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quinta-feira, 11 de abril de 2013

TODOS AO ATO DOS PROFESSORES CONTRA A PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E DA EDUCAÇÃO PÚBLICA!

São inúmeros e constantes os ataques à categoria de professores do estado de SP através da política de precarização da educação pública e dos trabalhadores da educação por parte dos governos. São salas super lotadas, falta de materiais didáticos, falta de salários dignos, jornadas de trabalho extensas, escolas que parecem prisões, terceirização dentro das escolas e a falta de estabilidade e direitos para os professores.  É necessário lutarmos pelo reajuste salarial de 37% e pelo cumprimento da lei do piso e da jornada de 1/3 fora da sala de aula, mas o programa que responde à um salário e jornada dignos é retomar nossa bandeira histórica do salário mínimo do DIEESE (R$ 2.674) para 50% de jornada fora da sala de aula, e lutarmos contra a precarização do trabalho e da vida dos professores, em especial os “categoria O”, contra a aplicação da provinha e  contra a duzentena que deixa os professores por 200 dias sem aula para que não criem vínculos empregatícios com o Estado. Somos todos professores, por isso lutamos por salários iguais e direitos iguais!!! E para isso é necessário defender a efetivação dos professores temporários sem concurso público.
No estado de São Paulo a jornada de 1/3 não é aplicada, mas também nacionalmente prefeitos e governadores exigiram na justiça revogar a lei do piso, não apenas representantes tucanos, mas também figuras como Tarso Genro e Jaques Wagner (PT). 
A corrente de professores “Professores pela Base” convida a tod@s para o ato de professores votado na reunião de Representantes de Escola da APEOESP, que se realizará no próximo dia 13/04 as 9h na Catedral em Campinas,como parte da nossa da mobilização para a greve de professores do estado de SP que se inicia dia 19 de abril. Devemos organizar a greve pela base através de comitês de mobilização por escolas, fazendo com que as decisões e rumos de nossa luta sejam decididos pelos professores e não pela burocracia que dirige o sindicato (Artnova/Artsind e PcdoB).
A mobilização da nossa categoria deve estar em aliança com os demais trabalhadores da educação, com os estudantes e com toda população, com discussões vivas nas escolas e universidades, solidariedade concreta, com a participação efetiva da comunidade escolar, pais e estudantes das escolas, pois assim poderemos unir e coordenar a luta de todos. Convidamos para que se aliem, merendeiras e trabalhadores da limpeza, agentes de organização escolar, para junto conosco barrar os ataques do governo Alckmin à educação, que também são ataques a todos os demais trabalhadores.
TODOS AO ATO PARA LUTAR POR UMA EDUCAÇÃO PÚBLICA, GRATUITA E DE QUALIDADE!
DIA 13/04 (SÁB) AS 9H NA CATEDRAL- CENTRO DE CAMPINAS
           http://www.professorespelabase.net/ 

terça-feira, 2 de abril de 2013

Para um giro “hayekiano-schumpeteriano” alemão? (sobre como a desigualdade econômica poderia aumentar as tensões interimperialistas)



por Paula Bach







Para além do resultado imediato dos sucessos do Chipre, é provável que a recessão europeia esteja colocando em cena um elemento relativamente novo na situação econômica mundial.
Ao final de 2010, a crise grega foi o primeiro indício crítico no modo no qual se evitou uma destruição massiva de capitais. As dívidas estatais criadas como medidas de contenção contra a depuração do endividamento privado pós-Lehman, se converteram em um elo débil que provocou recorrentes situações nas quais a Europa e o mundo ficaram a beira de novos cenários catastróficos sempre evitados na “última trincheira”. A partir desse momento se impôs uma tensão constante entre o discurso alemão mais “hayekiano” que suas ações as quais, não obstante, foram consolidando a situação recessiva na Europa.
Desde finais de 2010 e durante 2011 e frente às vultuosas dívidas publicas estatais em particular a dos “PIIGS” que os colocavam a beira da bancarrota, proliferou o mecanismo dos “resgates” que mediante pacotes de nova dívida outorgados desde a troika (BCE, FMI, UE) resguardaram fundamentalmente aos bancos com ativos críticos. Os ditos “resgates” que só em alguns casos excepcionais como o da Grécia, estabeleceram perdas aos credores, ocorreram em todos os casos em troca de privatizações, reduções de salários dos empregados públicos, pensões, demissões, redução de seguros de desemprego, etc. As políticas aplicadas vinham sendo uma combinação por um lado de medidas monetárias (muito menos lassas que as norte-americanas) para evitar perdas dos credores impedindo uma limpeza profunda de capitais, e por outro, a implementação de ajustes violentos e medidas recessivas sobre a população que acabaram aprofundando a recessão. O resultado foi o fortalecimento de tendências recessivas na Europa que em 2012 terminaram ricocheteando em parte sobre a própria Alemanha, sinalizando uma tendência relativamente convergente da Europa para a recessão, para além das profundas divergências internas. Contudo, esse processo não produziu uma massiva destruição de capital financeiro (conforme a acumulação de dívida existente) que foi salvo mediante a acumulação de novas dívidas. De modo que o discurso “hayekiano” de Merkel foi na prática, muito debilmente hayekiano, como mencionava um colunista do Financial Times que temos citado várias vezes. Como dissemos no outro lado (em vários artigos da revista Estratégia Internacional nº28), e ainda reconhecendo as diferenças entre a política norte-americana e a europeia, era exagerado apelidar de “shumpeteriana” – como o faz Krugman- a política de Ángela Merkel. Uma coisa é o que a Alemanha quer fazer e outra aquilo que pode fazer. Também dissemos que a diferença entre as políticas alemãs e norte-americanas estavam associadas às posições relativas de ambos os países imperialistas.
A Alemanha deveria conseguir uma fortaleza que não possui e avançar na união bancária para definir uma política própria que a permita mudar qualitativamente a relação de forças. As recomendações dos neokeynesianos à Alemanha como também explicamos, são abstratas devido ao fato de que partem do suposto de que a Alemanha é aquilo que não é. Para fortalecer-se como imperialismo, a Alemanha precisaria aplicar políticas fundamentalmente contrárias às norte-americanas, quer dizer, deveria avançar sobre uma desvalorização massiva dos ativos europeus. As políticas “indicadas” para esses objetivos, seria deixar de atuar na crise, provocando uma desvalorização massiva de capitais, e isso é em parte o que começa a se colocar a prova no Chipre. Por trás da tentativa falida e suicida de pagarem parte das poupanças dos correntistas de menos de 100.000 euros (cujos depósitos estão garantidos desde a crise de 2008), a política que se termina pondo em prática é, para além do clássico “ajuste” sobre o Chipre, que o grosso da dívida vai ser paga pelos credores que não por causalidade são fundamentalmente russos. Isso coloca a pergunta de se a Alemanha (junto com Holanda e Áustria) realmente vai desenvolver uma política mais ofensiva de destruição/desvalorização de capitais na Europa para avançar sobre esses ativos, conseguindo como resultado uma relação de forças superior a nível mundial A proposta se enfrenta com muitas contradições e não tem, por hora, uma solução de sim ou de não. O grande problema que enfrenta a Alemanha é uma questão de “tempos” dada pelo fator de que todas as políticas que eventualmente a fortaleceriam em sua posição mundial, a debilitam como economia e por tanto como potencia. A dependência profunda da zona do euro fez com que as políticas recessivas debilitassem a própria economia alemã como se mostrou em 2012. A saída foi, em parte um giro para a Ásia e por isso creio eu que é muito importante avaliar em que medida este giro poderia se sustentar. Esta última questão tem que vem com avaliar até que ponto a relativa recuperação norte-americana é um freio para a queda da China. E, em última instancia, em que medida a China pode ser contratendência à recessiva zona do euro. Novamente, aqui os tempos tem um papel primordial. Porque se a China no curto ou médio prazo pode sustentar relativamente a Alemanha, poderia se concluir que a Alemanha estaria, em parte, em melhores condições de avançar com um plano mais “hayekiano” sobre a Europa. Se assim ocorrer, contraditoriamente, a desigualdade entre Estados Unidos e Europa poderia mudar os termos da equação. Quero dizer que, a desigualdade entre Estados Unidos e Europa o qual através da relação com a China poderia propiciar uma situação de relativa calma econômica durante o próximo ano, poderia por sua vez ser a base para um maior avanço alemão sobre a zona do euro. Esta situação poderia ser o ponto de partida da combinação de uma recessão muito maior na Europa e um eventual fortalecimento da Alemanha na relação de forças internacionais. Uma situação tal como essa colocaria o recrudescimento das tensões entre Alemanha e Estados Unidos como consequência (e isso é o interessante), não de uma grande agudização da crise, se não de uma relativa calma econômica que permita à Alemanha um avanço parcial sobre o seu quintal. Isto é uma hipótese que parte de tentar pensar como pode manifestar-se a relação entre a economia e relações entre Estados na arena mundial. Assim como que o caráter histórico da crise atual não necessariamente terá que tomar a forma de estouros diretamente econômicos – ainda que desde já pode fazê-lo, como estamos vendo, a possibilidade de estouro continua sempre presente-. De todo modo, a hipótese esboçada tem muitos limites e contradições. Entre outras, o fato de que o endurecimento do discurso alemão se produz em um ano político eleitoral, assim como as declarações do presidente holandês do eurogrupo (logo desmentidas) no sentido de que o Chipre era o modelo a seguir, são parte de um mecanismo de ensaio e erro o que uma política de destruição massiva de capitais afetaria em grande parte ao próprio capital alemão. Por último e mais importante, o aspecto mais crítico é quando se pode sustentar a economia chinesa e por quanto tempo. Contraditoriamente, creio eu, uma maior crise na China, se por um lado contribuiria sem dúvida para um aprofundamento maior da crise econômica mundial, por outro tornaria mais lento os tempos do fortalecimento alemão. Por hora são só alguns elementos para a reflexão e em tal caso para a discussão. 




quarta-feira, 13 de março de 2013

domingo, 3 de março de 2013

O regime universitário será responsável por muitas "bibliotecas de Alexandria"..



por Fernanda Montagner



A biblioteca do Instituto de Estudos da Linguagem arde em chamas. Infelizmente essa não é mais uma analogia viva de um poeta, mas sim, a realidade crua da Unicamp. Essa biblioteca (uma das mais importantes da Unicamp com 1.725 metros quadrados, incluindo um acervo que conta com 105,6 mil livros, 1,5 mil títulos de periódicos e 3,2 mil teses e dissertações) sofre o calvário compartilhado por diversas outras, as próximas "Alexandrias". Os livros e documentos mais uma vez se perdem em meio às entranhas de uma universidade de elite para a elite, depois da inundação de dezembro de 2012 no IEL, que mergulhou um imenso arsenal de ideias documentadas no charco das goteiras, da infiltração e da fraude das empresas terceirizadas. É preciso questionar e por abaixo a estrutura de poder responsável por essas catástrofes. Um dos maiores monumentos da herança cultural da humanidade é refém da camarilha universitária que dirige o acervo. Mais: as vidas trabalhadoras estavam em risco se este incêndio acontecesse em horário expediente!

De costas para a população, dá milhões de reais  a construtoras terceirizadas, que demoram anos para terminar seus prédios, quando não entram em falência  ano após ano supostamente para pegar o dinheiro e entrar outra empresa fantasma, construindo seus elefantes brancos e cheios de problemas estruturais que colocam em risco  funcionários e estudantes que utilizam os prédios. Para além disso, há o fato de que essas construções são erguidas pelos braços de trabalhadores terceirizados, os mais explorados, que sofrem acidentes de trabalho e ganham uma miséria, sendo estes mesmos trabalhadores da construção civil que são ainda usados pelo governo para construir as obras da Copa e do PAC e que vem cada vez mais se levantando em Jirau, Belo Monte e outro locais (como os 16 operários ora presos no Amapá), contra as bárbaras condições de trabalho a que são submetidos. E a Unicamp, uma universidade pública de "excelência", é conivente com esse tipo de regime de trabalho.

Graças ao trabalho de alguns funcionários, o fogo não se alastrou para as salas onde ficam os acervos. Mesmo assim, as chamas destruíram as salas de trabalho e alguns livros que estavam nesses locais, tendo que novamente os funcionários e estudantes cuidarem dos acervos, como foi na inundação da biblioteca do IFCH em 2009, ou mesmo na recente inundação do IEL em 2012, enquanto os guardinhas da reitoria apenas tiravam fotos, as mesmas que são tiradas do movimento estudantil e dos trabalhadores para reprimi-los depois. Esse é o projeto privatista e elitista da reitoria, que o próximo reitor eleito (pelas ligações espúrias da Universidade com o governo do Estado e o interesses de grandes empresas), buscará manter como pilar estável deste regime universitário. Enquanto busca intensificar sua política repressiva, com as punições na USP e a ligação com o Ministério Público para acusar estudantes e trabalhadores de formação de quadrilha, volta a universidade de excelência para as grandes empresas monopolistas e bancos, como o Santander, colocando o conhecimento a serviço destas (e de suas chamas!), ao relegar os acervos a prédios sem manutenção e impedir que a população tenha acesso a estes na medida em que mantem o vestibular, como filtro para que a juventude pobre e da periferia não coloque os pés na universidade (restringindo com "a biometria" o  uso  público das bibliotecas aos estudantes, funcionários efetivos e professores da Unicamp).

É a estrutura de poder universitária, que junto aos governos do estado, é responsável por esse incêndio, pelos acidentes de trabalho, por impedir que a juventude e a população tenham acesso aos livros e ao conhecimento produzido na universidade. Para estes senhores, é melhor que os livros se percam, inundados e incendiados, a que sirvam às mãos daqueles que movimentam as engrenagens da universidade e do mundo. É fundamental que a intelectualidade e os estudantes repudiem este descaso do regime universitário contra as obras e o trabalho dos funcionários da universidade, cuja vida está em risco! Os centros acadêmicos e o STU denunciem a terceirização numa luta intransigente contra a estrutura universitária, para arrancarmos o conhecimento das mãos da elite restrita e voltarmos verdadeiramente a universidade para a população, para que os trabalhadores e a juventude tomem este espaço quanto seu por direito.




sexta-feira, 1 de março de 2013

Teses sobre arte.


por Santhiago Maribondo


1-A concepção kantiana de arte (base de todo irracionalismo filosófico alemão) vê a arte como algo metafísico, contato com o “Belo e Sublime”, algo místico e sacro; transcendente. O artista é o “Gênio”, ubermensch, homem-númeno, aquele que esta para além do bem e do mal, sua obra sendo algo indiscutível, posto ser a manifestação terrena do ‘Espírito do Tempo’. Contra essa concepção idealista o materialismo histórico/dialético concebe a arte como ideologia, em sua configuração mais alta e mais complexa, àquela que tem a relação mais mediada com a infra-estrutura. Reflexo/projeção da realidade, a arte é expressão ideológica dos conflitos entre as classes sociais na sua luta por hegemonia, com suas próprias leis e formas de manifestação.

2-Toda ideologia que aponte num sentido emancipador para as potencialidades humanas historicamente desenvolvidas, vistas a partir de uma perspectiva de classe, necessita de liberdade para se desenvolver; isso se potencializa quando se trata de arte. A produção de uma grande obra, que reflete e cria os sentimentos de seu tempo tornando-se assim parte da construção da sensibilidade e dos sentimentos humanos, só pode surgir a partir de múltiplas experimentações. A construção de um ambiente livre de coações e pressões externas é essencial para o florescimento de uma verdadeira produção artística.

3- A sensibilidade, os sentimentos humanos não são algo natural, parte de uma essência humana pré-existente em relação a história concreta, mas são expressão e manifestação das ações efetivas de seres humanos reais. Sensibilidade e sentimentos se criam e educam na ação histórica concreta de seres humanos concretos; a arte tem papel central na construção desses sentimentos e sensibilidades. O olho, o ouvido, se humanizam na relação com uma realidade objetiva cada vez mais transformada por nossa ação histórica; é brutalizada a visão, a audição, a sensibilidade daquele que não tem contato com a arte.

4-A humanização dos sentimentos e sensibilidades é fruto da ação histórica de seres humanos concretos, que apontam, a partir de suas posições históricas reais, os sentidos possíveis dessa ação.
No momento presente a ação histórica efetiva, que aponta um sentido possível, se dá a partir da posição das duas classes centrais do capitalismo: burguesia e proletariado. São esses os dois sujeitos sociais que apontam caminhos plausíveis para a ação histórica, é a ação dessas classes que coloca, portanto, perspectivas possíveis para a humanização de sentimentos e sensibilidades. 
Mas que possibilidades apontam cada uma dessas classes? A burguesia, como expressão dotada de consciência e inteligência do desenvolvimento do capital, esta ligada a seu destino. Cada vez mais se mostram evidentes os limites históricos do capitalismo, a necessidade de sua superação. Assim, a classe que por sua posição efetiva no metabolismo social capitalista carrega a possibilidade da emancipação das potencialidades humanas historicamente desenvolvidas é o proletariado. A arte verdadeira, que busca ser expressão e criação dessas potencialidades emancipadas se liga, de maneira consciente ou inconsciente, a classe revolucionária..

5-Como forma de manifestação da ideologia que é a produção artística esta insuperavelmente ligada aos conflitos de seu tempo. Não existe arte pura ou neutra, no sentido de uma arte que busque se produzir como numa torre de marfim, isolada das demais expressões dos conflitos existentes em cada momento histórico. Uma arte que se veja como acima ou aparte dos conflitos de seu tempo tem uma posição sobre eles. Na luta entre exploradores e explorados não escolher de que lado lutar é já uma escolha.

6-A relação dos revolucionários com a produção artística é mediada pela correlação de forças da luta de classes. Nosso programa para a arte é: “toda licença à arte”; que se possa produzir sem nenhum tipo de coação ou pressão externa, de qualquer partido, estado ou direção. A arte que vai refletir e criar os sentimentos da época revolucionária só pode surgir como expressão espontânea da grandeza dessa luta; aqueles que precisam coagir a produção artística são aqueles que buscam encarcerar as potencialidades que a revolução só pode liberar.
Mas não somos liberais, mesmo no campo da arte. É evidente que com a agudização da luta de classes, com a guerra civil que ela pressupõe, a reação raivosa, os fascistas, os nazis, ou em outro momento os thermidorianos/stalinistas, se aproveitarão de todo espaço para lutar com todas as suas forças contra a revolução. Inclusive se aproveitarão de pretensas manifestações artísticas na sua luta. Contra isso os revolucionários se reservam o direito de se defender. Luta encarniçada à contra-revolução! seja mascarada de teatro ou dança, poesia ou música. 

7- A aproximação de um artista com uma organização revolucionária implica, obviamente, alguns acordos mínimos. Luta contra a exploração, contra as
 diferentes formas de opressão, racismo, machismo, homofobia, são alguns dos elementos extremamente gerais que devem mediar essa aproximação. Qualquer organização que se forma, e evidente que também as revolucionárias, pressupõem algum nível de comunidade de ideias. O artista que se aproxima de uma organização revolucionária deve estar subjetivamente convencido da necessidade da superação da exploração e das diferentes formas de opressão. Isso quer dizer que sua arte deve ser sempre uma arte militante? Não! `Aquele que produz compete a escolha dos temas de sua obra. Um artista convencido da necessidade da superação das contradições da sociedade capitalista irá, em alguma medida e de maneira espontânea, refletir isso em sua obra.

8- Não existe nem irá existir uma arte ou cultura proletária. A criação de toda uma época cultural, do qual a arte é manifestação, pressupõe todo um momento de dominação de uma classe sobre a sociedade de conjunto. A cultura burguesa é fruto de todo o desenvolvimento da dominação dessa classe, desde o momento do capitalismo mercantil onde ela é sócia menor da aristocracia sob o estado absolutista, até sua dominação monopólica no imperialismo com o capital financeiro.
A dominação do proletariado sobre a sociedade, sua ditadura de classe, só pode ter caráter efêmero, transitório; não existe tempo histórico, portanto, para o surgimento de uma cultura proletária. 
Além do mais os intelectuais orgânicos do proletariado, matéria prima da criação da cultura, serão absorvidos pelas necessidades mais prementes, mais pragmáticas, da luta pela superação do capitalismo. A arte não pode se desenvolver como necessidade pragmática, mas como livre manifestação da individualidade, da subjetividade do artista.
A arte do período revolucionário será em geral criação de artistas simpatizantes da revolução, mas que não lutam imediatamente por ela, “companheiros de viajem”, que não estarão ligados as necessidades mais diretas da luta de classes.
Isso quer dizer que não existirão artistas proletários, comunistas? Com certeza existirão, mas uma época cultural não se faz de exemplos individuais, mas de todo um grupo mais amplo. Quando os intelectuais orgânicos do proletariado puderem novamente se entregar a produção da arte, como forma maior da expressão de seus sentimentos, isso significará que já passamos do momento mais agudo da luta e que já transitamos não para a construção de uma cultura de classe, mas para uma cultura efetivamente humana.

9- A grande traição stalinista no campo da arte foi querer produzir um tipo de arte que fosse expressão oficial dos interesses dos trabalhadores e de seu estado, o realismo soviético. Não existe arte oficial, quando institucionalizada a arte perde aquilo que lhe é mais essencial, ser livre expressão da sensibilidade, dos sentimentos, da subjetividade do artista.

10-A arte produzida pela indústria cultural, arte venal, produto a ser vendido no mercado e a ser consumido na sala de jantar da família cristã, também é um ataque a arte verdadeira. Proletarização do artista, apêndice de carne em engrenagens por ele desconhecidas, arte alienada, estranhamento em seu mais alto grau. O capital torna tudo mercadoria, o artista submetido a indústria da cultura se torna o animador das festas de salão da burguesia. O desenvolvimento do capitalismo, o seu tornar todos os campos de manifestação humana algo a ser comercializado e produzido para a comercialização coloca também o artista diante de uma escolha: se submeter ou lutar contra a dominação!

11-Os revolucionários tem uma visão muita grande sobre a arte para aceitar que ele a se torne mais uma mercadoria nas prateleiras, ou para a partir dela pretensamente virar as costas para as contradições que vivemos. A arte está inserida nessas contradições e pode ser arma, machado, fuzil, na luta para superá-las. Pode parecer batido, mas na verdade é cada vez mais atual: “a revolução nos dará não apenas o pão, mas também a poesia”.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Como os nazistas poderiam ter sido parados? Lançamento da brochura "E agora?" de Léon Trotsky sobre a Alemanha dos '30 e a luta dos bolcheviques-leninistas da Oposição de Esquerda contra o ascenso de Hitler





por Wladek Flakin, membro da Organização Internacionalista Revolucionária-RIO, seção simpatizante da FT-QI na Alemanha; fim de Janeiro de 2013. Tradução: Marie Castañeda.

Esse folheto foi traduzido para o alemão por J. Frankel e foi publicado pela Oposição de Esquerda da KPD. Esta versão foi baseada na transcrição de Einde O'Callaghan para marxists.org do ano de 2008. Fizemos numerosas correções e atualizamos a ortografia, além de termos ampliado as notas de rodapé.




Wie hätten die Nazis gestoppt werden können?






// Prefácio para a nova edição de “O que segue? Questões sobre o destino do proletariado alemão” de Leon Trotsky //
Há 80 anos, em janeiro de 1933, Hitler era nomeado chanceler. Nas semanas e meses seguintes as organizações formadas por milhares de operários alemães foram destruídas pelos nazistas. Essa catástrofe aconteceu sem que um só tiro disparasse. Como isso poderia acontecer, que o proletariado alemão simplesmente fosse de encontro com as facas?
As alegações da burguesia alemã, cujos livros de história apontam que toda a população se encontrava entusiasmada com Hitler, não conseguem esconder que a elite apoiava a NSDAP financeiramente, enquanto milhões de trabalhadores se encontravam dispostos a lutar contra o Ascenso dos Nazistas.
Por que não aconteceu um enfrentamento decisivo? As maiores organizações de trabalhadores na Alemanha, a SPD e a KPD, rejeitaram qualquer tipo de trabalho conjunto contra o perigo fascista. O revolucionário russo Leon Trotsky, exilado na ilha turca de Prinkipo por sua luta contra a burocracia stalinista da União Soviética, ao contrário colocava em numerosos artigos e folhetos a necessidade de uma frente única dos trabalhadores contra o Fascismo[1]. Ele se referia à política de frente única que a internacional comunista desenvolveu antes de sua burocratização stalinista, como lição dos processos revolucionários após a I Guerra Mundial, principalmente da Revolução de Outubro na Rússia. 
No contexto da crise econômica de 1929, o capital alemão não conseguia mais conviver com a existência de organizações de trabalhadores fortes, até mesmo sindicatos reformistas não podiam mais ser tolerados, dada a crise na exploração. O setor da população jogado na miséria, principalmente pequeno-burgueses, procuravam por soluções radicais. A tarefa história do fascismo consistia em fazer com que esses grupos combativos se colocassem contra as movimentações operárias. Perante esse perigo, todas as organizações operárias teriam de permanecer unidas. Desde que a SPD concordou com a I Guerra Mundial no dia 4 de agosto de 1914 por meio de sua direção, ela se tornou uma agência da burguesia. Na República de Weimar ela geria uma frande parte do estado burguês cumprindo os desejos dos capitalistas e perante a crise ela apoiou o governo de Brüning com seus decretos de emergência que atacavam o proletariado. A direção da KPD estava por sua vez completamente subordinada à burocracia da União Soviética, ela seguia as ordens de Moscou, e naquela época se dizia que a socialdemocracia em realidade ela o “socialfascismo”. A crise econômica levou a uma radicalização de amplas camadas. Principalmente a pequena burguesia foi atraída pelos nazistas, enquanto os trabalhadores, mesmo que em menor medida, iam à KPD, levando em conta sua política stalinista. Trotsky argumentava que um Partido Revolucionário dos Trabalhadores poderia ganhar até mesmo a pequena burguesia, desde que mostrassem uma saída revolucionária clara para a crise. A direção da KPD, porém, se negava a construir uma frente única proletária e tornava impossível ganhar as massas de trabalhadores para uma perspectiva revolucionária e levar outras camadas consigo.


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Trotsky sugeria aos trabalhadores comunistas em poucas frases a seguinte política para lidar com seus companheiros socialdemocratas: “A política dos nossos partidos é irreconciliável; mas se os fascistas viessem essa noite, para destruir os cômodos da sua organização, eu viria com armas em punho para ajudar. Você promete ajudar da mesma forma, caso esse perigo ameace a minha organização?” [2]
Mas a questão da frente única não era para Trotsky somente uma questão defensiva. Era uma “defesa ativa com perspectiva de transição para ofensiva”.[3] A estrutura da frente única não se limitaria ao combate aos nazistas, trataria também de todos os possível problemas da classe operária. A frente única teria de ser acompanhada de construção de órgãos para a auto-organização dos trabalhadores, que prepararia o operariado internamente para uma ofensiva, que poderia ser empregada contra a patronal da burguesia. Ou como explicitava Trotsky: Façam uma verdadeira frente única das grandes organizações proletárias “e vocês terão o soviet berlinense dos deputados operários!“[4] A frente única deve se formar portanto pena necessidade de uma defensiva antifascista, e levar essa luta defensiva então a uma ofensiva revolucionária.
A tática de frente única sugerida por Trotsky não foi livremente inventada, como já mencionado,ela foi generalizada na terceira e na quarta Internacionais Comunistas. A frente única é então não só uma política de aliança, ela contém também uma luta política dos partidos socialistas contra suas próprias alianças, tratando de ganhar as bases para sua política de revolução socialista.
Muita confusão ainda acontece nesse assunto até hoje pelo slogan usado pela KPD “Frente vermelha” ou “Frente da base”, que foi uma aliança construída com a direção da SPD como “alternativa revolucionária”. Analisando a derrota brutal das tentativas de revolução de 1919 até 1923 pela SPD e também o Maio de Sangre de Berlin em 1929, o posicionamento da direção da SPD é entendido. Revoluções, porém, não são feitas por poucos comunistas que perceberam quão reacionária é a SPD. Revolução são feitas pelas massas proletárias e dessa muitos ainda tinham confiança da direção socialdemocrata. Política revolucionária teria o papel de esclarecer como sob a direção da SPD a ameaça de sua queda era constante. Essa mudança de consciência não poderia ser alcançada com a denúncia insistente pela KPD, que carrega também responsabilidade pela grande derrota, sobre o caráter reacionário da SPD. No lugar disso, a SPD teria de ser testada em ação política.
A frente única da KPD e SPD - sob condições levadas a cabo publicamente perante as massas - teria impelido a liderança da SPD à luta mediante a depreciação de sua imagem. Nesse sentido tentou frear a mobilização em cada passo decisivo, perdendo credibilidade abertamente, assim a KPD se forjava como consequente defensora dos interesses do proletariado, para assim ganhar as massas para a revolução socialista. Ao invés de travar essa luta com a SPD, a KPD mantinha o lema da “Frente Vermelha” assumindo que as massas romperiam por si só com a socialdemocracia e se aliassem ao Partido Comunista.
No reino alemão existiam também cidades pequenas, nas quais a Oposição de Esquerda da KPD (a organização trotskista, que trabalhava como organização externa da KPD) tinha condições, devido a seu tamanho relativo, de forjar uma verdadeira frente única de todas as organizações de trabalhadores locais. Em Bruchsal (Estado federal de Baden-Württemberg), em Klingenthal (Estado Federal de Sachsen) e também em Oranienburg (Estado Federal de Berlin) a SPD, KPD, LO e trabalhadores indepentes puderam desde diversas comissões minimizar o avanço dos nazistas com sucesso.[5] O exemplo porém parou nesses poucos casos. Até depois do dia 30 de janeiro de 1933 o posicionamento dos dois partidos conformados por trabalhadores, SPD e KPD, continuou sem se mobilizar nacionalmente para combater os nazistas. Que Assim como a banda austríaca “Die Schmetterlinge” (As borboletas) uma vez cantou, essa política se manteve “até que os socialdemocratas e os comunistas finalmente se viram unidos – no campo de concentração”[6]


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Wie hätten die Nazis gestoppt werden können?

Essa derrota sem que tivesse acontecido uma luta ainda é difícil de entender. A historiografia stalinista, cuja função era legitimar a política da KPD e dos Komitern sob a direção de Stalin e resgatar seu caráter isento de erros, provocava e ainda provoca muita confusão. Assim lemos nos textos stalinistas que a KPD, mesmo com sua “Tese socialfascista”, teria lutado pela frente única. Em alguns textos dos movimentos anti-fascistas atuais também encontramos que a organização de frente única chamada pela KPD “Ação anti-fascista” de fato era a frente única do movimento operário alemão.
Dado que as movimentações anti-fascistas hoje para muitos adolescentes, que querem travar luta contra os nazistas, são o primeiro ponto de referência, precisamos traçar a imagem histórica desses movimentos (mesmo sendo claro que o movimento anti-fascista é composto de diversas correntes e posicionamentos).
A esquerda anti-fascista internacional de Göttingen escreve: “A KPD queria formar uma frente única de todos os anti-fascistas de trabalhadores da KPD, SPD, trabalhados organizados cristãos, sindicalizados e não sindicalizados, oficiais, agricultores, artesões e intelectuais.”[7] Eles não tentam explicar porque o chamado da KPD se limitava aos que aceitavam lutar sob a sua direção, e porque a direção da SPD se recusava a uma luta conjunta desde o princípio.
O ativista anti-fascista e historiador Bern Langer descreve exatamente o contrário em um panfleto para os 80 anos da fundação da Ação Antifascista. Para a “política de frente única, como decidido nos 3º e 4º Congressos dos Komitern, estaria definida a procura de alianças com as bases de outros partidos de trabalhadores, sem fazer coalizões com os mesmos. A frente única portando não significava um trabalho coletivo de organizações, senão a dominação do movimento operário pelos comunistas [8]. Assim Langer confunde a política de frente única com a “Frente única de base” ou “Frente Vermelha”, pelas quais os partidos stalinistas desenvolviam alianças de si mesmo com seus maiores simpatizantes, para desviar a pressão de construir uma verdadeira frente única. Para isso, são escondidos vários exemplos, como quando nos anos 20, a KPD construía frentes únicas sob inclusão ofensiva da SPD, até mesmo com a sua direção.
Nos dois textos históricos da cena antifascista não existem explicações para a derrota do movimento operário alemão. Essa lacuna é uma possível explicação para o profundo pessimismo histórico que o movimento antifascista carrega. A classe operária melhor organizada daquela época não pode parar o fascismo, esse pessimismo pode ter sido a semente que deu espaço para movimentos “anti-alemães” com teorias de que o fascismo poderia ter sido consequência de características específicas dos alemães.
A ausência de lições tiradas pelo movimento antifascista é clara quando analisamos sua prática política atualmente. Contra a maior demonstração nazista na Europa, que se reunia ano a ano no mês de fevereiro e em Dresden, aconteciam durante todo o ano pequenos e isolados atos antifascistas, que se colocavam contra os nazistas e a burguesia. Mesmo não tendo levado esse nome, essa adaptação se encaixaria bem na “Teoria socialfascista” dos stalinistas.
A partir de 2010 foram organizados bloqueios, impulsionados por distintas forças do movimento antifascista. Esses atraiam diversas camadas (integrantes da SPD, Partido da Esquerda e sindicatos). Essas alianças conseguiam construir verdadeiros bloqueios, a esquerda radical porém não fez uso dessa oportunidade para colocar em crise seus aliados socialdemocratas e ganhar as suas bases. (Mesmo com a socialdemocracia deixando o terreno preparado para que os nazistas crescessem, com o Hartz IV, a Guerra no Afeganistão e o “Compromisso de Asilo”). Por isso, mesmo com importantes vitórias táticas, não podemos falar de um avanço estratégico, ou crescimento das forças revolucionárias na Alemanha.
O trotskismo trata com pouca clareza essa questão. Floriam Wilde, que compõe o Partido de Esquerda, vê positivamente todos os “grupos socialistas” na República de Weimar, ou seja a SAP, a KPO e até os trotskistas, sem diferenciar as correntes com as suas diferentes políticas Ed frente única e estratégias.[9] Marcel Bois, militante do grupo „Marx21” e do Partido de Esquerda explica a política de frente única como uma política puramente defensiva, desligada de uma estratégia para a revolução socialista.[10] Com essa perspectiva os dois negligenciam a explicação dada por Trotsky nos folhetos, onde explicava que os grupos centristas, que concebiam a política de frente única como um fim em si mesmo, não davam uma resposta revolucionária à crise capitalista e consequentemente não podiam desenvolver uma política para a vitória contra Hitler. Porque só a revolução socialista (não a “resposta positive” à crise, desenvolvida por Wilde, seja lá o que ela for) pode realmente liquidar o perigo fascista. Esta indefinição história combina com o posicionamento de “União das Esquerdas” dos dois historiadores, que querem empregá-lo no modelo de Partido de Esquerda reformista, sem defender uma clara estratégia revolucionária.
Para os maoistas da MLPD a análise é muito mais devastadora. Mesmo com seu posicionamento positivo em relação à Stalin e à KPD, eles assumem que a “Tese socialfascista” funcionou como um “erro trágico”. Porém, justificam o erro com o indicativo de que “naquela época ninguém poderia imaginar a real extensão do terror fascista.”[11] Eles não tratam, nem analisam a política de Trotsky, que não só denunciou o erro no momento certo (e não décadas depois) como também desenvolvia uma alternativa. A MLPD continua presa às calúnias imprudentes desenvolvidas pela burocracia stalinista contra Trotsky, usadas para justificar seu assassinato e o assassinatos de milhares comunistas, mesmo depois da abertura dos arquivos soviéticos, que não trazem nenhum indício. A sua consigna central atual contra o perigo fascista, “Pela proibição de todas as organizações fascistas!”, não significa um avanço. Porque em vez de propagandear uma frente única de trabalhadores, eles impulsionam uma “frente única” com o Estado Burguês, chamado para defender os trabalhadores. Dessa ilusão reformista na democracia burguesa, que era presente também na SPD do começo dos anos 30, Trotsky também trata no folheto.
***
As lições tiradas da derrota do proletariado são ainda mais importantes atualmente. A crise do euro, que encontra seu elo débil e se apresenta de forma mais acentuada na Grécia, conflui em uma polarização política. Os fascistas organizados na “Aurora Dourada”, que há pouco tempo ainda era composta por poucos, receberam centenas de milhares de votos. O Syriza, pequeno partido reformista de esquerda, cresceu da noite para o dia como referência política para milhões.
A direção do SYRIZA porém luta por fazer parte do Estado Burguês e acredita poder resolver a crise por dentro do sistema capitalista e por meio de negociações com a União Europeia. Assim, espalha ilusões reformistas que só podem levar a derrota e desapontamento das massas. Justamente uma esquerda que se segura firmemente no sistema capitalista, deixa que os fascistas se diferenciem como supostos "opositores do sistema”.
A tarefa necessária na Grécia não consiste portanto em uma “Unidade das Esquerdas” em um partido reformista, como reivindicam alguns grupos que se intitulam revolucionários. O trabalho da esquerda tampouco pode se resumir a confrontos com militantes fascistas, dos quais somente a juventude autonomista participa.
Não, a tarefa principal consiste na luta por uma verdadeira frente única: as massas de trabalhadores tem de se envolver por si só em uma autodefesa anti-fascista. As estruturas necessárias para isso, podem e tem de (similar à situação da qual Trotsky trata no folheto) se desenvolver a organismos de auto organização e de luta contra os cortes de austeridade da burguesia grega e europeia. Para isso se faz necessário que se construa um Partido Revolucionário consequente, constituído pelo operariado e pela juventude grega, que lute por meio da frente única por uma ampla unidade da classe trabalhadora contra o perigo fascista e contra as direções reformistas dos Partidos Amplos, para a construção de uma perspectiva revolucionária, para um estado operário como passo em direção à ditadura do proletariado.
Da derrota sem luta sofrida pelo movimento operário melhor organizado no mundo em 1933, e desde a recusa dos Comintern stalinistas de tirar qualquer tipo de lição do processo, Trotsky e seus seguidores concluíram a necessidade da luta por uma nova Quarta Internacional. A reconstrução da Quarta Internacional se mostra necessária hoje, para derrotar o fascismo e dar uma resposta à crise internacional pelos trabalhadores e pela juventude.
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O presente texto „Was nun? Schicksalsfragen des deutschen Proletariats“ é parte dos escritos de Leon Trotsky sobre a situação na Alemanha antes e depois do Ascenso fascista. Trotsky escreveu estas cartas em janeiro de 1932 na ilha turca Prinkipo, na qual ele viveu exilado por conta de sua oposição ao regime de Stalin de 1929 a 1933.
O marxista britânico Perry Anderson escrevia sobre os escritos de Trotsky que tratavam da Alemanha, dizendo que “sua qualidade como análise concreta de uma situação política na história do materialismo” era única. Trotsky conseguia desenvolver sua análise mesmo estando afastado da luta diária do operariado alemão: “Ao caráter internacionalista de suas intervenções, que deu à classe operária alemã uma arma contra a ameaça de perigo mortal, Trotsky se manteve até o fim da sua vida”[12] É ainda mais espantoso que esses escritos só tenham sido publicados em alemão em 1971, em forma de livro. [13]
Ainda hoje os escritos de Trotsky são bastante desconhecidos na Alemanha. Com a publicação de escritos escolhidos no Arquivo-Trotsky queremos dar uma contribuição para que as conclusões políticas que Trotsky desenvolveu na luta contra o fascismo e por uma revolução socialista que atingem uma escala global, sejam conhecidas por um público amplo, dado que hoje, frente à maior crise capitalista à nível mundial desde os anos 80, são mais relevantes do que nunca na história.

Notas de rodapé
[1]. Até a metade de 1932 foram vendidos por volta de 67000 exemplares do folheto. Seus artigos eram majoritariamente publicados no Jornal Revolução Permanente, que era publicado pela Oposição de Esquerda da KPD, com 5000 exemplares por semana. Fonte: Anton Grylewicz: Die Entwicklung der deutschen Opposition. In: Annegret Schüle: Trotzkismus in Deutschland bis 1933. „Für die Arbeitereinheitsfront zur Abwehr des Faschismus“. Köln 1989.
[2]. Leo Trotzki: Die Wendung der Komintern und die Lage in Deutschland.
[3]. Leo Trotzki: Die Tragödie des deutschen Proletariats. In: Ebd.: Porträt des Nationalsozialismus. Essen 1999. S. 292.
[4]. Diese Broschüre, Kapitel 13.
[5]. Vgl.: Marcel Bois: Die „(Vereinigte) Linke Opposition“ 1930 – 1933. Unveröffentlichte Magisterarbeit an der Universität Hamburg. 2003. S. 96-102.
[6]. Die Schmetterlinge: Hitler Blues.
[8]. Bernd Langer: 80 Jahre Antifaschistische Aktion. Göttingen 2012. S. 7.
[9]. Veröffentlicht in der Broschüre Block fascism! S. 16-26. Auch auf Englisch in International Socialism Nr. 137.
[10]. Marcel Bois und Florian Wilde: Durch gute Arbeit überzeugen. In: Marx21. Nr. 3. Berlin 2007.
[12]. Perry Anderson: Über den westlichen Marxismus. Frankfurt am Main 1978. S. 141-42.
[13]. Leo Trotzki: Schriften über Deutschland. Herausgegeben von Helmut Dahmer. Frankfurt am Main 1971.





domingo, 17 de fevereiro de 2013

Quantos jovens mais?





Iaci Maria


Quantos mais? Quantos mais jovens perderemos para a miséria da vida, para a opressão? Quantas mais vidas, valiosas vidas, serão desperdiçadas, por falta de alternativa, por falta de perspectiva? Por só conseguir enxergar no horizonte uma saída: dar fim a tudo aquilo que angustia. Até quando viveremos sem questionar em um sistema onde dar fim a própria vida é considerado uma alternativa, por falta de alternativas! Até quando veremos jovens decidirem que é melhor não viver, do que viver nesse mundo?

Não conheci Marcio tanto quanto gostaria de ter conhecido, nossa aproximação se deu no final de 2012. Mas conheci um cara muito inteligente, que sabia muito de muitas coisas, e sempre tinha algo pra falar, sempre tinha uma opinião para dar, sobre o que quer que fosse. E sempre valia a pena parar para ouvir, nem que fosse para iniciar uma longa discussão! E sempre iniciava. "Mas chega de falar de política, vamos falar de coisa boa! Você viu a novela ontem?", ele dizia, antes de conseguir fazer uma análise política da novela, e isso ser o começo de uma nova discussão política.

Marcio foi mais um. Mais um jovem de esquerda, mais um jovem marxista. Que lutou, foi perseguido, seguiu lutando, seguiu sendo perseguido. Acreditou em outro futuro, acreditou, em algum momento ao menos, em um mundo sem violência, sem miséria, sem opressão, sem machismo, sem racismo, sem homofobia. E lutou por esse futuro em que acreditou. Mas em dado momento não pôde mais. E tombou. Mais um jovem que tomba em meio a batalha de viver a vida.

O companheiro defenderia uma tese sobre a criminalização dos movimentos sociais. "É a tese sobre a minha vida", ele sempre dizia. Seguiremos defendendo essa luta, seguiremos travando uma batalha não só contra a criminalização dos movimentos sociais, mas contra todas as mazelas sociais. Contra toda a opressão que ele tanto lutou, e por outro mundo, onde tirar a própria vida não será mais alternativa pra jovem nenhum!

"A vida é bela. Que as gerações futuras a limpem de todo o mal, de toda opressão, de toda violência e possam gozá-la plenamente." - Trotsky, 1940.

Companheiro Márcio, presente! Agora e sempre!

Em memória de um amigo distante...




Alessandro de Moura



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A classe trabalhadora perde mais um combatente. Foi em uma assembléia estudantil da Unesp onde o vi pela primeira vez. Não o conhecia, Marcio, com o dedo em riste, em defesa de uma greve estudantil fez uma intervenção furiosa contra a UJS-PCdoB e o governismo. Votamos juntos pela greve. Naquele ano tivemos uma greve que durou três meses. Fiquei curioso em saber mais sobre aquele rapaz, logo me disseram que era do grupo dos marxistas, o que me gerou mais curiosidade. Era meu primeiro ano de faculdade em ciências sociais, já era o terceiro de Márcio no mesmo curso.
Na primeira ocasião em que conversamos mais profundamente fiquei ainda mais impressionado, caracterizando-se como marxista, muito atento ao método dialético, discutia variados temas de forma profundíssima. “Do simples para o complexo, do complexo para o simples”. Numa ocasião debatíamos sobre o capitulo Maquinaria e grande indústria, em determinado momento da conversa, ele disse que achava um absurdo as pessoas gostarem de ir trabalhar de carro, pois com isso começavam a trabalhar mais cedo, pois o carro é uma maquina que precisa ser operada como qualquer outra... “Dirigir até o trabalho é atividade não remunerada”. Curiosa observação, sempre me lembro dela quando preciso dirigir. Estávamos em pleno acordo que o marxismo revolucionário tinha que discutir o cotidiano.
Daí em diante nossos encontros tornaram-se cada vez mais agradáveis. Em um domingo ou outro almoçava na casa onde eu morava com minha companheira, que também era muito amiga de Márcio. Almoços longuíssimos. Começávamos a cozinhar às duas da tarde, depois do almoço um café, a noitinha um lance, mais café, mais política, mais marxismo. Insistia em discutir antropologia por uma via marxista, por essa via discutia as percepções sociais, ha anos debatia fenomenologia, formação das cidades e seu caráter de classe, os mapas da violência, a violência contra as mulheres, pobreza e desigualdade. De vez enquanto ele reclamava, “chega de falar de política”, só que não... seguíamos conversando até a madrugada. Marxismo e política nacional, a prática política dos partidos. Lênin e a revolução russa, suas conquistas, as degenerações stalinistas, as posições políticas dos professores stalinistas do campus, e a nossa... Por luta política contra a reitoria, contra a direção da faculdade e sua congregação fomos perseguidos. Sofremos processo de sindicância na UNESP, primeiro Marcio, depois eu. Mas isso não nos impediu que continuarmos nos organizando, não nos impediu de buscarmos organizar pessoas para a luta e enfrentamento. 
Em outra ocasião eu, em conjunto com outros estudantes, organizava um ônibus para um congresso de sociologia em Recife. A longuíssima viagem de ônibus teria sido muito menos prazerosa se não fosse sua presença. No primeiro dia convenceu-me a conhecer algumas regiões da cidade. Durante cinco dias conversamos e passeamos por Pernambuco. Depois que entrou no doutorado na Unicamp acabamos por nos afastar. Nos encontramos novamente na greve da USP em 2009. Claudionor Brandão havia sido demitido e preso por lutar pelos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras terceirizados, estávamos em combate pela readmissão de Brandão, contra a Reitoria da USP e as políticas do governo Federal e Estadual, contra as perseguições aos estudantes. De repente encontro Márcio, super sorridente... Conversamos... Tinha um show do Tom Zé no velódromo... Durante a apresentação, Marcio tentava convencer-me a me transferir para a Unicamp... Eu resisti. Após a interrupção da apresentação nos despedimos, “Vamos marcar alguma coisa”, “eu te ligo”’... E os anos passaram... Depois disso um rápido encontro em um congresso sobre a classe trabalhadora em Marília, com agenda apertada nos falamos brevemente... Em 2012 fiquei sabendo que fora punido pela Reitoria da Unicamp por ter lutado por políticas de permanência estudantil em favor dos estudantes o documento com sua sentença dizia “Em relação ao discente Marcio Ricardo de Carvalho – RA 080272, em face de sua citação regular e revelia, também aplico a penalidade de 06 (seis) meses de suspensão de suas atividades letivas. Perseguido novamente por lutar, desta vez por determinação da Reitoria da Unicamp, Marcio perdeu sua bolsa de pesquisa.
No final de 2012 estive em uma atividade na Unicamp, uma amiga que ainda estuda nessa universidade, e milita na mesma organização que eu, disse que havia conhecido Márcio, descobrimos mais uma amizade em comum. Ela me disse que Márcio perguntava por mim. Queria saber o que me levou a militar no trotskismo... Disse que convergíamos em muitas questões políticas e teóricas. Queria me fazer perguntas sobre minha militância e minhas “novas concepções”. Se eu optei pelo trotskismo, porque ele também não poderia? Certamente essas perguntar tornar-se-iam palco um debate longuíssimo como era de nosso costume e aprenderíamos ainda mais um com o outro, pois o marxismo é uma ferramenta para entender e mudar a vida! 
Márcio, bem ante que eu, era um fervoroso combatente anti-stalinista, por essa via contribui muito para que eu pudesse compreender a tradição stalinista no Brasil, criticava enfaticamente como o PCB atuou ao longo de sua trajetória no Brasil, como esse partido rompia com o marxismo, suas traições históricas à possibilidade da revolução brasileira, como encarava as demandas democráticas, como esse partido menosprezava a luta do povo negro, como desacreditava na força da classe trabalhadora. Combatia frontalmente a homofobia, por isso criticava acidamente a forma como esse partido tratava a homoafetividade e as demandas das mulheres. Critico voraz do governismo, não cansava de repetir que o PT governava para a burguesia e o patronato contra a classe trabalhadora. Analisava a esquerda e a direita brasileira, mas não encontrava um partido que atendesse as suas expectativas. Precisava de um partido revolucionário. Apenas com isso poderia colocar-se completamente na luta pela emancipação da classe trabalhadora. Por uma série de processos políticos sociais, esse partido não existe ainda no Brasil e Márcio, jovem combatente político de intelecto brilhante e desafiador não pôde construí-lo e nem mais esperar por ele.
Camarada Márcio, presente!!!



Uma reflexão sobre Obama, Django e Lincoln


Por Letícia Parks, estudante da Letras da USP





Há anos se usou o termo melting pot (ou caldo cultural) para dizer que os EUA eram o país da homogeinedade cultural e da liberdade para se viver qualquer diferença. O momento em que Obama, o exaltado presidente negro, se reelege é talvez o momento onde não é possível esconder que esse caldo nasce azedo e ensaguentado, com profundas desigualdades raciais e sociais expostas no seio do país de maior população carcerária do mundo1 . As últimas eleições presidencias evidenciaram o tamanho da crise política que se desenvolveu durante o primeiro mandato de Obama, com um bipartidarismo polarizado ao nível de uma disputa real entre Republicanos e Democratas como há tempo não se via em uma eleição americana. Dentro do Partido Republicano, o Tea Party insiste em ser a contra mão mais radical do discurso Obamista, exigindo leis brutais de segregação a imigrantes.
O discurso de posse de Obama revelou suas intenções em meio a esse Estado fragilizado pela crise, que vem desde 2008 perdendo sua localização hegemônica no imperialismo mundial: declara com demagogia que seu governo será o dos homossexuais, negros e povo pobre norte americano. Sua política real em nenhum momento foi essa, o que se demonstra pela duríssima repressão aos movimentos sociais que explodiram desde o início da crise, em especial o movimento Occupy Wall Street, onde a repressão policial e os discursos do governo federal mostraram que, contra os 99% atacados pelos planos de resgate, Obama estava ao lado do 1% de industriais e oligarquia financeira, levando milhares de americanos ao desemprego e a condição de sem tetos.
No momento de fissura de seu discurso, onde os que votaram em Obama pela segunda vez apostaram na possibilidade de algo ainda ser possível (ao invés da sensação de salvação da primeira eleição), Spielberg e Tarantino – o primeiro um democrata declarado, o segundo um democrata um pouco mais tímido – escrevem duas narrativas para reviver o melting pot, exaltando a guerra de secessão como a salvação contra um país racista e reacionário que se formaria no sul do país. Aproveitam para escancarar a contradição do Partido Republicano, que passou de anti escravagista para voz conservadora, racista e xenofóbica do país, e tentam reconstruir o sentimento democrático que passou a se tornar a voz demagógica dos democratas após o início do século XX.
Django Livre, dirigido por Tarantino, gerou grandes debates pelo mundo, com setores reivindicando o filme como revolucionário, e outros, como Spike Lee2 , denunciando-o como sensacionalismo da violência escravista e, portanto, racista.
Tarantino escolhe dois negros para não andarem de cabeça baixa: um é Stephen, que dirige a casa grande junto com Calvin Candie; o outro, Django, que apesar de ser contra a escravidão, assume discursos profundamente racistas para conseguir libertar sua esposa, esta um personagem totalmente passivo aos rumos que os homens dão a sua vida. Será que para Tarantino só é possível que um negro seja sujeito por dentro de um sistema opressor se gradualmente passar a se tornar um corrompido? Segundo as palavras de Django para Dr. Schultz: “aprendi com você que para viver nesse mundo é preciso se sujar” (diz isso no momento em que passa a discursar contra escravos de maneira brutalmente racista.
Django aceita a proposta de seu comprador, um caçador de recompensas interpretado por Christoph Waltz, de levar o mesmo modo de vida, e questiona a proposta contente: “me propõe que eu ganhe para matar homens brancos?”. O que Tarantino e seus comentadores exaltados deixam de dizer é que os homens brancos mortos por Django são os perseguidos pelo mesmo Estado que o escravizou, e a pergunta que devemos fazer aos que vêm Django como herói é a seguinte: se este “másculo justiceiro” vivesse nos dias de hoje, quem seriam os perseguidos pelo Estado que ele assassinaria em troca de dinheiro para libertar sua esposa? As fotos e os dados de composição racial das prisões norte americanas não nos deixam mentir, e nos fazem ver claramente que a carroça de Dr Schultz estaria cheia de corpos negros.
Enquanto trotskistas, retomamos a cada discussão sobre a arte o manifesto da FIARI3 , onde Trotsky coloca que a arte deve ser livre, e que exigir que ela apresente um programa operário é retirar sua característica de arte, que representa o sentimento de um período, de uma classe, e que não deve ser proibida ou boicotada pela perspectiva de classe que apresenta. Está, entretanto, em nosso poder, criticar e demonstrar seu caráter de classe, para a partir do debate surgido em torno de cada trabalho artístico, contribuir para a emancipação dos homens. Django e Lincoln vêm à tona para contribuir à tentativa de, pela via do Partido Democrata e suas demagogias, manter a burguesia no poder, afogando o sentimento revolucionário que pode haver em torno de qualquer reivindicação democrática e tornando a figura dos lutadores dessas reivindicações partidários de uma direção também racista e profundos deturpados morais, por vezes racistas para alcançar suas realizações individuais.


1 Os dados sobre o sistema penitenciário de todos os países do globo pode ser visto no site do International Centre for Prison Studies: http://www.prisonstudies.org
2 Conhecido por filmes anti racistas, como “Malcom X” e “Faça a Coisa Certa”
3 O manifesto “Por uma arte revolucionária e independente” foi escrito em 1938 por Trotsky e André Breton e discorre sobre a reação stalinista sobre a URSS e o papel que esta cumpriu para aprisionar a arte. Essa discussão também é central no livro “Literatura e Revolução”, de Trotsky.




 
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