Publicamos abaixo um precioso documento, até então inédito em português, redigido por Leon Trotsky em 1933. Trata-se de uma carta endereçada a militantes da Oposição de Esquerda norte-americanos, na qual Trotsky discute e orienta a elaboração de uma política para a arte e a filosofia. Neste material, fundamental para a discussão e trabalho dos partidos revolucionários que se reivindicam trotskystas, Trotsky distingue a política dos marxistas revolucionários daquelas aplicadas então na URSS sob a égide do stalinismo (a proibição das tendências artísticas na URSS se dá, vale lembrar, em 1932), e procura desenvolver o método do materialismo dialético para os problemas históricos concretos colocados à ação revolucionária no campo artístico e filosófico. A tradução foi realizada a partir do texto em espanhol, publicado em http://ceipleontrotsky.org/La-politica-del-Partido-en-el-terreno-del-arte-y-la-filosofia , bem como foram mantidas as notas.
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| Aleksander Rodchenko, fotomontagem |
A política do Partido no terreno da arte e da filosofia[1]
16 de junho de 1933
Em resposta aos camaradas norte-americanos Martin Glee,
Harry Ross e M. Martin
Estimados camaradas:
A carta de vocês coloca problemas muito importantes que, em minha
opinião, não admitem soluções generalizantes e categóricas, válidas para todas
as situações. Nós, como organização, nos apoiamos não apenas em ideias
políticas específicas, mas também em determinados métodos filosóficos e
científicos. Baseamo-nos no materialismo dialético, cujas conclusões afetam
tanto a política e a ciência como a arte. Contudo, nossa atitude ante cada uma
destas conclusões é distinta. Em virtude da natureza própria da arte, de
nenhuma maneira podemos exercer o mesmo controle rigoroso sobre esta que sobre
a política. O Partido está obrigado a permitir uma grande liberdade no terreno
da arte, eliminando de forma implacável unicamente aquilo que vá contra as
tarefas revolucionárias do proletariado. Por outra parte, o Partido não pode se
responsabilizar diretamente pelos distintos pontos de vista de seus militantes
acerca da arte, ainda quando lhes proporcione a sua tribuna. A observância destas duas regras – outorgar a
liberdade que necessita a criação individual e a não transmissão da
responsabilidade da mesma ao Partido – é ainda mais obrigatória nos casos em
que não se tratam de teóricos da arte, mas de artistas, pintores, escritores,
etc. Ademais, o Partido tem que distinguir claramente o momento em que a
generalização artística se converte em política. Não obstante, sem fazer
nenhuma concessão de princípio, o Partido deve, no caso dos artistas,
limitar-se a retificar, com firmeza, mas também com tato, todas as conclusões
políticas errôneas que surjam de suas posições artísticas. Marx expressou esta
ideia em uma frase jocosa sobre Freiligrath [2]: “Os poetas são peças raras” (Die Dichter sind sonderbare Kauze).
Lênin enquadrava sua atitude em relação ao teórico e político professional
Bogdanov [3] e em relação ao artista Górki segundo critérios distintos, apesar
de Górki e Bogdanov terem mantido um estreito vínculo político durante certo
tempo. Em relação à Górki, Lênin opinava que sua atividade artística e sua
popularidade poderiam trazer à causa revolucionária benefícios muito maiores
que os danos que podiam produzir suas declarações e ações errôneas, as que, por
outra parte, o Partido podia corrigir com tato e oportunamente.
Deste ponto de vista,
a atividade filosófica se encontra em um nível intermediário entre a arte e a
política, mais próxima a esta do que àquela. No terreno da filosofia, o Partido
tem uma posição combativa; e não – ao menos, em certa medida – em relação à arte.
O argumento de que o “dogmatismo” e a “canonização” do materialismo dialético no
Partido impedem o livre desenvolvimento do pensamento filosófico e científico
não é digno de atenção. Nenhuma fábrica pode produzir se não se baseia em uma
doutrina tecnológica definida. Nenhum hospital pode tratar seus pacientes se os
médicos não se fundamentam em seus conhecimentos de patologia. Seria uma loucura permitir que elementos
diletantes experimentem arbitrariamente na fábrica ou no hospital, sob o pretexto
de se auto intitularem “inovadores”. Os
inovadores devem ganhar o direito de influir sobre a tecnologia e a medicina. O
Partido tem que vigiar atentamente os “inovadores” que apenas desenterram
velhas receitas críticas, ou cujas investigações, todavia, não tem produzido
nenhum resultado concreto. Isto não significa, entretanto, que o Partido possa
atuar no terreno da filosofia como se todos os problemas já estivessem
resolvidos e que nada pode esperar da evolução do pensamento científico. Não é
fácil elaborar uma linha política justa neste terreno, o que só pode ser
conseguido com experiência e com uma direção flexível. Ocorre o mesmo com o
fogo da artilharia: o objetivo apenas é alcançado depois de vários tiros,
alguns dos quais não chegam ao alvo, outros o ultrapassam. É necessário colocar
a pergunta: “como refletem as ideias filosóficas de uma pessoa ou de um grupo
no terreno da política e da organização?”, que é de grande importância para que
o Partido possa formular uma justa política de controle. Assim, Lênin combateu
implacavelmente Górki em 1917, quando tudo estava subordinado às necessidades
da revolução. Por outra parte, deve-se considerar uma grande vergonha que a
burocracia stalinista transforme Barbusse de um romancista a uma figura
política de relevo, justamente apesar de que, em política, Barbusse marcha
alinhado a Renner, Vandervelde, Monnet e Paul Louis [4]. Temo não ter dado uma
resposta satisfatória a todas as interrogações feitas. Mas espero que tenha
ficado claro que não posso dá-las por falta de conhecimento concreto da
situação e das circunstâncias de tipo pessoal. De toda maneira, talvez estas
breves linhas sirvam, ao menos parcialmente, para ajudar-lhes a elaborar uma
política correta neste aspecto tão difícil e importante.
Saudações comunistas,
L. Trotsky
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[1] A política do
partido no terreno da arte e da filosofia. The Militant, 22 de julho de 1933. Traduzido por Thyago Villela.
Harry Roskolenko (“Harry Ross”), um dos militantes da Oposição de Esquerda a
quem se dirige esta carta, a publicou em seu romance autobiográfico When I was
Last on Cherry Street (1965). Sua descrição das circunstâncias é tão
prejudicial e pouco digna de confiança como o resto da história sobre suas
experiências na Oposição de Esquerda.
[2] Ferdinand Freiligrath (1810-1876): poeta alemão que
escreveu poemas líricos e hinos patrióticos de guerra. Realizou traduções de
Victor Hugo, Shakespeare, dentre outros.
[3] Alexander A. Bogdanov (1873-1928): ingressou no Partido
Bolchevique depois do Segundo Congresso, em 1903. Em 1908 formou uma tendência “boicotista”,
que defendia que o partido deveria trabalhar exclusivamente através de organizações
ilegais no período de reação. Foi expulso do partido em 1909. Elaborou um
sistema filosófico, o empiriomonismo, variante da filosofia idealista subjetiva
de Mach, que Lênin criticou em Materialismo e Empiriocriticismo. Depois da
revolução de outubro fundou e dirigiu o Proletkult, escola de artistas que
procuraram criar uma cultura proletária (Trotsky polemizou com esta escola em
Literatura e Revolução [1924]. A partir de 1921, dedicou-se a trabalhos
científicos e médicos. Máximo Górki (1868-1936): escritor russo, simpatizante
dos bolcheviques antes d edepois de 1905. Foi inimigo da revolução de outubro
de 1917, mas logo apoiou o governo, em 1921, quando abandonou o país, aparentemente
por razões de saúde. Voltou em 1932 e apoio Stálin.
[4] Georges Monnet (1898): ministro da agricultura em dois
gabinetes de León Blum (1936-1937 e março-abril de 1938). Paul Louis
(1872-1948): periodista francês e autor de vários livros sobre história do
movimento operário. Foi membro de um pequeno grupo centrista, o Partido de
Unidade Proletária.

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