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Contra a Corrente – A Companhia Antropofágica está há alguns anos
trabalhando na trilogia “Alegria em Pindorama”, que trata da história do Brasil
dividida em três partes: Colônia, Império e República. Qual a importância de
fazer uma trilogia sobre a história do Brasil?
Thiago Vasconcelos – A companhia
tem dez anos e sempre esteve neste projeto [de resgatar a história do Brasil].
A primeira peça que fizemos chama “Macunaíma no país do Rei da Vela”. Pegamos o
“Macunaíma” do Mario de Andrade e o “Rei da Vela” do Oswald de Andrade e
fizemos uma peça de rua, portanto, já falava do projeto de brasilidade que
tínhamos. Fizemos uma série de outras peças que também diziam respeito a isso.
A importância fundamental é
causar uma tensão com a historiografia oficial brasileira, que tem alguns
pontos muito falhos. O primeiro é que sua perspectiva é a da história da
manutenção do poder: as histórias de imperadores, reis, essas são as relações;
e a gente tenta, na trilogia, trazer essa história do ponto de vista da luta de
classes. Isso já não é pouca coisa; há pouquíssimos espetáculos, peças e
reflexões nesse sentido. Segundo, que foi fundamental fazer uma investigação da
herança colonial, que é muito forte e trás as especificidades que o modelo
capitalista tem no Brasil. Dialogamos às vezes com gente que não é do Brasil, e
existem coisas aqui que as pessoas sequer entendem. É um país muito diferente,
se você pensar da perspectiva da Europa, que passou por uma revolução burguesa,
revolução francesa, e nem sequer esse processo existiu aqui, então a gente tem
mecanismos diferentes.
Durante toda a trilogia
trabalhamos com o confronto entre a colônia, império e a própria república –
não a república recente – mas sempre confrontando politicamente com o presente.
Não há cenas historiográficas que apenas reproduzem aquela realidade; é sempre
numa perspectiva de como isso se traduz e como chegou até o presente. Nossas
peças partem da história, mas têm como pesquisa e assunto os dias de hoje,
porque ficar fazendo uma mera ilustração do que existe, para nós é um problema
muito grande. Isso é a base que fez nos interessarmos [por fazer a trilogia].
Um dos pressupostos que temos é o teatro épico e o teatro dialético, que têm
como ideia partir de fatos históricos; quando se trabalha a partir de fatos
históricos e da realidade, há uma materialidade histórica à qual você está se
referindo e não só conceitos, subjetividades, que poderiam levar a pensar um
teatro apenas fundado em um “ponto de vista”.
Dentro dessa relação [dos fatos
históricos e o teatro épico] podemos pensar o que se mantém e o que se
modifica, e a partir disso [questionar] algo fundamental, um discurso muito
difícil hoje e que “pega” muito no teatro e na estética, que é de que “o mundo
mudou”. Realmente, o mundo mudou, está em movimento; mas, a partir daí vem um
“portanto” que é falso: “portanto, essas categorias [do teatro épico e
dialético], essas coisas que vocês estão usando não servem mais, isso é velho,
isso servia para tal lugar.” Essa ideia é falsa, porque o mundo mudou, mas
muita coisa permaneceu. Por exemplo, a propriedade privada dos meios de
produção permanece. Há mudanças históricas no mundo, mas a manutenção da
propriedade privada dos meios de produção continua valendo, e as análises a
respeito disso têm que ser pensadas.
É claro que a forma como se dá a
propriedade privada dos meios de produção hoje tem variações em relação a como
era há trinta ou cem anos atrás, mas ela não acabou. Portanto, esse discurso do
fim da história, as desconstruções derridarrianas [referentes a Jacques
Derrida], essas bobagens todas partem do pressuposto de que o mundo mudou, e é
como se um teatro que tivesse como base de estudo a teoria do Marx fosse uma
bobagem. Mas esse pressuposto de que o mundo muda e que as teorias precisam dar
conta do movimento real, do objeto real em movimento, já está em Marx; não
existe análise parada num processo de peça épica, dialética. E é impossível
falar de peça épica, dialética e Brecht sem falar em Marx, porque é dali que
isso saiu. Isso é fundamental. Dentro do nosso processo de construção das
peças, esse estudo teórico é muito importante: o estudo da história do Brasil,
a análise de conjuntura, de como isso hoje aparece na sociedade, e que tipo de
poética, que tipo de estética, que tipo de treinamentos, que tipo de técnicas
são necessários para contar essa história dessa maneira.
CaC – Quanto à República, em relação à ditadura militar, o que vocês
estão considerando como mais relevante ser resgatado a partir dessa
perspectiva, de trazer isso pro presente, como fio de continuidade; o que que
sobra pros dias de hoje?
Thiago - Quando você vai discutir
ditadura militar, existe uma opção de simplesmente pegar a historiografia que
existe de maneira idealizada e fazer “Anos Rebeldes”, que é o que a Rede Globo
fez; mostra toda uma “comoção nacional”, a “batalha das pessoas pela liberdade”
e tudo mais. É um recorte, que vem dos fatos também, que tem uma posição
politica muito clara e ideológica por trás.
Outra maneira de fazer isso é se
debruçar sobre a historiografia e ver como foi denominado esse período, e aí
você vai cair em duas coisas logo de cara: “ditatura militar” ou “a revolução
redentora”. A primeira coisa que fizemos foi um estudo: o que é ditadura? Fomos
ao bom e velho Marx, e, claro, isso parte de uma escolha sobre a partir de qual
categoria teórica você irá contextualizar. Marx define ditadura como a
hegemonia de uma classe no controle do Estado e do poder. Logo, chegamos à
conclusão de que tem, como princípio, uma ditadura hoje; mas é muito importante
definir a diferença da ditadura de hoje pra ditadura militar, e também que
diminuí-la chamando-a só de militar é um problema muito grande. Foi uma
ditadura civil e militar, trabalhada nesses dois âmbitos.
Então, se a ditadura é a
hegemonia de uma classe no poder e sobre a outra, temos que olhar esses dois
períodos – já que a gente trabalha nessa perspectiva com o presente – e
entender que há uma continuidade. Existe um período de 64 a 84, onde essa
ditadura era militarizada e as formas necessárias de manutenção dessa ditadura
foram diferentes das que se apresentam hoje. Então combater a ditadura de hoje
é diferente do combate à ditadura militar. Isso é outra coisa que pra gente é
importante, porque há também todo um discurso que afirma “não, a ditadura não
acabou, as coisas continuam acontecendo do mesmo jeito”. E, é claro, a
violência, se a gente fizer uma pesquisa em número, pode ser que ela seja
maior; o número de mortos provavelmente é mais truculento; a tortura continua;
mas é diferente enquanto proposta de Estado.
Quanto à ditadura militar, vamos
trabalhar muito buscando elementos da própria indústria cultural – desde o
esporte, movimentos culturais como o movimento hippie, o movimento do
esquerdismo que se deu no Brasil. É preciso lembrar que a ditadura militar, no
Brasil, é um golpe sobre o populismo. Isso é fundamental entender. Às vezes, a
própria visão idealizada diz que a ditadura militar é um golpe sobre uma
“tentativa comunista”. E não era isso que estava dado. O que estava dado, antes
da ditadura militar, era uma tentativa de golpe ao JK, uma tentativa de golpe
ao Jango. Temos os três J: o Jango, o Jânio e o JK, e é em cima dessas figuras
que é dado esse golpe. E aí percebemos que nem a proposta populista do Jango
“passava”. É criado um mito que deixa a coisa mais nublada quando parece que
tinha alguma coisa muito além dessa proposta moderada; e aí isso leva a
equívocos, em que são criados um monte de “heróis” do período da ditadura. Em
uma cena que estamos fazendo há uma música, não lembro se é do Cazuza, Legião
Urbana, se é do Belchior, acho que é do Cazuza; mas isso é meio espírito do
tempo da ditadura, que é aquela coisa: “Meus inimigos estão no poder”. [“é o
Cazuza, Ideologia”] Isso! Mas essa ideia se repete em algumas músicas na
indústria cultural contra a ditadura, isso se repete em muitos momentos: “Meus
inimigos estão no poder.” Aí de repente eu olhei, e falei “puta, é foda, os
inimigos estão no poder”; e aí os “ídolos” que a ditadura criou, “aqueles” que
a derrubaram é que estão no poder hoje. Aí eu falei “Fodeu, tá uma bosta agora
porque os meus amigos é que tão no
poder.” É, porque se você pensar quem eram os inimigos – não que os inimigos
tenham deixado de estar no poder, mas eles estão agora no poder junto com os
“amigos”. Então, a gente tem uma das figuras de final de ditadura, que aparece
quase como o “Sassá Mutema de São Bernardo”, que é o Lula, “o herói”, ele tá
ali, e ele era um dos do coro do “meus inimigos estão no poder”. Se a gente
pensar hoje numa imagem que ficou forte, a gente tem o que era um “amigo”, que
é o Lula, junto com o Maluf; então a coisa ficou mais cruel, porque agora são
“os meus inimigos” e “os meus amigos” que estão no poder. E, portanto, eles
sabem da onde vem, pra onde vai, e o sistema ficou mais “afinadinho”, sabe?
Toda essa movimentação de esquerda da época da ditadura, essa “inteligência”
que pensou isso, toda ela foi pro poder. Tem o Fernando Henrique no poder, a
Dilma no poder, e isso faz com que essa música precise ser recantada, só que
nessa chave. É a partir disso que estamos trabalhando a ditadura: olhar dessa
perspectiva o que aconteceu nesse momento histórico – é claro, sem tirar em
nenhum momento a perspectiva humana, do grau de crueldade dessa ditadura, que
foi de tortura aberta, o AI-5, e isso não pode ser esquecido.
Diria que é fundamental isso estar
em cena, mostrar como foi um período difícil – e não é que eu esteja
contemporizando ou diminuindo o valor dessas pessoas que lutaram durante o
período da ditadura com muito empenho; foi toda essa luta que derrubou a
ditadura. Mas a gente precisa entender como se dá esse movimento – que é mais
ou menos o que o Chico de Oliveira disse: são os operários aparecendo de
maneira forte de novo, as comunidades de base organizadas pela igreja e os que
sobraram vivos da luta da militância de esquerda no Brasil. Ele diz que essa é
a base, o extrato básico do PT, e mais alguns que lutaram no campo da academia,
intelectuais, essa coisa toda. A questão é como que esses que sabiam que os
inimigos estavam no poder de repente hoje estão no poder, repetindo coisas
estruturais desse mesmo poder. Claro, não estou de maneira nenhuma dizendo que
é a mesma coisa: o exército não age da mesma forma, as formas de dominação se
transformaram bastante, e não acho que seja melhor ter vivido aquelas formas de
dominação porque talvez a gente nem pudesse estar falando isso aqui. Mas,
coisas estruturais que eram criticadas naquele tempo foram abandonadas, um
monte de bandeiras foram abandonadas ou transformadas em bandeiras, digamos
assim, cínicas. A reforma agrária é uma delas: hoje se faz um pouquinho ali, um
pouquinho aqui; é o reformismo do reformismo, é reformar o reformismo: o que já
era uma bandeira da Revolução Francesa, da revolução burguesa, vira o “etapismo
do reformismo do reformismo”. Sei lá, não sei nem explicar, dar nome pra isso.
Investigar esse período é muito
interessante, porque a imagem – e eu estou falando de imagem no sentido de
espetáculo – que temos ao assistir uma minissérie da Globo, é que existiu uma
unidade pra derrubar uma das formas
da ditadura do capital, que é essa forma militarizada de 1964 a 1984. Quando
essa forma cai, parece que caiu a ditadura do capital. E isso é importante ser
dito na transição desse período: caiu a ditadura civil-militar, ou seja, caiu
uma das formas da ditadura do capital, mas não caiu a ditadura do capital, isso
é bem diferente. São pouquíssimos filmes, peças, textos que dão conta de pensar
assim. Porque aí entram conceitos que são muito interessantes quando surgem,
mas se você vai investigar de onde vem o conceito de totalitarismo, vê que é
quase um conceito pra colocar Hitler e Stálin no mesmo lugar. Não que Stálin
tenha algum valor revolucionário, mas dizer que Hitler e Stálin são a mesma
coisa é um problema, porque falseia a história. Então, uma peça que trate da
história da república, da colônia, do império, é sempre uma peça que exige uma
complexidade de milhares de camadas, porque é disso que estamos tratando.
De outro lado a gente pode cair
também, de duas formas: pode-se fazer uma peça que simplesmente levante fatos,
e ela vira quase um “Globo Repórter” sobre a ditadura: apresenta fatos, fatos,
fatos e, no final, com uma música que toque – que faça o papel de um editorial
e de uma leitura política que fique ali e você nem perceba. Outra maneira é
fazer uma história da ditadura usando ferramentas stalinistas do realismo
socialista. Criam-se os tais “heróis necessários” da ditadura, e é como se de
um lado houvesse as pessoas todas que lutavam contra a ditadura; isso tira a complexidade. Porque um primeiro nível da complexidade é
esse: o que caiu foi uma das formas da ditadura do capital, não foi a ditadura
do capital. Mas fazer uma peça e falar exatamente isso, eu não acho que seja o
mais interessante; isso tem que estar pressuposto na hora de criação da cena.
Em um grupo que debateu e chegou a essa conclusão vai criar coisas que
dialoguem e que trabalhem a partir dessa ideia. Estamos trabalhando a ditadura
a partir disso.
Trabalhamos muito com a poética
do surrealismo, do dadaísmo, das vanguardas do início do século, que são coisas
que o realismo socialista condenou e afirmou serem mistificações. Depois, o
pós-modernismo se apropriou de todas essas vanguardas, esvaziando-as
politicamente. O Lukács tem uma concepção interessante de que a obra de arte
parte do factum brutum. Então, partindo
desse fato bruto, que pode ser cotidiano, mas que não serve como categoria de
análise, é possível derivar coisas que ajudem para a análise de um tempo e para
a análise do presente. Por exemplo, a música do Geraldo Vandré [Pra não dizer
que não falei das flores] – e ela é importante porque foi um marco, é
simbólica. Se analisarmos sua letra: “Vem vamos embora, esperar não é saber,
quem sabe faz a hora...” podemos pensar que quem fez isto foi a direita.
Fazemos este processo de inverter algumas coisas, tirá-las de lugar: fizemos
uma cena com essa música em que ela é falada na organização do exército que vai
reprimir uma manifestação, com o capitão dizendo “Sentido, vem vamos embora!” E
os soldados respondem “Vem, vamos embora!”, etc. Pronto, você faz a cena e vê
que é uma ideia”. Aí vai na internet, dá uma “sapeada” e acha um vídeo de um
cara da PM hoje em dia cantando essa música junto com o Geraldo Vandré. Existe
esse vídeo! Então vemos como as coisas são apropriadas.
E, claro, corre um risco ao fazer a crítica assim. Só que
estamos fazendo essa crítica num momento da comissão da verdade, com uma série
de intelectuais debatendo as questões de 64-84. Colocamos mais um elemento
dentro disso, então a gente não vamos pro lugar que é esperado quando se fala da
ditadura. Não é uma questão de diminuir a importância da música do Vandré
naquele momento, mas é usar justamente isso pra entender porque que isto faz
parte de um projeto que, ao chegar em 1984, falamos: “Puta, tiramos o canhão de
trás da nossa orelha e a baioneta do peito, e alguma coisa continua de muito
ruim”. Aqui no Brasil, especificamente, e no mundo todo também. Tem que dar
conta de falar isso quando falamos do período da ditadura, e de todos os
outros; mas a ditadura está próxima no imaginário, e a disputa simbólica do que
foi a ditadura está muito próxima. Então, queremos trabalhar bastante com
isso. A disputa desse imaginário da
ditadura tá aí na nossa porta.
CaC: Você acha que
para isso é necessário fazer um balanço da esquerda?
Sim, com certeza. Um balanço da
“sopa de letrinha” da esquerda. Estamos começando a estudar, mas tem pouca
coisa sobre isso. Para entender o que aconteceu é necessário pegar o material
de análise das várias correntes de esquerda e fazer um balanço. Porque há um
monte de gente indo pra luta armada; no mesmo período um monte de gente indo
fazer trabalho de base na fábrica, outro monte indo fazer trabalho de base
junto com a Igreja Católica; é preciso entender como isso se deu e como se
desdobrou. Porque algumas dessas figuras, que eram de grande expressão na luta
contra a ditadura, ainda estão por aí, e a maioria delas está no poder hoje. O
Serra, por exemplo, que era presidente da UNE (ele que salvou o arquivo do
CPC).
Então, há uma série dessas
pessoas que estavam ali, e que naquele momento estavam combatendo essa forma da ditadura do capital. Acho
que o ponto chave é: entender quem estava combatendo essa forma da ditadura do capital – e isso, é claro, que todo mundo
deveria estar fazendo, a não ser os fascistas mesmo, que achavam que aquilo
tinha algum valor – e quem estava combatendo essa forma e também pensando no combate a todas as formas da ditadura do
capital. Fazendo uma análise nada complexa, no mínimo essas duas possibilidades
estavam presentes. Isso está em qualquer livro. Mas seria legal fazer um estudo
mais aprofundado disso, porque você tinha também aquelas pessoas que estavam
combatendo só em nome dos direitos humanos e de uma série de coisas, e que nem
sequer estavam pensando que aquela ditadura tivesse alguma coisa a ver com a
estrutura capitalista. O interessante é mapear tudo isso, que de alguma forma
vai virar um grande “carnaval”. São essas figuras que tem que estar presentes.
CaC: Você comenta sobre estas forças que estavam presentes nesse
período, e, no âmbito da indústria cultural, por exemplo, o Gilberto Gil, que
foi pro Ministério da Cultura; e hoje o Caetano Veloso, que aparece na
propaganda do [candidato a prefeito pelo PSOL no Rio] Marcelo Freixo, são
figuras que também eram ícones da época. Você faz algum balanço, tanto da
indústria cultural mais característica, tipo Jovem Guarda, etc., mas também da
série de conflitos artísticos e políticos que estavam em jogo naquele período?
Tem algum balanço nesse sentido, como vocês pensam a tropicália a partir desse
contexto? Que reflexo e que influência que têm pra vocês hoje?
Thiago: Uma das bases da
Tropicália é a antropofagia. E eu falo de antropofagia para além do
entendimento do Oswald de Andrade. A gente poderia colocar até o modernismo
como parte de uma coisa maior, e nesse projeto moderno, modernista, de
pensamento – a gente passa pelo Maiakóvski, Meyerhold, Oswald de Andrade, Mario
de Andrade, Brecht, etc. E dentro disso que a tropicália pegou, de alguma forma
ela dilui politicamente, e faz parte desse coro que combatia essa forma da ditadura do capital.
Naquele momento histórico, esse limite que eles apresentavam de combate àquela
forma e também a algumas moralidades burguesas e recalques sexuais – isso tem
muito a ver com a tropicália e com o movimento deles – isso tudo tinha um
sentido. Era também uma coisa contra a qual se lutar. O problema da tropicália
é esse limite, porque ela viu a coisa
até um certo pedaço. E logo ela que tinha um discurso de complexidade, de
absorção de todas as teorias, de todos os ismos,
de todas as formas e de todos os conteúdos. A Tropicália é muito careta e muito
limitada, porque ela não dá conta de olhar para além desse período que ela
estava vivendo. Esse pedaço que combateu, acertou ao fazer isso. Mas é
diferente de algumas pessoas do mesmo tempo que deram um passo a mais. Uma
dessas pessoas é o Glauber Rocha, que conseguiu ir um pouco além de alguns
desses limites.
É claro que o combate à
moralidade burguesa é fundamental no cotidiano, porque o processo de hegemonia
e ideologia atravessa todas as relações. Desde as relações mais simples, de
como lavar uma louça, até a administração do Estado e as suas politicas
exteriores. E tem uma outra coisa: o combate da tropicália à moralidade se dá
no momento mais propício a isso – é muito diferente do momento em que o Oswald
de Andrade propõe a Antropofagia, em 1928, e o movimento modernista propõe a
semana de arte moderna em 1922. O horizonte de expectativa do que era agressivo
à moralidade burguesa era distinto. Realmente, falar, no Rei da Vela, das
relações das famílias burguesas, das relações dos barões do café, das relações
coloniais, isso estava muito além dos anos 30. Era um choque tão grande que não
foi montado: nem o Rei da Vela, nem o Homem Cavalo. Quando o Rei da Vela é
montado em 1968, o mundo já esperava o Rei da Vela. Aparece como sucesso
garantido, tanto é que sai no jornal Estado de São Paulo como anúncio. Ele já
era “o que ia acontecer”, era “surfar na crista da onda”. Deveria ter sido
feito, eu defendo essa peça e esta montagem, só que não é aquilo queela consagrou como história do que teria sido. Em
1933 seria uma coisa, em 1968 cumpriu outro papel, bem diferente. A tropicália
se apropria dessas experiências – e o Rei da Vela é só uma delas – coloca
noutro lugar e faz como se fossem as bandeiras máximas daquele tempo. Segundo o
próprio discurso dos tropicalistas e dos pós-modernos, o mundo mudou, então
precisava de coisas a mais.
A tropicália soube jogar, e sabe
jogar até hoje – porque ela não acabou, na verdade é quase a vencedora desse
“round histórico”. Ela chega depois ao poder, literalmente, com o Gilberto Gil
como ministro da Cultura. Toda essa passagem do populismo, ditadura, abertura,
democracia, conjuga duas coisas que não podemos perder de vista: junta as
práticas e o pragmatismo de gestão empresarial mais reacionário possível a um
discurso ultra-libertário. Então é “muito bonito”. Se você não observar a
prática da coisa, que é o que determina, é levado por esse discurso inebriante
e libertário. E há nessas figuras históricas uma impossibilidade de debate,
porque elas são heróis construídos. Esse é o problema de se construir heróis, e
já dizia o Brecht: “pobre do povo que precise de heróis”. Porque aí você vai
discutir com uma pessoa dessa e ela vai falar: “Ah, mas eu vivi tal coisa, hoje
em dia é fácil você falar isso”. E aí a gente entra exatamente em todo o
discurso deles de fim da história, de movimento, de que as coisas mudam, e ele
fica o mais reacionário possível, fica o discurso do cara de 30: “Olha, meu
filho, você agora é jovem, depois vai...”;
eles assumiram esse discurso. Só que eles se assumem como heróis.
E aí eu vou falar de uma coisa
que eu acho que foge do assunto, mas é a concretização do assunto: há todo um
discurso aparente de combate durante um período, que é a crítica do consumismo,
da mercadoria, as críticas que permeiam a borda desse “vampiro gigante” que é o
capital. E aí, na gestão Gil, por exemplo, não posso esquecer isso, que
aconteceu durante toda a gestão Lula e está acontecendo sob a gestão Dilma, que
é a manutenção de uma lei de renúncia fiscal. E o que é uma lei de renúncia
fiscal? É dinheiro público administrado pelo capital privado. Isso é
inaceitável dentro até de uma proposta socialdemocrata. Portanto, nem sequer
uma proposta socialdemocrata a gente tem; isso é uma proposta liberal, modelo
Thatcher, dama de ferro. Os caras tinham um discurso anti-Thatcher como modelo.
Aí você fala: “Qual era o problema? Ah, já entendi, a crítica deles era do
cabelo dela com laquê.” E era isso. E se investigar nas músicas vai ver mesmo
que é do laquê que estavam falando, não era metáfora. Porque quando o cara
chega ao poder, reforça e mantém a mesma política liberal da Margareth
Thatcher, que é a renúncia fiscal.
Estou falando tudo isso justamente
pra correr o risco de ser criticado por “dinossaurices” e falta de
complexidade, e já sei que uma das coisas que podem dizer é o seguinte: “Ah
não, mas você tem que entender que isso é o que era possível”. E aí há
pressupostos em questão: se você faz política com o possível, imediato, do seu
tempo, então a gente pensa politicamente de formas bem diferentes. Não estamos
pensando no que você acha que é possível lá no seu cargo. Dentro dessa
estrutura de estado, desse sistema, realmente algumas mudanças são impossíveis
sem um processo revolucionário. Sobre isso não há discussão. Mas a
impossibilidade de um processo revolucionário é impossível de ser defendida,
porque a história diz o contrário. Por mais que a historiografia queira
escamotear e esconder os processos revolucionários que acontecem desde que o
homem cercou lá o primeiro pedacinho de terra, ela não consegue. É impossível
que ela esconda isso. E que culpa a gente tem se a história é marxista?
E aí quando você faz uma peça de
teatro, tem que pensar: se eu falar que nada mudou é uma imbecilidade completa.
Quando eu vou numa peça que defende que nada mudou, eu saio de lá puto, porque
é uma peça que tende a cair em dogmatismos, que existem na esquerda. Muita
gente na esquerda faz uma crítica de que nada mudou. Como nada mudou? Não
existe nada que não mude. Isso é fora do campo da esquerda, isso é da direita.
E outra coisa que deve ser colocada como perspectiva da esquerda é que quem
defende que o mundo seja uma eterna luta de classes é a direita. Nós defendemos
o fim de uma sociedade que tenha luta classes. Portanto, nós temos que
participar dessa luta de classes para acabar com ela. Quem defende que o humano
nasceu pra ficar eternamente em luta uns contra os outros, e disputando, e se
matando, e se explorando, isso é quem falou que a história acabou. Então, se
você defende isso, estamos de lados opostos. Porque você é violento, quer ver o
mundo se estourar em morte, em genocídio, em permanência disso que está aí.
Eu não entendo como pode ser que
as estéticas e as ideologias estéticas que ignoram a possibilidade
revolucionária tenham ganhado no discurso. Não entendo como esses caras
conseguem falar que são os contemporâneos e os modernos. Porque quando eles
tiram essa perspectiva revolucionária estão afirmando que nós vamos viver a
vida inteira, a humanidade vai viver até o fim da sua história (que já acabou)
sob a chibata, humilhação, tortura; enquanto os revolucionários são os caras do
mal, violentos, inimigos da sociedade.

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