Blabla

Blabla

terça-feira, 26 de junho de 2012

Os dois dias que estremeceram o kirchnerismo


(post extraído do blog http://elviolentooficio.blogspot.com.ar/, de nosso camarada Fernando Rosso do PTS, tratando da crise aberta temporariamente entre Hugo Moyano - burocrata sindical da CGT peronista - e a presidenta Cristina Kirchner, pela luta no acordo salarial na data-base do setor caminhoneiro na Argentina (dirigido por Moyano), e que à vista do grande "perigo" que representava a utilização de métodos da luta de classes, como piquetes e paralisações, para conseguir uma porcentagem salarial maior para o setor, foi fechada pelo próprio burocrata, firmando o "armistício" sem consultar os trabalhadores e aceitando um acordo mais desfavorável do que o de outros setores da classe operária. 
O "perigo" de desatar forças incontroláveis que aproximem os interesses vitais da classe operária de todo o país (é o que aconteceria no caso deste setor chave da circulação, que é referência por ter como dirigente sindical um ex-caminhoneiro - que já não "maneja o volante" há décadas) à compreensão de que é necessário elevar a consciência econômica ao nível da consciência de classe revolucionária também na maneira como se busca "incrementar as condições de trabalho no regime de exploração", impulsionou o "armistício" entre governo e burocracia. Uma escolha evidente em deseducar o proletariado, a estratégia dos agentes da burguesia no movimento operário na Argentina, como no Brasil: são estrategas da divisão das fileiras da classe operária e da neutralização de seu poder de classe. Os limites da luta de classes, para a burocracia, estão no ponto antes do qual o combate eduque os trabalhadores a enxergarem não apenas o horizonte da "negociação em melhores termos o preço de sua exploração", mas derrubem esse véu para enxergar a tarefa quebrar o regime de dominação de classe e exploração burguês.
Por se tratar de importante lição internacionalista para nós também, publicamos o artigo de Rosso, para lutarmos por uma estratégia que possibilite unificar os interesses da classe de conjunto e forjar desde já a hegemonia sob a direção do proletariado.



"Sem pão e sem Trabalho", de Ernesto de la Cárcova




Moyanismo pagão e kirchnerismo líquido

O mais interessante teve nestas jornadas é que foram um ensaio geral que tornou evidente as fortalezas e, sobretudo, as debilidades tanto de Moyano como do governo.
O enfrentamento tem razões econômicas e políticas que superam de longe a campanha salarial caminhoneira. Moyano confesou quando se anunciou o moderado acordo de 25,5%, anunciado pelo chefão da Federação patronal, já que em linhas gerais se aproxima da média do que acodaram os demais sindicatos.
Mais profundamente a disputa começou quando o kirchnerismo, como projeto restaurador, passou de sua etapa inferior de coalisões e alianças úteis para conter e acaudilhar uma “sociedade civil” que havia deixado mal vista a autoridade estatal depois de 2001; para uma etapa superior mais abertamente bonapartista, quando se criou com uma força inusitada para se independitizar dos fatores reais do poder. As etapas não são antagônicas, e são parte da restauração, como dizia Gramsci: “todo governo de coalisão é uma graduação inicial de cesarismo, que pode ou não desenvolver-se para os graus mais significativos.” E efetivamente as distintas coalisões do kirchnerismo foram abrindo o caminho ao desenvolvimento do bonapartismo de hoje. Que as etapas coincidam em sua distinção com os governos de Nestor, na primeira, e Cristina, na segunda, é simples casualidade. Nestor hoje estaria fazendo mais ou menos o mesmo que Cristina, quem sabe com um pouco mais de jogo político porque há sutis diferenças na DNA mais peronista de Nestor Kirchner e no frepasismo raivoso de Cristina Fernandez. Porém, em geral, como governos de desvios e de contenção, deveriam seguir mais ou mkenos o mesmo roteiro. Ainda que a história às vezes se encarregue de encontrar os homens e as mulheres “necessárias” para cada momento – o negociador Nestor para o momento inicial, a pedante Cristina para a etapa posterior –, com a austúcia um pouco mais sinistra que a morte, foi um fator chave para o poder da outra.
Claro que “sobredeterminando” todos estes movimentos políticos esteve o vento de proa da economia mundial que favoreceu a Argentina e, anteriormente, a desvalorização duhaldista (com ajuda moyanista), o último grande serviço do não apresentável “Tachuela” à pátria... capitalista. É certo que não foi tudo simples determinação da economia, depois de tudo somos os que acreditamos em que a superestrutura tem relativa autonomia, mas “em última instância” a estrutura se impõe como ditadura de ferro.
Quando o “Proyecto” (restaurador) chegou a esse momento deciviso, cooptando e desarticulando o movimento de desempregados e de direitos humanos, disciplinando os governadores pejotistas [do PJ – partido justicialista, peronista, governista] com a vultuosa receita tributária, ganhando o apoio popular expresso nos 54% de votos, confiou que contava com uma “independência e uma força excepcionais”. Quem se encontra no cume nesses momentos não pode evitar adoecer de um “complexo de superioridade” próprio de todos os bonapartismos. Até que a realidade, que começa como a única verdade, o desperte do “sonho dogmático” (como Hume ou Kant), na Argentina destes dias essa irrupção adquiriu a forma de uma pralisação nacional dos caminhoneiros e o bloqueio das distilarias que se transformou numa crise política.
Esse foi o momento de mudança da etapa na qual (poder-se-ia dizer que até injustamente) se pode agredecer os serviços prestados a Moyano e sua destituição da coalisão do governo. O caminhoneiro (“colocar”, como dizem em Cordoba, já que há muito tempo não trabalha ou dirige qualquer caminhão), teve a política de persuadi-los durante todo este tempo de que ele e sua organização são necessários para sustentar a ordem no movimento operário e “apenas” pedia um pouco mais de poder político (que lhe garanta o armazém, além de sua impunidade). Se a guera é a continua da política, porém por outros meios, a paralisação e os piquetes não são mais que a continuidade dessa linha de perseguição de Moyano, aina que agora este servço seja oferecido por Scioli.
As anedotas destes tempos não foram mais que episódios desta álgebra de fundo.
Porém, estes dias, dizíamos no princípio, mostraram conjuntamente as debilidades do bonapartismo líquido do cristianismo para os momentos de crises mais ou menos agudas. Como se disse, a virtude do estadista mede-se essencialmente neste momentos, quando a fortuna acompanha cada vez menos.
A camarilha kirchnerista foi, durante estes dias, uma espécie de “Orquestra de San Ovidio” (imagem que um amigo utiliza muito), na ausência de nossa “Cesar”.
Boudou, uma das figuras com menos poder político deste governo, ao ponto de que quase caía da mesa na última conferência de imprensa de tão escanteado que o puseram, foi o encarregado de ameaçar os caminhoneiros num ato que teve tanta eficácia como o estado de sítio de De la Rua. O “rosquero” da Universidad de Lomas de Zamora, “Piñon Fijo” Mariotto, acreditava que pararia a crise repetindo como papagaio o “relato” pela televisão. A propósito, nem foi fista o “meu pobre anjo” que era a suposta nova estrela do kirchnerismo. O tão renomeado novo fenômeno militante da juventude, ou seja, La Cámpora, não a vimos à frente dos piquetes defendendo o projeto, como tão “valentemente” fez com um indefensável grupo de originários Qom na 9 de julho o ex-stalinista transformado em peronista que é o “Corvo” Larroque. Os que se retorcem numa angustiante impotência são os que pertencem a esse oxímoro chamado “esquerda kirchnerista” (o “seis-sete-oitismo”). Porque outra das questões que emergiu na conjuntura foi a ADN gorila e antioperária do cristianismo. O frepasismo raivoso, que na história política do nosso país não foi mais do que um “menemismo celeste” materializado na Alianza. Para desqualificar a greve sacaram à luz os argumentos do clássico manual do gorilismo crioulo.
Em síntese, foi o momento mais “delarruísta” do kirchnerismo e, para dizer a verdade, diante da primeira crise séria que ameaça não ser a única, em momentos nos quais a economia se deteriora aceleradamente e o “bonapartismo do anúncio permanente e da cadeia nacional” é cada vez menos eficaz (a propósito, não haviam retomado a agenda com outro plano – e vão – de moradias? Aos que não ficava claro, a este nos referimos como “debilidade estratégica”.

A estratégia de Moyano e os limites da guerra

O que encerrou a crise nacional foi Moyano. Como aprendemos do clássico teórico da guerra “quanto mais importante e de maior validade sejam os motivos da guerra tanto mais afetam os interesses vitais dos povos, com maior empenho se tratará de derrubar o adversário, então tendem a confundir-se objetivo guerreiro e fim político” (Carl Von Clausewitz, in De La Guera).
Esta é uma tradução possível deste complexo aforismo de Clausewitz que sintetizamos em algum outro lugar como “quanto mais política, mais guerreira”. Isto é, a política (que sempre dirige a guerra) pode atuar como moderadora ou levá-la até o final e desta maneira aproximá-la do seu conceito, adquirindo a forma mais pura no duelo.
Mais importante que a convocatória da paralisação e da marcha de quarta-feira foi o anúncio que Moyano “terceirizou” nas mãos do do chefe das patronais dos transportes com o acordo de 25,5% que de fato assinou o armistício. Se continuasse a paralisação e os piquetes até chegar aos 30% poder-se-ia desatar forças incontroláveis e abrir-se-ia crises com as campanhas salariais de todo o movimento operário. Ao sentenciar que o salário se tornava uma “questão secundária” obstaculizou esta possibilidade e reafirmou seu caráter de estrategista da divisão das fileiras operárias, sob o “relato” (Moyano também tem o seu) da defesaa dos interesses de todos os trabalhadores.
A possibilidade dos 30% se aproximava mais dos interesses vitais de toda a classe operária (ainda que, claro, não incluia todos) e levava a “guerra” um pouco mais próximo dos extremos.
Observam apenas a aparência aqueles que veem na convocatória da marcha e na paralisação um dobrar da aposta. É u retrocesso, mais que tático estratégico como bem definiu os (queridos) amigos Castilla e Del Caño.
A estratégia e a natureza do moyanismo é sua limitação estrutural para levar a guerra até o final. O programa de aumento do salário mínimo não tributável e os subsídios sociais, ainda que progressistas não unificam vitalmente o movimento operário. Ao contrário, divide os setores mais elevados dos “sem pão e sem trabalho” de hoje (retratados tão vividamente por De la Cárcova na imagem que ilustra este post) e que incluem não apenas os desempregados propriamente ditos mas a massa de precarizados, contratados, sem registros, terceirizados e essa maioria do subsolo da pátria que são os “excluídos” do programa moyanista.
E seu programa corresponde a sua estratégia, seus meios e seus fins. A aposta num lugar sob o projeto sciolista que junto com Clarín lhe conduziu e lhe pediu (ou impuseram?) moderação orienta suas táticas e seu programa que necessariametne supõem a contenção e a divisão do movimento operário. Mesmo que por seu lugar de burocrata sindical em seu ofício inclua por vezes brincar com fogo.
Para levar a guerra ao seu conceito ou, o que é o mesmo, a luta de classes até o final é necessário mudar a condução, a estratégia e o programa. Isto é, ter uma orientação política que unifique em seus interesses vitais toda a classe trabalhadora e com ela batalhar pela hegemonia.
Isso implica diferenciar base de direções, para o que é necessário a experiência da frente única e a participação ativa na marcha de quarta-feira com um programa e uma estratégia independentes.
Contudo, destaca-se que este episódio no drama (ou farsa) kirchnerista abriu um novo cenário e desnudou os limites de sua engenharia de poder, além de mostrar o potencial poder social da classe operária (a despeito de sua direção), em tempos de vento de proa e crises anunciadas que chegam a estas paragens.



terça-feira, 19 de junho de 2012

Notas sobre a ditadura do proletariado em Lênin e a retomada da estratégia marxista revolucionária - pt 2

por Fernanda Montagner, estudante de ciências sociais da Unicamp e militante da Juventude às Ruas e da LER-QI

(Para a primeira parte do texto, clique aqui)


A democracia dos oprimidos e a inversão do despotismo
Lênin discute a questão da democracia e sua necessidade no período transicional. A atual democracia burguesa é “mais ou menos completa na república democrática. Mas, essa democracia está sempre comprimida no quadro estreito da exploração capitalista; no fundo, ela não passa nunca da democracia de uma minoria, das classes possuidoras, dos ricos. A liberdade na sociedade capitalista continua sempre a ser, mais ou menos, o que foi nas repúblicas da Grécia antiga: uma liberdade de senhores fundada na escravidão” (Hucitec, 1979, p107). Na ditadura do proletariado, essa democracia se inverte, não mais da minoria para a maioria, mas sim da maioria para a minoria, em distinta qualidade.
            “Mas a ditadura do proletariado, isto é, a organização de vanguarda dos oprimidos em classe dominante para o esmagamento dos opressores, não pode limitar-se, pura e simplesmente, a um alargamento da democracia. Ao mesmo tempo que produz uma considerável ampliação da democracia, que se torna pela primeira vez a democracia dos pobres, a do povo e não mais apenas a da gente rica, a ditadura do proletariado traz uma séria de restrições à liberdade dos opressores, dos exploradores, dos capitalistas. Devemos reprimir-lhes a atividade para libertar a humanidade da escravidão assalariada, devemos quebrar a sua resistência pela força; ora, é claro que onde há esmagamento, onde há violência, não há liberdade, não há democracia” (pg 109). Toda sociedade dividida em classes, fundada na propriedade privada, implica que uma exerce sua ditadura sobre a outra, de uma minoria sobre a maioria. A “ditadura do proletariado” é um Estado que inverte esta ordem. A maioria mina a resistência da minoria exploradora, invertendo sobre quem se impõe o despotismo. E aqui, Lênin esclarece, contra toda a precipitação dos anarquistas, que as classes ainda subsistem com a quebra da maquinaria estatal da burguesia (uma vez que subsiste a necessidade do Estado, ainda que com outra natureza de classe); e se existem as classes, o meio estratégico da ditadura do proletariado é utilizado tanto a serviço da violência contra os opressores, e não da liberdade destes, quanto como base de apoio da revolução mundial.
            Conforme coloca Lênin, o Estado Operário e a violência deste, diferente de qualquer outro na história, tem uma qualidade diferenciada, pois existe com a única função de definhar: existe enquanto ainda persistem a resistência dos burgueses, seus costumes sabotadores e a contra-revolução. A própria violência que precisa exercer tem um caráter diferente da atual: ao contrário de ter um destacamento separado da sociedade, armado, e que carrega na sua gênese a manutenção de uma sociedade racista, opressiva, exploradora, bárbara com os homossexuais, mulheres, etc, a repressão no período de transição será feita pelos próprios operários armados auto-organizados, e não com o intuito de manter a sociedade na miséria, mas sim o de libertar toda a humanidade. A experiência da Rússia em Outubro assina a vigência desta verdade.
            “O aparelho especial de repressão do “Estado” é ainda necessário, mas é um Estado transitório, já não é o Estado propriamente dito, visto que o esmagamento de uma minoria de exploradores pela maioria dos escravos assalariados de ontem é uma coisa relativamente tão fácil, tão simples, tão natural, que custará à humanidade muito menos sangue [...] Os exploradores só estão, naturalmente, em condições de oprimir o povo porque dispõem de um aparelho especial muito complicado, mas o povo pode coagir os exploradores sem aparelho especial, pela simples organização armada das massas (de que os Sovietes de deputados operários e soldados nos fornecem um exemplo, diremos nós, por antecipação)”( Hucitec, 1979, p. 112)
            E assim que não houver mais classes, que a resistência dos capitalistas estiver totalmente quebrada, isto é, quando não houver mais distinções entre os membros da sociedade em relação à produção, é que tanto o Estado, como a repressão e a democracia (enquanto forma de existência do Estado, e portanto, de opressão de classe) começarão a definhar. Para isso a revolução socialista terá que passar por um processo indeterminado, onde todas as relações se transformarão no desenvolver de uma luta interior, na qual cada setor da sociedade entrará em choque e se transformará, se alterando períodos de paz e reformas com períodos de guerra civil, transformações essas que tomarão toda a profundidade da vida humana, transformando as relações, colocando fim a família patriarcal, à opressão a mulher, a miséria cultural, destruindo todas as velhas relações num processo contínuo de equilíbrio e desequilibro, e se expandindo num caráter permanente tendo fim com a revolução mundial e a consolidação do comunismo.
            Para além desta exposição sobre o conteúdo que fez parte de nossas discussões no grupo "Idéias da Rebelião", retomando as lições do que de mais avançado deu a evolução da teoria marxista em estreita conexão com um movimento verdadeiramente de massas e verdadeiramente revolucionário, é necessário continuar a debater os fenômenos de envergadura inédita até então no período pós-1917. A teoria correta do bolchevismo enfrentou suas fricções reais. A elucidação do complexo de contradições na luta de classes mundial que atravessou as decisões e a atuação dos dirigentes bolcheviques, dentre eles Lênin e Trotsky, nas décadas seguintes, ajudará a iluminar a distância diametral entre o comunismo do stalinismo, e que houve homens de carne e osso que se organizaram para derrotar essa aberração burocrática instalado sobre as conquistas de Outubro. Tencionamos partir desta reflexão para pensar os processos que se deram no mundo, e como nos ajudam hoje.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Especial CEPHS: O oportunismo e a falência da II Internacional




"Basta de frases, basta de 'marxismo' prostituído à la Kautsky!" Assim remata Lênin esta declaração explosiva do obituário da social-democracia. Esta, no curso de uma longa preparação política anterior (na época "relativamente pacífica" de 1889 a 1914, em que a economia mundial começava a se apoderar dos mercados nacionais) que se mesclava com um papel progressivo de fusão do marxismo com as massas, degenerou para o oportunismo aberto ao apoiar "suas" próprias burguesias nacionais contra as massas exploradas no mundo. E num momento decisivo para a história: o estouro da Primeira Guerra Mundial. 


Graças à traição da II Internacional, os partidos operários da Europa não se opuseram à criminosa conduta de seus governos, mas chamaram a classe operária a fundir sua posição com a dos governos imperialistas. O Manifesto de Basiléia (1912) era o resultado de um grande trabalho de propaganda da época da II Internacional, época "do crescimento orgânico das contradições" do capitalismo, como dizia Trotsky, que devia responder às formas superiores da época superior do desenvolvimento capitalista. Mas não encontrou correspondência na situação subjetiva das direções operárias: no momento de maior transcendência histórica, suplantaram o socialismo pelo nacionalismo, renegaram a revolução proletária em favor da "defesa da pátria", ou seja, da pilhagem militarista de "seus" patrões.

A questão das guerras na nova época, que deixavam de ser "guerras nacionais" entre as potências para serem "guerras imperialistas" de pilhagem entre as potências de todo o globo, lançava as palavras dos socialistas até 1914 contra suas ações: o escudo de oportunistas e social-chauvinistas (que possuíam em Kautsky seu "grande à maneira de Heróstrato" expoente) à sua pátria que operava a pilhagem e a escravização de outras pátrias jogava na lata do lixo toda a preparação dos anteriores 25 anos da II Internacional, soando seu alarme de morte para a revolução (uma vez que seu cadáver atuava ativamente a favor da contra-revolução) e seu despreparo para a solução das contradições do imperialismo, "ou seja, o capitalismo maduro que deve abrir passagem ao socialismo", segundo Lênin.

Neste artigo de 1916, Lênin defende definitivamente a luta pela ruptura política e organizativa (ou a preparação imediata dela) com os reformistas-chauvinistas da II Internacional, envenenados com a degeneração imperialista da democracia pequeno-burguesa, e o apoio irrestrito às manifestações revolucionárias de massas contra as respectivas burguesias nacionais, a intensificação da luta de classes que de maneira alguma deve-se deter por ocasião da guerra de rapina (como postulava a direita e o "centro" da social-democracia alemã, paralisando a guerra movida pelo proletariado à burguesia em defesa da colaboração entre as classes), pela criação de organizações clandestinas para a propaganda revolucionária e a mais irrestrita independência de classe, agora também face aos "expoentes da traição ao proletariado mundial", totalmente à cauda dos canhões dos grandes monopólios.

As circunstâncias da guerra não são as mesmas que as circunstâncias de crise econômica, por mais profunda que seja. Há um salto nos meios utilizados, cuja distância não é nosso propósito abreviar aqui. Mas numa situação de crise econômica profunda, em que nos deparamos com alternativas reformadoras "à esquerda" da ordem imperialista européia e de suas instituições, com planos "renovados" de fazer coincidir os interesses das massas com os de suas burguesias nacionais, a sagacidade de navalha e a defesa irrevogável da independência política da classe operária defendida por Lênin é um grande norte estratégico para os que reivindicamos a tradição marxista revolucionária, para que desde já nos forjemos internacionalmente a não negar a luta de classes e suas leis "pelas leis que nos impõem" nosso inimigo, que em cada um dos países europeus em crise determinará a "paz civil" como base para o "resgate" das condições para a espoliação tranquila dos trabalhadores, como na Grécia e na Espanha. Reproduzimos abaixo o artigo "O oportunismo e a falência da II Internacional", de 1916.
André Augusto






(extraído de marxists.org)


I
A II Internacional deixou realmente de existir? Os seus representantes mais autorizados, como Kautsky e Vandervelde, negam-no obstinadamente. Nada aconteceu além de uma ruptura das relações; tudo está bem; tal é o seu ponto de vista.
A fim de esclarecer a verdade, vejamos o manifesto do Congresso de Basileia de 1912, que se refere precisamente à atual guerra mundial imperialista e foi adotado por todos os partidos socialistas do mundo. Deve-se assinalar que nenhum socialista ousará, em teoria, negar a necessidade de uma avaliação histórica concreta de cada guerra.
Agora que a guerra eclodiu, nem os oportunistas declarados nem os kautskistas se resolvem nem a negar o manifesto de Basileia nem a confrontar com as suas exigências o comportamento dos partidos socialistas durante a guerra. Por quê? Porque o manifesto os desmascara inteiramente a uns e outros.
Nele não há nem uma única palavrinha sobre a defesa da pátria, nem sobre a diferença entre a guerra ofensiva e a guerra defensiva, nem uma palavra sobre tudo que afirmam agora aos quatro ventos os oportunistas e os kautskistas(1) da Alemanha e da quádrupla Entente. O manifesto não podia falar disso, dado que aquilo que ele diz exclui absolutamente qualquer emprego desses conceitos. Ele indica de maneira absolutamente concreta uma série de conflitos econômicos e políticos que prepararam esta guerra durante décadas, que se tinham revelado plenamente em 1912 e provocaram a guerra de 1914. O manifesto recorda o conflito russo-austríaco a propósito da "hegemonia nos Balcãs", o conflito entre a Inglaterra, a França e a Alemanha (entre todos estes países!) a propósito da sua "política de conquista na Ásia Menor", o conflito austro-italiano a propósito da "aspiração ao domínio" na Albânia, etc. O manifesto define numa palavra todos esses conflitos como conflitos no terreno do "imperialismo capitalista". Deste modo, o manifesto reconhece com toda a clareza o caráter espoliador, imperialista, reacionário, escravista desta guerra, isto é, o caráter que transforma a admissibilidade da defesa da pátria numa insensatez do ponto de vista teórico e num absurdo do ponto de vista prático. Está em curso uma luta dos grandes tubarões para devorar "pátrias" estrangeiras. O manifesto tira as conclusões inevitáveis de fatos históricos indiscutíveis: esta guerra não pode ser "justificada por qualquer pretexto de interesse popular"; ela é preparada "a bem dos lucros dos capitalistas e das ambições das dinastias". Seria "um crime" se os operários "começassem a disparar uns contra os outros". Assim diz o manifesto.
A época do imperialismo capitalista é a época do capitalismo maduro e mais que maduro, do capitalismo que está em vésperas da sua derrocada, que amadureceu o suficiente para dar lugar ao socialismo. O período de 1789 a 1871 foi a época do capitalismo progressista, em que na ordem do dia da história estava a derrubada do feudalismo e do absolutismo, a libertação do jugo estrangeiro. Nesse terreno, e só nele, era admissível a "defesa da pátria", isto é, a defesa contra a opressão. Este conceito poderia ainda hoje ser aplicado a uma guerra contra as grandes potências imperialistas, mas seria absurdo aplicá-lo à guerra entre as grandes potências imperialistas, à guerra na qual se trata de saber quem pilhará mais os países balcânicos, a Ásia Menor, etc. Não é por isso de espantar que os "socialistas" que reconhecem a "defesa da pátria" na presente guerra evitem o manifesto de Basileia como o ladrão evita o lugar do roubo. O manifesto demonstra que eles são social-chauvinistas, isto é, socialistas em palavras e chauvinistas na realidade, que ajudam a "sua" burguesia a pilhar países estrangeiros, a sujeitar outras nações. O que é essencial na noção de "chauvinismo" é a defesa da "sua" pátria mesmo quando as ações desta visam escravizar as pátrias alheias.
Do reconhecimento de uma guerra como guerra de libertação nacional decorre uma tática, do seu reconhecimento como guerra imperialista decorre outra. O manifesto aponta claramente essa outra tática. A guerra "provocará uma crise econômica e política" que deverá ser "aproveitada": não para atenuar a crise, não para defender a pátria, mas, pelo contrário, para "sacudir" as massas, para "apressar a queda do domínio do capital". Não se pode apressar aquilo cujas condições históricas ainda não amadureceram. O manifesto reconhecia que a revolução social é possível, que as premissas para ela amadureceram, que ela virá precisamente em relação com a guerra: as "classes dominantes" temem "a revolução proletária", declara o manifesto, invocando o exemplo da Comuna de Paris e da revolução de 1905 na Rússia, isto é, os exemplos das greves de massas, da guerra civil. É uma mentira afirmar, como faz Kautsky, que a atitude do socialismo para com esta guerra não foi esclarecida. Esta questão não só foi discutida como foi decidida em Basileia, onde foi adotada a tática da luta proletária revolucionária de massas.
É uma revoltante hipocrisia passar em silêncio, totalmente ou nas partes mais essenciais, o manifesto de Basileia e em lugar dele citar discursos de dirigentes ou resoluções de certos partidos que, em primeiro lugar, foram proferidos antes de Basileia, e que, em segundo lugar, não eram decisões dos partidos de todo o mundo, e em terceiro lugar referiam-se a diferentes guerras possíveis, mas não à presente guerra. O fundo da questão está em que a época das guerras nacionais entre as grandes potências europeias foi substituída pela época das guerras imperialistas entre elas e em que o manifesto de Basileia teve pela primeira vez de reconhecer oficialmente esse fato.
Seria um erro pensar que o manifesto de Basileia é uma declamação oca, uma fraseologia oficial, uma ameaça pouco séria. É assim que gostariam de apresentar a questão aqueles que esse manifesto desmascara. Mas isso é falso. O manifesto é apenas o resultado de um grande trabalho de propaganda de toda a época da II Internacional, é apenas um resumo de tudo aquilo que os socialistas lançaram entre as massas em centenas de milhares de discursos, artigos e apelos em todas as línguas. Ele apenas repete aquilo que escreveu, por exemplo, Jules Guesde em 1899, quando fustigava o ministerialismo(2)dos socialistas em caso de guerra: ele falava da guerra provocada pelos "piratas capitalistas" (En garde!, p. 175); apenas repete aquilo que escreveu Kautsky em 1909 em “O Caminho do Poder”, onde reconhecia o fim da época "pacífica" e o início de uma época de guerras e revoluções. Apresentar o manifesto de Basileia como fraseologia ou como um erro significa considerar como fraseologia ou como um erro todo o trabalho socialista nos últimos 25 anos. A contradição entre o manifesto e a sua não aplicação é tão intolerável para os oportunistas e kautskistas porque ela revela a profundíssima contradição no trabalho da II Internacional. O caráter relativamente "pacífico" do período de 1871 a 1914 alimentou o oportunismo primeiro como estado de espírito, depois como tendência e finalmente como grupo ou camada da burocracia operária e dos companheiros de jornada pequeno-burgueses. Estes elementos só podiam submeter o movimento operário reconhecendo em palavras os objetivos revolucionários e a tática revolucionária. Eles só podiam conquistar a confiança das massas através da afirmação solene de que todo o trabalho "pacífico" constitui apenas uma preparação para a revolução proletária. Esta contradição era um abcesso que alguma vez haveria de rebentar, e rebentou. Toda a questão consiste em saber se deve tentar-se, como fazem Kautsky e Cia, reintroduzir de novo esse pus no organismo em nome da "unidade" (com o pus) ou se, para ajudar à completa cura do organismo do movimento operário, se deve, o mais depressa possível e o mais cuidadosamente possível, livrá-lo desse pus, apesar da temporária dor aguda causada por esse processo.
É evidente a traição ao socialismo por parte daqueles que votaram pelos créditos de guerra, entraram para os ministérios e advogaram a idéia da defesa da pátria em 1914-1915. Só os hipócritas podem negar este fato. É necessário explicá-lo.


II

Seria absurdo encarar toda a questão como uma questão de pessoas. Que relação tem isso com o oportunismo se pessoas como Plekhánov e Guesde, etc.? - interrogava Kautsky (Neue Zeit, 28 de Maio de 1915). Que relação tem isso com o oportunismo se Kautsky, etc.? - respondia Axelrod em nome dos oportunistas da quádrupla Entente (Die Krise der Sozialdemokratie(3), Zurique, 1915, p. 21). Tudo isso é uma comédia. Para explicar a crise de todo o movimento é necessário examinar, em primeiro lugar, o significado e c o n ó m i c o desta política, em segundo lugar as ideias que estão na sua base, e em terceiro lugar a sua ligação com a história das tendências no socialismo.
Em que consiste a essência econômica do defensismo durante a guerra de 1914-1915? A burguesia de todas as grandes potências trava a guerra com o fim de partilhar e explorar o mundo, com o fim de oprimir os povos. Um pequeno circulo da burocracia operária, da aristocracia operária e de companheiros de jornada pequeno-burgueses podem receber algumas migalhas dos grandes lucros da burguesia. A causa de classe profunda do social-chauvinismo e do oportunismo é a mesma: a aliança de uma pequena camada de operários privilegiados com a "sua" burguesia nacional contra as massas da classe operária, a aliança dos lacaios da burguesia com esta última contra a classe por ela explorada.
O conteúdo político do oportunismo e do social-chauvinismo é o mesmo: a colaboração das classes, a renúncia à ditadura do proletariado, a renúncia às ações revolucionárias, o reconhecimento sem reservas da legalidade burguesa, a falta de confiança no proletariado, a confiança na burguesia. O social-chauvinismo é a continuação direta e o coroamento da política operária liberal inglesa, do millerandismo e do bernsteinianismo(4)
A luta entre as duas tendências fundamentais no movimento operário, o socialismo revolucionário e o socialismo oportunista, abrange toda a época de 1889 a 1914. E também hoje existem em todos os países duas correntes principais quanto à questão da atitude para com a guerra. Deixemos a maneira burguesa e oportunista de invocar os indivíduos. Tomemos as tendências numa série de países. Tomaremos dez Estados europeus: Alemanha, Inglaterra, Rússia, Itália, Holanda, Suécia, Bulgária, Suiça, Bélgica e França. Nos primeiros oito países a divisão em tendências oportunista e revolucionária corresponde à divisão em social-chauvinistas e internacionalistas. Na Alemanha os pontos de apoio do social-chauvinismo são os Sozialistische Monatshefte e Legien e Cia; na Inglaterra os fabianos e o Partido Trabalhista (o ILP fez sempre bloco com eles, apoiou o seu órgão e sempre foi mais fraco nesse bloco do que os social-chauvinistas, enquanto no BSP os internacionalistas constituem três sétimos); na Rússia essa corrente é representada pela Nacha Zariá (agora Nache Delo), pelo Comitê de Organização, pela fração da Duma dirigida por Tchkheidze; na Itália pelos reformistas encabeçados por Bissolati; na Holanda pelo partido de Troelstra; na Suécia pela maioria do partido, dirigida por Branting; na Bulgária pelo partido dos "amplos" (5); na Suiça por Greulich e C.ª Foi precisamente entre os social-democratas revolucionários de todos estes países que se ergueu já um protesto mais ou menos vivo contra o social-chauvinismo. Apenas dois países constituem exceção: a França e a Bélgica, onde, no entanto o internacionalismo também existe, mas é muito fraco.
O social-chauvinismo é o oportunismo acabado. Ele amadureceu para uma aliança aberta, frequentemente vulgar, com a burguesia e os estados-maiores. E é precisamente essa aliança que lhe dá uma grande força e o monopólio da imprensa legal e da mistificação das massas. E absurdo considerar ainda hoje o oportunismo como um fenômeno interno do partido. É absurdo pensar em aplicar a resolução de Basileia em conjunto com David, Legien, Hyndman, Plekhánov e Webb. A unidade com os social-chauvinistas é a unidade com a sua "própria" burguesia nacional, que explora outras nações, é a cisão do proletariado internacional. Isso não significa que a ruptura com os oportunistas é imediatamente possível em toda a parte, significa apenas que ela amadureceu historicamente, que ela é necessária e inevitável para a luta revolucionária do proletariado, que a história, que conduziu do capitalismo "pacífico" ao capitalismo imperialista, preparou essa ruptura. Volentem ducunt fata, nolentem trahunt. (6)

III

Os representantes inteligentes da burguesia compreenderam-no muito bem. Por isso elogiam tanto os atuais partidos socialistas, à frente dos quais encontramos "defensores da pátria", isto é, os defensores da pilhagem imperialista. E por isso que os governos gratificam os chefes social-chauvinistas ora com postos ministeriais (em França e Inglaterra) ora com o monopólio da existência legal sem obstáculos (na Alemanha e na Rússia). É por isso que na Alemanha, onde o partido social-democrata era o mais forte e onde a sua transformação em partido operário nacional-liberal contra-revolucionário foi mais evidente, as coisas chegaram a tal ponto que o ministério público vê na luta entre a "minoria" e a "maioria" uma "incitação ao ódio de classe"! Por isso os oportunistas inteligentes se preocupam acima de tudo com a preservação da anterior "unidade" dos velhos partidos, que prestaram tão grandes serviços à burguesia em 1914-1915. Um dos membros da social-democracia alemã, que publicou em Abril de 1915, sob o pseudônimo de Monitor, um artigo na revista reacionária Preussische Jahrbucher, exprime com uma franqueza digna de agradecimento as concepções desses oportunistas em todos os países do mundo. Monitor considera que para a burguesia seria muito perigoso que a social-democracia se deslocasse ainda mais para a direita: "Ela deve manter o caráter de partido operário com ideais socialistas. Porque no dia em que ela renunciar a isso, surgirá um novo partido, que adotará o programa rejeitado pelo velho partido anterior e lhe dará uma formulação ainda mais radical" (Preussische Jahrbucher, 1915, n.0 4, pp. 50-5 1).
Monitor acertou em cheio. Os liberais ingleses e os radicais franceses sempre quiseram precisamente isso: frases de ressonância revolucionária para enganar as massas, para que estas tenham confiança em Lloyd George, Sembat, Renaudel, Legien e Kautsky, em homens capazes de pregar a "defesa da pátria" na guerra de rapina.
Mas Monitor representa apenas uma das variedades do oportunismo: aberta, grosseira, cínica. As outras atuam dissimuladamente, sutilmente, "honestamente". Engels disse uma vez: os oportunistas "honestos" são os mais perigosos para a classe operária...(7) Eis um exemplo:
Kautsky escreve na Neue Zeit (de 26 de Novembro de 1915):
"Cresce a oposição contra a maioria; o espírito das massas é de oposição." "Depois da guerra (só depois da guerra? N. L.) as contradições de classe agudizar-se-ão de tal modo que o radicalismo entre as massas se imporá." "Depois da guerra (só depois da guerra? N. L.) arriscamo-nos a que os elementos radicais fujam do partido e refluam para um partido de ações de massas antiparlamentares (entenda-se: extraparlamentares)." "Assim, o nosso partido decompõe-se em dois campos extremos, que nada têm de comum entre si." A fim de salvar a unidade, Kautsky procura convencer a maioria no Reichstag a autorizar a minoria a pronunciar alguns discursos parlamentares radicais. Isto significa que Kautsky quer, por meio de alguns discursos parlamentares radicais, reconciliar as massas revolucionárias com os oportunistas, que "nada têm de comum" com a revolução, que já há muito dirigem os sindicatos e que agora, apoiando-se na sua estreita aliança com a burguesia e com o governo, se apoderaram também da direção do partido.
Em que é que isto difere, no fundo, do "programa" de Monitor? Em nada a não ser nas frases melosas que prostituem o marxismo.
Na reunião da fração do Reichstag de 18 de Março de 1915, o kautskista Wurm "preveniu" a fração para não "esticar demasiado a corda; nas massas operárias cresce a oposição contra a maioria da fração; é necessário manter-se no centro marxista" (?! sem dúvida uma gralha: deve ler-se "monitoria") (Klassenkampf gegen den Krieg! Material zum "Fali Liebknecht". Ais Manuskript gedruckt(8), p. 67). Deste modo, vemos que o fato de que as massas são revolucionárias foi reconhecido em nome de todos os kautskistas (o chamado "centro") já em Março de 1915!! E oito meses e meio mais tarde Kautsky de novo apresenta a proposta de "reconciliar" as massas, que querem lutar, com o partido oportunista, contra-revolucionário, e isto com a ajuda de algumas frases de sonoridade revolucionária!!
A guerra tem muitas vezes a utilidade de pôr a nu a podridão e rejeitar o convencionalismo.
Comparemos os fabianos ingleses com os kautskistas alemães. Eis o que escrevia acerca dos primeiros um verdadeiro marxista, Friedrich Engels, em 18 de Janeiro de 1893: "... um bando de ambiciosos que têm entendimento suficiente para verem a inevitabilidade do revolucionamento social, mas para quem é, no entanto, impossível confiar este trabalho gigantesco ao proletariado imaturo... medo da revolução é o seu princípio fundamental..." (Correspondência com Sorge, p. 390).
E em 11 de Novembro de 1893 escreve: ..... estes burgueses enfatuados que querem por benevolência condescender em libertar o proletariado de cima para baixo, desde que este queira ser tão inteligente para assim compreender que uma massa bruta inculta não pode libertar-se a si própria e não chega a nada a não ser pela benevolência desses advogados, literatos, atemorizados e destas comadres sentimentais..." (ibidem, p. 401).
Em teoria Kautsky olha os fabianos com desprezo, como o fariseu o pobre publicano. Porque ele jura pelo "marxismo". Mas qual é na prática a diferença entre eles? Assinaram ambos o manifesto de Basileia e atuaram ambos em relação a ele como Guilherme II em relação à neutralidade belga. Enquanto Marx durante toda a sua vida fustigou as pessoas que procuram abafar o espírito revolucionário dos operários.
Kautsky opôs aos marxistas revolucionários a nova teoria do "ultra-imperialismo". Por ultra-imperialismo ele entende a eliminação da "luta dos capitais financeiros nacionais entre si" e a sua substituição pela "exploração conjunta do mundo pelo capital financeiro internacional" (N. Z., 30 de Abril de 1915). Mas acrescenta: "ainda não dispomos das premissas suficientes para decidir se esta nova fase do capitalismo é realizável". Assim, é com base apenas em suposições sobre uma "nova fase", sem ousar declarar abertamente que ela é "realizável", que o inventor dessa "fase" rejeita as suas próprias declarações revolucionárias, rejeita as tarefas revolucionárias e a tática revolucionária do proletariado agora, na "fase" da crise já iniciada, da guerra, de uma acentuação maldita das contradições de classe! Não será isto o mais ignóbil fabianismo?
O líder dos kautskistas russos, Axelrod, vê "o centro de gravidade do problema da internacionalização do movimento libertador do proletariado na internacionalização da prática quotidiana": por exemplo, "a legislação sobre a proteção do trabalho e a legislação do seguro social devem ser objeto de ações e da organização internacionais dos operários" (Axelrod, A Crise da Social-Democracia, Zurique, 1915, pp. 39-40). É perfeitamente claro que não só Legien, David, os Webb, mas também o próprio Lloyd George, Naumann, Briand e Miliukov aderirão inteiramente a esse "internacionalismo". Tal como em 1912, Axelrod está disposto, em nome de um futuro muito, muito distante, a proferir as frases mais revolucionárias, se a futura Internacional "atuar (contra os governos, em caso de guerra) e levantar uma tempestade revolucionária". Vejam lá como nós somos corajosos! Mas quando se trata de apoiar e desenvolver agora a efervescência revolucionária que começa entre as massas, então Axelrod responde que essa tática das ações revolucionárias de massas "ainda teria alguma justificação se estivéssemos imediatamente em vésperas de uma revolução social, como aconteceu, por exemplo, na Rússia, onde as manifestações estudantis de 1901 anunciavam a aproximação de batalhas decisivas contra o absolutismo". Mas no presente momento tudo isso é uma "utopia", "bakuninismo", etc., inteiramente no espírito de Kolb, David, Sudekum e Legien.
O inefável Axelrod esquece simplesmente que em 1901 na Rússia ninguém sabia nem podia saber que a primeira "batalha decisiva" teria lugar quatro anos mais tarde - não esqueça: quatro anos mais tarde - e não seria "decisiva". E no entanto só nós, marxistas revolucionários, tínhamos razão nessa altura: nós ridicularizamos os Kritchevski e os Martinov, que apelavam imediatamente ao assalto. Nós apenas aconselhávamos os operários a expulsarem por toda a parte os oportunistas e a apoiar, intensificar e alargar com todas as suas forças as manifestações e outras ações revolucionárias de massas. A situação atual na Europa é perfeitamente análoga: seria insensato apelar ao assalto "imediato". Mas seria vergonhoso intitular-se social-democrata e não aconselhar os operários a romper com os oportunistas e consolidar, aprofundar, alargar e intensificar com todas as suas forças o movimento revolucionário e as manifestações que se iniciam. A revolução nunca cai do céu já pronta, e no início da efervescência revolucionária nunca ninguém sabe se esta conduzirá e quando a uma revolução "verdadeira", "autêntica". Kautsky e Axelrod dão aos operários conselhos velhos, gastos, contra-revolucionários. Kautsky e Axelrod alimentam as massas com a esperança de que a futura Internacional será já certamente revolucionária - trata-se apenas de presentemente proteger, encobrir e embelezar a dominação dos elementos contra-revolucionários: os Legien, os David, os Vandervelde, os Hyndman. Pois não é evidente que a "unidade" com Legien e Cia constitui o melhor meio de preparar a "futura" Internacional revolucionária?
"A aspiração de transformar a guerra mundial em guerra civil seria uma loucura", declara o líder dos oportunistas alemães, David (Die Sozialdemokratie und der Weltkrieg - A Social-Democracia e a Guerra Mundial, 1915, p. 172), respondendo ao manifesto do Comitê Central do nosso partido de 1 de Novembro de 1914 (9). Nesse manifesto diz-se, entre outras coisas:
"Por maiores que pareçam as dificuldades dessa transformação num ou noutro momento, os socialistas nunca renunciarão a um trabalho preparatório sistemático, perseverante, constante nesse sentido, desde que a guerra se tornou um fato."
(Também citado por David, p. 171.) Um mês antes da publicação do livro de David o nosso partido publicou resoluções nas quais a "preparação sistemática" era explicada do seguinte modo:
1. Recusa dos créditos. 2. Ruptura da paz civil. 3. Criação de organizações ilegais. 4. Apoio às manifestações de solidariedade nas trincheiras. 5. Apoio a todas as ações revolucionárias de massas. David é quase tão corajoso como Axelrod: em 1912 não considerava "loucura", em caso de guerra, a referência à Comuna de Paris.
Plekhánov, representante típico dos social-chauvinistas da Entente, raciocina sobre a tática revolucionária do mesmo modo que David. Chama-lhe "alucino-farsa". Mas ouçamos Kolb, oportunista confesso, que escreveu: "O resultado da tática das pessoas que rodeiam Liebknecht seria uma luta levada até ao ponto de ebulição no seio da nação alemã" (Die Sozialdemokratie am Scheidewege - A Social-Democracia na Encruzilhada, p. 50).
Mas o que é uma luta levada até ao ponto de ebulição, senão uma guerra civil?
Se a tática do nosso CC, que nos seus traços fundamentais coincide com a tática da esquerda de Zimmerwald, fosse uma "loucura", "um sonho", "uma aventura", "bakuninismo" - como afirmaram David, Plekhánov, Axelrod, Kautsky, etc. -, ela nunca poderia conduzir à "luta no seio da nação", e muito menos ser levada até ao ponto de ebulição. As frases anarquistas em parte nenhuma do mundo conduziram à luta no seio de uma nação. Em contrapartida, os fatos mostram que precisamente em 1915, em consequência da crise suscitada pela guerra, cresce a efervescência revolucionária entre as massas, crescem as greves e as manifestações políticas na Rússia, as greves na Itália e na Inglaterra, as marchas da fome e as manifestações políticas na Alemanha. Não será isto o início das ações revolucionárias de massas?
Apoio, desenvolvimento, alargamento, intensificação das ações revolucionárias de massas, criação de organizações ilegais, sem as quais mesmo nos países "livres" não é possível dizer a verdade às massas populares: eis todo o programa prático da social-democracia nesta guerra. Todo o resto é mentira ou fraseologia, sejam quais forem as teorias oportunistas ou pacifistas com que se enfeite (10).
Quando nos dizem que essa "tática russa" (expressão de David) não convém à Europa, nós respondemos habitualmente indicando fatos. Em 30 de Outubro, em Berlim, apresentou-se na direção do partido uma delegação de camaradas, mulheres de Berlim, e declarou "que agora, com a existência de um grande aparelho organizativo, é possível, muito mais facilmente que no tempo da lei contra os socialistas, difundir brochuras e panfletos ilegais e realizar "reuniões não autorizadas"". "Não nos faltam meios nem vias, mas, visivelmente, falta a vontade" (Berner Tagwacht, 1915, n.0 271).
Será que estas más camaradas foram desviadas do bom caminho pelos "sectários" russos, etc.? Será que as verdadeiras massas são representadas não por estas camaradas mas por Legien e Kautsky? Por Legien, que no seu relatório de 27 de Janeiro de 1915 fulminava a idéia "anarquista" de criação de organizações ilegais; por Kautsky, que se tornou a tal ponto contra-revolucionário que em 26 de Novembro, quatro dias antes da manifestação em Berlim de dez mil pessoas, qualificou as manifestações de rua como uma "aventura"!!
Basta de frases, basta de "marxismo" prostituído à la Kautsky! Depois de 25 anos de existência da II Internacional, depois do manifesto de Basileia, os operários não acreditarão mais em frases. O oportunismo mais do que amadureceu, passou definitivamente para o campo da burguesia, transformando-se em social-chauvinismo: ele rompeu espiritual e politicamente com a social-democracia. Romperá com ela também organizativamente. Os operários reclamam já uma imprensa "sem censura" e reuniões "não autorizadas", isto é, organizações clandestinas para apoiar o movimento revolucionário das massas. Só uma tal "guerra à guerra" é uma causa social-democrata e não uma frase. E a despeito de todas as dificuldades, das derrotas temporárias, dos erros, dos enganos, essa causa levará a humanidade à revolução proletária vitoriosa.





Notas:
(1)Não se trata aqui da personalidade dos partidários de Kautsky na Alemanha, mas desse tipo internacional de falsos marxistas que oscilam entre o oportunismo e o radicalismo mas na realidade servem apenas de folha de parra ao oportunismo.
Ministerialismo: o mesmo que millerandismo, tática oportunista de participação dos socialistas em governos burgueses reacionários. O termo surgiu em relação com a participação em 1899 do socialista francês Millerand no governo burguês de Waldeck-Rousseau. (regressar ao texto)
(2) A questão do millerandismo foi discutida em 1900 no congresso de Paris da II Internacional. O congresso aprovou uma resolução conciliatória proposta por K. Kautsky, a qual condenava a participação dos socialistas no governo burguês , mas admitia a possibilidade dessa participação em casos "excepcionais". Os socialistas franceses utilizaram esta ressalva para justificar a sua participação no governo da burguesia imperialista no período da Primeira Guerra Mundial. (regressar ao texto)
(3) A Crise da Social-Democracia. (regressar ao texto)
(4) Bernsteinianismo: corrente oportunista na social-democracia internacional surgida no fim do século XIX na Alemanha e designada segundo o nome de E. Bernstein, o mais aberto representante do revisionismo. Bernstein pronunciava-se contra a doutrina da revolução socialista e a ditadura do proletariado, declarando como única tarefa do movimento operário a luta por reformas, pela melhoria da situação econômica dos operários no quadro da sociedade capitalista.
Nos congressos do Partido Social Democrata Alemão K. Kautsky criticou o bernsteinianismo, mas não colocou decididamente a questão da incompatibilidade da revisão do marxismo com a permanência de fileiras nas fileiras da social-democracia. (regressar ao texto)
(5) Socialistas "amplos": na Bulgária o mesmo que "Obschedeltsi" . Corrente oportunista do Partido Social-democrata Búlgaro, que desde 1900 editou a revista Obscho Delo. Depois da cisão do X Congresso (1903) do Partido Social-Democrata, os "obschedelsi" formaram o Partido Social-Democrata Búlgaro, reformista. Durante a Primeira Guerra Mundial os "obschedeltsi" tiveram uma posição chauvinista. (regressar ao texto)
(6) O destino conduz aquele que consente, arrasta aquele que resiste. (regressar ao texto)
(7) F. Engels, Para a Crítica do Projeto de Programa Social-Democrata de 1891. (regressar ao texto)
(8) Luta de Classe contra a Guerra! Materiais para o "Caso Liebknecht". Publicado como Manuscrito. (regressar ao texto)
(9) Em 1º de Novembro d 1914 foi publicado no jornal Sotsial-Demokrat o manifesto do CC do POSDR A Guerra e a Social-Democracia Russa, escrito Lenin. O manifesto definiu o caráter da Primeira Guerra Mundial como guerra imperialista e elaborou a tática dos bolcheviques: transformação da guerra imperialista em guerra civil. O manifesto condenou o social-chauvinismo dos dirigentes da II Internacional. (regressar ao texto)
(10) No congresso internacional de mulheres em Berna, em Março de 1915, as representantes do CC do nosso partido indicaram a necessidade absoluta de criar organizações ilegais. Isto foi rejeitado. As inglesas riram-se dessas propostas e enalteceram a "liberdade" inglesa. Mas alguns meses mais tarde foram recebidos jornais ingleses, como por exemplo o Labour Leader *, com espaços em branco, e posteriormente chegaram notícias de buscas policiais, de confiscação de brochuras, prisões e sentenças draconianas contra camaradas que na Inglaterra falavam da paz e só da paz!
*The Labour Leader (O Dirigente Operário): jornal semanal inglês, publica-se desde 1891. A partir de 1893 foi órgão do Partido Trabalhista Independente da Inglaterra. Desde 1946 publica-se com o nome de Socialist Leader (Dirigente Socialista). (regressar ao texto)

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Lady Gaga, Salman Khan