stanislavski que cria um estudo de experimentação teatral. Isso é fundamental nele, possibilita depois um avanço. E a outra coisa em cena que é fundamental pra gente é o processo rapsódico do Macunaíma: essa ideia de coisas que se acumulam e se perdem, essa coisa do improviso que tem na música. Então, essas experiências todas, quando o cara está diante disso em uma peça, não tem a plaquinha dizendo cada pedaço que faz parte dessa experiência, porque elas são usadas conjuntamente pra produzir alguma coisa. Mas, de alguma forma, num teatro em que você mostra o processo, e isso também é épico, você está revelando coisas e processos que o cara pode usar pra analisar na hora de lavar a louça e na hora de escolher ou não estar numa greve. Então, isso tudo tá dado assim.
E aí eu acho que essas coisas, a forma de produção, os grupos, quando a gente ocupou a Funarte e ficou uma semana lá dentro, foi uma experiência muito boa, inclusive pros militantes de esquerda que estiveram lá e viram que os grupos se organizam. Porque tinha organização dos grupos, que estão acostumados a dormir juntos, comer juntos, manter organizado, arrumado. Mas faltou, no meu ponto de vista, uma direção política. E também coragem pra se assumir uma direção política. Mas não pode existir uma direção política se não tiver antes um programa. Não uma carta; um programa. E quem tinha que puxar essa coisa do programa era de certa forma a direção, porque a direção não é uma coisa estanque: “somos a direção política, agora vocês estão dirigidos”. Não! A direção é uma necessidade que aparece, e quem é a direção hoje pode ser que não seja depois. Mas é muito mais fácil entender as manobras se você entende quem está dirigindo. Porque existiu “dirigismo” dentro da Funarte, mas como não existia uma direção, uma clareza política da sua organização, e não existia um programa e nem um estatuto, tudo era válido lá dentro.
E aí, saindo de lá a gente perdeu, porque o que mais se aprendeu dentro da Funarte foi sobre a forma de luta, e a gente ficou em determinado momento maravilhado com a forma de luta e esqueceu – quando eu falo a gente é pra me incluir, mas alguns sim e outros não – porque estavam ali. Tanto é que alguns chegaram ali e falaram: “que legal, agora eu vou morar aqui”. “Não, não vai morar aqui, não quero morar aqui, entendeu? Aqui não é bom pra morar, é outra coisa o que a gente veio fazer aqui!”. Mas isso era a minoria, tem que se falar, foi um momento de avanço.
Agora é a hora de pegar toda essa experiência histórica – se a gente tem alguma coisa pra fazer nesse exato momento é olhar pro que está aí, nas três esferas de governo – fazer uma análise de conjuntura, de onde estão vindo os ataques (porque eles estão vindo) junto com os trabalhadores da cultura, fazer uma boa assembleia, pra fazer uma análise de conjuntura desses ataques e, a partir daí, começar esse processo de discutir categoria, discutir classe e, a partir de lutas concretas, materiais; são essas luta concretas que vão nos unir de novo. E elas já estão dadas aí de novo: a gente tem eleição agora, a gente não sabe o que os governos vão fazer com as leis, qual o plano deles pra cultura. Então era o momento da gente já estar se organizando e pensando: “ó, das possibilidades que vão ter pra governo, que estão dadas, vamos estudar o programa dos caras e já começar a pensar como a gente vai se mexer, assim que eles começarem”.
Mas isso é uma coisa que a gente vai precisar conversar entre os grupos, ver como isso pode ir pra mais pessoas. E a própria estrutura de grupo é muito boa por um lado, mas é muito ruim por outro. Porque o trabalhador da cultura é o cara também que trabalha na rede globo; é o cara que faz o cenário do teatro comercial; é o bilheteiro que faz a bilheteria do cine Bradesco. Se não dialogarmos com esse povo não tem condição, porque eu estou falando de trabalhador da cultura. Não faz sentido um grupo de teatro fazer greve sozinho. Mas põe o bilheteiro do cinema em greve, o cameraman em filme de greve, o diretor da novela em greve – claro, ele não vai, porque ele é outro escalão – mas o cara que trabalha lá na novela, põe esses caras em greve pra você ver se não existe essa greve. Claro que existe uma greve de trabalhadores da cultura! Se a perspectiva é o seu umbigo, o seu grupo não tem mesmo como fazer essa greve. É meio estúpido os grupos de teatro de São Paulo fazerem greve, não faz sentido, mas aí precisa ver. Ou o cara que está na bilheteria do cine Bradesco tá ganhando muito dinheiro? Eu não acho que seja isso. E aí você fala: “Ah, na mão de quem está o sindicato?” Esse sindicato dos artistas é zuadíssimo, então precisa pensar em disputar o sindicato pra poder dar um avanço, não vai avançar só os grupos de teatro. E você não vai convencer o cara que está vendendo o ingresso que ele ganha a grana dele fazendo telemarketing cinema a vir pro seu grupo de teatro; nem o seu grupo de teatro cabe todas essas pessoas, e nem porque ele tá ali fazendo o negócio você vai avacalhar com ele. Não é um trabalhador da cultura do mesmo jeito? Então precisa expandir essas coisas e tudo isso é consciência de classe... Só que aí, já entramos em outro capítulo...





 
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