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sábado, 12 de janeiro de 2013

Leon Trotsky: A política do Partido no terreno da arte e da filosofia (1933)


Publicamos abaixo um precioso documento, até então inédito em português, redigido por Leon Trotsky em 1933. Trata-se de uma carta endereçada a militantes da Oposição de Esquerda norte-americanos, na qual Trotsky discute e orienta a elaboração de uma política para a arte e a filosofia. Neste material, fundamental para a discussão e trabalho dos partidos revolucionários que se reivindicam trotskystas, Trotsky  distingue a política dos marxistas revolucionários daquelas aplicadas então na URSS sob a égide do stalinismo (a proibição das tendências artísticas na URSS se dá, vale lembrar, em 1932), e procura desenvolver o método do materialismo dialético para os problemas históricos concretos colocados à ação revolucionária no campo artístico e filosófico. A tradução foi realizada a partir do texto em espanhol, publicado em http://ceipleontrotsky.org/La-politica-del-Partido-en-el-terreno-del-arte-y-la-filosofia , bem como foram mantidas as notas.

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Aleksander Rodchenko, fotomontagem


A política do Partido no terreno da arte e da filosofia[1]
16 de junho de 1933

Em resposta aos camaradas norte-americanos Martin Glee, Harry Ross e M. Martin

Estimados camaradas:
A carta de vocês coloca problemas muito importantes que, em minha opinião, não admitem soluções generalizantes e categóricas, válidas para todas as situações. Nós, como organização, nos apoiamos não apenas em ideias políticas específicas, mas também em determinados métodos filosóficos e científicos. Baseamo-nos no materialismo dialético, cujas conclusões afetam tanto a política e a ciência como a arte. Contudo, nossa atitude ante cada uma destas conclusões é distinta. Em virtude da natureza própria da arte, de nenhuma maneira podemos exercer o mesmo controle rigoroso sobre esta que sobre a política. O Partido está obrigado a permitir uma grande liberdade no terreno da arte, eliminando de forma implacável unicamente aquilo que vá contra as tarefas revolucionárias do proletariado. Por outra parte, o Partido não pode se responsabilizar diretamente pelos distintos pontos de vista de seus militantes acerca da arte, ainda quando lhes proporcione a sua tribuna.  A observância destas duas regras – outorgar a liberdade que necessita a criação individual e a não transmissão da responsabilidade da mesma ao Partido – é ainda mais obrigatória nos casos em que não se tratam de teóricos da arte, mas de artistas, pintores, escritores, etc. Ademais, o Partido tem que distinguir claramente o momento em que a generalização artística se converte em política. Não obstante, sem fazer nenhuma concessão de princípio, o Partido deve, no caso dos artistas, limitar-se a retificar, com firmeza, mas também com tato, todas as conclusões políticas errôneas que surjam de suas posições artísticas. Marx expressou esta ideia em uma frase jocosa sobre Freiligrath [2]: “Os poetas são peças raras” (Die Dichter sind sonderbare Kauze). Lênin enquadrava sua atitude em relação ao teórico e político professional Bogdanov [3] e em relação ao artista Górki segundo critérios distintos, apesar de Górki e Bogdanov terem mantido um estreito vínculo político durante certo tempo. Em relação à Górki, Lênin opinava que sua atividade artística e sua popularidade poderiam trazer à causa revolucionária benefícios muito maiores que os danos que podiam produzir suas declarações e ações errôneas, as que, por outra parte, o Partido podia corrigir com tato e oportunamente.
 Deste ponto de vista, a atividade filosófica se encontra em um nível intermediário entre a arte e a política, mais próxima a esta do que àquela. No terreno da filosofia, o Partido tem uma posição combativa; e não  –  ao menos, em certa medida – em relação à arte. O argumento de que o “dogmatismo” e a “canonização” do materialismo dialético no Partido impedem o livre desenvolvimento do pensamento filosófico e científico não é digno de atenção. Nenhuma fábrica pode produzir se não se baseia em uma doutrina tecnológica definida. Nenhum hospital pode tratar seus pacientes se os médicos não se fundamentam em seus conhecimentos de patologia.  Seria uma loucura permitir que elementos diletantes experimentem arbitrariamente na fábrica ou no hospital, sob o pretexto de se auto intitularem “inovadores”.  Os inovadores devem ganhar o direito de influir sobre a tecnologia e a medicina. O Partido tem que vigiar atentamente os “inovadores” que apenas desenterram velhas receitas críticas, ou cujas investigações, todavia, não tem produzido nenhum resultado concreto. Isto não significa, entretanto, que o Partido possa atuar no terreno da filosofia como se todos os problemas já estivessem resolvidos e que nada pode esperar da evolução do pensamento científico. Não é fácil elaborar uma linha política justa neste terreno, o que só pode ser conseguido com experiência e com uma direção flexível. Ocorre o mesmo com o fogo da artilharia: o objetivo apenas é alcançado depois de vários tiros, alguns dos quais não chegam ao alvo, outros o ultrapassam. É necessário colocar a pergunta: “como refletem as ideias filosóficas de uma pessoa ou de um grupo no terreno da política e da organização?”, que é de grande importância para que o Partido possa formular uma justa política de controle. Assim, Lênin combateu implacavelmente Górki em 1917, quando tudo estava subordinado às necessidades da revolução. Por outra parte, deve-se considerar uma grande vergonha que a burocracia stalinista transforme Barbusse de um romancista a uma figura política de relevo, justamente apesar de que, em política, Barbusse marcha alinhado a Renner, Vandervelde, Monnet e Paul Louis [4]. Temo não ter dado uma resposta satisfatória a todas as interrogações feitas. Mas espero que tenha ficado claro que não posso dá-las por falta de conhecimento concreto da situação e das circunstâncias de tipo pessoal. De toda maneira, talvez estas breves linhas sirvam, ao menos parcialmente, para ajudar-lhes a elaborar uma política correta neste aspecto tão difícil e importante.
Saudações comunistas,
L. Trotsky

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[1] A política do partido no terreno da arte e da filosofia. The Militant, 22 de julho de 1933. Traduzido por Thyago Villela. 
Harry Roskolenko (“Harry Ross”), um dos militantes da Oposição de Esquerda a quem se dirige esta carta, a publicou em seu romance autobiográfico When I was Last on Cherry Street (1965). Sua descrição das circunstâncias é tão prejudicial e pouco digna de confiança como o resto da história sobre suas experiências na Oposição de Esquerda.
[2] Ferdinand Freiligrath (1810-1876): poeta alemão que escreveu poemas líricos e hinos patrióticos de guerra. Realizou traduções de Victor Hugo, Shakespeare, dentre outros.
[3] Alexander A. Bogdanov (1873-1928): ingressou no Partido Bolchevique depois do Segundo Congresso, em 1903. Em 1908 formou uma tendência “boicotista”, que defendia que o partido deveria trabalhar exclusivamente através de organizações ilegais no período de reação. Foi expulso do partido em 1909. Elaborou um sistema filosófico, o empiriomonismo, variante da filosofia idealista subjetiva de Mach, que Lênin criticou em Materialismo e Empiriocriticismo. Depois da revolução de outubro fundou e dirigiu o Proletkult, escola de artistas que procuraram criar uma cultura proletária (Trotsky polemizou com esta escola em Literatura e Revolução [1924]. A partir de 1921, dedicou-se a trabalhos científicos e médicos. Máximo Górki (1868-1936): escritor russo, simpatizante dos bolcheviques antes d edepois de 1905. Foi inimigo da revolução de outubro de 1917, mas logo apoiou o governo, em 1921, quando abandonou o país, aparentemente por razões de saúde. Voltou em 1932 e apoio Stálin.
[4] Georges Monnet (1898): ministro da agricultura em dois gabinetes de León Blum (1936-1937 e março-abril de 1938). Paul Louis (1872-1948): periodista francês e autor de vários livros sobre história do movimento operário. Foi membro de um pequeno grupo centrista, o Partido de Unidade Proletária.

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