
Enquanto
as eleições para o DCE da Unicamp ocorriam, o Reitor
Fernando Costa recebia para um almoço oficial o recém-eleito
prefeito de Campinas, Jonas Donizette, do PSB (em
aliança com os tucanos e Alckmin), apoiando sua eleição
e prometendo entendimentos entre a universidade e a prefeitura. Na
mesma semana, recebeu o reitor da Universidade de Indiana, em busca
de negócios. Se somarmos a isso a determinação
do Tribunal de Contas do Estado exigindo que o alto escalão do
Conselho Administrativo da Unicamp devolvesse aos cofres públicos
o dinheiro desviado para seus próprios salários, temos
o resultado sumário do que significa para todos nós (e
para a população pobre) o “projeto de Unicamp”
instalado hoje: uma universidade
que auxilia o projeto de país que fecha as portes da educação
pública pra massa da juventude e dos trabalhadores,
envolvida pelo elitismo e racismo e ligada umbilicalmente ao capital
privado.
Nesta
mesma Unicamp, dirigida por aqueles que exploram “por excelência”
os trabalhadores terceirizados, que reprimem greves dos funcionários,
que desmontam a Moradia estudantil e as políticas de
permanência e desviam verbas públicas com o aval
do governo Alckmin, a chapa “Prelúdio das Primaveras”
entrou nas eleições para o DCE com o intuito de abrir a
reflexão: “que tipo de entidade precisamos para o combate ao
modelo de universidade existente?”,
com a perspectiva de, finalmente, fazer do DCE uma entidade
militante e viva que organize junto aos estudantes a luta
contra à continuidade desse projeto elitizante e
privatista de universidade. Militamos e debatemos na campanha
em torno desse eixo, deixando claro
para cada estudante que para nós essa Universidade não
é uma bolha, mas está inserida em uma realidade
estadual e nacional marcada por governos que de distintas
formas(Alckmin e Dilma), mas com objetivos extremamente parecidos,
direcionam a educação cada vez mais às
necessidades cotidianas do capitalismo.
Cada
detalhe dessa universidade é um reflexo indireto disso: blocos
de moradias insuficientes e que desmoronam convivem com a
“excelência” de laboratórios privatizados e suas
pesquisas de ponta a serviço de grandes empresas. A
super-exploração do trabalho terceirizado, com opressão
à mulher. O assassinato de um jovem negro no campus de
Limeira há 10 anos atrás; a juventude secundarista
(patrulheira) que tem acesso negado ao ensino nas salas de aulas
da Unicamp, mas tem a “liberdade plena” de ser mão-de-obra
barata para a burocracia em cada instituto e departamento; a
carência de professores e de funcionários; a
utilização de fundos públicos (com a parceria do
Santander) para a instalação de um parque tecnológico
entre Unicamp-Facamp-PUC que, nas palavras de Jonas,
“intensificarão as relações entre o governo
municipal e a academia”[1]:
uma entidade como o DCE que não busque ser um oponente à
altura a essa política consciente da Reitoria, de nada nos
servirá. Nem a chapa “Vira-Mundo”, nem a “Pra Fazer
Diferente - Oposição”, se propuseram a esse debate
conosco. Os chamados despolitizados
entre “votar na chapa que está em todo lugar” e o “vote
diferente” sem conteúdo, mostra o eleitoralismo vazio que as
chapas “Vira-mundo” e a “Pra fazer diferente” construíram
nesse processo, não denunciando aos milhares de estudantes o
atual projeto de universidade empresarial gerenciado por uma
estrutura de poder anti-democrática e nem dizendo como se
enfrentar com essa reitoria e governo.
Chamamos
o conjunto dos estudantes a seguirem nessa luta conosco após a
eleição da nova gestão, “Vira-mundo”. É
necessário uma alternativa ao rotineirismo do grupo 1º de
Maio/ Rosa do Povo do PSOL que dirige o DCE nos últimos 12
anos e não foi capaz de organizar um movimento estudantil que
se enfrente seriamente com esse projeto, sendo um freio para a
auto-organização e democracia do movimento. Isso fica
claro em todas as greves e mobilizações: a força
numérica durante as eleições é
substituída, quando se fecham as urnas, por um DCE que “quer
lutar, mas os estudantes não querem”, jogando nas costas dos
estudantes a opção política de um grupo que
prefere gerenciar e negociar aparentes “conquistas”, ao invés
de organizar seriamente o movimento contra os ataques que passaram ao
longo da última década, que em vários momentos
foram derrotas sem lutas, ou lutas contra a reitoria, que viam que no
meio do caminho tinha uma pedra...o DCE. Seu oportunismo foi evidente
mais uma vez, já que o mesmo grupo que burocraticamente se
opõe a uma gestão proporcional e democrática,
diz que precisamos de um DCE “independente de partidos”,
alimentando o apartidarismo e escondendo-se politicamente.
A
chapa “Pra Fazer Diferente”(composta majoritariamente por
militantes do PSTU) não pode ser uma real alternativa à
direção atual do DCE. Percebendo o desgaste da atual
direção do DCE com sua paralisia de 12 anos, buscaram
canalizar todo tipo de descontentamento, dos mais sinceros e críticos
até os mais conservadores. Passaram da “unidade pelo mesmo
projeto” para serem a “oposição” que ia “fazer
diferente”, com um discurso despolitizado, o que ficava claro desde
o começo de sua carta-programa, quando diziam que
“estamos cansados das mesmas pessoas e dos mesmos discursos”,
apoiando-se num sentimento atrasado contra as entidades e o movimento
estudantil. Não levantaram em sua campanha eleitoral um
programa que se enfrentasse explicitamente contra a Reitoria e o
Governo do Estado, ampliando seu arco de influência em setores
da universidade que são à favor do atual projeto da
Unicamp. Um pragmatismo eleitoreiro escandaloso onde estar no aparato
se torna o objetivo e a luta contra o elitismo, a privatização
e a repressão na universidade fica guardado para quem sabe
depois das urnas! Nem uma palavra sobre a aliança entre
estudantes e trabalhadores; nem uma palavra sobre a greve dos
funcionários de 2011 ou das Federais de 2012, seus
perseguidos, e aqueles da repressão aos estudantes que lutaram
por Moradia; nem uma palavra sobre a histórica greve no IFCH
contra a entrada da PM na USP. Uma “oposição” que
se apoiava nos elementos mais atrasados, como a “questão da
segurança”, justamente no momento em que o governo de SP
assassina centenas de jovens negros. Um oportunismo eleitoral
“do tamanho da Unicamp”, o que talvez explique sua alta
votação em cursos dirigidos por Centro Acadêmicos
que se colocam contra o movimento estudantil e as greves de
trabalhadores, como foi na Ciências da Computação.
A
postura eleitoral oportunista dessas correntes que dirigiam as duas
chapas não se restringe à Unicamp, como pudemos ver nas
eleições municipais.[2]
A
luta por uma nova universidade democrática que
garanta o direito elementar de acesso de toda a população
ao ensino superior público (que rasgue o “filtro de pobres”,
que separa a universidade da cidade, que é o vestibular e
os monopólios particulares de educação, como o
grupo Anhanguera), que não seja um viveiro que reproduz os
interesses privados da parceria de Fernando Costa com Donizette, que
conspiram contra a educação dos trabalhadores e da
juventude, mas varra essa burocracia e sua estrutura de poder
corrupta; para isso, é necessário uma nova
prática, distante do pessimismo dessa direção do
DCE, que confie na força de um movimento auto-organizado e
democrático em aliança com os trabalhadores e a
população, única via de buscar responder de fato
as contradições estruturais dessa universidade elitista
e racista.
Nós
da chapa “Prelúdio das Primaveras” apresentamos
sinceramente nosso projeto ao conjunto dos estudantes, e dedicamos a
campanha feita a cada jovem negro assassinado nas últimas
semanas pelas periferias, cujo acesso à educação
pública superior é cotidianamente negado. Nos
orgulhamos de ter sido a única voz dos milhões de
jovens barrados pelos vestibulares e cercas racistas da Unicamp, mas
sabemos que é necessário um movimento estudantil de
centenas nessa Universidade que busque democratizar a educação
para a juventude trabalhadora e pobre: chamamos o conjunto dos
estudantes a lutar por um movimento estudantil de milhares que busque
a transformação radical dessa Unicamp junto conosco, na
chapa Contracorrente para o CACH, assim como em todos os institutos
debatendo e construindo a Juventude às Ruas.
[2]
A “vitória” do PSOL na prefeitura de Macapá
apoiado pelos partidos de direita DEM e PSDB, com Freixo no Rio de
Janeiro dizendo que poderia reprimir uma greve, ou em Belém
do Pará em que o candidato à prefeitura pelo PSOL fez
parte de uma frente com o PSTU que recebeu 400 mil de empresários
e foi apoiado pelo partido governista e amigo dos latifundiários
na reforma do Código Florestal, o PCdoB. Somente após
eleger seu vereador com os votos dessa frente, o PSTU rompeu, mas
continou apoiando o candidato.


1 comentários:
Concordo, devemos com certeza estar preocupadissimos com a posição do reitor, existe a possibilidade clara de ditadura e prevejo até a possivel instauração do AI-5 na UNICAMP. Todo o cuidado é pouco.... Vivemos tempos de guerra mesmo
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