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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Após uma eleição despolitizada, precisamos organizar o movimento estudantil e as entidades para lutar por um outro projeto de Universidade








Enquanto as eleições para o DCE da Unicamp ocorriam, o Reitor Fernando Costa recebia para um almoço oficial o recém-eleito prefeito de Campinas, Jonas Donizette, do PSB (em aliança com os tucanos e Alckmin), apoiando sua eleição e prometendo entendimentos entre a universidade e a prefeitura. Na mesma semana, recebeu o reitor da Universidade de Indiana, em busca de negócios. Se somarmos a isso a determinação do Tribunal de Contas do Estado exigindo que o alto escalão do Conselho Administrativo da Unicamp devolvesse aos cofres públicos o dinheiro desviado para seus próprios salários, temos o resultado sumário do que significa para todos nós (e para a população pobre) o “projeto de Unicamp” instalado hoje: uma universidade que auxilia o projeto de país que fecha as portes da educação pública  pra massa da juventude e dos trabalhadores, envolvida pelo elitismo e racismo e ligada umbilicalmente ao capital privado.

Nesta mesma Unicamp, dirigida por aqueles que exploram “por excelência” os trabalhadores terceirizados, que reprimem greves dos funcionários, que desmontam a Moradia estudantil e as políticas de permanência e desviam verbas públicas com o aval do governo Alckmin, a chapa “Prelúdio das Primaveras” entrou nas eleições para o DCE com o intuito de abrir a reflexão: “que tipo de entidade precisamos para o combate ao modelo de universidade existente?”, com a perspectiva de, finalmente, fazer do DCE uma entidade militante e viva que organize junto aos estudantes a luta contra à continuidade desse projeto elitizante e privatista de universidade. Militamos e debatemos na campanha em torno desse eixo, deixando claro para cada estudante que para nós essa Universidade não é uma bolha, mas está inserida em uma realidade estadual e nacional marcada por governos que de distintas formas(Alckmin e Dilma), mas com objetivos extremamente parecidos, direcionam a educação cada vez mais às necessidades cotidianas do capitalismo.

Cada detalhe dessa universidade é um reflexo indireto disso: blocos de moradias insuficientes e que desmoronam convivem com a “excelência” de laboratórios privatizados e suas pesquisas de ponta a serviço de grandes empresas. A super-exploração do trabalho terceirizado, com opressão à mulher. O assassinato de um jovem negro no campus de Limeira há 10 anos atrás; a juventude secundarista (patrulheira) que tem acesso negado ao ensino nas salas de aulas da Unicamp, mas tem a “liberdade plena” de ser mão-de-obra barata para a burocracia em cada instituto e departamento; a carência de professores e de funcionários; a utilização de fundos públicos (com a parceria do Santander) para a instalação de um parque tecnológico entre Unicamp-Facamp-PUC que, nas palavras de Jonas, “intensificarão as relações entre o governo municipal e a academia”[1]: uma entidade como o DCE que não busque ser um oponente à altura a essa política consciente da Reitoria, de nada nos servirá. Nem a chapa “Vira-Mundo”, nem a “Pra Fazer Diferente - Oposição”, se propuseram a esse debate conosco. Os chamados despolitizados entre “votar na chapa que está em todo lugar” e o “vote diferente” sem conteúdo, mostra o eleitoralismo vazio que as chapas “Vira-mundo” e a “Pra fazer diferente” construíram nesse processo, não denunciando aos milhares de estudantes o atual projeto de universidade empresarial gerenciado por uma estrutura de poder anti-democrática e nem dizendo como se enfrentar com essa reitoria e governo.

Chamamos o conjunto dos estudantes a seguirem nessa luta conosco após a eleição da nova gestão, “Vira-mundo”. É necessário uma alternativa ao rotineirismo do grupo 1º de Maio/ Rosa do Povo do PSOL que dirige o DCE nos últimos 12 anos e não foi capaz de organizar um movimento estudantil que se enfrente seriamente com esse projeto, sendo um freio para a auto-organização e democracia do movimento. Isso fica claro em todas as greves e mobilizações: a força numérica durante as eleições é substituída, quando se fecham as urnas, por um DCE que “quer lutar, mas os estudantes não querem”, jogando nas costas dos estudantes a opção política de um grupo que prefere gerenciar e negociar aparentes “conquistas”, ao invés de organizar seriamente o movimento contra os ataques que passaram ao longo da última década, que em vários momentos foram derrotas sem lutas, ou lutas contra a reitoria, que viam que no meio do caminho tinha uma pedra...o DCE. Seu oportunismo foi evidente mais uma vez, já que o mesmo grupo que burocraticamente se opõe a uma gestão proporcional e democrática, diz que precisamos de um DCE “independente de partidos”, alimentando o apartidarismo e escondendo-se politicamente.

A chapa “Pra Fazer Diferente”(composta majoritariamente por militantes do PSTU) não pode ser uma real alternativa à direção atual do DCE. Percebendo o desgaste da atual direção do DCE com sua paralisia de 12 anos, buscaram canalizar todo tipo de descontentamento, dos mais sinceros e críticos até os mais conservadores. Passaram da “unidade pelo mesmo projeto” para serem a “oposição” que ia “fazer diferente”, com um discurso despolitizado, o que ficava claro desde o começo de sua carta-programa, quando diziam que “estamos cansados das mesmas pessoas e dos mesmos discursos”, apoiando-se num sentimento atrasado contra as entidades e o movimento estudantil. Não levantaram em sua campanha eleitoral um programa que se enfrentasse explicitamente contra a Reitoria e o Governo do Estado, ampliando seu arco de influência em setores da universidade que são à favor do atual projeto da Unicamp. Um pragmatismo eleitoreiro escandaloso onde estar no aparato se torna o objetivo e a luta contra o elitismo, a privatização e a repressão na universidade fica guardado para quem sabe depois das urnas! Nem uma palavra sobre a aliança entre estudantes e trabalhadores; nem uma palavra sobre a greve dos funcionários de 2011 ou das Federais de 2012, seus perseguidos, e aqueles da repressão aos estudantes que lutaram por Moradia; nem uma palavra sobre a histórica greve no IFCH contra a entrada da PM na USP. Uma “oposição” que se apoiava nos elementos mais atrasados, como a “questão da segurança”, justamente no momento em que o governo de SP assassina centenas de jovens negros. Um oportunismo eleitoral “do tamanho da Unicamp”, o que talvez explique sua alta votação em cursos dirigidos por Centro Acadêmicos que se colocam contra o movimento estudantil e as greves de  trabalhadores, como foi na Ciências da Computação.
A postura eleitoral oportunista dessas correntes que dirigiam as duas chapas não se restringe à Unicamp, como pudemos ver nas eleições municipais.[2]

A luta por uma nova universidade democrática que garanta o direito elementar de acesso de toda a população ao ensino superior público (que rasgue o “filtro de pobres”, que separa a universidade da cidade, que é o vestibular e os monopólios particulares de educação, como o grupo Anhanguera), que não seja um viveiro que reproduz os interesses privados da parceria de Fernando Costa com Donizette, que conspiram contra a educação dos trabalhadores e da juventude, mas varra essa burocracia e sua estrutura de poder corrupta; para isso, é necessário uma nova prática, distante do pessimismo dessa direção do DCE, que confie na força de um movimento auto-organizado e democrático em aliança com os trabalhadores e a população, única via de buscar responder de fato as contradições estruturais dessa universidade elitista e racista.

Nós da chapa “Prelúdio das Primaveras” apresentamos sinceramente nosso projeto ao conjunto dos estudantes, e dedicamos a campanha feita a cada jovem negro assassinado nas últimas semanas pelas periferias, cujo acesso à educação pública superior é cotidianamente negado. Nos orgulhamos de ter sido a única voz dos milhões de jovens barrados pelos vestibulares e cercas racistas da Unicamp, mas sabemos que é necessário um movimento estudantil de centenas nessa Universidade que busque democratizar a educação para a juventude trabalhadora e pobre: chamamos o conjunto dos estudantes a lutar por um movimento estudantil de milhares que busque a transformação radical dessa Unicamp junto conosco, na chapa Contracorrente para o CACH, assim como em todos os institutos debatendo e construindo a Juventude às Ruas.


[2]  A “vitória” do PSOL na prefeitura de Macapá apoiado pelos partidos de direita DEM e PSDB, com Freixo no Rio de Janeiro dizendo que poderia reprimir uma greve, ou em Belém do Pará em que o candidato à prefeitura pelo PSOL fez parte de uma frente com o PSTU que recebeu 400 mil de empresários e foi apoiado pelo partido governista e amigo dos latifundiários na reforma do Código Florestal, o PCdoB. Somente após eleger seu vereador com os votos dessa frente, o PSTU rompeu, mas continou apoiando o candidato.

1 comentários:

Luis C. Prestes disse...

Concordo, devemos com certeza estar preocupadissimos com a posição do reitor, existe a possibilidade clara de ditadura e prevejo até a possivel instauração do AI-5 na UNICAMP. Todo o cuidado é pouco.... Vivemos tempos de guerra mesmo

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