por Thyago Marão Villela
Um comentário inicial
No campo da história da arte, a teoria formalista (que
possui como cânones Roger Fry [1866-1934] e Clement Greenberg
[1909-1994], dentre outros) fundou uma mitologia própria acerca da
produção artística moderna. Atualmente, difundida amplamente nos
cursos de arte, as bases (partilhadas pela grande parte dos autores
formalistas) desta teoria resumem-se nos pontos: 1) A produção
artística moderna inicia-se com Edouard Manet (1832-1883), e suas
premissas são radicalizadas por Paul Cézanne (1839-1906); 2) A arte
moderna é desvinculada de uma preocupação histórica, ou seja, é
não-referencial; 3) A arte moderna preocupa-se apenas com a
investigação do material artístico; e 4) a história da arte é a
história das referências e das influências de um artista em
relação a outro, em termos formais. Desta maneira, a história
narrada pela crítica formalista reduz-se a uma concepção histórica
fetichizada, na qual se enfileiram grandes nomes da pintura (ou
qualquer outro suporte) e se deduzem suas influências estéticas.
Esta operação teórica é análoga à operação da economia
burguesa, para a qual dinheiro produz autonomamente dinheiro, de
forma alheia ao processo produtivo e de produção de mais-valia
(neste caso, entretanto, signos produzem autonomamente signos,
desvinculados do processo histórico concreto).
Em linhas gerais, para os formalistas, a obra de Cézanne
representa uma pedra de toque do projeto de abandono do referencial
(do objeto) artístico. Chegou-se a escrever que pouco importava se
Cézanne pintou uma caveira, maçãs, ou pessoas: importa, sobretudo,
o uso do material e a experimentação que Cézanne empreendeu, sem a
preocupação de atribuir-lhe conteúdo.
A crítica de esquerda, por outro lado, incorreu por
vezes no erro oposto: identificar, na obra de Cézanne, os sintomas
da decadência burguesa e a perda da capacidade de representação da
totalidade histórica nas obras (desta maneira, as inúmeras
naturezas-mortas de Cézanne expressariam apenas maçãs, cestas e
vasos, em detrimento dos grandes conteúdos históricos e sociais que
deixaram de ser retratados). Refiro-me, neste ponto, a Gyorgy Lukács,
o qual chega a comparar, grotescamente, a obra de Ticiano (1490-
1576) com a de Cézanne, para desmerecer a do último. Neste caso, o
erro consiste em não procurar entender como Cézanne elaborou uma
nova linguagem (fundamentada no fragmento) em resposta ao processo
histórico que experienciou.
Pretendo, neste artigo, oferecer uma abordagem marxista
distinta (ancorado nas críticas de T. J. Clark, Richard Schiff e
Giulio Carlo Argan) - analisando os procedimentos pictóricos
utilizados por Paul Cézanne na última versão de sua série de
“Jogadores de cartas” (1894-1895), situando a significação
social de tais procedimentos pictóricos no quadro histórico da
Belle Époque francesa.
Os jogadores de cartas de Cézanne
Observemos, por um instante, a obra a que me referi:
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| Paul Cézanne. Les Joueurs de cartes. Quinta versão: 1894-95, óleo sobre tela, 47.5 × 57 cm. Musée | d'Orsay, Paris. |
Les joueurs de cartes, óleo
sobre tela pintado entre 1894 e 1895, foi a última das cinco telas
produzidas por Paul Cézanne acerca do tema de camponeses jogando
cartas, sendo também precedida por uma série de rascunhos e
retratos realizados pelo pintor que abordaram diretamente alguns dos
elementos que constituem o quadro referido (como a figura do homem
com um cachimbo na boca, por exemplo). Cabe apontar que Cézanne
retratou camponeses reais que viviam em Aix-en-Provence. A obra
insere-se no contexto da Terceira República Francesa, marcada (após
1890) pelo incremento do setor industrial, aumento vertiginoso do
capital industrial e financeiro, desmantelamento da agricultura
familiar e conseqüente êxodo rural. Corresponde a este período
histórico, denominado de forma reacionária como o período da Belle
Époque parisiense, a conformação de uma
cultura cosmopolita francesa, fundamentada nas reformas urbanas e na
formulação, por parte da burguesia parisiense, de uma ideologia
hedonista, alimentada pelos cabarés e pela prática dos jogos de
azar.
À luz da comparação com os quadros de mesmo tema
realizados previamente (entre 1892 e 1894), pode-se sondar as
especificidades da última versão de Os Jogadores
de cartas e especular-se a respeito das
escolhas de Cézanne na figuração desta obra.
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| Primeira versão: 1890-92, óleo sobre tela, 134.6 x 180.3 cm. Barnes Foundation, Merion, Pensilvânia. |
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| Segunda versão: 1890-92, óleo sobre tela, 65.4 x 81.9 cm.Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque. |
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| Terceira versão: 1892-93, óleo sobre tela, 97 × 130 cm. Coleção privada. |
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| Quarta versão: 1892-94, óleo sobre tela, 60 x 73 cm. Courtauld Institute of Art, Londres. |
Em linhas gerais, é possível notar que, em relação
às duas primeiras versões, na última versão dos Jogadores
de cartas, Cézanne suprimiu os espectadores
da partida e reduziu a dois o número de jogadores. Em paralelo a
esta operação, suprimiu a representação dos objetos que compunham
o quarto (como a cortina, a prateleira e os cachimbos pendurados na
parede – presentes tanto na primeira quanto na segunda versão),
simplificou os detalhes da mesa (que possuía uma gaveta, por
exemplo), reduziu o espaço entre os jogadores e elaborou um
enquadramento em “close”.
Em relação à quarta versão, também é possível
observar este procedimento de simplificação dos objetos
representados (as cartas, por exemplo, encontram-se menos detalhadas
na última versão). A simplificação também se aplicou à redução
do tamanho da tela, sendo a quinta versão notadamente menor que as
precedentes.
Por fim, em relação à primeira, segunda e quarta
versão, a quinta versão apresenta uma paleta de cores mais escuras.
Podemos especular que estas escolhas pictóricas, em
relação à quinta versão, é a de que o tratamento dado por
Cézanne (enquadramento em “close”, representação de poucos
objetos e ambiente de luz tênue) procurou sugerir um espaço de
intimidade e conforto.
Foquemos na quinta versão, objeto do artigo.
Algumas observações iniciais:
- Tal qual a terceira e a quarta versões, a quinta versão de Os jogadores de cartas, possui como eixo o reflexo da garrafa situada sobre a mesa – reflexo que provoca uma ligeira assimetria na composição da cena. A partir do reflexo da garrafa, estabelecesse-se no quadro uma estrutura “espelhada”, na qual o jogador da esquerda parece refletir o jogador da direita (e vice-versa). A partir da angulação dos braços dos jogadores e da direção de seus olhares, nossa atenção ( a atenção do público) volta-se primeiramente para o centro da mesa, local aonde se desenrola o jogo.
- Os corpos das duas personagens são geometrizados e desproporcionais (as cabeças são menores do que os corpos, por exemplo). Não existe expressão psicológica na face dos jogadores, sendo as oposições entre ambos estabelecidos pelo trabalho das formas geométricas opostas, como os chapéus (cilíndrico e de abas para baixo, no jogador da esquerda; e um chapéu mais baixo [achatado] e de abas para cima no jogador da direita) e o formato dos corpos (cilíndrico no jogador da esquerda e arredondado no da direita)
O jogador de cartas de Ensor
Aqui também a comparação com outra obra do mesmo
período histórico pode lançar luz sobre o tratamento distinto que
Cézanne deu ao tema do jogo de cartas. Vou tomar como imagem para
esta comparação, a gravura Les jouers,
produzida em 1895, por James Ensor, um artista belga contemporâneo a
Cézanne:
| James Ensor, Les joueurs (1895) |
A gravura também trabalha com a representação do
jogo; neste caso, entretanto, Ensor representa um jogo de cartas em
uma espécie de cassino, ao que parece.
Se, na gravura, o ambiente do jogo encontra-se saturado
pelo público e assume ares de diversão (diversão esta combinada a
um ambiente de dispersão, tensão e também desolamento, no caso do
jogador central), na pintura de Cézanne o jogo estabelecesse-se de
modo “privado”, como expressão da relação pessoal entre dois
jogadores apenas, os quais mantêm um ar sério e compenetrado,
traduzindo o empenho e moralidade que realizam no trabalho para este
jogo de cartas.
Se os traços psicológicos das personagens na gravura
encontram-se bastante acentuados, no quadro de Cézanne a
indeterminação dos traços psicológicos aparenta reforçar a
sobriedade e seriedade com a qual as personagens se entregam ao jogo
– os olhares dos dois camponeses, na obra de Cézanne, encontram-se
fixos nas cartas; na gravura, por outro lado, nenhum olhar em direção
às cartas está presente, e tampouco os olhares entre as personagens
se cruzam.
Outro traço distintivo significativo é o de que, se os
burgueses representados por Ensor estabelecem o jogo a partir de um
esquema de apostas (a presença das moedas na mesa é um dos pontos
de destaque da gravura, ao que parece), os camponeses de Cézanne não
jogam por dinheiro.
Institui-se, desta maneira, uma ética do jogo (e do
trabalho) distinta entre a gravura de Ensor e a pintura de Cézanne,
manifestadas mediante as diferentes classes sociais retratadas.
A fatura de Cézanne
Observemos aqui alguns detalhes referentes à pintura de
Cézanne, a partir dos quais, é possível tecer algumas
considerações sobre a fatura da obra:
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| Detalhe 1 |
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| Detalhe 2 |
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| Detalhe 3 |
Em primeiro lugar, nota-se que a organização do tecido
pictórico é descontínua, apresentando blocos de pinceladas com
vetores distintos de direção. Pode-se observar também que Cézanne
opera mudanças bruscas de cor, sem a preocupação de efetuar uma
gradação entre um matiz e outro. Desta maneira, coexistem no mesmo
casaco matizes ocres, verde-amarelados, verde-azulados, violetas,
tons de terra, azuis de diversas gradações, etc; sem que exista uma
modulação de um tom a outro, mas sim um corte abrupto entre uma cor
e outra, configurando cada bloco cromático como um fragmento.
No “Detalhe 3” (na parte central da imagem) e no
“Detalhe 2” (na parte superior esquerda) é possível vislumbrar
o tecido da tela, elemento que reforça a noção de uma fragmentação
(e também explicitação) do processo de produção da obra. Cézanne
instala, a partir desta economia pictórica, o domínio da arte
processual.
A explicitação do processo produtivo, neste sentido,
constrói um senso distinto de realismo
artístico – fundado no caráter
não-ilusionista que a ênfase na prática e no trabalho
possibilitam. A ênfase da economia pictórica de Cézanne reside no
abandono da hegemonia da composição (ou seja, da pintura
fundamentada em uma estrutura pré-determinada), em prol da
explicitação do processo de produção da obra e do tratamento dos
materiais. Nikolay Tarabukin (1889-1956), um teórico do
construtivismo russo, identificará neste rompimento com a
composição, o abandono de uma postura subjetiva passiva,
contemplativa; identificando nesta ênfase construtiva uma tomada de
posição materialista, ativa, do agir sobre a matéria.
Da mesma forma, o caráter construtivo do trabalho de
Cézanne alude ao próprio esforço da consciência na apreensão da
realidade. É, segundo Giulio Carlo Argan, “o efetuar-se da
consciência no efetuar-se da realidade” 1.
A interpretação desta obra de Cézanne (como de outras obras do
pintor) remete a este esforço dialético de tradução do movimento
real da matéria para o plano do pensamento: a partir do caráter
dinâmico dos blocos de cor e das distintas direções das
pinceladas, procura-se a formulação de uma unidade na obra.
Conclusões
O trabalho como prática reflexiva é o
leitmotiv de Os jogadores de cartas. Em
primeira instância, pela escolha do tema e pela identificação da
economia pictórica a ele. Nas palavras de T. J. Clark, Os
jogadores de cartas constitui-se como um
“monumento a um modo específico de vida (...) precisamente em seu
momento de desintegração” 2.
Ou seja, a significação social desta obra de Cézanne reside na
escolha do pintor por retratar camponeses e por vinculá-los a um
regime específico e a uma ética específica de trabalho (artesanal,
não-pragmático, não-estranhado), na contracorrente do processo de
industrialização e de aumento da força de trabalho industrial
francesa.
A contraposição entre o segundo plano da gravura de
Ensor (saturado por uma multidão de burgueses) e o cenário no qual
se desenrola o jogo dos camponeses de Cézanne (saturado da
potencialidade construtiva do trabalho [Detalhe 1]) estabelece dois modos de vida
opostos: o do jogo dinâmico da produção e circulação de
mercadorias (carregados da vulgaridade da burguesia parisiense) e o
do regime sóbrio e enraizado de trabalho (em vias de perecimento na
França de 1890). Em síntese: Cézanne atualiza e ressalta a
contradição imanente à vida capitalista, em seu aspecto mais
nuclear, entre valor de uso e valor.
Referências
ARGAN, Giulio Carlo. Arte moderna. Trad. Denise Bottmann
e Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
CLARK, T. J. At the courtauld. Disponível em
http://www.lrb.co.uk/v32/n23/tj-clark/at-the-courtauld. 17/11/2012.
_________. “Fenomenalidade e materialidade em
Cézanne”. Modernismos: ensaios sobre política, história e teoria
da arte. Trad. Vera Pereira. São Paulo: Cosac Naify, 2007.
MARTINS, Luiz Renato. “Teoria da arte – teoria da
montagem: poéticas do choque, de Cézanne a Outubro”. In: ALBERA,
François. Eisenstein e o construtivismo russo. Trad. Heloísa Araújo
Ribeiro. São Paulo: Cosac & Naify, 2002, pp. 9-32.
PATTO, Maria Helena Souza. “O elogio do trabalho
(sobre Paul Cézanne)”. Discurso: revista do Departamento de
Filosofia da USP. São Paulo: Discurso editorial, no. 25, 2005,
pp.121-152.
SHIFF, Richard. Cézanne and the end of impressionism: a
study of the theory, technique and critical evaluation of Modern Art.
Chicago: University of Chicago press, 1984.
1
ARGAN, Giulio Carlo. Arte moderna. Trad. Denise Bottmann e
Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992,pp. 111.
2
“They are [A série de Jogadores de cartas], it now seems possible
to see, monuments to a specific way of life (…) – precisely at
its moment of disintegration.” In CLARK, T. J. At
the courtauld. Disponível em
http://www.lrb.co.uk/v32/n23/tj-clark/at-the-courtauld.
17/11/2012.




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